Arquivos mensais: Janeiro 2006

Troca de olhares

A tertúlia é pequena mas é animada. É reconfortante observar a extraordinária participação e entrega generosa daqueles que por aqui passam e deixam rasto. O objectivo é elevado e claro: promover a reflexão sobre a actividade docente abarcando todos domínios que couber no meu entendimento.
Ao contrário do que transparece após uma leitura enviesada dos textos divulgados, não é possível extrair qualquer olhar de cátedra, tanto mais que não existe por cá nenhum depositário. É, paradoxalmente, um olhar despretensioso que marca um trajecto singular, e um olhar ambicioso, plural de sentidos, que busca novas pontas da imensa teia de experiências que enriquecem a vida na escola e fora dela.

Uma entrada pretérita navegação à vista suscitou comentários de 6 companheiros de viagem.
A actualidade e a relevância do tema ensaiado justifica o destaque e, quem sabe, novas participações:

Escreveu a Teresa Homepage 27.01.06 – 8:36 pm #
Riscos: – quando finalmente estiver construída uma auto-estrada com duas faixas de cada lado… vai constatar-se que seriam precisas pelo menos quatro em cada banda…- quando acabar esta legislatura e, se por acaso, não tiver seguimento em tom de rosa mas em tom laranja… nunca se sabe quantos despachos novos vão sair a anular os agora despachados e a despachar…Pena que não se tente gastar um bocadinho de tempo, antes de fazer seja o que for (e de governar aceleradamente por retalhos), a definir uma espécie de pacto educativo concertado, com a participação de todos os envolvidos, e, sobretudo, multicolor… E, note-se, estou a pensar nos alunos ao deixar aqui estas palavritas… Eles precisam e merecem seriedade, continuidade, uma escola excelente – seja qual for o desenho que todos em conjunto venhamos a definir como o futuro mais adequado.(Sendo, simultaneamente solidária com os professores, é claro… mas nós já cá estamos há mais tempo e lá vamos encontrando forma de nos defender das alternâncias sem desígnio, sem projecto que se veja…).

Comentário ao comentário:
… pacto educativo concertado e ainda por cima multicolor. Não sei: Só com uma boa dose de optimismo (que soará a falso) é que se acredita na prova de bom senso dos nossos representantes políticos. O que não deixa de ser absurdo é encontrar na retórica política um apelo ao consenso em torno das questões educativas e o debate político-parlamentar não dar qualquer sinal a favor desse acordo. Recordo a discussão (era ministro da educação o Dr. Justino) gerada pela “reforma” da actual LBSE e a dissonância das posições dos grupos parlamentares da época.
À falta de senso dos representantes políticos, os professores devem responder com mais envolvimento pelas questões de política educativa.
“os alunos merecem seriedade, continuidade e uma escola excelente.”
Uma escola excelente também “produz” alunos excelentes. E que aluno é esse que a escola quer produzir?

Escreveu a IC Homepage 27.01.06 – 11:18 pm #
“Quem não está apreensivo? “Antes de definirmos o perfil ocupacional do professor é necessário definirmos a escola que queremos e o seu lugar na comunidade” – pois é, e eu logo em Junho falei de carroça à frente dos bois e em Agosto estampei no meu cantinho uma carroça à frente do burro, mas depois de ouvir a Sr.ª ministra (todos ouvimos na TV)justificar a sua pressa (leia-se precipitação) porque não podia perder um ano da SUA oportunidade na legislatura, acho que o “ritmo” deste ME ficou percebido e mais preocupante ainda.”

Comentário ao comentário:
Para onde corre a ministra? Foge de quem? Do défice? Estou convencido que ainda não se apercebeu que a manta é demasiado curta e que cobrindo o seu défice acabará por destapar muitos mais.

Escreveu o Paulo 27.01.06 – 11:43 pm #
“Penso ser claro que esta ministra está demasiado preocupada com os resultados. Olha para os pés, para baixo e não para a frente de modo a não cair na maior das armadilhas: encarar a escola como uma organização gerida de modo empresarial com fins sociais. Uma anedota tendo em conta que ninguém mais sabe o que se pretende da escola (um pouco de tudo).
Uma nota: estarão os sindicatos à altura de defenderem, do ponto de vista dos direitos os professores ou continuarão a argumentar que as medidas não são pedagógicas?”


