Arquivos mensais: Junho 2011

Nos confins do mérito

Por uma questão de honestidade intelectual, apesar de poder parecer pouco sincero face ao que tenho escrito sobre esta matéria nos últimos tempos, faço um esforço para relevar aspectos que considero positivos no programa do PSD, nas declarações do 1º ministro e, quando as houver, nas declarações do ministro da educação.

Já expressei um juízo global sobre o programa do PSD para a educação. Disse e reafirmo que o programa do PSD para a educação é uma continuidade das políticas do PS em tudo o que tem que ver com a(s): racionalização da rede de oferta de ensino (mega-agrupamentos); promoção de uma cultura de avaliação a todos os níveis do sistema de ensino (buscando a inspiração em MLRodrigues), promessa de estabilidade e dignificação da profissão docente; principais medidas que (atentem à pompa) visam promover a cultura de transparência orientada para resultados (o anterior executivo estabeleceu as metas nacionais do sistema educativo a atingir até 2015, agora são estabelecidas metas para a redução do abandono escolar); a reestruturação do Programa Novas Oportunidades.

Para quem desejava a implosão do ME (claro que todos percebemos o sentido figurado da afirmação), o aumento dos exames nacionais e a prova de avaliação de conhecimentos de acesso à profissão são minudências que pouco ou nada beliscam o monstro que foi desenhado nos discursos de pré-campanha eleitoral.

Como iremos ter muito tempo para esmiuçar cada uma dessas medidas, quando virem a luz do dia, aproveito para me regozijar com uma afirmação de Pedro Passos Coelho logo depois de se estender ao comprido com a questão da não suspensão da ADD.

Diz PPCoelho acerca da ADD que «saberemos distinguir entre o que tem em vista a progressão na carreira e aquilo que é a avaliação e melhoria de desempenho nas escolas».

Desligar a ADD da progressão da carreira é a chave de qualquer modelo de avaliação de desempenho cujo objectivo principal vise o desenvolvimento profissional dos professores. Se PPCoelho está ciente do que disse, não sei. Sei que ao dizê-lo PPCoelho tocou a primeira nota do lamiré do mérito 😉

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Ainda há boas notícias…

E SANTO ONOFRE? (11) DIRECTOR DEMITIU-SE

Por falar em rigor…

Por razões óbvias estou cada vez mais susceptível a tudo o que sugere rigor. No trabalho e no lazer, na escola e em casa. Sou cada vez mais rigoroso comigo próprio e com os outros. De tão rigoroso que pretendo ser acabo por ficar mais inconveniente do que é normal. É bem provável que este post não existisse se não estivesse tão sensível ao rigor, como se verá de seguida.

Depois do jantar acompanhei o “Linha da Frente”, da RTP1. No respectivo site, o programa é apresentado como “Um espaço de compromisso com o inconformismo, com a reportagem, com a notícia, com a verdade” e que “vai decifrar a realidade, com o rigor e a seriedade que a RTP já habituou os seus telespectadores.”

Corroboro sem dificuldade que se trata de uma programa que vale a pena seguir com atenção. Hoje, o desafio passava por saber quais os riscos que os nossos (seus) filhos correm e como salvá-los da mais grave epidemia do século XXI. Era para mim inimaginável, num programa deste tipo, que uma das variáveis fundamentais da equação da obesidade desmerecesse a devida atenção da equipa de informação. Refiro-me à actividade física e, em particular, ao contributo da Educação Física e do Desporto Escolar no ataque ao flagelo. Zero! Nem uma palavra, nem uma só referência. Vi apenas a alusão ao mercado do exercício físico, aos ginásios e às academias. Num tempo em que se pedem contas por tudo e por nada, ninguém se preocupa em pedir contas ao Estado pela sua demissão nesta matéria a não ser pelo IVA que é cobrado nas “clínicas do exercício”.

Percebem agora porque considero inócua a bazófia do rigor quando não existe uma prática congruente?

De que modo o “eduquês” ampara o “anti-eduquês” Nuno Crato?

