Arquivos mensais: Julho 2006

Poeira para os olhos do pacóvio…

Tentei resistir a um comentário que a f… nos deixou aqui cuja leitura recomendo vivamente e que diz respeito ao desaparecimento do programa do Desporto Escolar.

A minha recaída, ou melhor, este retorno fugaz, justifica-se na medida em que urge contestar uma afirmação, a meu ver sem fundamento, do Secretário de Estado da Educação, Valter Lemos e, simultaneamente, aclarar o alcance do imbróglio e da confusão que se gerou em torno do Desporto Escolar.

1. A afirmação:

“Até agora, o desporto escolar não estava integrado [no projecto educativo]. Era desenvolvido de uma forma um pouco paralela às actividades da escola e ficava a cargo de um ou dois professores, que organizavam o projecto segundo orientações traçadas por um estrutura central do ME, o que não fazia sentido”.

Humm… ficamos a saber que o que se lê não deve ler-se:

O Desporto Escolar, sendo um instrumento do Sistema Educativo, deverá funcionar e ser assumido pelos Órgãos de Direcção e Gestão dos Estabelecimentos de Educação e Ensino, como um Projecto de Escola, integrado no Projecto Educativo e Plano Anual de Actividades, aprovados em Conselho Pedagógico. Assim, de acordo com o D.L. n.º 95/91, pontos 6 e 8, compete ao Órgão de Direcção e Gestão coordenar, acompanhar, apoiar e avaliar o desenvolvimento do Projecto de Desporto Escolar da respectiva escola.”

2. O que diz o título da notícia:
Projecto destinado a perto de 45 mil alunos.

Atentemos aos dados relativos à evolução da participação no Desporto Escolar [In: “Jogar pelo Futuro”]

Este ano, 1154 escolas foram inscritas no Desporto Escolar. O quadro anterior reflecte a evolução da participação no Desporto Escolar e dá para perceber que só uma hecatombe fará diminuir a oferta de actividades do desporto escolar para o próximo ano.
Afirmar que o desporto escolar será oferecido a 45 mil alunos é o mesmo que reconhecer uma diminuição muito significativa da participação dos alunos .

Então, faz algum sentido reforçar as verbas e ver diminuída a participação dos alunos?
Afinal, quem ganha e quem perde com esta forma de fazer política?

A máxima do professor Bento faz cada vez mais sentido: Sempre que me fazem de burro aproveito logo para dar um coice.

Bem, vou aproveitar e sair de mansinho… boas férias 🙂

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Uffa…. Regresso lá para meados de Agosto… 🙂

Dão-se alvíssaras…

[É verdade. Fui contagiado por uma entrada da Saltapocinhas.]

“Procura-se o Programa do Desporto Escolar para o próximo ano lectivo.
Dão-se alvíssaras a quem o encontrar”.

Adenda: Diz o Correio da Manhã que “O projecto do Desporto Escolar que, desde há uma década, envolve cerca de 45 mil alunos de mais de mil escolas de todo o País, está em risco para o próximo ano lectivo“.

humm…. Será uma nova medida do Programa de Simplificação Administrativa e Legislativa (SIMPLEX)?

Para que fique claro…

As escolas devem entender os resultados dos exames como um desafio para melhorar e não ficar indiferentes. Se os conhecimentos leccionados foram insuficientes, deve-se melhorar. Não se trata de adaptar os exames àquilo que as escolas estão a fazer. Antes pelo contrário, deve-se adaptar o que as escolas estão a fazer às exigências dos exames que são iguais para todos.

Ministra da Educação in: JN

É para mim uma novidade que os resultados dos exames devem ser usados para aferir os conhecimentos leccionados por um professor. E pensava eu, afinal erradamente, que os exames visavam aferir os conhecimentos que foram apreendidos pelos alunos. Mas não.
Em bom rigor, mesmo que todos os alunos de um professor [hipótese pouco verosímil] revelem ou venham a revelar, num exame, conhecimentos insuficientes, isso não demonstrará qualquer omissão na leccionação. Não ignoro nem pretendo menosprezar o papel do professor, decisivo a meu ver, na aquisição e consolidação de saberes. Mas, ao centrar no professor o ónus dos resultados dos alunos estamos, coniventemente, a admitir que o aluno não deve ser responsabilizado pelo seu compromisso na aprendizagem.
Quem defende o rigor e a exigência no sistema educativo não pode pactuar com afirmações deste teor.

