Arquivos mensais: Novembro 2006

Justiça…

O princípio da justiça coloca questões cuja resposta deve desaguar na ética do professor. Quais as referências para conformar a justiça do professor? Os interesses do aluno ou os do sistema educativo?…

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Teoria da conspiração

Tenho um grande amigo, que por acaso é enfermeiro e pai [que grande injustiça… está bem, nada disso foi por acaso], e com o qual tenho mantido as discussões mais prolongadas e duras sobre tudo e sobre nada. Como grandes amigos que somos, não temos por hábito poupar as críticas e os desabafos. Confesso que muitas das discussões que alimentamos não têm ponta que se lhe pegue para quem nos vê e ouve ao perto, porque é frequente começarmos pelo fim. Isto é, como é longo o histórico da controvérsia, o tema mal é lançado, partimos de imediato para as conclusões. Por vezes chega a ser surreal.
Isto para dizer que hoje fui procurá-lo para cuidar de algumas maleitas típicas de um desportista enferrujado. Ainda não tinha acabado o cumprimento, depois de lhe revelar que a minha escola fora fechada a cadeado pelos alunos, já o primeiro disparo provocador tinha sido lançado:
– Não me digas que os professores estiveram por detrás dessa rebelião?… Negas que reprovam a iniciativa?
Afinal, limitava-se a reproduzir a teoria da conspiração veiculada na comunicação social pelos nossos responsáveis políticos. De seguida, enuncia alguns exemplos mais ou menos caricatos em sectores de actividade onde o empregador cuida de substituir o empregado nas ausências de curta duração. Aproveitei para o conduzir ao seu mister para ver se a luz aclarava o seu temperamento neoliberal:
– Se um ortopedista faltar no dia da operação devidamente agendada, é ou não legítimo ser substituído por um otorrinolaringologista? Ou na melhor das hipóteses por outro ortopedista que se liberte de meia dúzia de consultas de rotina?
– … Um cirurgião?… Um enfermeiro está habilitado para substituir um colega em qualquer serviço.
– …
Pois… afinal fora mais um desabafo!

Adenda: O Vento Mudou e a Censura Voltou! Ou não?

Director da Pontos nos ii alega intervenção nos conteúdos.
O director da revista mensal sobre educação Pontos nos ii, desenvolvida pela Texto Editores, afirma que a editora decidiu interromper a publicação na sequência de divergências sobre os conteúdos editoriais.

Já li… e aconselho

  • Cinco armadilhas para a educação

Artigo publicado na edição portuguesa de «Le Monde Diplomatique» (Outubro/2000)

Instada a responder sozinha ao desafio da promoção social, a escola vê-se progressivamente desacreditada e sujeita aos desideratos de mercado de trabalho. Na “sociedade do conhecimento” – onde a promoção de novas tecnologias é pensamento único – a educação já não é mais do que o instrumento de legitimação de uma divisão social desigual. Esta visão redutora esquece que a escola é, antes de mais, o local onde se constrói o laço social, onde deve elaborar-se a “democracia da vida”. [Continuar a ler aqui…]
Riccardo Petrella
Professor na Universidade Católica de Louvain (Bélgica); conselheiro na Comissão Europeia

  • A educação foi evacuada do debate político

[…] Que consequências advirão, para a Escola e para os docentes, da conflitualidade latente que marca o momento actual do sistema educativo?
Eu não tenho uma visão patológica, disfuncional, do conflito. Penso que o conflito é esperável e legítimo numa sociedade democrática. O que espero é que haja capacidade das partes envolvidas, ministério e plataforma sindical, para dirimir os conflitos de forma democrática.
Porque não vale a pena impor unilateralmente um estatuto aos educadores e professores, que devem ser dotados de grande autonomia do ponto de vista científico, pedagógico e relacional. Não é pensável que profissionais altamente controlados, subordinados, alienados, possam contribuir para a autonomia dos educandos, para a autonomia das escolas e para a democratização da Escola.
Se houver bom senso, creio que se fará o que for necessário para chegar a uma postura negocial que exige cedências de ambas as partes. E aí, as organizações sindicais são absolutamente centrais, não só na defesa dos pontos de vista profissionais, mas também na descodificação e explicitação de determinadas mudanças aos próprios professores.
Portanto, eu diria que é preciso, efectivamente, construir um novo estatuto, mas construí-lo negociando e evitando rupturas definitivas, que não interessam a ninguém e que se arriscarão a desprofissionalizar os professores – se os professores tiverem um estatuto no qual não se revêem, que é um estatuto outro, relativamente ao qual se alienam, o que é que se vai fazer com ele?
Neste momento conturbado, já tenho ouvido dizer de professores que estão no 9º escalão que a sua carreira acabou aqui, que jamais se proporão a um concurso para professor titular, por exemplo. Eu compreendo as razões, mas se isto acontecer, se os mais experientes, se os que neste momento estão no topo da carreira se alienam de vir a ocupar posições, isso será um indicador de que o estatuto se insucedeu completamente.
Claro que há sempre excepções, gente muito nova com uma capacidade de intervenção notável e gente em final de carreira que continua a ter uma energia extraordinária.
Mas quem está nas escolas e quem estuda as escolas sabe que quem mexe, quem aguenta isto, quem investe, é uma geração que está entre os 35-45 anos. Se estes “motores das escolas” ficarem abaixo da categoria actual de professor titular, não sei quem é que vai levar isto para a frente… [Ler a entrevista…]
Licínio Lima (pp.14 a 23)

