Arquivos mensais: Agosto 2006

Da crítica da Educação à Educação Crítica

O Henrique refundou o seu blogue e escolheu uma designação com um sentido claro: Da crítica da Educação à Educação Crítica. [Só o título dá que pensar…]
Como se pode ler aqui, “Este blog tentará contribuir para alcançar dois objectivos:
1.º- o de tentar desocultar as razões da crise da Educação que os discursos tecnocráticos tentam esconder;
2.º- o de tentar contribuir para apontar outras soluções possíveis e desejáveis para a Educação.”

…hummm… “o de tentar desocultar as razões da crise da Educação[…]”? Existirá uma crise da educação ou uma crise do modo de pensar a educação?

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Paixões… identidades… e fauna

Entro ao serviço no dia 4 de Setembro. Eu sei que me sobram os motivos para alterar os velhos hábitos [não tenho memória de um ano lectivo tão fértil em matéria de despeito como foi o anterior…], e como ainda não cedi aos ataques deste ME, transformarei a última semana de férias numa verdadeira pré-época lectiva: releio programas; recupero leituras complementares; organizo materiais…

Enquanto releio alguns desses textos recupero o ritmo de trabalho e acabo situado na profissão. Foi numa dessas passagens que estabeleci uma conexão entre duas formas de identidade profissional e uma das intenções deste ME [recordam-se de um artigo da proposta de alteração do ECD – o Artº 41?]: que a avaliação dos professores favoreceria o trabalho colaborativo dos docentes.
Para além de estabelecer uma conexão [proponho-vos um desafio: descobrir os contornos dessa relação ;)] complemento uma parte deste comentário da Isabel [anexo à entrada anterior] e por fim, deixo escapar, sub-reptícia e ironicamente, uma achega à fauna existente nas salas de professores…

“Sachs (2003) reconhece duas formas antagónicas de identidade profissional. A primeira é a empresarial, que a autora associa a professores eficientes, responsáveis e responsabilizáveis, que demonstram submissão aos imperativos políticos impostos externamente e que possuem um ensino de elevada qualidade, avaliado com base num conjunto externo de indicadores de competência. Esta identidade poderá caracterizar-se como sendo individualista, competitiva, controladora e reguladora, definida externamente e orientada por standards.
A segunda perspectiva é a activista, que é guiada por uma crença na importância da mobilização dos professores no sentido de melhorar as condições de aprendizagem dos alunos. Neste tipo de identidade, os professores preocupar-se-ão, em primeiro lugar, com a criação e o desenvolvimento de standards e de processos de ensino que possam proporcionar aos estudantes experiências democráticas (Sachs, 2003) segundo a autora, a primeira é o produto desejado pelas agendas gerencialistas e de performatividade, enquanto que a segunda parece esta orientada para a investigação, para salas de aula colaborativas e para escolas onde o ensino está intimamente ligado a amplos valores e ideais da sociedade e onde os propósitos do ensino e da aprendizagem transcendem o instrumentalismo limitado dos programas de reforma actuais.
No entanto, mesmo para considerar a ideia de uma agenda activista, é necessário que haja coragem, confiança e uma compreensão clara e apaixonada do comprometimento com um conjunto de propósitos morais. Ser um professor activista apaixonado é afastar-se do ensino isolado e demasiado individualista, descrito por Bottery e Wright do seguinte modo:

… não só serve fins políticos e económicos controversos, como é também limitado na sua capacidade para desenvolver uma geração que possa responder, de forma adequada, às exigências complexas e em constante mudança de um contexto mais global, assim como para proporcionar destrezas e atitudes necessárias para a criação de uma cidadania mais emancipadora e participativa. (Bottery e Wright, 2000, p. 100)

Judyth Sachs concorda com esta asserção, sugerindo que o que é necessário neste momento são profissionais que possam resistir à tentação de aceitar uma “rotina monótona” e uma “homogeneidade da prática” (Sachs, 2003, p. 15). Estes profissionais não permitem que os contextos de ensino exigentes, tanto a nível físico como emocional, diminuam a paixão e a esperança que são essenciais para o ensino de elevada qualidade.” [Day, 2004, pp.89-90]

Reflexão minimalista

Paradoxos que urge esclarecer:

  • A crescente escolarização das sociedades não teve como consequência o desagravamento dos problemas sociais [guerra, ambiente, pobreza, exclusão,…];
  • A missão da promoção da cidadania que é atribuída à escola esbarra nos fenómenos de guetização da participação política nas sociedades mais ricas;
  • O aumento das críticas à escola contrasta com a intensificação da corrida à escola e ao prolongamento dos percursos escolares.

