Arquivos mensais: Fevereiro 2013

Poesia aplicada…

perrenoudPerrenoud será sempre uma referência incontornável da nossa vida escolar, ou não fosse o autor um guru do nosso referencial externo no processo de autoavaliação. Percorrer os textos de Perrenoud e imaginar a escola situada é um exercício poético imperdível, digo eu que não tenho qualquer sensibilidade poética.

Um dos livrinhos do autor que é de leitura obrigatória para quem ousa promover a mudança, a reforma, ou, não sendo o caso de mudar porque se quer crer que está tudo bem, manter as práticas pedagógicas diferenciadas e ativas, data de 2002 na sua versão portuguesa. A capa desse “guia de boas práticas” (para quem o quiser adquirir encontra-o num canto esquecido de uma livraria com saída) ilustra este pequeno apontamento.

Diz o autor que “O sistema educativo é ingovernável sem a adesão de, pelo menos, uma parte dos professores e dos utentes, pais e alunos”; que “Nas sociedades desenvolvidas, os poderes organizadores e o establishment político começam a compreender que não vale a pena tentar “domar” os professores”; que “a ausência de negociação não bloqueia, portanto, constantemente, as decisões, mas acaba sempre por as esvaziar do seu sentido…”. Perrenoud quer enfatizar a necessidade de uma pilotagem negociada da mudança. E uma verdadeira instância de pilotagem de uma mudança na escola situada consiste em ultrapassar as clivagens e os regateios habituais, para adotar uma visão coletiva.

Percebem agora porque considero que imaginar as ideias de Perrenoud aplicadas à escola situada pode constituir um exercício poético imperdível e… hilariante?

Já agora: ampliem a imagem e leiam tudo, porque vale a pena!

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De luto e em luta

Normativite

Numa ação dirigida às lideranças intermédias no âmbito de um processo de autoavaliação das escolas do agrupamento (algo que não deve ser confundido com o processo de autoavaliação do agrupamento de escolas), o investigador convidado que dirigia os trabalhos alinhava o seu pensamento com as ideias de Perrenoud, sociólogo e professor na Universidade de Genebra, autor de uma vasta obra na formação de professores. Para os mais familiarizados com o linguajar “gestionário”, Perrenoud é um dos referentes externos do nosso referencial. Para os menos familiarizados com esse linguajar, Perrenoud será um dos nossos gurus, não só da avaliação dos resultados escolares como da avaliação de outras áreas a avaliar. Para o bem e para o mal!

Muito haveria a dizer sobre o pensamento de Perrenoud e mais ainda sobre os perigos de se treslerem as ideias de autores de referência (quem não se lembra do caso do escritor Nuno Crato ter treslido Rousseau?)…. mas não temos tempo.

O que diria Perrenoud se fosse convocado para a “discussão pública” desenhada em torno de um documento estruturante, como é o caso do regulamento interno, “estrangulado” por uma resma de documentos reguladores?

Diria, muito provavelmente: “… que uma parte do problema da escola não reside nas suas intenções, mas na maneira como ela organiza o trabalho, como perde tempo e energia no prosseguimento de objetivos sem grande importância, na sua falta de continuidade no tratamento dos problemas.” (Perrenoud, 2002)

O pensamento de Perrenoud, no que diz respeito ao peso burocrático que afeta a escola e extenua os professores, não podia ser tão desafiante e tão contundente face às rotinas instaladas.

Os megas situados – Entre o anacrónico e o paroquial!

Ainda é cedo para formular um juízo situado sobre os problemas que decorrem da agregação que “vitimou” a minha escola. A notícia e os testemunhos que surgem nesta pequena janela do DN (que roubei descaradamente ao Arlindo) remetem-nos para questões materiais, não direi que são despiciendas porque a degradação das condições salariais dos professores configura um roubo de igreja, e quase que deixam escapar outros sinais que atestam a transformação das escolas… para pior:

É anacrónico o modo como a informação encrava quando deveria ser processada mais rapidamente, ou não estivéssemos no tempo da velocidade, dos bites e dos bytes (é o tempo do bitaite!);

É daltónica a cultura visual, instantânea, marcada pela superficialidade, como se se ousasse substituir a reflexão aturada e o debate público rigoroso;

É paradoxal a tentativa de centralizar a gestão quando as boas práticas aconselham a descentralização das decisões e das lideranças;

É irónico que as estruturas organizacionais mais planas sejam amarfanhadas num controlo hierárquico dissimulado.

Há quem os designe de equívocos “pós-modernistas” gestionários. Eu chamo-lhe apenas paroquialismo!