Até dói…

Estou a ouvir  o Prós e prós.

Há quem pense que o faço motivado por alguma tendência velada sado-masoquista. Winking smile

Acreditem ou não, ainda me divirto com esta gente. Atentem ao diálogo extremamente construtivo entre a senhora ministra e o deputado do PSD: A questão da autonomia ou da falta dela está a entreter os “paineleiros”…

É evidente a impreparação da senhora ministra. Só não percebo porque não convidaram o senhor  inginheiro para explicar o paradigma…

Há limites para a liberdade de escolha?

A diminuição dos apoios financeiros às escolas privadas com contrato de associação fez emergir o argumento de que esta medida condiciona a liberdade de escolha.

Os pais têm direito a decidir qual é o melhor interesse dos filhos e, geralmente, quando podem escolher a escola estes preocupar-se-ão mais pela educação.

Aceita-se a benignidade do argumento importando que se clarifique os limites do princípio da liberdade… de escolha.

Vejamos:

E se os pais escolherem não obedecer às regras da escolaridade obrigatória?

E se os pais decidirem que a melhor educação para os seus filhos é uma educação segregada que coloque em risco a coesão social?

Deve ou não o Estado monitorizar o comportamento das famílias? E como pode o Estado monitorizar o comportamento das famílias sem lhes coarctar a liberdade de escolha?

Sempre que a direita cheira o poder, sobe a pressão que visa impelir a privatização do sistema de ensino.

Não faltam exemplos de reformas privatizadoras em vários países. Não faltam opções privatizadoras. Discutamos cada uma das opções e as implicações políticas, jurídicas e económicas.

Mas não entremos pela via da demagogia fácil, considerando que quem está contra a redução do financiamento das escolas privadas é um aliado deste governo. Porque se o fizermos, este discurso maniqueísta não poupará ninguém. Nenhum coitado ficará de fora!

Direito à educação ou direito ao subsídio para a educação?

O argumento da “liberdade de escolha”, que tem sustentado a crítica aos cortes no financiamento dos “privados”, apoia-se em três tipos de crença: o direito de liberdade de escolha é um direito parental; o sistema de administração directa da escola pelo Estado é ineficiente e subordinado aos interesses dos funcionários e incapazes de se auto-reformar; a livre escolha da escola melhora a qualidade das escolas e os seus resultados.

Como referi numa entrada anterior, baseado numa síntese da investigação revelada por João Barroso, não há evidências de que a livre escolha da escola melhore a qualidade das escolas e os seus resultados.

O direito à liberdade de escolha da escola é, de facto, condicionado pelo “poder” económico das famílias. Quem tem mais rendimentos poderá escolher a escola e, irei mais longe, até poderá escolher o país que fornece esse serviço educativo.

Não se trata de questionar o direito à educação, afinal, um direito constitucional. O que está em causa quando o Estado pretende rentabilizar, regular e monitorizar os seus recursos, dispensando o serviço dos “privados” ao prognosticar que readquire condições para o assegurar, é simplesmente, a utilização de uma regra do mercado onde a oferta excessiva faz baixar o valor do custo. Se as empresas privadas da educação querem continuar a assegurar o serviço, escolhem uma de três opções: ou apostam na inovação (venha lá o diabo clarificar este conceito) e captam clientela que a possa pagar, baixam as margens de lucro (normalmente à custa da exploração dos seus funcionários) para manter o subsídio do Estado, ou fecham as portas.

Independentemente da solução encontrada, o serviço público será sempre assegurado. Paradoxalmente, os “privados” parecem recusar a ideia de que na lógica do Mercado manda quem paga (como relembrou recentemente Manuela Ferreira Leite numa discussão relativa ao défice do Estado).

Na luta pelo subsídio do Estado, alguns “privados” esboçam o argumento de que o Estado é ineficiente na gestão do serviço público. A ideia é convencer a opinião pública que os “privados” gerem melhor o dinheiro de todos do que o próprio Estado. Recentemente, este assunto foi levado ao parlamento pelos partidos políticos da direita mas ficaram sem saber se os alunos das escolas públicas custam menos ao Estado do que os alunos que frequentam os colégios com contrato.