Liderança ou lideranças?

Não acredito em líderes heróicos nas organizações complexas, como é o caso das organizações escolares. Prefiro um líder que se empenhe em induzir a liderança nos outros e nunca me revejo num líder que concentra em si o poder e o protagonismo da mudança. Nenhum sistema de controlo pode ser mais eficaz do que o comprometimento pessoal de cada um dos actores. Um líder que cultive a liderança nos outros sabe que a organização crescerá para além da sua presença ou da sua saída. Ora, não é este líder que é reclamado pelo ECD imposto pelo ME. O ECD imposto pelo ME procura líderes heróicos: Na figura do presidente do conselho executivo e na figura do coordenador do departamento estão representados os líderes mais competentes e com melhor estatuto remuneratório. Ao limitar a liderança escolar a apenas dois níveis de aplicação não é crível que emirja um envolvimento genuíno de todos, tanto mais que se apela a um sistema de partilha concorrencial assente num sistema de incentivos pouco claro e ambíguo [e nem precisamos de ver (ainda está por regulamentar) o novo sistema de avaliação].

Aos motivos que me levam a discordar do ECD imposto pelo ME, junto este: o tipo de liderança que o ECD promove gera entropia e não cria as condições necessárias ao desenvolvimento individual e organizacional.

Outro olhar…

Esta semana desafiei um aluno a lançar o seu olhar sobre a disciplina de Educação Física. Ele aceitou e foi suficientemente mordaz, como se pode ler aqui. E acabei com vontade de o convidar a opinar sobre as mudanças em curso, nomeadamente, a proliferação dos cursos profissionais, as aulas de substituição, e as recentes alterações do “clima” de escola [o clima é um bom indicador de qualidade, ou não?].
Bom fim-de-semana.

Adenda: Ontem, logo pela manhãzinha, uma boa parte do professorado começou a sentir náuseas…
Hummm… ficaria muito mais tranquilo se o mal-estar estivesse relacionado com… dores de crescimento.

União!

Se há algo que este ME se pode orgulhar é o de ter conseguido juntar na mesma mesa e na mesma luta 14 sindicatos de professores conotados com forças políticas desiguais. Ao beliscar a dignidade dos professores, o ME acabou por conseguir algo impensável antes da discussão deste ECD. De todo o processo negocial este é o facto político mais importante, muitas vezes desvalorizado pelos arautos neoliberais que, percebendo o alcance deste acontecimento, pressentem na força associativa um obstáculo para o avanço das suas políticas.
A fragmentação sindical dos professores tem sido apontada, na escola situada, como uma das causas da degradação da imagem do professorado junto da opinião pública, acabando por servir de álibi para o alheamento de alguns professores pelas lutas da classe.
Chegamos a um ponto de viragem!
Imagino constrangimentos conceptuais, dificuldades organizacionais, feridas que a história abriu e que ainda não cicatrizaram completamente. Conjecturo imensas teses ortodoxas dentro de cada uma das estruturas sindicais. Antevejo, compreensivelmente, hesitações…
Chegamos a um ponto de viragem!
Há que aproveitar o balanço desta luta que já demorou o tempo suficiente para justificar uma reflexão profunda acerca da possibilidade de concretizar a união formal dos 14 sindicatos.
Chegamos a um ponto de viragem?!

Poderes políticos medíocres e míopes…

“[…] o estatuto social e profissional do professor degradou-se extraordinariamente nas últimas duas décadas, constituindo um verdadeiro processo de proletarização da função docente. Podem os poderes políticos medíocres e míopes pensar que assim fazem as sociedades poupanças com a educação, que é um investimento social caro. A verdade é outra: é que as sociedades nada ganham com educação sem qualidade, pois tal não significa senão população sem qualidade.
Urge, pois, revitalizar, ao mesmo tempo que a qualidade profissional dos docentes, o seu estatuto social, profissional e remuneratório.”
Manuel Ferreira Patrício (1997). Visão prospectiva para o professor para os anos 2000 In: Formar professores para a escola cultural no horizonte dos anos 2000. Porto Editora.