Só nos faltava mais este…

Miguel Relvas anunciou ainda que o desporto escolar irá ser alargado ao 1.º ciclo do ensino básico.

“O Governo não faz campeões, mas cria as condições para que esses campeões sejam feitos. E, nesse sentido, o Governo criou todas as condições”, defendeu.

Convém ter presente que estas palavras são de Miguel Relvas. E quando Miguel Relvas toca num assunto, há que temer o pior. Depois da previsível machadada na Educação Física, porque não se esperaria outra coisa de um ministro sectário ofuscado pela matemática, resta o desporto escolar para a atrofia definitiva da escola. Ou será que ainda não perceberam que a educação física é uma forma específica da relação do sistema educativo com o corpo?!

À atenção dos iluminados do MEC

Quantas evidências empíricas serão necessárias para convencer pseudocientistas com responsabilidades governativas que a redução da carga horária da disciplina de Educação Física é nefasta ao desenvolvimento integral das nossas crianças e jovens?

Atividade física ajuda crianças com déficit de atenção e hiperatividade

(Estudo publicado no “Journal of Pediatrics”)

As crianças com déficit de atenção e hiperatividade têm um melhor desempenho escolar após a prática de 20 minutos de atividade de física, sugere um estudo publicado no “Journal of Pediatrics”.

Apesar de a maioria dos atuais tratamentos para o déficit de atenção e hiperatividade ter sucesso, muitos pais e médicos estão preocupados com os possíveis efeitos secundários dos mesmos, estando também os gastos com a medicação a aumentar.

Assim, este estudo mostra que a prática de exercício físico pode ser considerada uma ferramenta não farmacológica importante para este tipo de transtorno, a qual deveria ser recomendada pelos psicólogos. (continuar a ler)

Estudo endereçado ao ministro Crato

Não encontrei o registo no Público online (1). Com recursos muito limitados, produzi a imagem que se segue de uma notícia que nos dá conta dos resultados de um estudo longitudinal realizado pela FMH e que tem como destinatário especial o ministro da educação.

Não deixa de ser preocupante a desinformação do MEC, que mente descaradamente, ao declarar ao jornal que os alunos do secundário podem escolher a nota de Educação Física para efeitos de média de acesso ao ensino superior. Percebo a dificuldade em explicar essa decisão, mas haja decoro!

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Adenda: Foi disponibilizada ao final da tarde, aqui: http://www.publico.pt/Sociedade/alunos-que-fazem-mais-exercicio-fisico-tem-melhores-resultados-escolares-1558459?p=1

Educação Física – Resposta do Diretor-Geral da Educação ao Diretor da FADEUP

Acabei de tomar conhecimento da resposta do MEC (por intermédio do Diretor-Geral da Educação, Fernando Egídio Reis) à tomada de posição da FADEUP depois de conhecido o teor da reorganização curricular que desvaloriza a disciplina de Educação Física, contrariando não só esta recomendação do Parlamento Europeu como os resultados da investigação que tem sido produzida nesta área de conhecimento.

É preciso muita desfaçatez para dizer o que disse o senhor Diretor-Geral:

O ponto 10 da Resolução “Exorta os Estados-Membros a tornarem obrigatória a educação física no ensino primário e secundário e a aceitarem o princípio de que o horário escolar inclua, pelo menos, três aulas de educação física por semana, embora as escolas devam, na medida do possível, ser incentivadas a ultrapassar este objectivo mínimo;”

Desafio aqui o senhor Diretor-Geral a provar que existe uma, e basta-me uma, escola pública do país que ofereça três aulas semanais de Educação Física. E se, por hipótese do absurdo, houvesse uma escola a oferecer esse tempo, ainda teria de demonstrar que são cumpridos os 45 minutos de tempo útil de aula que, como se sabe, não contempla o tempo de balneário – equipar e desequipar.

Deixe-se de demagogia barata e reconheça o óbvio e assumam lá a vossa visão atávica de desenvolvimento curricular!

Quanto à resposta falaciosa, junto o PDF para os interessados.

Mau! Se não acerta com a Matemática…

São decisões atrás de decisões sem qualquer sustentação científica ou pedagógica. Em nome de um racionalidade económica que o tempo se encarregará de fazer desacreditar, Nuno Crato tomou uma série de decisões cretinas, porque empobrecerão o serviço público de educação. Dou dois exemplos: a reorganização curricular conceptualmente errada, porque menospreza o desenvolvimento multilateral dos alunos;  e a gestão irracional de recursos, porque coloca em trânsito professores que são necessários às escolas e intensifica o trabalho daqueles que têm horas para completar horário.

Hoje, no blogue do Arlindo, encontrei dois pareceres de duas associações de matemática. Dão que pensar. Quem olha para as Metas de Aprendizagem como um instrumento de controlo e domesticação do trabalho dos professores, vê nestes dois pareceres um documento herético. Eu vejo uma evidência de como o cratês é uma falácia; é uma ideologia populista que assenta num falso critério de autoridade.

Pela análise apresentada, a SPIEM reitera a necessidade de o MEC retirar a proposta de metas curriculares em discussão. Note-se ainda que estão em fase de experimentação outras metas de aprendizagem sobre as quais não existe qualquer avaliação, pese embora a sua sintonia com o Programa de Matemática em vigor no ensino básico. Assim, a SPIEM recomenda que o Ministério da Educação e da Ciência, em vez de propor “novas” metas curriculares, canalize os seus esforços e investimentos para uma ação cientificamente sustentada e que permita que os alunos portugueses continuem a melhorar as suas aprendizagens matemáticas.

Sociedade Portuguesa de Investigação em Educação Matemática

 

O Conselho Nacional da Associação de Professores de Matemática (APM) considera assim que, não tendo ainda terminado a generalização do atual programa de Matemática, introduzir um documento que lhe é antagónico vai ter consequências negativas para o normal funcionamento nas escolas, perturbando o trabalho que os professores vêm realizando e, naturalmente também as aprendizagens dos alunos e a sua relação com a Matemática.

Lisboa, 23 de julho de 2012

Conselho Nacional da APM

Um estudo com dedicatória especial para Nuno Crato

Mais de metade dos portugueses com mais de 15 anos são inactivos

Em Portugal, 51% das pessoas com mais de 15 anos (homens e mulheres) não cumprem os critérios de actividade física recomendada pelos especialistas, segundo a revista científica The Lancet, que divulgou ontem uma série de trabalhos sobre a actividade física em todo o mundo.

Tomada de Posição dos Professores da Faculdade de Medicina de Coimbra – Educação Física

Exm° Senhor

Ministro da Educação e Ciência,

Prof. Doutor Nuno Crato

O documento “Matrizes Curriculares dos Ensinos Básicos e Secundário” merece-nos uma reflexão no que diz respeito à disciplina de Educação Física, por ser uma disciplina que ao promover a prática regular de atividade física, promove a saúde e a qualidade de vida. O sedentarismo é uma condição indesejável e representa um risco acrescido para várias patologias. Estudos epidemiológicos bem desenhados têm demonstrando, de uma forma muito expressiva e inequívoca, a associação entre um estilo de vida ativo e uma menor morbilidade e mortalidade por diminuir os fatores de risco associados a doenças crónicas, sejam cardiovasculares, metabólicas ou degenerativas e, inclusive, do foro psicológico e psiquiátrico.

São vários os benefícios que o exercício físico promove, contrariando as chamadas doenças da civilização como a obesidade, a diabetes mellitus, a depressão, as doenças cardiovasculares isquémicas e o cancro, que são na realidade as epidemias do século XXI. Também numa sociedade em que a esperança de vida aumentou, o exercício físico é fundamental para um envelhecimento saudável, designadamente para que curse sem incapacidade física e mental.

As ações governamentais deverão ter em conta que a promoção da saúde, na qual se inclui o combate ao sedentarismo, deverá começar cedo sendo a escola um lugar privilegiado para valorizar as atitudes e incutir hábitos de vida saudável que irão nortear o indivíduo ao longo da vida.

Promover a atividade física nas escolas é, pois, contribuir para uma sociedade mais saudável e, por conseguinte, ter uma saúde mais custo-efetiva no futuro. A promoção da atividade física permitirá ao Estado poupar significativamente gastos na Saúde. Nós, professores da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra envolvidos no ensino e promoção de estilos de vida saudáveis onde se enquadra a atividade física, pedimos a Vossa Excelência que se reconsidere pelas razões expostas o documento “Matrizes Curriculares dos Ensinos Básicos e Secundário”.

