Arquivos mensais: Setembro 2005

Não contem comigo!

“Vamos passar a exigir as 35 horas semanais… Assim a nossa sociedade não pode acusar os professores de trabalharem pouco…”Pois eles até se queixam! Querem trabalhar 35 horas… só pode ser porque REALMENTE trabalham mais”. Os pais deverão passar a perceber melhor o que se passa…
Há muitos que realmente não se preocupam com o trabalho que fazem e quanto menos melhor. Mas desses há em todas as profissões!
O que quero é trabalhar 35 horas e não me preocupar mais com a escola. […]”

Peço desculpa aos meus caríssimos colegas que subscrevem esta missiva mas eu não contribuo para este peditório. Embora compreenda a revolta dos docentes [até porque sinto na pele as vergastadas públicas] pela inaceitável afronta à dignidade profissional não penso que o passo em frente para o abismo profissional venha a resolver o problema central que é, a meu ver, a falência do modelo educativo societal e, em particular, o fracasso dos modelos escolares. Não contribuo para esse peditório mesmo que o actual executivo me convide a dar esse passo.
Não estou disponível para o reconhecimento público da extinção do ofício de ser professor!

Diário de bordo

Circunstâncias:
Os dias correm à minha frente. Na verdade, não tenho memória de um início de ano lectivo calmo, sossegado, rotineiro. Como sempre, o corre-corre reparte-se entre actividades lectivas, encontros com alunos, prestação de esclarecimentos, busca de espaços de aula adequados à tipologia das actividades propostas, contactos entre pares para coordenar actividades conjuntas. Pelo meio, um tempo para a pesquisa de materiais na biblioteca, levantamento de fotocópias na reprografia e uma pausa para um café.

Sensações:
Tenho a clara noção de que me deixei enlear no trabalho intensivo e que pagarei, mais cedo ou mais tarde, o preço desta entrega. O meu desejo é conservar o discernimento de forma a gerir o ritmo de trabalho sem prejuízos para a minha sanidade mental.

Expectativas:
Amanhã reunirei com os encarregados de educação de uma turma de alunos mal orientados. Tenho uma certeza: Encontrarão pela frente um professor satisfeito com a vida que leva e regressarão a casa convencidos de que não estão sós.

Olhares de fora: O “umbiguismo”

As recentes alterações administrativas no tempo de preparação fizeram regressar a discussão da coisa educativa à figura do professor. Esta centralidade surge na continuidade de um conjunto de iniciativas, nomeadamente, os serviços máximos requisitados na época de exames e o concurso de colocação de professores.
Neste curto período de governação tem sido visível a incidência de acções executivas direccionadas para o trabalho docente. Os holofotes da opinião pública foram fixados aí e com a ajuda preciosa da comunicação social foi construído o cenário de uma presumível doença que afecta o sistema educativo: O professor é o cancro da educação e há que lidar com ele com cautela porque existe o risco da cura acabar com o doente. Este é o sentimento profundo do professor. Dirão que existe um problema de auto-conceito e de auto-estima. Será essencialmente um problema de auto-estima. Talvez só assim se justifica o exacerbado egocentrismo que parece ter tomado conta da escola.

Ser professor

Encontrar um lema. É isso mesmo: Recorro a um poema simples do poeta brasileiro João Carlos de Melo Neto citado pelo meu querido professor Jorge Bento no seu texto denso de emoção “Do orgulho e da coragem de ser professor” in Desporto Discurso e Substância, Campo das Letras, Porto.

“Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece a manhã.
Ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele lança
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe um grito que um galo antes lançou
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia ténue,
se vá tecendo, entre todos os galos.”

Estados de espírito

Um exemplo:
Uma colega desabafa, no clímax do braço de ferro entre os professores e o ME, durante a época de exames de Julho:
– Já me lembrei de rumar para um país qualquer e mudar de vida… fiz-me professora com um sonho e agora? De certeza que não me sairia mal a vender papel higiénico… ou outra tralha qualquer. Tenho a certeza que serei sempre uma boa profissional.
– E o que farás a seguir, quando perderes o sonho?
– ???

Observem como este desabafo encerra dois estados de espírito antagónicos: Por um lado, a colega revela um profundo descontentamento com a conjuntura da educação em Portugal, uma visão pessimista da profissionalidade que admite a ruptura, o abandono da profissão.
Por outro lado, percebe-se que o discurso encerra uma enorme confiança nas possibilidades pessoais, uma visão optimista da suas capacidades individuais que lhe permite enfrentar qualquer desafio, inclusivamente, o começar do zero. Emerge a plasticidade do professor constantemente solicitada pela sua prática docente.

