Arquivos mensais: Setembro 2010

PEC(cado) fatal.

O primeiro-ministro anunciou que vai reduzir em 5 por cento os salários da função pública, incidindo de forma progressiva nos salários acima dos 1.500 euros. Além dos cortes na despesa, José Sócrates anunciou medidas para aumentar a receita do Estado, como o aumento da taxa normal do IVA de 21 para 23 por cento. As medidas integram a proposta de Orçamento de Estado para 2011. (in: RTP)

Este governo continua a cavar com mais intensidade, seguindo o exemplo da Irlanda, sem perceber que a saída do buraco fica cada vez mais distante.

Muita parra e pouca uva

Do alto da sua sapiência ecuménica, o pseudo jornalista Miguel Sousa Tavares voltou a zurzir nos professores. A reacção do Secretariado Nacional da FENPROF foi quase imediata e parece materializar a indignação sentida por incontáveis colegas.

Apesar de perceber a posição da FENPROF, e de perceber ainda melhor o frenesim de bloggers e movimentos de professores, considero-a desnecessária por não reconhecer no protagonista dos dislates um estatuto moral e profissional consentâneo com a profissão de jornalista. Mais, entendo que a FENPROF abre um precedente de difícil resolução se se considerar o número de opinadores maledicentes com acesso privilegiado aos órgãos de comunicação social.

Um político honesto.

ADD – A farsa e o processo de “desinscrição”.

Designados os relatores e os coordenadores de departamento, o processo da calendarização da ADD irá decorrer com normalidade e tranquilidade. Até ao dia 31 de Outubro a ADD permanecerá em banho-maria. Há quem considere que a mansidão do processo induz a ideia, equívoca a meu ver, que “quem cala consente”. Bem pelo contrário. Estou convencido que os professores decidiram “desinscrever” (cf. não-inscrição de José Gil) este processo do seu real, por razões diversas e até, quiçá, contraditórias. Directores, professores avaliadores e avaliados, parece haver um consenso generalizado na escola situada de que este modelo de avaliação é conceptualmente errado e que não irá promover, como se desejaria, o desenvolvimento profissional dos professores. A inércia reivindicativa dos professores, que teve a sua origem naquele momento fatídico em que milhares de professores romperam com o pacto de classe velado que fora promovido pela FENPROF e decidiram entregar os seus objectivos individuais, protelou para a fase final do período avaliativo/ano uma reacção às iniquidades.

Até lá, cada um por si, como almejam os arautos das lutas individualistas. Só não estou certo que este processo de “desinscrição” do real da ADD alcance os resultados que conseguiu José Sócrates com o processo de “desinscrição” das reivindicações dos professores.

Não há pachorra para videirinhos da política.

Não podia estar mais de acordo com Carlos Fonseca, do Aventar, que denuncia a desfaçatez de Mira Amaral, um ex-político bem instalado e um homem público sem vergonha, que vem agora apregoar cortes na despesa permanecendo indiferente ao rombo de cerca de 250.000 euros anuais, que é o valor da sua reforma na CGD.

O problema não está, obviamente, nas soluções que apresenta para a diminuição da despesa e com as quais concordo: “O antigo ministro dos governos de Cavaco Silva disse que uma das formas de reduzir a despesa pública é extinguir institutos públicos, direções gerais e empresas municipais.” O problema é que não deveria ficar por aqui. E não me venham dizer que é demagogia exigir, de quem teve ou ainda tem responsabilidades políticas pela situação em que o país se encontra, envergadura moral para reclamar a urgência da diminuição da despesa do Estado.

Já não há pachorra!

Jornadas Médico-Desportivas de Guimarães

Médico-desportivas?  Até poderei ser surpreendido pela ligação incestuosa. Mas a tertúlia de ontem onde se debateu a importância social do desporto não foi um bom prenúncio.

Adenda: E tudo se aclarou a partir do momento em que os médicos se voltaram para a saúde… ou para a falta dela.

Professores pagos em função dos resultados – um paradoxo.

A iniciativa que o Ramiro evoca [uma sondagem nacional conduzida recentemente pela Phi Delta Kapa e pela Galup concluiu que a ideia (do pagamento aos professores em função dos resultados dos alunos) é apoiada por mais de 70% dos norte-americanos] surge associada a um termo que Apple considera ser pouco conhecido nos Estados Unidos apesar de existir bastante familiaridade com as suas tendências e efeitos. Refiro-me ao neoliberalismo, que Robert McChesney definiu do seguinte modo:

“As iniciativas neoliberais são caracterizadas como políticas de livre mercado que encorajam a empresa privada e a opção do consumidor, recompensa a responsabilidade individual e a iniciativa pessoal e procura destruir a mão morta do governo incompetente, burocrático e parasitário que nunca faria o bem mesmo se fosse bem intencionado, o que raramente é.”

Um dos efeitos mais nefastos destas iniciativas é a redução da democracia a um conceito económico como se não devesse ser, fundamentalmente, um conceito político. E a escola, como microcosmos democrático que é, acaba por ser contaminada por este conceito. A escola neoliberal adopta e reproduz as iniciativas neoliberais e premeia os seus professores pelos resultados dos alunos. Eis o paradoxo: numa lógica de responsabilização individual, como é possível responsabilizar alguém pelos resultados de outrem?