Coimbra, 10 de Julho de 2012

 Prof. Doutor Carlos A. Fontes Ribeiro

 Profª Doutora Anabela Mota Pinto

 Prof. Doutor Manuel Teixeira Veríssimo

 Prof. Doutor João Páscoa Pinheiro

Carta PESSOAL do Presidente da APEF – Foztejo ao Ministro da Educação e Ciência

Exmº Sr Ministro da Educação e Ciência

A Luta pela posse de uma Bola

Pensei traduzir a minha indignação, relativamente à alteração curricular que Vª Exª propõe, mas confesso que a emoção foi tal que tive de esperar algum tempo para, após fazer algumas inspirações com profundidade, saber como o havia de fazer.

Imagine que tenho um filho, ou Vª Exª tem um filho por exemplo, e questiono-me como é que o devo educar. Naturalmente, a minha preocupação começa por contextualizar um desenvolvimento infantil baseado numa boa alimentação e no conforto de um envolvimento afectivo familiar (preferencialmente, no mínimo Pai e Mãe). Eu percebo e sei, que tal não é possível para todas as pessoas. Uns porque têm que bulir, sujeitos às necessidades de sobrevivência, outros porque colocam a sua carreira profissional à frente de tudo, primeiro a carreira depois os filhos e ainda outros por ganância de dinheiro ou de poder, aspectos essenciais para lhes alimentar o ego. Encostam-se aqui e ali, juntando-se a outros com os mesmos objectivos e vão constituindo “lobbies” de poder. Ora bem, todos sabemos que, nos primeiros anos de vida, é fundamental e importante garantir à criança um desenvolvimento equilibrado. Não é necessário tirar uma licenciatura nos EUA. Qualquer Faculdade, mesmo essas muitas dezenas instaladas há uns anos atrás, sabe-se lá com que objectivo, explicam isso. Penso que o referido objectivo foi para valorizar o ensino e a formação das populações, ou de alguma população. O crescimento deve acompanhar um bom desenvolvimento. A qualidade dos estímulos a que sujeitamos a criança é fundamental. O crescimento é-nos garantido por condições saudáveis de vida. Se a genética não nos pregar nenhuma partida, uma boa alimentação, afecto, equilibrado, e um funcional enquadramento familiar, multidisciplinar, social e cultural, são aspectos fundamentais a considerar. Podemo-nos questionar o que é um bom desenvolvimento. Este baseia-se, naturalmente, na particularidade dos estímulos. Começa aqui a nossa discordância. Apercebo-me que para si, os factores cognitivos são os essenciais. Vª Exª é um homem do pensamento. Do pensamento abstracto. Da criatividade, do intelecto. Como se isso fosse um exclusivo da teoria. Esquece aspectos endógenos como os idiossincrásicos. Vª Exª está a ver!? Não pode, nem deve, ignorar o corpo. É ele que o acompanha desde o primeiro dia. Aquele que quando não está bem, transmite sintomas que o fazem, preocupado ou assustado, recorrer ao médico. Aquele que irá ficar consigo até aos seus últimos dias, quer saiba muita matemática, muitas línguas ou não. Isto é, independentemente, das suas potencialidades intelectuais, das suas competências, dos seus conhecimentos, tem que carregar com ele. Estamos perante uma realidade universal. Aquele corpo onde se dão as reacções químicas que sustentam a vida. Sim, porque é da vida que estamos a versar. Aquele corpo que o olha reflectido no espelho. Que lhe alimenta o ego. Que fomenta a vaidade. Que expõe o narcisismo que há dentro de cada um. Que na intimidade promove um diálogo permanente, nem sempre pacífico, com o espírito. Como nos diz André Giordan “O meu corpo, a primeira maravilha do mundo”. Vª Exª vê, já estamos a misturar as coisas. Coisas do corpo, da sua química e coisas da psique, do pensamento. Pois é, eu cá no velho e histórico Portugal, estudei que nós somos uma unidade. Nos EUA não sei, nunca lá fui. Daí que eu conceba um desenvolvimento harmonioso, nomeadamente na população infanto-juvenil, considerando essencialmente, a unidade das áreas, da relação afectiva, cognitiva e motora. Não é por acaso, que por exemplo, a (OMS – Organização Mundial de Saúde), no combate ao sedentarismo, propõe um reforço da actividade física na formação geral nos currículos académicos. Desculpe Vª Exª a audácia e o confronto. Não quero ferir susceptibilidades nem sensibilidades. Parece-me que estamos a amarrar os miúdos às carteiras, com a ergonomia que se lhe reconhece, (muitos miúdos, devido aos “trocos”) e dar-lhes mais do mesmo, conceitos, fundamentalmente teóricos, independentemente dos ritmos de aprendizagem e dos níveis de concentração, até eles se saturarem… ou adormecerem. Atrás do bocejo, vem sonolência, a desconcentração, promovendo assim o abandono. Desculpe, Vª Exª., mas não previu sequer no tempo de aula curricular o tempo para os sentar (aos trinta). Desculpe… é o meu sentido pragmático de analisar as coisas. Não ligue. Sabe, Vª EXª, desde Abril de 74 já tivemos, sentados no seu cadeirão, alguns trinta e quatro ministros, e todos a pôr a mão na legislação. Não hão-de os professores a estar confundidos e, naturalmente a cair na psiquiatria. Voltemos ao hipotético filho.

Ora, a criança expressa-se e desenvolve-se significativamente, na sua unidade, pelo movimento. Sobe, desce, empurra, salta, cai, corre, atira, agarra, equilibra-se, etc.. Atenção, não nos vamos esquecer aqui, dos protegidos, dos “arrumadinhos” que estão sempre fechados e privados, não só do convívio em interacção com o outro, mas também, de se exporem e expressarem através de actividades práticas promotoras de desenvolvimento activo. Está a ver Vª Exª como se começam a imprimir modelos de vida, virados para a actividade ou para o sedentarismo. Isto numa fase do desenvolvimento de significativa dependência. Ora, como parece que somos seres inteligentes, é fácil perceber o que é mais saudável. Não nos podemos esquecer que aquelas crianças que estão fechadas, a família mais próxima que têm é, normalmente, a televisão, com os seus efeitos subliminares neuromusculares (Derrick de Kerckhove, em “A pele da cultura”, estuda isto), depois a televisão e as playstation e, mais tarde, a televisão, as playstation e os computadores. Digo família porque eles passam mais tempo sossegadinhos com estes aparelhos, do que com qualquer elemento da família. Certos pais dizem com orgulho que “_ O meu menino não quer sair de casa” (“está domesticado”). Quando eles vivem a complexa ruptura do abandono da infância, na adolescência, os pais dizem-nos, “_Gostava que ele praticasse algum desporto, mas ele não quer. Não sei o que hei-de fazer dele.” Desde cedo é a publicidade através de filmes coloridos, bem musicados, movimentados, curtos, variados e com a promessa de uma oferta, a estimular o imaginário (e o consumo), que prende os mais novos. As mamãs para eles estarem mais sossegadinhos ainda, até os põem em frente à televisão. Não sei, na minha ignorância, até que ponto começam aqui a ficar referenciados os níveis de concentração das crianças. Os rapazes do Marketing sabem isso e agradecem. É necessário segurar estes potenciais consumidores. Depois da fase publicitária proporcionam-lhes o convívio com desenhos animados. Estes, os desenhos animados, vão acompanhá-los, alternando com os jogos informáticos, até à idade adulta, e continuam no decorrer desta. Pois, diariamente, podemos usufruir de desenhos animados e jogos para adultos. Começa-se com “A Branca de neve e os sete anões” e viaja-se até aos “Simpsons” ou “Family Guy”. Enfim há que infantilizar. Quanto mais infantis, quanto menos crescerem, mais condicionados às referências dos primeiros anos e mais consumistas. Talvez seja oportuna uma leitura a “Consumed – How markets corrupt children, infantilize adults, and swallow citizens whole” de Benjamin R. Barber. Isto claro para ler nas férias numa esplanada à beira mar. Até está em versão “amaricano”. Chomsky chama-lhe «a fabricação do consentimento». Temos ainda aqueles pais, que para compensarem a sua ausência familiar reforçam esta situação com ofertas destes equipamentos. E… atenção, quanto mais caro melhor. Mais compensações afectivas. Mais ganhos afectivos. Julgam eles. Estou a lembrar-me, o que lhe recomendo, do filme português “Adeus Pai”. E eu penso, tenho que libertar o meu filho desta imposição, deste padrão de vida implantado, desta formatação de sujeito. Exmº Sr Ministro veja bem a aberração que não é, darmos a liberdade de movimento que a idade infantil sugere e impõe, potencializar esta motivação que a criança tem para brincar, interagir, explorar e descobrir. Veja bem a aberração que é estruturar situações práticas, com segurança, no contexto da aula, situações estas de grande envolvimento, onde o corpo, na sua unidade, é o objecto de aprendizagem. Promover actividade física com significado. Desafiando a criança a novas aquisições. De superação individual. Com esforço. Atenção, digo com esforço físico e intelectual. Em grupo, onde a criança se expõe e interage, adquirindo novas amizades e, simultaneamente, evoluindo da dependência para a independência. Aprende a confrontar os amigos na posição de adversários e a aceitar isso como natural. É aqui que se promovem correctas atitudes e aquisição de valores, de compromisso e de dever, de obrigação e de reforço das atitudes volitivas. Será isto socialização, prática, experimentada e vivida? Palermices, não ligue. Não terão os pais, os encarregados de educação e a sociedade, o compromisso de proteger e defender a formação e o desenvolvimento multifacetado da personalidade das suas crianças? Estamos perante uma proposta cultural de desenvolvimento, de complexidade progressiva, baseada em acções motoras fundamentais, tal como prevêm e sugerem os PROGRAMAS de EDUCAÇÃO FÍSICA. Sim, porque existem os programas. Aprovados pelo Ministério e concebidos para determinada carga horária semanal. Talvez o Exmº Sr Ministro ignore a sua existência, ou não queira olhar porque o fundamental agora sejam os tais “trocos”. Mas eles existem, há já largos anos, organizados por objectivos gerais e específicos, considerando as capacidades, as atitudes e valores e, ainda imagine, as competências. Veja só, já enquadrava as capacidades de realização por integração de competências. Como Vª Exª pode verificar trata-se dum conjunto de asneiras, mas existem uns visionários, inteligentes, que se propõem já tratar desta situação, rever os currículos e ignorar isto da Educação Física, senão os miúdos não aprendem a contar, escrever e a ler e, ainda assim, podem-se poupar as referidas “massas”. É aqui que lamentavelmente, nutro alguma tristeza pelo significativo esforço, em vão, de alguns intelectuais, nomeadamente Fernando Savater, Edgar Morin, e quantos outros.

