A Glorificação das Aparências

Não sei o que acontecerá quando formos todos funcionários aureolados pela organização de aparências que acentua a satisfação dos privilégios. A aparência vai tomando conta até da vida privada das pessoas. Não importa ter uma existência nula, desde que se tenha uma aparência de apropriação dos bens de consumo mais altamente valorizados. Há de facto um novo proletariado preparado para passar por emancipação e conquistas do século. As bestas de carga carregam agora com a verdade corrente que é o humanismo em foco — a caricatura do humano e do seu significado.

Agustina Bessa-Luís, in ‘Dicionário Imperfeito’

O neoconservador Nuno Crato

Nuno Crato desejou fazer “implodir” o MEC. Houve quem conotasse esta pretensão com um impulso neoliberal de emagrecimento do Estado com a consequente transferência de mais autonomia para as escolas situadas.

Puro engano!

Nuno Crato é o arquétipo de um político neoconservador que deseja um Estado forte. E os seus impulsos neoconservadores revelam-se em coisas como:

O controlo sobre o saber legítimo, que a recente revisão curricular reduziu a duas ou três disciplinas putativamente nucleares;

A definição de metas de aprendizagem que não conseguem disfarçar o “policiamento” do trabalho dos professores cada vez mais padronizado e racionalizado, baseado numa profunda falta de confiança da tutela nas competências dos professores;

A proliferação de testes intermédios e de exames nacionais que visa, em última instância, providenciar não só o conteúdo legítimo a ser ensinado como os métodos legítimos (métodos de ensino centrados mais nos resultados e menos nos processos de aprendizagem);

A alteração das regras de organização do ano letivo que prossegue o objetivo de intensificar o trabalho dos professores (diminuindo em 110 minutos o tempo de trabalho individual semanal).

Quais as consequências desta deriva neoconservadora?

O empobrecimento da escola pública e a degradação do estatuto social do professor!

Governo de iniciativa presidencial

imageVou ao cerne da questão e passo ao largo da contextualização, que é redundante face ao atual momento político e social: O país necessita de um governo de iniciativa presidencial (eu sei, eu sei, a credibilidade deste presidente foi chão que deu uvas…) por políticos com estaleca, mas fora do ativo; Deve ser um governo de políticos não carreiristas, altruístas, movidos pelo sentimento de privilégio por servir a nação; Nenhum desses putativos governantes pode julgar a Constituição um obstáculo ou um entrave para decisões políticas justas e solidárias.

Não sei bem como se poderá lá chegar e que deambulações serão necessárias para atingir esse ponto. O que eu sei é que as sondagens não auguram nada de bom!…

G(Cr)ato escondido com rabo de fora

É cada vez mais difícil de encontrar a linha que separa um ministro da educação de um mero sectário de matéria académica.

A jornalista Bárbara Wong chegou tarde, mas ainda bem que chegou lá…

Porque é que este ano o ministro não foi inaugurar/abrir um ano escolar?

Com medo que atirem um ovo?
Com medo que algum professor desempregado se atire para cima do carro?
Com medo dos protestos agendados pela Fenprof?
Não. O ministro não foi a qualquer escola, nem mesmo àquela onde já estava marcada a abertura do ano lectivo, na Benedita, onde estaria com o senhor primeiro-ministro, numa escola com contrato de associação, porque está ocupado. Está em Lisboa, no seu palácio das Laranjeiras (muito mais digno do que a 5 de Outubro) a receber os brilhantes alunos portugueses que participaram nas Olimpíadas internacionais da Matemática. Podia fazer o mesmo enquanto presidente da Sociedade Portuguesa da Matemática.
BW

O “cratês” como ideologia

Há cerca de um ano avancei com uma proposta de definição do cratês. Naquela altura, o cratês era apenas um modismo que se podia caracterizar pela bazófia do rigor e da excelência.

Hoje é possível ir um pouco mais longe. Além de modismo é também uma ideologia, por analogia à definição que Guilherme Valente (um mentor das ideias de Nuno Crato) atribuiu ao famigerado eduquês no seu livro “os anos devastadores do eduquês”.

