Arquivos mensais: Fevereiro 2010

Na 5ª feira, adiro à greve!

“Tradicionalmente, os professores oscilaram entre um extremo “individualismo” na acção pedagógica e modelos sindicais típicos de “funcionários do Estado”. São, nos dias de hoje, formas obsoletas de encarar a profissão. O empobrecimento das práticas associativas tem consequências muito negativas para a profissão docente. É urgente, por isso, descobrir novos sentidos para a ideia de colectivo profissional.” (JMA publicou um texto interessantíssimo de António Nóvoa que faz parte de uma conferência publicada na Revista Educação e Pesquisa em1999.)

Enquanto imperar a visão funcionarizada da profissão docente, os sindicatos de professores agirão como os outros sindicatos de funcionários públicos na defesa dos profissionais face aos empregadores, utilizando instrumentos de negociação das condições de trabalho, dos salários, do emprego, do estatuto, das qualificações, etc., etc.

Tem existido da parte dos sucessivos governos da nação uma visão funcionarizada da profissão. É esta visão funcionarizada que concorre para a eternização de modelos sindicais conservadores, formas obsoletas de encarar a profissão, como observou, e bem, António Nóvoa.

É urgente mudar de paradigma sindical. Mas não tenhamos dúvidas que essa mudança só ocorrerá no momento em que o estatuto sócio profissional dos professores emergir da diminuição do controlo do estado e do reforço da autonomia. Sem o rompimento da lógica de subordinação estatal não é possível a reconfiguração da profissão docente. É evidente que há sempre quem beneficie do status quo instalado. Por razões e conveniências diversas, alguns dirigentes sindicais, e outros tantos empregadores, estarão interessados em manter a situação actual. Mas, do mesmo modo que rejeito a ideia de que há uma generalização de más práticas docentes que legitimariam políticas restritivas de controlo do trabalho docente, também recuso a ideia de que os dirigentes sindicais recusam a mudança de paradigma sindical por uma questão de sobrevivência e conservação de uma determinada prática.

Percebo o nervosismo de alguns dirigentes de associações profissionais de professores que desejam poder profissional e se vêem arredados do palco mediático. É verdade que a hegemonia deste modelo sindical retira espaço a outras formas associativas emergentes. Mas, afinal, o que torna o modelo sindical hegemónico? É a profissão docente estar funcionarizada; É a escassa autonomia profissional; São as dependências excessivas do poder central. Os professores são assalariados e uma associação clássica desta natureza está apetrechada para responder às necessidades destes profissionais.

Mas não esqueçamos o grande objectivo socioprofissional dos professores, das associações de professores, dos movimentos sindicais: Reconfigurar a profissão docente e torná-la menos dependente do Estado. Não sejamos ingénuos: esperar que o governo promova essa mudança sem ser “forçado”, sem ser pressionado, é repetir o erro do passado. Precisamos dos sindicatos porque estão vocacionados para a defesa dos profissionais face aos empregadores para depois, notem o aparente paradoxo, prescindirmos deles (refiro-me ao modelo sindical clássico, obviamente) quando a profissão atingir a maturação.

O Acordo assinado com o ME assinalou uma viragem. Por isso o aplaudi e regozijei, mais pelo significado da mudança do que pela métrica dos avanços. Outros lamentaram esse Acordo porque acreditavam noutros resultados. Face ao grande objectivo socioprofissional, o Acordo, a Greve, ou outras formas de luta, são meramente instrumentais. Usemos estes e outros instrumentos para atingirmos o grande objectivo.

Na 5ª feira, faço greve!

Anúncios

Em greve

Onde estão? Onde estão?

Onde estão os sindicatos? Questiona um comentador no blogue do PGuinote reagindo ao esclarecimento da DRELVT acerca da apreciação intercalar.

Presumo que o comentador já conhece a resposta. Os sindicatos estão onde devem estar: Estão a protestar e a reivindicar outras alternativas!

Creio que as perguntas que não foram feitas, mas que traduziriam melhor o espanto daqueles que acompanham de perto o processo, poderiam ser estas:

Onde está o ME para permitir que o assunto suscite interpretações ambíguas das DRE´s e das escolas? Onde está a coerência do ME que ressuscita o famigerado Simplex que o próprio ME abandonara depois do enterro das titularices?

;o)

4510_1600x1200-wallpaper-cb1263594120

in: http://www.nationalgeographic.com/ image

Exames à medida de uma escola taylorista.

O Ramiro desafia-me a colaborar com um texto curto sobre os exames. Dispensar-me-ei da contextualização para passar directamente às razões que me levam a olhar com desconfiança o elogio à psicometria como panaceia para resolver os males do sistema educativo.