Repare Vª Exª que os programas se enquadram numa lógica de verticalidade e horizontalidade, de objectivos, conteúdos e avaliação de competências, desde o Pré Primário ao Secundário. Isto está tudo bem “armadilhado”. Olhe, se Vª Exª estivesse distraído!? Veja só Vª Exª o que eles propõem ainda. Oportunistas como são, enquadrados de acordo com uma lógica cultural de desenvolvimento, e tirando partido da significativa motivação dos alunos para a prática da disciplina (não podemos ignorar a satisfação e gratificação das crianças e jovens na realização das aulas de EF) insistem em continuar a promover os tais estímulos em qualidade, aumentando assim, a rede neurónia, dado que o cérebro continua a crescer e a desenvolver-se. Já viu Vª EXª o que é sujeitar um filho a situações de confronto controlado, de interacção, de cooperação, promovendo o espírito de grupo e equipa? Está mal!? E depois obrigar os miúdos a respeitarem-se, a respeitarem os outros quer como colegas de equipa, quer como adversários, a respeitar o Professor (a instituição), a respeitar as regras e normas? Está mal!? Sujeitar os miúdos a situações de superação individual, a aprender a lidar com a frustração, a promover o espírito de sacrifício, a consolidar aprendizagens e evoluir para novas aprendizagens? Ensiná-los a lutar pelos seus objectivos, de acordo com os objectivos propostos para aquisição de novas competências, cada vez mais exigentes e complexas? Ensiná-los a exporem-se na tentativa de execuções nas situações de aprendizagem, a reforçarem a sua inclusão, a admitirem o erro como um desafio para novas superações, a envolverem-se na estratégia de grupo, a desenvolverem o sentido crítico perante as estratégias utilizadas?

A luta pela posse de uma bola.

Mas, depois, temos o problema deles suarem. Pois é, já me esquecia desse pormenor. Tudo isto está mal!? Eles escolhem, gritam, riem-se, choram, abraçam-se e, veja Vª Exª, que até se emocionam! Emoção. Quantas aulas de outras disciplinas a promovem?? Eu sei que isto não acontece na matemática ou no Português. Não há cá “abraçinhos“ nem as típicas manifestações “Olé, Olé, Olá” quando acertam um problema. Mas um golo, um cesto, merece individual e colectivamente a emoção do grupo. E, para chegar lá, o cérebro tem que pensar, rápido, em pressão, como deve executar ou como deve movimentar-se no espaço perante os outros, equipa e adversários, de acordo com a actividade padronizada proposta, para ser eficaz. E isto vale a emoção dum abraço, que alimenta a unidade do grupo, quer no contexto de aula, quer fora do contexto de aula. Promove ainda um clima escolar facilitador das aprendizagens e, consequentemente, evita o abandono escolar. Já viu Vª Exª, o micro social, grupos, equipas, regras, normas, árbitros, disciplina, luta, empenho, esforço, estratégia, compromisso que um simples jogo representa em termos de amostra para o macro social? Com a vantagem de não ser simulado, é mesmo vivido e integrado. Repare Vª Exª, a aula acabou, eles dizem “_Já!? Oh professor, deixe-nos ficar mais um pouco”. Repare Vª Exª, no recreio eles correm todos para a biblioteca para fazer exercícios de matemática e estudar outros conteúdos. Vá Vª Exª a uma escola e veja por si. São os jogos que os motivam. Estão a treinar. A repetir os conteúdos de EF. Vª Exª já experimentou ler as observações dos alunos nos relatórios das avaliações das escolas? Para muitos é a Educação Física (EF) e o Desporto Escolar (DE) que os leva à escola.

Vou segredar a Vª Exª uma questão curiosa: No primeiro dia de aulas depois das habituais apresentações. Proponho um jogo e, disfarçadamente, observo-os. Depois vejo, quem tem hábitos desportivos e executa com alguma qualidade, quem se empenha, quem se retrai, quem tem medo, quem evita expor-se, quem é egoísta, individualista, quem se expõe demasiado, quem é disciplinado, quem, embora sem grandes técnicas, é lutador tenta superar-se, quem é extrovertido, quem é introvertido. A esta observação acrescento uma leitura da ficha biográfica dos alunos (pais, mães, profissões, empregos, irmãos) e tenho a turma retratada em pouco tempo. Tudo porque a Educação Física tem a particularidade prática de envolver significativamente, os miúdos, alunos, nas actividades solicitadas. Aqui não estão a olhar para o professor ou para o quadro fingindo que estão concentrados e estão com o pensamento distante. Aqui o empenho só pode ser de envolvimento e entrega às situações de aprendizagem. Exmº Sr. Ministro, depois de tudo isto diz-nos que a nota vai deixar de contar para a média no Secundário!!?? Então eu estou motivado, esforço-me e depois não conta? Ainda assim, com médias de sucesso elevadas em Educação Física, dada a motivação e empenho dos alunos. Está a prejudicar a grande maioria dos alunos e a esvaziar e ignorar os compromissos empenhados destes ao longo dos anos. Está a ver Vª Exª a injustiça e revolta que está a promover? Tem razão, Vª Exª é Ministro, logo, tem razão. É evidente, que isto é tudo treta! Vª Exª, não acredite em nada disto. Até aqueles sujeitos daquela organização da saúde (OMS), também estão metidos nisto. Veja só que querem que a actividade física seja diária, como forma de prevenir a doença e promover a saúde. Mas, nós estamos protegidos por pessoas inteligentes do Ministério da Educação. Basta uns minutos por semana de brincadeira e aí estão os hábitos saudáveis de vida implantados, para toda a vida do cidadão, sem promoverem despesas a médio e longo prazo na área da saúde. E depois, o que é isso da prevenção da obesidade infanto-juvenil, diabetes, hipertensão, do reforço da estrutura osteomuscular, da coordenação motora, da estabilidade psicológica, do aumento da auto estima, etc.. Tudo tretas!