Outro exemplo:
Multiplicam-se os sinais de desconforto pela situação vivida nas escolas. Por um lado, sucedem-se os relatos de uma resistência mais ou menos activa às exigências desqualificantes da função docente. O controlo burocrático estupidificante exige que o professor se apresente a um funcionário zeloso e marque a sua presença em cada 45 minutos do tempo de escola. Se este quadro revela um problema não deixa de apontar uma solução: Os conselhos executivos não podem ser mais papistas que o papa e cuidar, através de acções organizativas inteligentes, do ambiente da escola. Na ânsia de cumprir as determinações hierárquicas não podem perder de vista as superiores necessidades dos alunos e da escola. E isso só é possível com a adesão dos professores… Os professores estão pessimistas com os efeitos das mudanças impostas.
Por outro lado, a situação favorece a criação de pequenas comunidades que aproximam a vida profissional e pessoal dos professores, de um modo que apoia o seu crescimento e permite que os seus problemas sejam discutidos. Se observarmos a mudança sob este ponto de vista, há um enorme optimismo.

Quando falamos de pessimismo e optimismo não podemos ignorar o investimento de cada um na profissão. Altas expectativas defraudadas têm os seus custos. É normal que o sentimento dos professores [principalmente dos que investem seriamente na sua profissão] seja de desânimo quando percepcionam um ataque à sua dignidade profissional. É preciso discernir, no meio deste fogo cruzado, quais são os verdadeiros desafios que temos de enfrentar. E não podemos desperdiçar a nossa energia em diálogos surdos. Já todos percebemos que este ME é autista e que por via da sua estratégia de acção política transformou os professores em adversários. Já todos percebemos que, no emaranhado da comunicação social, não podemos confundir uma notícia de um artigo de opinião; há fazedores de opinião que, por variadas razões, abrem caminho às tomadas de decisão políticas adoptando, assertivamente, discursos optimistas ou pessimistas acerca do ensino; que existem muitos órgãos de gestão excessivamente zelosos cuja única preocupação é demonstrar, perante a administração central, a sua qualidade de alunos exemplares.

É preciso avaliar correctamente a situação e reorganizar o sentido profissional! Dizer-se optimista ou pessimista de pouco vale para enfrentar a conjuntura. A distância que separa o pessimismo do optimismo é muito curta. E um sentimento efémero. Mais importante do que revelar o nosso pessimismo ou optimismo, há que reflectirmos, avaliarmos, partilharmos, cooperarmos, desenvolvermos verdadeiras culturas de escola que rejeitem a funcionalização do professor. Que rejeitem a passividade, o acriticismo e a subserviência. E isso não depende dos outros. Depende da forma como nos situamos na profissão.

Ser professor com prazer!

Há escritas que nos mobilizam pelas razões mais variadas, nem sempre passíveis de explicação. Por vezes quero crer que é pela força da argumentação, pelo fulgor da palavra, ou pela riqueza da informação, que me deixo enlear ao monitor e teclado do computador. As razões serão multifacetadas e há cumplicidades que se geram sob outras lógicas, porventura menos racionais, mas com a mesma grandeza. Daí não ter sentido procurar as causas profundas pelas quais nos deixamos prender a um texto ou persistir nas visitas pela blogosfera.

Fiquemo-nos pelas causas mais próximas: Já o percepcionara com a escrita do Manel, Sofia, Gustavo, Miguel e, recentemente, com os textos e comentários da Isabel. Não pretendo desconsiderar todos os outros colegas com quem tenho partilhado ideias, comentários, sentidos da escola e crenças do ensino, uns mais novos e outros mais experientes, alguns do superior, a maioria do não inferior [utilizando uma expressão do meu amigo Miguel]. Todos têm sido marcantes. Mas, estes meus confrades da escola têm sido especiais! O que trespassa das suas escritas é a inquietude perante a adversidade. Mesmo nos momentos em que o esmorecimento parece tomar conta da vontade de cada um emerge, resplandecente, o desejo de mudança. Eu sei que esse desejo de mudança ultrapassa os muros da escola onde trabalham: Ultrapassa as intenções. Estou convicto de que nos seus dialectos não cabe a palavra resignação: Mesmo que ela seja apregoada só pode ser entendida como um grito de revolta, quiçá um sinal de impotência perante a grandeza do desafio, um vómito provocado por um sentimento de injustiça. Independentemente do brilho da escrita de cada um há uma cumplicidade latente que só pode derivar da enorme satisfação de ser professor. E gostar de ser professor é cada vez mais difícil nos tempos que correm. É por estas e por outras [e não faltarão oportunidades de as revelar] que ainda vale a pena andar por cá!

:o(

As coisas não estão fáceis para quem vive a escola. Ao contrário do que se supõe (?) a lógica burocrática tomou de assalto a escola. Bastará percorrer a blogosfera dedicada à coisa educativa [posso incluir os colegas do ES] ou estacionar durante uma manhã ou tarde numa sala de professores para confirmar a depressão colectiva que se instalou [definitivamente?] e corrói o ambiente escolar.
Não fico alheio às conversas e aos desabafos e não sinto indiferença pelas aberrações geradas por um sistema educativo cego, impessoal. Exagero?!
As escolas de faz-de-conta vivem dois mundos distintos: o mundo da representação formal com os seus mapas da distribuição de serviço, a prestação de contas, o controlo, o controlo do controlo, a montra da escola; e o mundo real, das relações pessoais, da epiderme, das sensações e sentimentos.
O que é que separa estes dois mundos? Por que separam estes dois mundos?