Comentário ao comentário:
Os sindicatos debatem-se com um grande problema de afirmação: não é possível discutir direitos dos professores sem precisar o que é um professor (aqui concordo com o adkalendas). Os sindicatos sabem e o ME também, que um professor desenvolve um conjunto de actividades estruturais e outras conjunturais. E neste braço de ferro que decorrerão as próximas negociações. Parece-me claro que as actividades estruturais devem prevalecer sobre as actividades conjunturais no quadro ocupacional. Por exemplo: As actividades lectivas estruturais (aulas), as actividades lectivas conjunturais (aulas de compensação, vistas de estudo,…), as actividades extralectivas estruturais (clubes escolares), as actividades extralectivas conjunturais (projectos, seminários, …), etc., etc. [E quando me refiro às aulas estou a pensar na forma como o aluno acede à aprendizagem. Não estou a pensar no espaço onde a aula tradicional decorre.]
Nós (posso generalizar?) fomos amestrados para uma escola tradicional que continua a exigir competência ao professor para as actividades estruturais (excluo aqui a participação dos clubes), um profissional absorvido por uma panóplia de actividades conjunturais. Se a ideia é reconfigurar o perfil ocupacional do professor, vamos lá: mãos à obra, mas sem rodeios! E convém que exijamos à escola e ao professor apenas o que podem dar! Não mais do que isso.
Mas atenção: Reclamar uma nova escola pode passar por exigir um novo professor (ainda estou a pensar se o “novo” deve ter ou não um sentido literal). E nesse caso, o movimento sindical terá de reconhecer a inevitabilidade da mudança.
Será que o professado deseja enfrentar uma mudança do seu conteúdo ocupacional?

Escreveu a Matilde Homepage 28.01.06 – 1:00 am #
“ Na verdade não se entende… como se pode discutir o ECD sem antes se discutir o que se quer do professor, o quer se quer da Escola?
Quando, no post anterior, se discutia a falta de uma escola de tertúlia, sinto falta e muito. Na verdade, foi algo que, infelizmente, nunca conheci, mas que considero condição para melhorar a educação.
Quando referes, Miguel, se o ME irá aproveitar a oportunidade da negociação do ECD para “promover uma discussão que ultrapasse os muros da escola e que envolva todos os agentes educativos”, considero sem dúvida esse aspecto fundamental, mas eu perguntaria antes disso se essa discussão será “alargada” ao interior dos muros da escola… ou melhor, se os professores irão “alargar-se” nessa discussão, ou se simplesmente vai passar ao lado, como passa a leitura de Despachos Normativos fundamentais, orientando-se a conduta pelo que se ouve na Comunicação Social…Já o adiantei na “Teia” da Teresa… hoje estou particularmente rezingona, mas isto passa (às vezes acho que o problema é esse… o facto de “passar”…)”


Comentário ao comentário:
“a discussão será “alargada” ao interior dos muros da escola… ou melhor, se os professores irão “alargar-se” nessa discussão, ou se simplesmente vai passar ao lado, como passa a leitura de Despachos Normativos fundamentais, orientando-se a conduta pelo que se ouve na Comunicação Social…” Tenho sido uma voz crítica no interior da organização a que pertenço (aliás, a que pertencemos) pela nossa indiferença (para não dizer desprezo) face aos normativos. Sabemos que a produção legislativa neste sector é tão intensa que é inexequível a um professor acompanhar a actualidade. Mas, uma coisa é reconhecermos a nossa incapacidade para acompanhar o ritmo dos vários governos, outra coisa bem diferente é o alheamento completo. É verdade que os órgãos de gestão e administração das escolas fazem a filtragem da informação. Também não deixa de ser verdade que nem todos os colegas que desempenham estes cargos sabem interpretar correctamente o seu papel e as filtragens de informação servem outros desígnios.
Os professores não podem continuar a permitir que as regras do jogo sejam descodificadas por terceiros: órgãos de gestão, sindicatos, ou quem quer que seja.