Exmº Sr Ministro da Educação não vou alongar mais este resumo. Vª. Exª dá ares de inteligente, prove-o, reflicta nesta situação e reconheça que as coisas não estão bem decididas. Todos nós erramos e por vezes até somos ultrapassados por certas contingências, mas por favor, não estrague! Compreenda o significado da luta pela posse de uma Bola.

Romão G Antunes

(Presidente da Direcção da APEF-Foztejo, Associação de Profissionais de Educação Física dos Concelhos do Barreiro, Moita, Montijo e Alcochete)

Tiro o meu chapéu ao grupo parlamentar do PCP porque…

… Recomenda ao Governo a manutenção da carga letiva da disciplina de Educação Física no currículo do 3º ciclo do ensino básico e do ensino secundário e a valorização do desporto escolar.

A Constituição da República Portuguesa (CRP) consagra no seu artigo 70.º que “Os jovens gozam de proteção especial para a efetivação dos seus direitos (…) nomeadamente na educação física e no desporto”; no artigo 73.º da CRP que “todos têm direito à educação e à cultura” e que para tal “o Estado promove a democratização da educação e as demais condições para que a educação, realizada através da escola e de outros meios formativos”, e também no artigo 79.º que “todos têm direito à cultura física e ao desporto” incumbindo ao Estado “em colaboração com as escolas promover, estimular, orientar e apoiar a prática e a difusão da cultura física e do desporto”.

No mesmo sentido a Lei de Bases do Sistema Educativo, no nº 5 do artigo 51.º, reconhece a importância do Desporto Escolar com o qual “visa especificamente a promoção da saúde e condição física, a aquisição de hábitos e condutas motoras e o entendimento do desporto como fator de cultura (…) salvaguardando-se a orientação por profissionais qualificados”.

O Decreto-Lei n.º 95/91, de 26 de Fevereiro, define como objetivos da Educação Física e Desporto Escolar a “formação integral dos alunos na diversidade dos seus componentes biofisiológicos, sociais e axiológicos, através do aperfeiçoamento das suas aptidões sensoriomotoras, da aquisição saudável da condição física e do desenvolvimento correlativo da personalidade nos planos emocional, cognitivo, estético, social e moral”, e a “prática de atividades corporais, lúdicas e desportivas”. A Educação Física e o Desporto Escolar desempenham ainda um papel fundamental na “ integração e na reabilitação de alunos portadores de deficiências e de necessidades educativas especiais”.

Entendemos por isso que é determinante fazer cumprir o papel da escola pública de qualidade, através da garantia das condições materiais e humanas necessárias e do elevado nível de enquadramento técnico-pedagógico para cumprir o imperativo constitucional de efetivação dos direitos sociais e culturais na educação física e no desporto de crianças e jovens.

A Educação Física e o Desporto Escolar assumem um papel central na garantia da formação da cultura integral do individuo, bem como em dimensões de projetos de combate ao abandono e ao insucesso escolar. O Desporto Escolar abrange largos milhares de alunos, que na sua esmagadora maioria têm nesta atividade a sua única oportunidade de prática desportiva formal e gratuita.

A disciplina de Educação Física assegura a milhares de crianças e jovens uma primeira experiência planificada e sustentada com a atividade física regular nas suas múltiplas dimensões, lúdica e formativa. Aliás, vários estudos científicos justificam mesmo que a prática regular e contínua do exercício físico nos jovens é fator determinante para o aumento do sucesso escolar.

Assim, nos termos e ao abrigo da alínea b) do artigo 156.º da Constituição e da alínea b) do n.º 1 do artigo 4.º do Regimento da Assembleia da República, os Deputados abaixo assinados do Grupo Parlamentar do PCP, apresentam o seguinte Projeto de Resolução:

A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição da República Portuguesa, recomendar ao Governo que:

– Suspenda imediatamente as matrizes curriculares definidas pelo Ministério da Educação e Ciência e enviadas às escolas, alterando correspondentemente o Despacho Normativo n.º 13-A/2012, de 5 de Junho;

– Mantenha a carga horária da disciplina de Educação Física e incremente a disponibilidade de componente de horário de professores prevista para o Desporto Escolar, afeta à componente letiva;

– Considere que a disciplina de Educação Física deve continuar a ser considerada como disciplina a integrar as médias globais do aluno;

– Valorize a Educação Física e o Desporto Escolar, garantindo a sua universalização e a existência de meios materiais e infraestruturas em todas as escolas adequadas aos currículos de Educação Física, assegurando que nenhuma modalidade programática deixa de ser lecionada com a dignidade merecida;

– Que alargue a componente letiva do horário de professor e créditos das escolas para Desporto Escolar e assegure o pagamento das despesas inerentes à realização de atividades e deslocações no âmbito do Desporto Escolar.

 

Assembleia da República, 28 de Junho de 2012

Os Deputados,

RITA RATO; MIGUEL TIAGO; JOÃO OLIVEIRA; JERÓNIMO DE SOUSA; BRUNO DIAS; JORGE MACHADO; BERNARDINO SOARES; JOÃO RAMOS; HONÓRIO NOVO; ANTÓNIO FILIPE

Bandeira a meia-haste

O lugar do desporto numa sociedade moderna deve emergir da sua dimensão holística. Reduzir o desporto às suas dimensões comercial e industrial – é o mesmo que o subjugar às regras de uma economia capitalista onde o espetáculo é o ópio do povo – é amputá-lo de dimensões que catapultam o sujeito para níveis superiores de desenvolvimento: Refiro-me concretamente à prática desportiva devidamente orientada e ao desporto como instrumento educacional, duas prioridades governativas que nenhum governo pode negligenciar. Quando um governo opta por camuflar o que é essencial preferindo relevar o que é acessório numa lógica desenvolvimentista, opta pelo simulacro em vez da política responsável.

É exatamente a triste realidade a que assistimos incrédulos, mas impávidos. É uma lástima o oportunismo conivente da comunicação social que parece apenas interessada em navegar a onda do negócio.

A bandeira do desporto português está a meia-haste!

Um atentado à Educação

Este blogue não é, e não vai ser certamente, um blogue de Educação Física. Mas é um blogue de Educação. E como não há Educação sem Educação Física, há que denunciar o atentado à Educação que este MEC engendra pela via da revisão curricular.

Se pensa que estou a exagerar, veja o vídeo do professor José Soares e considere as razões mencionadas.

Está aqui: http://www.josesoares.pt/2012/06/ef-nas-escolas-isto-e-bem-pior-do-que.html

NÃO HÁ EDUCAÇÃO SEM EDUCAÇÃO FÍSICA

Leonardo Rocha

Coordenador do grupo de especialistas que elaborou as Metas de Aprendizagem da Área curricular de Educação Física

O conhecimento das medidas anunciadas no documento “Matrizes curriculares dos Ensinos básico e secundário” causou-me estranheza, preocupação e indignação, quer pela forma, quer pelas consequências, nas resoluções que apresenta para uma problemática tão sensível e emergente da sociedade portuguesa.

Pela forma, porque se trata de uma medida encapotada na pretensa delegação de autonomia às escolas. Delegar competências implica assegurar a todos os decisores a melhores condições estruturais e organizativas para que as suas decisões possam ser assumidas em plenitude de direitos e obrigações. Os constrangimentos atuais e herdados com que as escolas se debatem, a falta de uma cultura que dê visibilidade à necessidade e utilidade da Educação Física escolar, o descompromisso formativo de quem nos governa, conduzirão, naturalmente, alguns decisores locais a procurar soluções administrativas que, reduzam custos, facilitem a organização dos horários e desmobilizem o envolvimento crítico e democrático dos diferentes agentes educativos. Poderão as escolas decidir que não querem mais horas de matemática?

Ainda pela forma, porque ignora os consensos científicos e pedagógicos conseguidos pela prática e reflexão de centenas de docentes de vários níveis de ensino e áreas de formação, para quem os curriculum devem ser uma unidade estruturante fundamental de organização e gestão da vida das escolas. Como exemplo refira-se a suspensão, sem que se conheçam os motivos, das “Metas de Aprendizagem”. O que temos hoje? Umas servem, outras não! Algumas estão publicadas, outras… ainda não! Quando o mais importante foi o processo de esclarecimento e aproximação entre especialistas de todas as áreas curriculares dos Ensinos básico e secundário, informa-se (decide-se) que a “decisão” de distribuir a carga horária cabe a um órgão de escola cada vez mais burocrático e administrativo.

