Arquivos mensais: Março 2007

Pedagogia de ponta?…

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Mais escolaridade… menos desemprego?

Li no Correio da Manhã que o relatório final do Debate Nacional de Educação, produzido pelo Conselho Nacional de Educação, foi ontem discutido na Assembleia da República.
O destaque da notícia [o SIMPLEX ainda não chegou ao Parlamento e ao ME… acreditem que andei numa busca labiríntica e… népia] apresenta um dos paradoxos da acção governativa que nenhum discurso oficial é capaz de contornar:

«O desemprego entre os jovens irá aumentar. […]Perante este cenário, o relatório desaconselha aos jovens, “como é frequente no nosso país, clamarem por menor esforço e exigência, na simples mira de obter facilmente um diploma que, não atestando competências efectivas para concorrer no mercado, perde credibilidade e se torna, de todo, inútil”.»

Mas, não é isto que promete o Programa Novas Oportunidades: Um diploma fácil?!
Bem, está na hora prolongar até ao 12º ano a escolaridade obrigatória…

Concurso de titulares

Dizem que é uma espécie de projecto de Decreto-Lei que estabelece o regime do primeiro concurso de acesso para lugares da categoria de professor titular da carreira dos educadores de infância e dos professores dos ensinos básico e secundário.

Face da inverdade…

A reforma do ensino secundário criou uma nova figura para os cursos tecnológicos: o director de curso. Entre o director de curso e o director de turma há uma cumplicidade funcional embora um e outro orientem a sua atenção para horizontes distintos: ao director de turma está reservada a responsabilidade da ligação entre a escola e a família; ao director de curso está reservada a articulação curricular (possível) e um conjunto de acções, nomeadamente, a procura de condições mínimas para o funcionamento do curso e a preparação de parcerias com empresas locais e instituições públicas ou privadas para o acolhimento de estagiários no final de ciclo.

Isto para dizer que nos últimos três anos lectivos, uma parte substancial do meu tempo de trabalho foi gasto com a função de director de curso. Recordo que promovi diversas reuniões de trabalho com os alunos, encarregados de educação e professores para aclarar o quadro normativo e apelar à participação entusiasta de cada um dos actores no desenvolvimento do curso e mais importante ainda, empenhei-me na criação de condições que suscitassem o desenvolvimento pessoal dos alunos [perguntar-me-ão pelas diferenças entre os cursos tecnológicos e os cursos orientados para o prosseguimento de estudos (eu sei que agora não se designam assim) e eu responderei que ambos perseguem objectivos comuns… mas não é assunto para ser tratado agora].

Durante este tempo, disse e desdisse por diversas vezes. Por motivos que me foram alheios, lancei alertas para mudanças de orientação e para alterações tardias das regras do jogo. Não é fácil discernir se essas contradições afectaram ou não a minha credibilidade aos olhos dos alunos, dos pais e dos meus pares.
É óbvio que são livres de pensar que o que denuncio é um acto mesquinho, umbiguista. Cada um utilizará a lente que lhe convier. Eu sou livre de pensar que mereço respeito e solidariedade da tutela. Nessas reuniões fui a face do ME. Não me satisfaz o facto de ter cumprido um dever. Sinto-me traído quando me fazem mensageiro da inverdade. E não me sinto mais confortável porque não sou o único numa multidão de directores de curso. Também não me alegra o facto de saber que as alterações às regras do jogo depois do jogo se ter iniciado vieram a beneficiar, presumivelmente, os alunos. É do conhecimento geral que um professor não define políticas, concretiza-as. E daí?

Medo…

“[…] Receio este medo que cheiro no ar.
O desimportamento, o silêncio que pode gerar.
Assim encolhidos, assim perdidos e afligidos, será fácil continuar a fazer o que até aqui nos tem sido feito…
Medo do medo. Confesso. Isso tenho.”

É verdade, Teresa. Este clima sinistro e este estado de ansiedade poderiam muito bem ser evitados! Poderiam…
Evoco Brecht, enquanto penso neste colectivo amorfo em que me encontro.

“Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.”

Bertold Brecht

Muito foguetório e poucos resultados…

“O relatório da Comissão de Acompanhamento das Actividades de Enriquecimento Curricular traça um balanço positivo da aplicação do programa, destacando uma mudança de fundo na situação verificada há apenas dois anos, com elevadas taxas de adesão das escolas, dos parceiros promotores dos projectos e dos alunos.”

Espere lá para ver se entendi: O Programa de Generalização do Ensino de Inglês e de Outras Actividades de Enriquecimento Curricular é avaliado positivamente porque obteve elevadas taxas de adesão das escolas, dos parceiros e dos alunos?
Mas, eu pensava que o programa era obrigatório e como tal esperava uma taxa de adesão de 100%. Fico espantado por ver preteridos os outros (será que existem outros?) critérios de sucesso. É que depois de observar as dificuldades enunciadas pela comissão, considero o entusiasmo desmedido.

Semana aberta…para quê?

A Maria Lisboa deixou-me um pequeno desafio guardado na caixa de comentários: Não sabe do que falo quando evoco a Semana Aberta e “reclama” um esclarecimento.

Há muitos anos que alguns Conselhos Pedagógicos sugerem aos seus Executivos a suspensão das actividades lectivas durante uma semana. Para quê? Para apresentar à comunidade educativa o produto do trabalho desenvolvido no âmbito dos clubes escolares. É um curto período de tempo onde a escola faz jus à sua matriz pluridimensional acolhendo uma diversidade de actividades culturais realizadas por alunos e professores e trabalhadas nos clubes escolares ao longo do ano lectivo.
Como os clubes escolares foram paulatinamente decapitados, em primeiro lugar pela concorrência da área escola e depois pela metamorfose da área de projecto, a semana aberta serve de pretexto para promover a escola junto da comunidade, dando a ideia de que a escola é aquilo que se vê na montra de actividades. Alguns professores [carolas], porventura resistentes do espírito da escola cultural, acabam por disfarçar o baldio cultural em que a escola se transformou, agora mais preocupada que nunca em formar mão-de-obra especializada para empregos de curta duração.

A designação diz tudo: Semana aberta. Significa que, pelo menos uma vez por ano, a escola deixou de olhar, unicamente, para o seu umbigo.