Arquivos mensais: Novembro 2004

Escolas bolorentas.

Percorro os temas que suscitaram no último ano a reflexão, o desabafo e a discussão. Fico com a sensação de que parei no tempo, nesse tempo. Na verdade, a escola situada conserva-se estável na instabilidade que a identifica [se me referisse à actual equipa governativa o diagnóstico também lhe assentaria muito bem]. As rotinas, os velhos jogos de poder nos palcos habituais, as práticas de ensino formatadas para o aluno tipo [que poucos conhecem], o “modus vivendi” instalado, as propostas de solução empacotadas para problemas fingidos, as lamúrias do costume, os acólitos insensatos, etc., etc.

Um 25 de Abril seria insuficiente! [Onde é que eu já ouvi isto?]

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Olhar o aluno.

Dizia num post mais em baixo que o delineamento das estratégias que “seguram” a atenção dos alunos para a actividade escolar consome uma boa parte do meu tempo de preparação. Enfatizava nesse pequeno desabafo, a recusa de uma pretensa neutralidade na relação sócio-afectiva. MJMatos reclama [e bem] a concretização da ideia, e sugere que exemplifique as estratégias que uso.

Este desafio, aparentemente simples, coloca-me alguns embaraços porque me obrigará a falar na primeira pessoa. Ora, aqui está uma boa oportunidade para descobrir alguns dogmas, porventura disfarçados.

Sou um professor permanentemente insatisfeito com o meu desempenho, vejo hiatos de formação por resolver, ferramentas de ensino por burilar, sinto mais necessidade de aprender do que ensinar [e para ser ainda mais claro: apreendo mais quando ensino – grande chavão]. Nunca me senti constrangido por abrir brechas na [caverna,] sala de aula ou actividades que partilho com os alunos. Creio mesmo que será esse o caminho que ainda falta desobstruir na Escola: A partilha das experiências contextualizadas [os conselhos de turma mais aligeirados de tarefas administrativas seriam óptimos espaços de promoção da interdisciplinaridade]. Esta “aparente” abertura dever-se-á às características do espaço físico da aula [a sala onde desenvolvo a acção educativa é aberta, literalmente aberta, presenciada por todos e por ninguém] e à especificidade da área disciplinar que lecciono [que não perdoa as incongruências entre o discurso e a prática].

É a singularidade do aluno que ordena a lógica da acção educativa e que configura qualquer estratégia que vise orientar a atenção do aluno para a tarefa. E um aluno que não se oriente para a tarefa ou que se oriente exclusivamente para o resultado terá mais dificuldades em lidar com o insucesso. Ora, todo o trabalho do professor ficará comprometido se ele não resultar de um conhecimento dos problemas, necessidades e expectativas dos alunos. Atrevo-me a considerar ser esta a chave do problema: Procurar conhecer o aluno em todas as suas dimensões. É através deste processo dinâmico, testado diariamente, que vou reformulando a oferta das actividades educativas, sabendo que não poderei negligenciar a influência das decisões dirigidas para a gestão de conflitos.

Levantando a cabeça para deixar de olhar para o umbigo e alargando a lente da análise direi que a ditadura da execução dos programas oficiais tem gerado efeitos perversos no sistema educativo. Ai do professor que se atreva a não cumprir o dito cujo. Mas o que me preocupa no frenesim gerado em torno do cumprimento dos programas é que ele serve de álibi para suscitar no aluno o ónus da culpa quando não for capaz de conciliar o seu ritmo de aprendizagem com o ritmo de abordagem à matéria de ensino. As disciplinas que lecciono não são contempladas com um exame nacional: A Educação Física, Organização e Desenvolvimento Desportivo, Práticas Desportivas Recreativas estão [para já] imunes a essa praga. Mas seria diferente se fossem objecto de avaliação sumativa externa?

Creio que não. Através de um conceito lato de programa podemos encará-lo como simples indicação/orientação de conteúdos que não têm de ser formatados pelo espartilho dos exames.

Ora, vejam lá onde acabou a conversa.

Mais professorado.

Currículo & Cultura é um blog de estudantes do curso de mestrado em Estudos da Criança da Universidade do Minho. Passem por lá e vejam a dinâmica daquela gente.

1 ano de Professorices.

O professorices do JVC faz hoje um ano de vida. Parabéns para o autor, leitores e residentes.

O clique…

A experiência profissional atesta que a motivação dos alunos é singular, um fenómeno interior, multifactorial, dinâmica. Ser capaz de despoletar no aluno essa vontade de apreender, de se transcender e de recusar a passividade, é um dos desafios mais aliciantes [?] que se pode colocar a um professor, sobretudo, se actua numa conjuntura agreste e adversa.

Acreditem, se quiserem. Das tarefas de preparação da minha actividade docente, o delineamento das estratégias que “seguram” a atenção dos alunos para a actividade escolar consomem uma boa parte do tempo. E não se trata de buscar “o clique” para a motivação. Trata-se de recusar a neutralidade latente da relação sócio-afectiva.

Avaliação (II)

Este post e os comentários produzidos suscitou um novo olhar:

Será que a administração deixará de garantir a universalidade do sistema se se colocar à margem da avaliação dos alunos? Não continuará a administração envolvida no processo de avaliação dos alunos por via [indirecta] das escolas?

A Escola – serviço público, a Escola – comunidade educativa e a Escola – empresa, são três modelos de escola com lógicas de funcionamento distintas, modelos esses ordenados por princípios de justiça. O que nós sabemos é que as escolas reais não adoptam nenhum destes modelos [cada um com a sua lógica de funcionamento] de forma cega e que há, efectivamente, uma tensão entre lógicas diferentes. A escola – serviço público, não tendo em conta as diferenças existentes entre alunos e os progressos realizados por cada um, releva a avaliação normativa dos alunos burilando o sistema piramidal [exclusivo].

Como é que a escola inclusiva se relaciona com a avaliação sumativa externa dos alunos?

Continuo sem perceber o que são conteúdos estruturantes [quem os definiu]? E ainda, em que é que se fundamentou essa decisão?

Equilíbrio instável.

A discussão enfatizava a “velha questão” da estabilidade do corpo docente como um factor decisivo para a melhoria dos resultados do trabalho docente. Esta ideia reuniu um alargado consenso entre os parceiros da discussão. Atrevi-me a discordar e sugeri uma mudança de paradigma: Em vez de estabilidade a palavra-chave seria o equilíbrio. O equilíbrio instável repeliria com mais eficácia a estagnação das práticas e das rotinas docentes. Por outro lado, é um conceito mais dinâmico e simultaneamente mais condizente com a versatilidade do trabalho docente.

Será que esta ideia é suficientemente forte para transpor, por si, os limites da semântica?