O cratês pode significar também um conjunto de preconceitos e de ideias que recusam a análise crítica e racional e não aceitam submeter-se à experiência, à prova da realidade, “uma espécie de óculos que distorcem e dissimulam a realidade”, numa citação indireta a Simon Blackburn. Não deixa de ser paradoxal que Guilherme Valente acabe por facilitar o entendimento do cratês, como ideologia pseudopedagógica.

Relatório Education at a Glance

Previsões da OCDE contrariam Nuno Crato

A percentagem de alunos entre os 15 e os 19 anos vai aumentar 10% ou mais por comparação com a última década. A previsão é da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e contraria as projecções apresentadas pelo ministro Nuno Crato nos últimos dias.

100 palavras bastam!…

Li a entrevista de Nuno Crato ao Sol que o blogue Aventar partilha aqui.

Quando um ministro inepto decide aparecer e dá uma entrevista que ultrapassa as 100 palavras, por mais amigável que seja o entrevistador acaba por revelar mais a ignorância do que a sapiência.

Nuno Crato esteve remetido ao silêncio enquanto se situava no labirinto do MEC. Esta fase da governação terá durado cerca de um mês e pode ser considerado o estado de graça. Depois começou a mostrar ao que vinha sempre que mandava publicar em Diário da República. E bastou um ano! Bastou um ano para revelar que a política para a educação é meramente instrumental face a uma política mais global de definhamento dos serviços públicos. O objetivo principal é, como se verá, a transferência para os privados de funções sociais que, por enquanto, ainda estão sob a alçada do Estado.

O princípio da gratuitidade da educação obrigatória ainda não é assunto, como revela o ministro na entrevista, mas percebe-se que está aberto o caminho para as discussões que fazem parte do linguajar neoliberal e neoconservador: Regressaremos (porque é uma conversa recorrente sempre que a direita toma conta do poder) às retóricas sobre a “liberdade de escolha”, às narrativas sobre programas de cheques-ensino; sistemas de gestão privada das escolas; etc., etc.

Não irei dissecar a entrevista de Nuno Crato à procura de dissonâncias de um ministro impreparado para o cargo. O Paulo Guinote fez esse trabalho com competência aqui, aqui e aqui, o que me permite enfatizar os dois principais equívocos do cratês: considerar que as mudanças na educação fazem-se por decreto; que as mudanças significativas na qualidade das aprendizagens podem ser concretizadas sem os professores.

Eles comem tudo!…

A partidarização do Estado só podia conduzir à falência do estado social. Logo que amarfanham o poder, os partidos políticos ocupam todas as estruturas de chefia como quem se movimenta na sua própria coutada. A consequência é o macabro definhamento do Estado.

Imunizar o Estado à voracidade dos partidos políticos seria a Reforma do Estado que urge fazer, mas que nenhum partido político do arco do poder se atreve a iniciar.

Isto vem a propósito deste episódio relatado pelo Manel.

Política da terra queimada

No final da manhã acompanhei parte do programa opinião pública da SIC onde foi abordado o tema educação alimentar. Tirei duas breves notas:

1. Foi evidente o desconforto do convidado, um técnico nutricionista do MEC, quando interpelado com questões relacionadas com a Educação Física e Desporto Escolar. Fiquei com a ideia de que há uma guerra de tipo paroquial entre gabinetes do MEC, guerra essa que justificará parte das imbecilidades que o MEC vai impondo às escolas, em busca de um protagonismo estéril de uns sobre os outros.

2. Está a ser congeminado um programa de atividade física informal para o 2º ciclo. Informal? Valha-me Deus!

Farol

António Nóvoa foi entrevistado na RTP em horário nobre.

Não acredito que fizesse rebentar as audiências porque a concorrência das futilidades é imbatível. Mas tenho a certeza que o seu discurso não caiu em saco roto.

Que raciocínio límpido e escorreito; que frontalidade e honestidade intelectual; que convicção e esperança no futuro!

Não sei se foi capaz de inspirar algum político do centrão… provavelmente nenhum se sentirá livre para o reconhecer em público.

Sei que a narrativa de António Nóvoa é herética e funciona como um farol!