Arquivos mensais: Novembro 2008

O espírito da coisa

pub_cd in: (Público, 30/11/08)

PS versus professores

O secretário-geral do PS, José Sócrates, frisou este sábado que a avaliação dos professores é uma questão do primeiro-ministro, do Governo e do partido, não podendo ser encarada como um problema sectorial, noticia a Lusa.

Ao reconhecer que “o processo de avaliação dos professores é uma questão do Primeiro-ministro, do Governo e do partido, e não um problema sectorial”, José Sócrates assume, definitivamente, que pretende usar a Educação como bandeira eleitoral.

Neste momento está em jogo a sobrevivência política do primeiro-ministro a qual depende da vitória eleitoral (a maioria é cada vez mais uma miragem). Ao eleger a classe dos professores como adversários políticos, José Sócrates quer fazer desaparecer a oposição do seu alvo, desinscrevendo-a do real. É a técnica da não-inscrição a que se referia José Gil que soube desmontar com mestria a estratégia do governo após os protestos dos professores no pretérito 8 de Março. José Sócrates parece contar com a inabilidade política da classe e com o facto de a imagem popular do sindicalismo estar conotada com uma putativa esquerda. Sócrates, oportunisticamente, irá explorar até ao tutano esta ideia e esta estratégia.

Cabe à classe profissional responder com competência e estar à altura do desafio. A união da classe será a nossa força. É agora ainda mais evidente que é preciso muito mais do que uma boa argumentação técnica para desmontar os argumentos políticos do governo. E a greve do próximo dia 3 é o melhor argumento que os professores podem utilizar neste momento! A não participação no processo de avaliação, na fase seguinte, seria a contra-estratégia, usando a técnica da não-inscrição. Ao ser desvalorizado o modelo de ADD é esvaziada a sua relevância e o governo perderá um alvo operacional.

Só blá, blá?

Se os professores disserem, inequivocamente, que esta avaliação não serve e que não estão dispostos a iniciar o processo de avaliação, o simplex morre no parto.
E sem professores avaliados, eu pergunto: para que serve a ADD e de que nos serve falar desta ADD?

Caros colegas e ilustres fazedores de opinião, CR7’s da blogosfera: Salvo melhor opinião, está na hora de V. Exas. dizerem ao que vieram. Ou não? 😉

Este é o tempo em que os homens renunciam

Este é o tempo
Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam.

Sophia de Mello Breyner
in Mar Novo (1958)

Ao longo dos últimos meses, foi relativamente fácil disfarçar a ausência de bravura e a falta de convicção na defesa de causas até aí consideradas justas. Com acções de luta relativamente inócuas, movimentos de grupo miméticos, nomeadamente, as acções de rua em períodos pós-laborais, os abaixo-assinados de protesto, as tomadas de posição colectivas propondo isto e aquilo, enfim, era perceptível uma enorme predisposição para a luta indolor.
A irredutibilidade do ME que se materializou na prossecução das suas políticas de hostilização da classe docente teve como consequência o endurecimento da luta dos professores que viram aumentado o risco da exposição individual: perdas de salário através da participação em greves e a necessidade de incumprir a lei (não entrega dos OI) por razões de superior interesse público.
Isto vem a propósito da aprovação de um documento, que foi assinado por uma esmagadora maioria de professores na minha escola, onde se disse Não! à falácia da avaliação do desempenho docente: para quê cumprir um formalismo inútil?

Não deixa de ser surreal que os avaliadores, alguns dos quais visivelmente jubilosos, deixem de exercer a sua função divina por falta de… avaliados. 😉

doente

Desabafo visceral…

marionet_1Os presidentes dos conselhos executivos das escolas vão ser avaliados pelos directores regionais de educação. A proposta foi hoje divulgada pelo Ministério da Educação, o sistema de avaliação de desempenho da Administração Pública serviu como modelo.

Se os senhores/senhoras presidentes dos conselhos executivos tivessem os tomates/ovários no sítio demitiam-se já!

Há algo que me escapa: Se a prestação de contas tem apenas um sentido ascendente, não seria mais coerente nomear os gestores escolares em vez de manter as aparências de que o modelo de gestão recentemente aprovado e imposto por este governo é democrático?

Uma nortada de professores na Avenida dos Aliados.

manif_porto
E ainda a procissão vai no adro… 🙂