Tenho pena que o governo e os partidos da oposição tivessem colocado entraves à proposta do CDS_PP para a criação de um grupo de trabalho independente para identificar o custo exacto do aluno nas escolas estatais. Até entendo as reservas do partido do governo em escrutinar os gastos do Estado no serviço da educação, porque teria de desvendar muitos rabos-de-palha, designadamente, o peso das estruturas intermédias no funcionamento do ME. Só não compreendo as reservas dos restantes partidos da oposição que teriam uma oportunidade para renovar os argumentos a favor de uma escola de qualidade e de referência para todo o sistema educativo.

Pior do que está não fica…

Os Sindicatos de Professores receberam do ME a informação de que não decorrerá qualquer processo negocial do despacho que contém as orientações para a organização do próximo ano escolar. No mesmo ofício foram informados de que o projecto de decreto-lei que prevê alterações curriculares já foi aprovado em conselho de ministros, pelo que também não haverá lugar a processo negocial ou, sequer, de participação. (fonte: FENPROF)

Já podem dormir descansados aqueles que desconfiam da habilidade e da boa-fé negocial dos sindicatos.

Uma boa notícia.

Assisti à apresentação pública do projecto de requalificação da minha escola. É evidente que o investimento na requalificação das escolas com 25 anos é excessivo se atendermos às condições financeiras do país. Mas seria capcioso se não reconhecesse a minha satisfação por saber que irei herdar melhores condições de trabalho. Nunca me habituei a trabalhar com condições climatéricas extremas, com temperaturas negativas no Inverno e a abrasadoras no Verão.

E se há que tecer um comentário abonatório sobre a equipa que projectou a obra, devo um bem haja ao arquitecto incumbido de requalificar o pavilhão justamente porque foi sensível aos nossos argumentos (porque não faltam exemplos de obras já realizadas onde os mesmos argumentos são improfícuos).

Público/privado – Cartografia de um debate

O Ramiro tem procurado, quase a solo, introduzir o debate sobre a liberdade de escolha da escola pelos pais. João Barroso aclara a cartografia deste debate e explora com muita clareza as posições em confronto em função da resposta que dão à seguinte questão:

A educação é um “bem comum”- público, ou um “bem de consumo” – privado?

De forma redutora é possível identificar quatro tipos de resposta a esta questão mas apenas duas constituem as posições maioritárias, que passo a transcrever:

– A educação é um bem predominantemente público que produz benefícios privados;

– A educação é um bem predominantemente privado que produz externalidades públicas.

Se existem diferentes pontos de vista quanto às soluções que separam as duas correntes de opinião, designadamente, a questão do maior ou menor controlo e intervenção do Estado, a questão do financiamento do serviço educativo pelo Estado parece servir a ambas.

É natural que a renegociação dos contratos de associação que visa, sobretudo, a diminuição da comparticipação do Estado pelo serviço educativo, seja aproveitado para exaltar as virtualidades do serviço prestado pelas escolas “privadas”, designadamente, a suposta eficiência na gestão do dinheiro público subsidiado.

E como uma boa parte das críticas são crenças com mais ou menos sustentação empírica, julgo que é pertinente a alusão de João Barroso a uma síntese efectuada por Meuret, Briccilichi, Duru-Bellat (2001) onde se apresentam os principais resultados obtidos por um conjunto significativo de investigações efectuadas nos Estados Unidos, Reino Unido e em França:

– A escolha da escola, em França cosmo na maior parte dos países estrangeiros, é, antes de mais, uma questão que diz respeito às famílias que gozam de boa situação económica (tratando-se do sector privado) ou próxima da instituição escolar (tratando-se de estabelecimentos públicos fora do local de residência);

– Em todos os países existe um défice de informação fiável e pública sobre as características das escolas e as escolhas são efectuadas primeiro em função da “qualidade do público escolar” (origem social e étnica) e só em seguida pelos resultados obtidos nos exames;

– Em nenhuma investigação aparece uma relação nítida entre o desenvolvimento de uma política de “livre escolha” e a melhoria global da eficácia do sistema escolar;

– De um modo geral, verifica-se uma para o aumento de uma polarização social das escolas, embora se verifiquem algumas excepções (no caso de algumas investigações realizadas no Reino Unido e nos Estados Unidos) e existam várias tentativas para limitar estes “efeitos perversos”;

– Verifica-se, igualmente, um sentimento geral de “satisfação dos pais consumidores” que tiveram a possibilidade de escolher (independentemente dos resultados obtidos), o que se traduz numa maior proximidade em relação à escola, mas pouco se sabe sobre os que não tiveram essa possibilidade;

– Os profissionais do ensino mostraram, em geral, um entusiasmo menor pelo sistema de “livre escolha”.