Pelas consequências, porque ao ignorar pareceres e recomendações de vários organismos internacionais e nacionais conceituados (Comissão Europeia, Parlamento Europeu, Parlamento Português, Organização Mundial de Saúde, entre outros), diminui a participação da área curricular “Educação Física” na identificação e resolução de problemas emergentes da sociedade portuguesa – sedentarismo e obesidade. Quando a generalidade dos estudos realizados em todo o mundo sugerem que se deve aumentar o tempo de prática de atividade física na escola entre as crianças e os jovens, o diploma “Matrizes curriculares para os Ensinos básico e secundário” reduz a possibilidade dos alunos terem acesso a um recurso essencial para o seu desenvolvimento – a prática orientada de atividade física. Retirar aos alunos tempo de prática curricular impede-os de consolidarem competências fundamentais á procura e habituação a um estilo de vida ativo no futuro! Remete-os para zonas nebulosas onde usufruir de uma atividade física regular depende de “gostar” ou “ter jeito”, como se o sedentarismo, considerado já em alguns países como doença, fosse um comportamento aceitável.

Ainda pelas consequências, porque explicitamente transmite, de novo, a ideia que a área curricular da Educação Física não é importante, depende de boas vontades, poderá mesmo ser facultativa. Quando, de novo, se engloba a Educação Física numa denominada área de Expressões, oculta-se o seu principal campo de intervenção, escamoteia-se a importância dos conteúdos que ensina, desprezam- se os argumentos da comunidade científica da área. De novo a imagem de Educação Física que trespassa a professores, alunos e pais é desvalorizada nos seus objectivos e desvirtuada dos seus propósitos.

Tudo isto é exatamente o contrário do que precisávamos.

Promover a atividade física na escola e fora dela é um imperativo nacional que não pode estar dependente de governações a prazo.

Não há Educação sem Educação Física.

Educação Física – Parecer elaborado pelo CNIPE (Conselho Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação)

Parecer sobre a contabilização da classificação de Educação Física na média do Ensino Secundário para efeitos de ingresso no Ensino Superior.

(…) a CNIPE entende que a obrigatoriedade da sua frequência se deve manter, e a sua nota ter o mesmo peso que as demais disciplinas, podendo no entanto, a sua avaliação ser feita de acordo com as competências demonstradas pelos alunos, e não pela sua capacidade de execução dos conteúdos, privilegiando assim, uma atitude positiva para superar constrangimentos individuais, valorizando o esforço empregue e motivando a adopção de um estilo de vida saudável, numa sociedade que não o valoriza.

(…) No que respeita ao acesso ao ensino superior, e como última opção a CNIPE julga que se forem consideradas as três melhores classificações das quatro disciplinas do tronco comum, desde que se considere sempre a(s) especificas se cria maior igualdade nas condições de acesso, com base na valorização das competências individuais.

Ler o parecer aqui.

Matrizes curriculares – Tomada de posição _Professores catedráticos

Exmo Senhor

Ministro da Educação Prof. Doutor Nuno Crato

Excelência

A publicação do documento “Matrizes Curriculares dos Ensinos Básico e Secundário” suscita-nos a maior perplexidade, no que à disciplina de Educação Física diz respeito, dadas as suas implicações na formação e desenvolvimento harmonioso dos alunos e nas consequências que necessariamente terá na sociedade portuguesa.

Não se vislumbram razões de ordem pedagógica e científica nas medidas adoptadas. Pelo contrário, são decisões que contrariam não só recomendações de instituições internacionais credíveis (Comissão Europeia, Parlamento Europeu, Organização Mundial de Saúde, para citar apenas algumas), mas também a própria evidência científica.

Refira-se um exemplo:

Childhood is an important period to instil a preference for healthy behaviours, and to learn the life skills necessary to maintain a healthy lifestyle. Schools clearly play a crucial role in this respect. This is also an area where there is already firm evidence of the effectiveness of intervention: studies show that locally focussed actions, with very wide ownership, targeting 0-12 year olds will be effective in changing behaviour in the long run. Work should focus on nutrition education, and on physical activity. Health education and physical education are among priority themes in the new Lifelong Learning Programme (2007-2013)(In, White Paper “A Strategy for Europe on Nutrition, Overweight and Obesity related health issues”, 2007,Commission of the European Communities, 2007, pag. 8).

As chamadas de atenção da parte da Comissão Europeia foram feitas considerando que:

1) Estão muito bem documentados os benefícios para a saúde da prática das actividades físicas e desportivas na infância, na adolescência e na idade adulta.

2) É muito preocupante a percentagem de crianças e jovens que apresenta baixos níveis de actividade física. A situação apresenta-se particularmente grave nas raparigas, nas crianças e jovens portadores de deficiência, e nos alunos oriundos de famílias com fracos recursos económicos.

3) É cada vez maior o número de crianças e jovens com excesso de peso e obesidade, como resultado de uma dieta inadequada, ou pouco variada, e reduzida actividade física.

4) As crianças e jovens sedentários estão mais predispostos a converterem-se em adultos inactivos.

5) Reconhece-se não ser possível resolver o problema do sedentarismo e da obesidade nas crianças e jovens sem o contributo da Escola e da Educação Física.

Acontece que, infelizmente, Portugal está entre os Países com taxas mais elevadas de sedentarismo e obesidade entre a população infantil e juvenil. Assim, torna-se totalmente incompreensível a decisão de reduzir a carga horária da disciplina de Educação Física no 3º ciclo e no ensino secundário, ou deixá-la à decisão última das Escolas.

Procurar solucionar o fraco rendimento escolar dos estudantes portugueses, em algumas áreas disciplinares, à custa da redução do tempo lectivo atribuído à Educação Física, é um preconceito que não tem qualquer sustentação científica, e que terá necessariamente efeitos perversos no desenvolvimento harmonioso da população escolar e agravará os custos do país com a saúde pública.

A decisão do Ministério da Educação e Ciência de reduzir a carga horária da Educação Física ocorre, paradoxalmente, quando um número crescente de estudos tem vindo a demonstrar que:

1) A prática estruturada da actividade física e do desporto, na Escola, exerce uma influência positiva no comportamento, na atenção, na aprendizagem e no rendimento escolar dos alunos.

2) O rendimento escolar é mantido, e algumas vezes aumentado, quando existe um incremento dos níveis de actividade física formal na Escola, situação que se verifica mesmo nos casos em que há uma redução do tempo curricular ou do tempo livre dedicado ao estudo de conteúdos predominantemente cognitivos.

Reduzir a carga horária da Educação Física não tem como consequência apenas privar a população escolar de uma parte da actividade física a que tem direito e necessita para o seu pleno desenvolvimento. É limitar significativamente a oportunidade de todas as crianças e adolescentes adquirirem os conhecimentos e desenvolverem as atitudes e competências necessárias para uma participação emancipada, satisfatória, consciente e prolongada na cultura do movimento ao longo de toda a vida. Significa ainda desvalorizar, perante a sociedade em geral, a importância de uma prática regular das actividades físicas e desportivas e a responsabilidade de cada cidadão assumir um estilo vida activo e saudável.

As reformas educativas (e curriculares) só ganham verdadeiro significado pedagógico e social quando contribuem para melhorar a formação daqueles que frequentam o sistema educativo, beneficiando a sociedade no seu conjunto. Não se conseguem apreender os benefícios que resultarão para os alunos e o país da concretização das medidas constantes no documento “Matrizes Curriculares dos Ensinos Básico e Secundário”.

Se por hipótese, com a publicação do documento “Matrizes Curriculares dos Ensinos Básico e Secundário”, o Ministério da Educação e Ciência pretende alcançar objectivos que nada têm a ver com a formação da população escolar, então V. Exª tem o dever ético de os dar a conhecer à população portuguesa.

Nem a actual situação de crise financeira e económica justificam tal medida; há já algum tempo que estudos de organismos internacionais concluíram que o investimento em Educação Física e Desporto representa a melhor poupança nos gastos com a saúde.

Na expectativa de que não deixará de reconsiderar a decisão tomada, colocamo-nos à disposição de V. Exª, e do Ministério da Educação e Ciência, para os esclarecimentos que possa entender úteis.