Tudo aquilo que parece estar no âmago de uma educação de qualidade não é medido em provas de exames:

Aprender a respeitar, aprender a fazer perguntas relevantes e resolvê-las, a determinar o que é importante e válido, a aprender o contexto.

Pelo contrário, os exames concentram-se em aspectos secundários como a memorização de informações que suscitam uma padronização de aprendizagens fechadas e que servem bem os objectivos de uma escola taylorista. Perversamente, esta escola olha para o aluno como um objecto, com mão-de-obra ou peça descartável para o mercado de trabalho.

Dir-me-ão os defensores dos exames que os meus argumentos são pouco objectivos e os cratenses podem ir mais longe conotando a minha retórica com o eduquês. Quanto à pretensa objectividade que induz os exames nacionais, subscreverei o pensa o JMAlves “Se os defensores dos exames soubessem os mecanismos que produzem os resultados que acabam por estruturar os rankings nacionais, certamente seriam mais prudentes na cega apologia que deles fazem. Insuperáveis problemas de fiabilidade; ameaças à validade de itens (e instrumentos); crise de confiabilidade exigem outros dispositivos de credibilização social.

Não, não me refugio em pretensas objectividades porque induzem rigor e seriedade. Se assim fosse, deixaria de ser professor porque ser professor é lidar com a subjectividade e com a discricionariedade. Pensar que é possível reduzir o ensino a uma folha de cálculo poderá até induzir confiança nos professores, mas é uma mistificação da realidade educativa.

O Ramiro diz que os adeptos dos exames argumentam:

“Os exames nacionais a todas as áreas curriculares no final de todos os ciclos de ensino permitem pôr termo à justificação das múltiplas prestações de contas da escola a diversas estruturas: conselho geral, pais, IGE, DRE e DGRHE.”

Como? Não percebo como é possível evitar a prestação de contas através dos exames. E depois, não estou a ver qual é o problema de prestar contas…

“Os exames nacionais provocam um aumento do tempo dedicado ao estudo por efeito da preparação para os exames. “

Errado. Os exames provocam uma reconfiguração do tempo de estudo que é sacrificado para as rotinas de exame. Um desperdício de tempo …

“Os exames dão resistência e promovem a resiliência.”

Os exames dão resistência e promovem a resiliência uma vez no ano. É pobre o ensino que não encontra instrumentos adequados para promover estas capacidades ao longo do ano.

“Os exames preparam os alunos para aquilo que a vida lhes reserva: trabalho, esforço, concentração, sacrifício e resistência.”

Não são os exames que preparam os alunos para a vida. São os professores que preparam os alunos para a vida. Com ou sem exames.

“Os exames permitem avaliar com seriedade e rigor o sistema de ensino e as escolas, desde que sejam introduzidos factores de ponderação que tenham em conta o peso da variável económica, social e cultural.”

Eu até aprecio as subjectividades. Mas espero que os defensores do rigor saibam determinar com rigor o que é o rigor e como é que se afere o peso da variável económica, social e cultural!…

Validade e fiabilidade dos exames

A oportunidade deste texto decorre da aceitação de que é um fetiche a tese: “mais exames, melhor educação”.

"[…] a validade de um teste, ou de um exame, não deve estar apenas directamente relacionada com o teste em si mesmo, ou com os resultados que produz, mas também com a interpretação e utilização que se faz desses resultados e com as consequências das decisões avaliativas. Ou seja, é a introdução das questões de natureza ética e social na elaboração de um conceito que era apenas considerado do ponto de vista estritamente psicométrico.

[…]
A fiabilidade tem uma relevância acrescida quando os exames têm a sua função de selecção muito marcada, como é o caso do que se passa entre nós, pois, como vimos, os exames servem para seleccionar alunos para o ensino superior. É por isso que se afirma que a principal questão é a da replicação. Ou seja, se, na sequência de um dado exame e de uma resultante selecção de candidatos, tiver lugar uma replicação desse mesmo exame, põe-se a questão de saber se os candidatos seleccionados se mantêm os mesmos, ou não. Se sim, então o exame é considerado fiável e, em última análise, justo e equilibrado, tratando, com equidade, todos os candidatos. Se não, então temos um problema sério, pois o exame permite que a selecção de candidatos ao ensino superior possa estar dependente de outros factores que não os conhecimentos ou as reais aprendizagens adquiridas pelos candidatos.
[…]" (pp. 113-115)

Alterações curriculares condenadas ao fracasso.

“Um ministro pode mudar os textos por decreto, mas não os procedimentos” (Perrenoud)

A propósito das alterações curriculares, de pormenor ou de pormaior, é bom que se defendam estratégias de alteração curricular que procuram melhorar as escolas a partir de dentro, mais do que reformá-las a partir do exterior.