Arquivos mensais: Novembro 2005

Demissões

Concebamos um cenário de aprendizagem [omiti voluntariamente o vocábulo ensino] numa escola tradicional portuguesa. Vemos a mesma forma escolar e a mesmíssima organização burocrática. Temos uma organização pedagógica preparada para públicos homogéneos e uma procura escolar diversificada. Observamos inúmeros professores a ministrar áreas disciplinares estanques apesar dos constantes apelos ao trabalho colaborativo resistindo, utilizando uma panóplia de estratégias, à mudança das práticas educativas dentro das quatro paredes.
Vemos resultados dos alunos convertidos em classificações e professores a discutir se o domínio cognitivo vale 50, 90 ou 100% da avaliação sumativa interna. Participamos em inúmeras discussões surrealistas donde emergem revelações sinistras e… obscenas…
Ah… para completar o quadro falta acrescentar a inércia dos pais e o alheamento dos alunos.

A partir deste cenário identifique um dos factores responsáveis pela perda de sentido do trabalho pedagógico.

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Tempo…

… de escutar!

Adenda: Não sei se é influência epicurista, um pousio regenerador, ou a consequência de uma inquietação estéril e cansativa. Pode até ser tudo ou… nada.

Bom fim-de-semana :-)

Onde se lê «EMPREGADOS», leia-se «PROFESSORES».

Sugestão de leitura.

No Inquietações Pedagógicas pode ler este texto de João BarrosoAutonomia das escolas: entre a ficção e a realidade“.

As muletas…

É interessante verificar o modo como a comunicação social e a propaganda política moldam os discursos do senso comum. E como todos somos senso comum numa multiplicidade de assuntos, não escapamos ao processo do “diz-que-diz”. Felizmente (riso), há especialistas em generalidades que aclaram o caminho quando nos encontramos na escuridão. E que jeito nos faz um António Barreto ou um Eduardo Coelho, e outros especialistas [basta procurar um residente num jornal diário]. É que mesmo os actores principais não escapam a esta avalanche mediática. Deixam-se apanhar pelo registo retórico que mais convém ao governo e reproduzem as mesmas frivolidades, só que de sinal oposto: Os professores não fazem nada… O quê? Eu trabalho 75 horas semanais, ou mais… Os alunos vão de mal a pior… Não é verdade. Reparem nas competências relativas às novas tecnologias… etc, etc.
Mas nós embarcamos. E só nos apercebemos quão distantes as opiniões destes especialistas se encontram do conhecimento circunstanciado quando eles tocam nos assuntos que mais nos ocupam. O clique estala quando as suas opiniões são dirigidas para uma área de conhecimento que julgamos dominar e não encontram eco na realidade por nós percebida.

Isto para dizer que, de um momento para o outro, a escola ficou reduzida às aulas de substituição e ao trabalho docente. Não, não retomarei o equívoco enfadonho gerado pelas aulas de substituição. Prefiro recolocar velhas questões que necessitam de outro olhar. Deixem-me então arrumar algumas ideias que ainda não perderam actualidade:

  • A escola insiste na sua tradição unidimensional quando ninguém ousa defender a “unidimensionalidade” da pessoa;
  • A escola é uma organização “imutável” [as palavras são do Rui Canário] e nenhum governo ousa apontar uma mudança de paradigma;
  • Os problemas da inclusão e da diversidade reclamam uma reentrada na agenda da escola;
  • O parque escolar continuará a servir as necessidades de organização de uma escola do passado;
  • A formação inicial de professores é um baldio de ideias onde poucos se atrevem a entrar;
  • A formação contínua de professores não incorpora a inovação;
  • O Ministério da Educação promete autonomia às escolas e reforça mecanismos de controlo;

Argumento da autoridade?

Terá passado despercebida a opinião do professor António Nóvoa no momento em que se atreveu a desmistificar a questão da educação “despesista”?
Não me refiro, obviamente, à jornalista que moderou o debate e que se limitou a reproduzir uma opinião muito bem propagada pelos fazedores de opinião do regime. Estou a pensar nas personalidades convidadas. Ainda conseguem recuperar a imagem, o ar de espanto que foi reflectido nas várias expressões faciais, as posturas petrificadas e a ausência de um mísero argumento?

Resquícios…

…de um debate clarificador.

Não sei quantificar,… não sei dizer o número de vezes em que me senti caminhar num deserto…
Ainda bem que me vou cruzando, através das páginas de um livro ou de uma aparecida fugaz pela televisão, com António Nóvoa. Pois é. A profissão professor não passa sem uma profunda reconversão. Não uma reconversão qualquer no sentido da desqualificação funcional. O que faltou frisar? Uma pequena adenda: faltou dizer que a profissão professor reconfigurada exige uma escola metamorfoseada. Isto para não dizer que uma transformação profissional exige uma nova escola.
Haja vontade e acuidade dos próprios assim como é requerida uma capacidade de entender [ver longe] os problemas educativos daqueles que nos (des)governam.