Com os melhores cumprimentos,

António Manuel Fonseca

Prof. Catedrático, Universidade do Porto afonseca@fade.up.pt

António Marques

Prof. Catedrático, Universidade do Porto amarques@reit.up.pt

António Rosado

Prof. Catedrático, Universidade Técnica de Lisboa arosado@fmh.utl.pt

António Veloso

Prof. Catedrático, Universidade Técnica de Lisboa apveloso@fmh.utl.pt

Carlos Ferreira Neto

Prof. Catedrático, Universidade Técnica de Lisboa cneto@fmh.utl.pt

Francisco Bessone Alves

Prof. Catedrático, Universidade Técnica de Lisboa falves@fmh.utl.pt

Francisco Carreiro da Costa

Prof. Catedrático, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias fcarreiro.costa@gmail.com

Francisco Sobral Leal

Prof. Catedrático, Instituto Superior Dom Afonso III

fjsobral@gmail.com

João Abrantes

Prof. Catedrático, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias joao.mcs.abrantes@ulusofona.pt

João Barreiros

Prof. Catedrático, Universidade Técnica de Lisboa jbarreiros@fmh.utl.pt

João Paulo Vilas-Boas

Prof. Catedrático, Universidade do Porto jpvb@fade.up.pt

Jorge Bento

Prof. Catedrático, Universidade do Porto jbento@fade.up.pt

Jorge Ferreira Crespo

Prof. Catedrático, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

Jorge Mota

Prof. Catedrático, Universidade do Porto jmota@fade.up.pt

Jorge Proença Martins

Prof. Catedrático, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias defdl@ulusofona.pt

José Alberto Ramos Duarte

Prof. Catedrático, Universidade do Porto jarduarte@fade.up.pt

José Alves Diniz

Prof. Catedrático, Universidade Técnica de Lisboa

JADiniz@fmh.utl.pt

José Gomes Pereira

Prof. Catedrático, Universidade Técnica de Lisboa jgpereira@fmh.utl.pt

José Maia

Prof. Catedrático, Universidade do Porto jmaia@fade.up.pt

José Soares

Prof. Catedrático, Universidade do Porto jmsoares@fade.up.pt

Leonor Moniz Pereira

Profª. Catedrática, Universidade Técnica de Lisboa lmpereira@fmh.utl.pt

Luís Bettencourt Sardinha

Prof. Catedrático, Universidade Técnica de Lisboa lsardinha@fmh.utl.pt

Pedro Cordeiro Sarmento

Prof. Catedrático, Universidade Lusíada pacsarmento@hotmail.com

Pedro Teixeira

Prof. Catedrático, Universidade Técnica de Lisboa pteixeira@fmh.utl.pt

Rui Proença Garcia

Prof. Catedrático, Universidade do Porto rgarcia@fade.up.pt

Sidónio Serpa

Prof. Catedrático, Universidade Técnica de Lisboa sserpa@fmh.utl.pt

Ao cuidado de Nuno Crato.

… a matemática está muito mais ligada ao cérebro esquerdo e a criatividade ligada mais ao cérebro direito, as pessoas que nasceram com uma certa prevalência do cérebro direito relativamente ao cérebro esquerdo também vão ficar prejudicadas. Coitados, vamos tirar a matemática, ou as línguas, a geometria e o desenho, dos currículos para não causar stress às pessoas que ficam mais favorecidas pelo cérebro direito ou pelo cérebro esquerdo… (José Soares)

Ver o vídeo aqui.

Ainda sobre a panela de pressão…

Caro Sr.

Albino Almeida

Quero dar-lhe os meus parabéns pela vitória que ajudou a conseguir neste particular. Aliás, o seu rejubilo acerca desta temática evidencia isso mesmo.

Contudo, como pai, gostaria de lhe dizer que a minha filha e cerca de 80 a 90% dos estudantes filhos de pais que V. Exª diz representar e defender, consideram que o senhor faz, e continua a fazer, um péssimo serviço em defesa dos direitos e das melhores condições possíveis para o sucesso escolar dos nossos filhos. Se não compreende o que lhe pretendo transmitir, vou tentar explicar-lhe. Para além disso, pode consultar um anexo que lhe envio e que pertence a uma escola secundária deste país, que se chama Escola Secundária de Almeida Garrett, em Vila Nova de Gaia.

Veja V. Exª que ao apoiar esta medida vai contra os interesses de 90% dos alunos do ensino secundário, cuja média de EF ajuda a melhorar a média final de acesso ao ensino superior.

Dou-lhe um exemplo real. A minha filha é aluna desta escola numa das turmas do 11º ano. Se fizer a média atual com EF, a média final é de 17,714 valores; se retirar a classificação de EF a média cai para os 17,5. Já fez as contas às classificações dos seus filhos, se é que os tem? E às dos filhos dos seus amigos? E às dos filhos daqueles que nada lhe diz nada?

Penso sinceramente que só refletiu acerca daqueles, muito poucos, que por terem 20 à maioria das disciplinas, não conseguem atingir essa classificação a educação física. No entanto, é prática transversal nas escolas públicas deste país que os conselhos de turma têm em consideração esta situação e, normalmente, votam a subida da classificação à disciplina de EF. Paralelamente, nas escolas privadas, se o aluno tiver 20 às demais disciplinas, nem necessita de realizar as auals de EF, pois obtém 20 administrativamente. Ora esta vergonha, que também o devia envergonhar, e pela qual deveria lutar em virtude das assimetrias que causa aos filhos daqueles que diz representar, parece não o incomodar, vá lá saber-se porquê!!!!

Em comentário às suas infelizes declarações, que passo a citar ““É uma medida positiva, porque vai libertar os alunos de uma pressão desnecessária”, posso dizer-lhe que continua a fazer um mau papel como representante dos pais dos filhos que frequentam as nossas escolas. Se o senhor for às escolas, assistirá exatamente ao contrário, pois as aulas de EF e as classificações que os alunos obtêm, são bem mais benéficas, saudáveis e psicologicamente favoráveis do que a pressão do testes intermédios, dos exames nacionais, das classificações obtidas a disciplinas como Português, Matemática, Física e Química, Biologia e Geologia, … Será que o senhor não lê jornais? Não tem conhecimento das médias nacionais dos testes intermédios e das médias nacionais dos exames? Como pode alguém dizer de forma completamente incongruente, tal como o senhor o fez, que a classificação da disciplina de EF causa pressões desnecessárias? Sinceramente, o senhor não tem o direito de representar um organismo que deveria defender os interesses dos alunos, PREJUDICANDO-OS.

Sobre as implicações atitudinais e disciplinares que esta media acarreta, que já as conheço, porque por elas passei antes da medida de David Justino (ministro que como deverá saber foi quem introduziu a medida que agora é tirada violentando os alunos), falaremos mais tarde. Quando os alunos não se interessarem por uma disciplina que não lhes afeta o futuro, revelando atitudes de irresponsabilidade, desmotivação, falta de empenho, etc, quando esta medida contribuir para o aumento do sedentarismo (pois quem não tem estímulos não cria hábitos), quando os alunos tiverem comportamentos inadequados perante recusas na realização de tarefas, etc, quando os processos disciplinares se forem acumulando nas escolas, o senhor como corresponsável e apoiante desta medida absurda deveria ser responsabilizado.

Mas como em tudo neste país, somos fruto de ações incompetentes que não responsabilizam quem prevarica.

E já agora, eu chamo-me Paulo Mota, sou coordenador do Departameno de Expressões da Escola Secundária de Almeida Garrett, escola na qual acumulo as funções de encarregado de educação, função esta que serviu de mote para esta reflexão.

Para finalizar, sugiro que faça um inquérito que não necessita de uma amostra muito extensa e questione os alunos acerca da mentira que criou na sua mente – Qual a disciplina ou disciplinas que te colocam maior pressão? Quer que lhe diga a resposta que vai obter? Não, não lhe vou dizer, pois tenho a certeza que, como não perde tempo a analisar as reais consequências que as classificações nas diferentes disciplinas curriculares têm nos filhos daqueles que diz representar, sobra-lhe tempo para estudar antes de saber e para refletir antes de agir.

Tenho a certeza que quando analisar bem a situação, vai dizer aos seus companheiros do governo que se calhar enganou-se, pois as classificações que não deverão contar para a achar a média de acesso correspondem a outras disciplinas…que não a EF.

Paulo Mota

A propósito do erro crato de retirar tempo à Educação Física…

… divulgo um testemunho interessante que foi retirado do blogue do professor José Soares.

Um mail de um ex-aluno meu sobre as questão das horas de EF.

do José Soares de José Soares

Este mail foi-me enviado por um ex-aluno aquando da publicação do meu vídeo sobre a redução de horas de EF. Pedi autorização para o publicar na íntegra e aqui está uma reflexão muitíisimo interessante.