Escreveu o adkalendas Homepage 28.01.06 – 12:24 pm #
Será que alguém confia neste Ministério da Educação?
Será que alguém confia nos actuais sindicatos?
Será que alguém confia nas orientações fornecidas por alguns estudiosos influentes (politicamente) das Ciências da Educação?
Nós não precisamos de teorias irreais, nós não precisamos de decisões políticas voluntaristas e utópicas, nós não precisamos de sindicatos que só vêem greves. Precisamos de análises realistas, avaliações concretas e soluções.Mas acima de tudo, precisamos que se entenda, de uma vez por todas, que um professor é um professor.
E ser professor não é ser pai dos alunos, nem educador de infância, nem polícia, nem…
É apenas (e já não é pouco) ser professor.
E afinal o que é ser professor. Esta é que é a questão!


Comentário ao comentário:
Se não confiamos nas pessoas que nos representam o melhor é procurarmos outras pessoas credíveis. As pessoas que lideram os governos, sindicatos, conselhos executivos, etc.,etc. submetem-se ao sufrágio. Há que procurar alternativas porque na maior parte dos casos ainda não foram esgotadas todas as possibilidades. Eu tenho a perfeito noção de que estou a reduzir o problema. Mas, antes de procurar soluções complexas é melhor esgotar as soluções mais simples. Ou não?
Se o problema não é das pessoas então reformem-se as organizações. Pois… Claro que estas organizações que nos representam são muito complexas e, porventura, irreformáveis, como dizia um amigo de tertúlia.

Escreveu o miguel sousa Homepage 28.01.06 – 11:02 pm #
Miguel para ela [ministra da educação] e para os Albertos J. Jardins que mandam nos sindicatos, ECD resume-se a direitos e a deveres, a reformas, a subidas na carreira, o resto não tem expressão….que estás à espera, vai ser mais do mesmo, só que com a agravante, vamos voltar a perder.

Comentário ao comentário:
É necessário ouvir as associações profissionais e as instituições responsáveis pela formação de professores. Há silêncios comprometedores…

Adenda: O António [Carlos] está de volta com o seu restaurado Didáctica da Invenção

Adenda II: Enquanto preparava esta entrada, o Rui juntou o seu olhar.

Escreveu o Rui Homepage 29.01.06 – 5:45 pm #
Não quero ser pessimista nem redutor, mas cá para mim, enquanto houver milhares de professores a quererem entrar nas escolas, os governos vão fazer o que lhes apetecer e o que der melhores números, ie, menos gastos financeiros e mais alunos passados. Por causa de não terem falta de professores, atender ao bem estar pedagógico destes será a última das suas preocupações, se é que a chegam a ter…

Comentário ao comentário:
A força do professorado é, paradoxalmente, a sua fraqueza. Perto de 200 mil activos empregados e alguns milhares de activos no desemprego.
Pensemos na agro-pecuária: quando a oferta de cabeças de gado é maior do que a procura, baixa o preço do gado. Será assim?

Escola aos quadradinhos…

A Tit escreveu um belo texto no seu Canto do Vento. Trata da escola unidimensional e do ensino compartimentado tradicional, que tem servido mais os interesses dos professores do que as necessidades dos alunos.

Na escola aos quadradinhos, os alunos têm muitas gavetas na cabeça.
A gaveta da Matemática, a gaveta do Inglês, a gaveta da Língua Portuguesa…
A maior parte das gavetas não têm qualquer tipo de comunicaçao entre elas.São gavetas que muitas vezes estão cheias de papeis, mas desorganizados, o que faz com que seja difícil encontrar “aquele papelinho”.
Outra vezes as gavetas estão quase vazias. Ou então têm pequenos pedaços de papel, que não fazem sentido – como se de um puzzle com muitas peças perdidas se tratasse.
As gavetas são abertas e fechadas ao longo do dia.
Muitas vezes sem uma razão verdadeiramente importante.Situações há em que acabam mesmo de deixar de se abrir.

E surgem as elevadas taxas de “gavetas encravadas”.”A educação básica é um indispensável «passaporte para a vida» que faz com que os que dela beneficiam possam escolher o que pretendem fazer, possam participar na construção do futuro colectivo e continuar a aprender.” (Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI)
Responde a “Escola aos Quadradinhos” a este desafio?”

Navegação à vista…

O diferendo entre os professores e o ME não tem fim anunciado. A negociação [espero que o ME reaprenda o significado de negociar] do estatuto da carreira docente (ECD), em meados de Março (?), irá manter o braço de ferro, particularmente no que concerne aos direitos e deveres dos professores.