Integrações…

[…] A AP (Área de projecto] e o PT [Projecto tecnológico] são, pois, um vector de integração curricular ao articular o projecto educativo da escola com o conjunto das aprendizagens essenciais previstas no plano de estudo de cada curso científico-humanístico ou tecnológico.
A AP e o PT são um espaço de debate que configura uma realidade curricular centrada nos alunos e nos processos de decisão dos professores ao nível dos órgãos de decisão pedagógica – nomeadamente áreas disciplinares e departamentos curriculares – e nas parcerias que estes estabelecem com os alunos, encarregados de educação e comunidade. Trata-se de uma área em que os alunos mobilizam competências desenvolvidas no contexto dos conteúdos das disciplinas do seu plano curricular para resolverem problemas, para estudarem e compreenderem fenómenos do mundo que os rodeia, elaborando produtos concretos de natureza diversa.
Porque faz parte de uma lógica de questionamento das experiências quotidianas dos alunos, a AP e o PT exigem uma liderança curricular forte no interior das escolas, com a participação dos directores de turma e de curso (cursos tecnológicos), do conselho de turma e dos professores responsáveis por estas áreas. A concepção, realização e avaliação da AP/PT não pode tornar-se numa actividade exclusiva de um professor, na medida em que é no contexto do curso e da turma que o projecto adquire sentido
. […]

Não corro o risco de ser rotulado de eduquês [ ;o) ] se disser que a integração curricular dá coerência e cose as diversas matérias que se encontram dispersas por inúmeros planos adstritos às disciplinas que o ME exige que sejam leccionadas na escola. Apesar de parecer uma boa ideia o apelo à integração curricular porque se presume que facilita o processo de integração do saber de modo a que o conhecimento faça sentido para o aluno, o modus operandi exige uma revolução na escola! E essa revolução passa por encontrar respostas para um conjunto de perguntas, nomeadamente:

Se somos um produto [os letrados deste país] de uma escola que sempre funcionou em ilhotas numa espécie de balcanização disciplinar, para quê mudar?
Por que carga de água é que os professores devem coz(s)er as matérias [ou cozer as aprendizagens, em lume brando de preferência, num cozinhado (projecto) preparado, em simultâneo, por vários cozinheiros (professores)] numa espécie de papa “pronta-a-comer”?
Não estamos, com este tipo de tecnologias, a promover, paradoxalmente, uma cultura do facilitismo ao fazer deslocar do aluno para os professores a responsabilidade da organização do saber?

Uma nova ignição…

Finalmente, os responsáveis políticos começam a sinalizar a obesidade reconhecendo que, afinal, o problema não é uma fantasia e que não existe apenas na casa [nos países] da vizinhança.
Li num jornal que o Governo vai lançar uma megacampanha e a “Guerra à obesidade começa(rá) na escola”. Não tenho dúvidas de que a escola estará preparada para lidar com este megaproblema e, importando o discurso que assinalou o flagelo dos fogos de Verão, direi uma verdade la paliciana: após a ignição, o problema da obesidade será atacado em duas frentes de combate – na alimentação e no exercício físico.

Na frente de combate da alimentação recorrer-se-á ao controlo das dietas alimentares nos bares e cantinas escolares e, porventura, legislando a proibição [que grande atestado de menoridade às direcções executivas] da venda de “comida de plástico” nas máquinas [betoneiras] que se encontram espalhadas, em locais estratégicos, pelas escolas. A meu ver, a eficácia desta frente de combate estará condenada ao fracasso se não exisitir a mobilização dos encarregados de educação…

A frente de combate do exercício físico não dispensará o contributo da Educação Física escolar. hummm… uma hora diária de actividade física para todos os alunos na escola? Pois…

Espero que a demagogia não acabe, uma vez mais, por determinar a orientação da discussão!

O problema da culpa…

Novos disparates educativos
No PÚBLICO da passada terça-feira, José Dias Urbano indignou-se com o facto de ter sido aprovada uma lei que determina que os alunos do ensino primário (nomeadamente), constituídos em associação, “têm direito a emitir pareceres aquando do processo de elaboração de legislação sobre o ensino”, designadamente nos domínios da definição e financiamento do sistema educativo, gestão das escolas, acesso ao ensino superior, etc.
Ora, ao contrário do que defende José Dias Urbano, eu penso que esta lei só peca por não tornar estes pareceres vinculativos e por deixar de fora os alunos da pré-primária e os nascituros.
Será que o senhor professor José Dias Urbano pensa que os alunos da pré-primária ou do ensino primário eram capazes de fazer leis tão estúpidas e tão insensatas como as que são feitas pelo Ministério da Educação e pelos nossos deputados? É que se pensa isso, está redondamente enganado. E os nascituros ainda têm uma vantagem enorme sobre esta gente: têm a humildade suficiente de não falar, nem mandar palpites, sobre o que não sabem.
Santana-Maia Leonardo
Ponte de Sor
(Espaço Público, 19-08-06)

O cinismo é uma reacção negativa dos professores quando tentam lidar com as sobrecargas intoleráveis de culpa que lhes são impostas a partir do exterior das escolas. É óbvio que o problema da culpa e as suas consequências negativas para os docentes e para as escolas não é só um problema privado. Seria bom que esta questão [pública] fosse encarada com seriedade por todos aqueles que ainda acreditam que a educação [escolar] ainda vale a pena.