Caro Prof. José Soares,
O meu nome e Ricardo Furriel e foi com muito agrado que escutei o seu vídeo acerca da Educação Física nas escolas.
Eu acabei a minha licenciatura na FCDEF (agora FADEUP) em 2002 e estou desde 2003 em Nova Iorque a dar aulas de Educação Física.
Depois de ver o vídeo, o que me chamou mais a atenção foi a parte do seu encontro com a Secretaria de Estado. Deu para entender que ela estaria super interessada e motivada para fortalecer a ideia de saúde e bem estar nas escolas publicas. Mas os problemas parecem sempre começar a partir dai: as ideias e vontade criam-se, mas não há um plano e implementação dessas mesmas ideias.
Eu fiz Erasmus em Roma no meu 4o ano do curso (2000/01) e em 2001/02 estagiei na Escola António Sérgio em Gaia. Já nessa altura se falava em investir mais no desporto escolar, proporcionar horas extras a docentes e alunos, alertar para a necessidade de maior foco na saúde e bem-estar etc… Tudo boas ideias, mas que sem apoios (financeiros, logisiticos e admnistrativos) essas ideais acabam sempre por acabar no esquecimento.
10 anos volvidos e o cenário não me parece que esteja a mudar. Os meus colegas, alem de não saberem se tem emprego ou não, alguns deles com família, contam-me historias que eu costumava ouvir na António Sérgio… ou pior! Ou seja… o que aconteceu nos últimos 10 anos?
Para lhe fornecer uma ideia mais clara daquilo que eu estou a falar: eu trabalho numa escola publica, high school (o equivalente ao nosso ensino secundário), com alunos do 9o ao 12o ano (aqui são quatro anos ao contrario de 3 em Portugal).  Todos os alunos tem que completar 7 semestres de Educação Física e um semestre de Saúde para lhes ser atribuído o diploma. Todos os alunos tem Educação Física todos os dias durante 48 minutos. Na minha escola, as instalações incluem 1 piscina olímpica (reabriu este ano), 2 ginásios de musculação, 1 sala de spinning, 2 salas de dança, 1 sala de yoga, 1 sala de wrestling, 1 pavilhão de voleibol, 1 pavilhão de basket, 1 campo de futebol / futebol americano / basebol com pista de atletismo e 4 campos de ténis.
Antes de continuar, eu estou a par da realidade e sei que não e possível comparar com Portugal. Mesmo aqui em NYC há muito poucas escolas que tem estas instalações. Mas todos os anos a minha Principal (equivalente a Presidente do CD) põe uma determinada parte do orçamento para o desporto. E não e opção, ela tem mesmo que fazer isso. E porque? Porque da um bom nome a escola e atrai estudantes e pais. E quantos mais estudantes concorrerem a escola, melhor publicidade a escola tem. E o ciclo continua.
Outra das coisas que e fulcral em Nova Iorque e o desporto escolar. Os clubes são extra quando falamos em atletas. A minha escola tem 22 equipas e um total de 400 atletas. Os vários desportos são praticados 3/4 meses por ano e e normal um atleta que joga futebol de Setembro a Novembro faca parte da equipa de Atletismo Indoor de Dezembro a Fevereiro e Outdoor de Marco a Junho. Isto só para dar um exemplo. As universidades americanas recrutam 99% dos seus atletas nas escolas secundarias. Todo este processo ajuda os atletas, pais, professores e administradores a perceberem e a respeitarem o que e desporto, o que e Educação Física e o quão importante e a saude e o bem estar para o seu dia a dia.
Claro que depois de saírem da escola tem um McDonalds e um Burger King a cada canto, mas pelo menos há vontade e realmente investimento no que concerne a Educação Física. Eu como professor de Educação Física sinto-me obrigado a informar todos os meus alunos da importância de uma boa alimentação, sono, exercício etc para melhorar o seu bem estar. E a razão maior e porque os meus superiores me dão incentivo para tal.
O ponto a que queria chegar: se só houver vontade por parte de quem manda, ira ser complicado. O mercado da Educação Física nas escolas em Portugal esta saturadissimo. Os professores “novos” com vontade, disponibilidade e crença em melhorar o “sistema” não tem lugar. Com os cortes orçamentais que se vem nos jornais todos os dias não me parece que a situação vá mudar a curto prazo.
Infelizmente para a educação física nas escolas.

Um abraço,
Ricardo Furriel

Há alguma coerência?

Resolução da Assembleia da República n.º 68/2012

Recomenda ao Governo a adoção de medidas tendentes ao combate da obesidade infanto-juvenil em Portugal

(…) 8) A criação de um programa nacional de desporto escolar, organizado por regiões e elaborado em conjunto com os professores de educação física;

Aprovada em 9 de março de 2012

Matriz Curricular 3º ciclo – Menos tempo para Educação Física, mais para Educação Visual

carta aberta ao ministro da educação

No blogue do Paulo tomei conhecimento da posição das CNAPEF e SPEF a propósito das matrizes curriculares, com a qual concordo, e que a seguir publico:

“Exmo. Sr. Ministro da Educação e Ciência, Prof. Dr. Nuno Crato,

Foi com profunda indignação e total discordância que a comunidade da Educação Física (EF) se confrontou, no passado dia 25 de maio de 2012, com o teor da matriz curricular para implementar no ano letivo 2012/13, disponibilizada no sítio da Direção Geral de Educação (DGE).

A total falta de coerência entre o conteúdo desta matriz e o do documento referente à Revisão da Estrutura Curricular que o Ministério da Educação e Ciência (MEC) apresentou como a proposta final decorrente deste processo, no dia 26 de Março de 2012, ao movimento associativo de Educação Física e público em geral, só nos pode levar a concluir que se trata de um equívoco por parte do MEC, um erro que urge corrigir.

Não são minimamente sustentáveis as decisões que este documento encerra. Para além de não existirem nenhumas razões conceptuais, científicas e de natureza curricular que fundamentem a agregação da Educação Física, Educação Visual, TIC e Oferta de Escola numa área intitulada de Expressões e Tecnologias no 3º ciclo, é atribuído um crédito total de minutos a esta área para ser gerido no seio de cada escola, de acordo com o critério dos seus gestores, permitindo que possa vir a desprezar-se totalmente a carga horária que estava definida para a área disciplinar da Educação Física, por ano/ciclo de escolaridade, que já de si era claramente insuficiente face a todas as orientações internacionais, nomeadamente europeias. No caso particular do Ensino Secundário, é proposta uma redução de trinta minutos na carga horária da disciplina de Educação Física, o que perfaz cerca de menos 16 horas de aulas anuais, ou seja, menos cinco semanas de aulas por ano.

Esta proposta de matriz promove de forma totalmente injustificada e sem qualquer base científica uma redução horária da única área do currículo que contribui direta e decisivamente para a saúde da população infanto-juvenil portuguesa, num contexto em que o país revela a segunda maior taxa de prevalência de obesidade e sobrepeso da Europa, e uma das mais baixas taxas de prevalência de atividade física. Consequentemente, promove o desenvolvimento de um dos maiores flagelos do século XXI, o sedentarismo, e compromete o imprescindível desenvolvimento de hábitos de vida saudável na população portuguesa. Esta matriz, para além de contrariar todas as orientações curriculares europeias, no que à Educação Física diz respeito, surge em contraponto a uma recente resolução da Assembleia da República Portuguesa, onde se reconhece a necessidade de se reforçar a atividade física da população em idade escolar. Perante estas evidências, está Vossa Excelência consciente das consequências nefastas para a saúde da população portuguesa desta decisão e na disponibilidade de a assumir junto dos alunos, pais e do país em geral? Estará Vossa Excelência convenientemente informado sobre o impacto económico da prevenção da doença através da atividade física previsto pela Organização Mundial da Saúde?

Deste modo, perante as graves consequências para as finalidades do sistema educativo nacional e a forte indignação da classe dos profissionais da Educação Física face a esta orientação de que Vossa Excelência é o principal responsável, vimos solicitar uma audiência urgente e exigir a suspensão imediata desta proposta tão controversa quanto peculiar.

Os Presidentes das Direções do CNAPEF e da SPEF

João Lourenço

Marcos Onofre”

Hipocrisia legislativa.

A mexida nas matrizes curriculares e a subtil diminuição dos tempos letivos em quase todas as disciplinas que fazem parte dos planos curriculares vem, inevitavelmente, relançar a discussão sobre os limites da autonomia das escolas. O MEC não abandona a bandeira da autonomia e insinua que, dentro de limites temporais máximos por ano letivo e mínimos por disciplina, as escolas têm liberdade para organizar e gerir o seu tempo.