Quem lê e acompanha a blogosfera docente notou o efeito Nuno Crato sobre as expectativas dos professores. Ao eleger a purificação do ME como alvo da sua acção retórica em período pré-eleitoral, rapidamente granjeou apoios dos professores ostracizados pelas políticas dos anteriores governos. Esse capital de confiança não foi sustentado pelas ideias que defendia de forma avulsa, digo eu, ou sobre o modo como a retórica do rigor se materializava na acção política. A partilha efémera do alvo de contestação foi o denominador comum entre Nuno Crato e um conjunto alargado de professores, entre os quais não me incluo como têm notado alguns comentadores. Mas da divinização do investigador à demonização do político foi um passo muito curto e bastou apenas saber que o programa de governo omitia a trucidação do modelo de ADD socratino. Atentem como as medidas que se preconizam no programa de governo foram subalternizadas face ao modo como Nuno Crato vai resolver o problema da ADD. Reformar significa precisamente o quê?

Ora, o nó górdio da credibilidade de Nuno Crato decide-se no sentido que atribuir ao vocábulo “Reforma”. Se reformar significa destruir o anterior modelo e começar de novo, Nuno Crato retoma o capital de confiança perdido; se reformar significa recompor o anterior modelo, Nuno Crato entrará no quadro de mérito da equipa socratina que tão boas memórias nos deixou.

O paradoxo é que só o modo eduquês de resolver os problemas poderá salvar Nuno Crato do descrédito. Se não fosse trágico, pelo desgaste que provoca, até daria para rir.

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PS (salvo-seja): Este eduquês a que me refiro deve ser entendido no sentido que lhe é atribuído por Licínio Lima: um discurso educacional de senso comum, de estilo palavroso e vazio. A Reforma da ADD do PSD ajusta-se perfeitamente a este conceito.

Programa do PSD – Afinal, implodiu a bazófia!

Como era previsível, a montanha pariu um rato: O cidadão, o investigador, o pensador Crato metamorfoseou-se com o recente título ministerial. A retórica de ruptura com o status quo instalado no poder foi terraplanada pela máquina partidária e pela crua realidade.

O programa do governo PSD para a educação básica e secundária poderia ser o programa do governo PS. Aliás, o programa do PSD é um decalque das políticas socratinas para a educação. A transferência de competências para as autarquias, que já estava a ser ensaiada com alguns municípios amigáveis do PS, prossegue com um “novo” modelo de Contratualização com a Associação Nacional dos Municípios Portugueses, os mega agrupamentos serão verticais (atentem a novidade), e depois será tudo reavaliado com muito mais rigor, claro está, com mais exames e outros quejandos. Tudo isto será realizado tendo subjacente o desenvolvimento e consolidação de uma cultura de avaliação a todos os níveis do sistema de ensino. E fica sempre bem dizer que tudo se passa numa cultura de avaliação, coisa que não acontecia antes de Nuno Crato chegar ao governo, como se sabe.

A ADD será reformada, como aliás prometiam as ex-ministras da educação. Sobre a falácia da ADD que está no terreno não se percebe se servirá para alguma coisa. Sabemos que o modelo de ADD proposto pelo CDS passará a ser a referência para qualquer coisa que há-de vir.

Quanto à implosão do ME e das suas inócuas e redundantes estruturas centrais e regionais, nada! Apenas a promessa de que agora há que “Orientar a organização do Ministério da Educação para os resultados” apostando no MÉRITO e nas carreiras dos seus quadros.

Percebe-se agora o silêncio de Nuno Crato desde que tomou posse. É um silêncio acanhado que denota murchidão. E percebe-se porquê: ao invés de implodir o ME, implodiu a bazófia do conferencista incauto.

Comentar para quê?

Ministro da Educação escusa-se a comentar para já avaliação dos professores

«Nós precisamos de avaliação», sublinhou contudo Nuno Crato, em declarações aos jornalistas no final da tomada de posse dos secretários de Estado, que decorreu hoje no Palácio de Belém.

«Nós precisamos de avaliação»? Onde é que eu já ouvi isto?

Não é assunto…

Haverá um tempo em que serão aclaradas as lógicas que determinam as nomeações políticas para as secretarias de Estado. Como nunca ouvi nenhum ministro reconhecer a ausência do critério de competência para a nomeação de cargos políticos, por mais miserável que fosse o desempenho do titular do cargo, não irei perder tempo com os ajudantes de campo de Nuno Crato.

Assunto que importa mesmo aprofundar chega amanhã à Assembleia da República.