Aferições ou aflições? …

Creio que toda a gente já percebeu que o frango é escanzelado. Dizem as más línguas que antigamente lhe cortavam na ração e que agora, por iniciativa própria, por (in)acção dos seus progenitores ou por negligência dos tratadores, o infortunado se viu forçado a alimentar-se menos. São pontos de vista…Há muitos anos que se apregoa a necessidade de refinar a balança com a melhor tecnologia de ponta de forma a certificar o peso certo. Enquanto se cumprem os rituais da pesagem, o coitado do frango, que bem podia estar a alimentar-se até à hora do repouso [o repouso é meio sustento diz o povo], engana a fome repetindo até à exaustão, para os aferidores, os itens do cardápio.
Tenho para mim que há um desejo subliminar por detrás deste ritual: que o frango engorde de cada vez que é colocado em cima da balança.
O melhor é esperar sentado…

Inconsistências?

A função do ensino é dos professores. Não vamos fazer ensino com outra categoria profissional, mas isso é o contrato dos docentes com a escola e com os seus alunos. O contrato dos professores não é com o Ministério da Educação

Ministra da Educação in: JN

A ambiguidade desta afirmação permite-me dizer duas coisas:

  1. Que o compromisso dos professores com o ME é exclusivamente de ordem laboral e, portanto, o ME reconhece a autonomia pedagógica do professor com todas as consequências que daí advêm [mais autonomia requer mais responsabilidade];
  2. Que a prestação de contas vai muito além das exigências burocráticas que são impostas externamente ou de metas a alcançar anualmente. O carácter moral do professor assume uma importância fundamental! [que essa afirmação tenha reflexos no futuro ECD]

Se foi isto que a ministra quis dizer, não podia estar mais de acordo!

Ao avesso…

[…] Os tipos de agora não têm tempo. Em lugar de irem estudar para o café, para a biblioteca, para casa, na cama, na mesa, ou no sofá – ao seu ritmo, a melhor triagem é esta, a do ritmo, sabiam? – , ficam na escola a ter “estudo acompanhado” e “actividades”.
Nunca estão sós.
Nunca podem escolher estarem sós, sem terem falta. Não conseguem, assim, conhecer o seu ritmo, o seu pulsar, o seu sentir. Estão sempre em manada. Cheios de vontade de sairem dali, mas cada vez mais presos a programas de sucesso que lhes fizeram, pelas costas, para depois lhos espetarem, como facas, no peito ainda virgem.

Eu não gosto disso. Falta-lhes tempo para amadurecerem sozinhos – no tempo escasso que também lhes falta – o que vem nos livros e escutam nas aulas. Que, depois de lerem – ouvirem -, deviam pensar sós; ou com quem escolhessem.

E, bem vistas as coisas, falta-lhes tempo para quase tudo: arranjaram agora uma espécie de gestores do tempo, que não são bem relógios de pulso, um por cada pessoa, mas que são ainda piores. Orientam tudo (e sempre mal), porque complicam: não passam de ponteiros luminosos em relógios atrasados, de feira franca, mas cuidam ser de marca.

besugo

Caro besugo

Percebo pouco de quase nada. Desse mísero conhecimento, uma parte dele chega-me por via de gente que, tal como eu, evita as mezinhas. Das poucas coisas que julgo perceber, a educação é aquela que me ocupa mais tempo, profissional e não só. Sou daqueles que direccionam o tempo livre para ler e estudar coisas que se supõem necessárias para o trabalho. Enfim, um exemplo que não se aconselha a ninguém. Isto só para dizer que hoje encontrei no seu blogue algo que só pode ser escrito por gente despegada de qualquer sobranceria. Por isso, suspeito que não podia vir de um ministro e respectivos acólitos, de encarregados de educação acéfalos ou de professores obstinados [como eu, acrescento agora]. O que encontrei foi uma prescrição simples e que decorre do bom-senso: O sistema educativo estupidificou-se ao coarctar o tempo livre dos sujeitos que o frequentam.
O óbvio parece escapar aos olhares dos pseudo entendidos. Parabéns.

Miguel