Não tardará a confirmação sobre a boa-fé do MEC, quando for explicada a forma de contabilização dos minutos letivos a cumprir pelos docentes e a forma como serão considerados nos horários legalmente atribuídos aos professores, como alerta a FENPROF. Adiante.

Admitamos que o MEC agiu com honestidade e que os objetivos pedagógicos prevaleceram face aos objetivos económicos. Admitamos que não está em causa a intensificação do trabalho docente, para os que ficam, e a diminuição de horários de trabalho, para troika ver. Centremos o olhar na lógica organizacional e esqueçamos a rotina dos toques de campainha e outros constrangimentos que atentam contra a liberdade de organizar o trabalho escolar. Esqueçamos ainda que estes constrangimentos existem porque a escola passou a ser um depósito de alunos e a lógica taylorista acaba por ser exclusiva e paradoxalmente necessária para evitar o caos. Esqueçamos a entropia que emerge da criação dos Mega ou Hiper-agrupamentos. Depois desta amnésia que vos sugeri, passemos à liberdade de organização das escolas e à propalada autonomia. Mas façamo-lo aclarando a noção do tempo, ou dos tempos, dos vários tempos:

O MEC determinou um tempo para o programa. É o tempo institucional, formal. Foi mais longe e definiu que esse tempo é um tempo útil ou funcional que, no caso da Educação Física, por exemplo, é o tempo que resta depois de descontar o tempo passado nos balneários. Resta ainda o tempo disponível para a prática, o tempo na tarefa e os restantes tempos didáticos adstritos a cada disciplina.

Ora, regressando ao caso da organização do tempo da disciplina de Educação Física, as lógicas administrativas têm roubado aos alunos tempo útil ou funcional. Arrisco dizer, e não imaginam como gostava de ser desmentido, que não há uma escola portuguesa que cumpra o tempo útil que legalmente está definido para a disciplina. Nenhuma escola cumpre a lei!

E conhecendo bem as lógicas que prevalecem na escola taylorista, não me venham acenar com a cenoura da autonomia porque o que está em causa é a legitimação do roubo aos alunos de um tempo a que têm direito e que é vital para o seu desenvolvimento físico-motor (como demonstram inúmeros estudos nacionais e internacionais repetidamente anunciados pela imprensa, mas hipocritamente ignorados pelos (ir)responsáveis políticos.

Se houvesse boa-fé do ME sobre a organização do tempo, até porque conhecem o que se passa com a disciplina de educação física e a incapacidade das escolas em gerirem o tempo, esta proposta de reorganização curricular teria ficado na gaveta.

E não se pense que o digo porque me deixo entrincheirar por uma lógico corporativista. Pelo contrário: se as escolas soubessem, ou pudessem, gerir a pluralidade de formas organizativas do tempo, a perda de 30 minutos semanais na disciplina de Educação Física no ensino secundário (de 180 para 150 na atual proposta), por exemplo, traduzir-se-ia num ganho considerável para os alunos. Se as escolas respeitassem a lei, 150 minutos de tempo útil por semana expressaria uma distribuição do tempo útil de 2 períodos de 60 minutos e 1 período de 50 minutos por semana, por exemplo. Havia, face ao atual quadro, um acréscimo de tempo de aula para os alunos. Ora, nenhuma escola pode respeitar a lei porque esta “escola contentor” não admite criatividade na organização do tempo.

Sejam sérios e deixem-se de demagogia barata, por favor!

Chico-espertice

Findo o período de discussão sobre a revisão da estrutura curricular dos ensinos básico e secundário, o ME apresentou em Março do corrente ano as matrizes com a distribuição das cargas letivas semanais por disciplina em períodos de 45 minutos. clip_image002

Antecipando a apresentação do diploma completo que aguarda publicação, o MEC reformula as matrizes com uma cândida cambiante: apresenta a carga horária mínima semanal por disciplina… em horas.

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O Nuno explica muito bem o que está verdadeiramente em jogo bem(?) camuflado pela retórica da autonomia:

150 ou 180 minutos?

150 corresponde a três tempos de 50 minutos.

180 corresponde a quatro tempos de 45 minutos. 

Com 150 minutos ganha-se um tempo nos horários!

250 ou 270 minutos?

250 corresponde a cinco tempos de 50 minutos.

270 corresponde a seis tempos de 45 minutos. 

Com 250 minutos ganha-se um tempo nos horários!

Aquilo a que o Nuno denominou de engenharia legislativa, na minha terra chama-se chico-espertice.

Articulação curricular ou perda de autonomia docente?

Será desta que o MEC vai dar o exemplo na tão ambicionada articulação curricular? Ou a ideia é condicionar ainda mais o espaço de liberdade dos professores e das escolas na abordagem aos programas das diferentes áreas disciplinares?

Foi criado mais um grupo de trabalho cuja missão principal é a definição das Metas Curriculares. O objetivo deste grupo é a identificação de forma clara: dos conteúdos fundamentais que devem ser ensinados aos alunos; A ordenação sequencial ou hierárquica dos conteúdos ao longo das várias etapas de escolaridade; Os conhecimentos e capacidades a adquirir e a desenvolver pelos alunos.

Contraciclo

Os alunos portugueses de 15 anos dedicam 5,8 horas por semana ao estudo individual e a TPC de Matemática, Ciências e Português, segundo o relatório PISA de 2006. A média da OCDE é de 4,9.

É assim tão absurda a hipótese que correlaciona os maus resultados dos alunos portugueses, em estudos internacionais, nas disciplinas de Matemática e de Português com o fenómeno de sobretreino?

Isto vem a propósito de uma história verídica que, a meu ver, atesta um dos efeitos perversos do mercado das explicações. Eu dou uma pista: Enquanto o “explicador” avança na matéria sem ter em conta o ritmo do trabalho escolar, o professor na turma debate-se com o problema de intervenções despropositadas de alunos explicandos iluminados, que se podem dar ao luxo de relaxar nas aulas e perturbar o trabalho dos seus colegas que trabalham em exclusividade na escola.

Antes de incrementar a carga horária a Matemática e Português não seria mais sensato determinar as causas de um eventual desinvestimento dos alunos?

Exames nacionais – Perguntas retóricas

Se os exames têm esse efeito admirável nos resultados escolares, ou porque dá um ar sério ao ensino sugerindo aos alunos que a escola não é para brincadeiras ou porque obriga o professor a trabalhar (coisa que só acontece quando há um exame no horizonte, como se sabe), por que razão as médias nacionais das disciplinas mais examinadas (Português e Matemática, por exemplo) não cavalgam para a excelência?

Quantos anos de exames nacionais serão necessários para que os alunos levem a coisa a sério?

Revisão curricular – Grupos/Turmas de nível – Remate

É evidente que o MEC não deseja a criação de turmas de nível. Ficaria muito caro e comprometeria a retórica oficial do cratês useira da falácia “fazer mais com menos”. Como diria a vendedora no mercado do Bolhão: “bom e barato? No olhinho do **, minha senhora”.

Creio que não existe um consenso alargado sobre o significado e alcance do conceito turmas de nível. Há quem as veja como uma forma de legitimar a segregação classista que é realizada, de modo camuflado obviamente, em algumas escolas públicas (turmas de uma pseudo elite paroquial). Há quem as veja, como é o meu caso, como uma aplicação natural da pedagogia diferenciada, aquela pedagogia que olha para o aluno como sujeito único, idiossincrático.

É evidente que o MEC não está interessado em reforçar o crédito global de horas das escolas – Um dos pré-requisitos para a oferta multilateral de atividades letivas…

É evidente que a discussão em torno da criação de turmas de nível emerge de uma medida inscrita no comunicado do MEC, relativo à revisão curricular:

implementar medidas que incrementem a igualdade de oportunidades, de homogeneidade relativa em disciplinas estruturantes, ao longo de todo o Ensino Básico, atendendo aos recursos da escola e à pertinência das situações

Acham mesmo que o MEC deseja algo de substantivo com esta medida?

A ideia velada que subjaz à criação de grupos/turmas de nível (o linguajar oficial fala em incrementar a igualdade de oportunidades e a homogeneidade relativa em disciplinas estruturantes) é unicamente a intensificação do treino nas disciplinas de Matemática e Português. Desde que não se estiquem nos recursos da escola…

A  vendedora do Bolhão é que está certa!