Estamos a pouco mais de um mês do início da negociação e não se percebe se o ME irá aproveitar esta oportunidade para promover uma discussão que ultrapasse os muros da escola e que envolva todos os agentes educativos. É que a definição do conteúdo funcional do professor remete a discussão para o plano conceptual. Antes de definirmos o perfil ocupacional do professor é necessário definirmos a escola que queremos e o seu lugar na comunidade. As funções que o professor há-de desempenhar derivam de um movimento prospectivo que situe a escola num tempo vindouro.
A escola do futuro é, a meu ver, o quadro de referência para a definição das funções do professor. E que tipo de funções serão essas?
De docência?
De administração e gestão?
De investigação?
De acção social escolar?
De orientação escolar e vocacional?
De extensão educativa e de apoio à comunidade?

Estou apreensivo. Receio que este ME não tenha ritmo para acompanhar as exigências deste tempo e que a sua iniciativa bloqueie com a gestão corrente.

Todas (des)iguais…

É um universo de 120 professores mas há universos de todas as medidas… Graças à mobilidade coerciva de muitos colegas, ano após ano, há uma aragem de gente nova. E ainda bem! Alguns despedem-se para regressar mais tarde. Outros ficam, definitivamente [embora nada seja definitivo]. A acomodação é um processo interessante de se ver: Enquanto que alguns procuram desenfreadamente discernir as várias fontes de poder para se instalar por perto, outros, indiferentes a este jogo perverso, centram-se nos seus afazeres profissionais. Há sempre alguém que se mostra inconformado e protesta. Há sempre uma alma que deseja passar despercebida, sem deixar rasto de palavra. Alguns fogem como o diabo da cruz dos assuntos da escola enquanto que vão rareando os professores que apreciam uma boa conversa sobre a coisa educativa… Será esta uma escola situada?
Se exceptuarmos as inúmeras reuniões formais, é invulgar descobrir o prazer de uma pequena cavaqueira, uma simples troca de ideias alusivas à escola, um assinalar da actualidade política [educativa]. E o que dizer de uma saltada em direcção à utopia? Será que ninguém sente a falta de uma escola da tertúlia?
Tirem-me deste filme!

Política educativa…

Até ao final do corrente mês, os representantes dos professores serão eleitos para o Conselho Municipal de Educação.
Como interpretar o alheamento dos professores por esta temática?

Obras…

O meu computador está como o país: Precisa de ser formatado.
Voltarei muito brevemente!

O dia passou a correr. A passada era tão larga que quase não me dei conta da distância.
Sentei-me pregado ao teclado com a intenção de abordar dois assuntos que me ocuparam a atenção durante uma parte do dia. Foi sol que durou pouco! A memória foi assaltada por assuntos mais importantes e a subjectividade tomou conta de mim.
Foi aí que deixei correr a aragem…

Mestres e discípulos
Durante algum tempo ficara apreensivo. Eram uma afronta e uma ingratidão as pequenas desavenças. Por breves momentos, a irreverência era o sinal que eu teimava em não querer perceber. A rejeição não fora comemorada efusivamente! Hoje, só a distância me permite ver que a perda pode ser uma oportunidade!

“[…] O Mestre aprende com o discípulo e é modificado por esta inter-relação através de algo que, idealmente, se converte num processo de troca. O acto de dar torna-se recíproco, como nos meandros do amor. No dizer de Paul Celan: «Sou mais eu quando sou tu.» Os Mestres repudiam os discípulos, considerando-os indignos ou desleais. O discípulo, por sua vez, sente que ultrapassou o Mestre e que deve rejeitá-Io de modo a assumir a sua própria identidade (Wittgenstein ordenar-lhe-á que o faça). Esta vitória sobre o Mestre, com os seus componentes psicanalíticos de rebelião edipiana, pode provocar sofrimento traumático, como acontece no adeus a Virgílio no Purgatorio, de Dante, ou em The Master of Go, de Kawabata. Ou pode constituir uma fonte de satisfação vingativa, tanto na ficção – Wagner triunfa sobre Fausto – como na realidade – Heidegger leva a melhor sobre Husserl, humilhando-o.” (Steiner, G., 2003, p. 15)*

* George Steiner “As lições dos Mestres”. Ed. Gradiva.

Adenda: Reflectindo é um novo ponto de passagem. Está aqui: http://canseiras.blogspot.com/