Meia vitória

Estas eleições merecem-me apenas dois breves comentários. Nada de profundo, nada de substantivo. Como sempre, os candidatos apoiados pelos partidos do famigerado arco do poder eternizam as oligarquias político-partidárias.

O primeiro comentário acentua uma evidência: Esta eleição garantiria sempre uma meia vitória porque era improvável uma derrota simultânea de José Sócrates e de Cavaco Silva. Perdeu um deles. É uma pena não assistirmos à derrota dos dois, porque os dois mereciam sair destas eleições pela porta pequena. Os dois têm elevadas responsabilidades no desgoverno deste país. Os dois são co-responsáveis pelo estado do Estado.

O segundo comentário vai para a festa, vai para o circo pós eleitoral. Esta é a noite dos sapos mal digeridos e dos penduras das vitórias alheias. Os primeiros fogem das câmaras como se pudessem fugir pelos intervalos da chuva; encurtam os comentários e as declarações; desvalorizam os resultados. Os segundos tornam exíguo o espaço destinam aos vencedores; aparecem inchados e extasiados diante das câmaras.

Já não consigo apreciar o circo, este circo de vacuidades. Nem a meia vitória me alegra!

A ADD é um processo caótico…

… e não me refiro apenas aos esotéricos padrões de desempenho ou às orientações relativas a decisões de carácter ocasional para designação de coordenadores de departamento, relatores e coordenadores de estabelecimento (que faz da excepção a regra).

Refiro-me  ao buraco negro; ao período que agora se inicia e que termina sabe-se lá quando…, refiro-me ao tempo…

(…) Da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura (Sophia)

Desporto Escolar–o renascimento

O Paulo divulgou uma versão (não sei se será a última) do projecto de despacho de organização do trabalho nos agrupamentos ou escolas não agrupadas.

O ME parece ter recuado na sua intenção de considerar como não lectivo o trabalho realizado com os grupos equipas, como se lê no ponto 5, do artigo 3º (componente lectiva):

As horas de que a escola necessite para a dinamização de actividades com grupo/equipa a nível do desporto escolar, dado tratar-se de uma actividade de enriquecimento e complemento curricular, sairão desta componente.

Quero acreditar que os responsáveis pela área do corte e cose no tempo de trabalho dos professores terão percebido, graças a um consenso alargado mas exógeno às estruturas do ME, que a pretensão inicial de agregar o tempo com os grupos/equipas do desporto escolar ao tempo não lectivo teria repercussões nefastas ao desenvolvimento do desporto escolar, pondo em causa a sua viabilização nas escolas.

Agora há que esperar pela publicação do diploma e, como prometeu a ministra, pela regulamentação própria. Pode ser que desta discussão, que fez agitar as organizações de professores de Educação Física, emirja um novo modelo do Desporto Escolar, mais inclusivo, mais democrático.

E se me permitem sonhar alto: que desse modelo democrático do Desporto Escolar advenha o renascimento da gestão democrática.

Uma carreira atractiva

Professora com 90 anos ainda dá aulas

… e pediu aulas observadas porque ambiciona acelerar a progressão na carreira.

Agora mais sério: quem chega aos 90 anos pode dar o que lhe convier que nada lhe será exigido em troca.

Este título é terrível porque induz a leitura de que há por aí muitos “zecos”, essa malandragem, que se lamuriam só porque têm de trabalhar até aos 65 anos.

 

Adenda:

Escrever na blogosfera tem este encanto: Permite retomar um pensamento solto ou uma ideia desconexa, tolera uma escrita mais  visceral e menos reflectida. Isto para dizer que o advérbio de tempo que é utilizado no título da notícia, lido num contexto em que as lógicas de prestação de contas tiranizam o tempo do professor, facilitam as teorias da conspiração.

Afinal, não será uma boa definição de utopia dizer que um professor que vive até aos 90 anos “ainda” tem entusiasmo e resiliência para a sua profissão?

O milagre da multiplicação…

fonte do gabinete de Isabel Alçada sublinhou que a proposta "ainda não está fechada"; que o desporto escolar "será alvo de despacho específico"

(JN)

Só o autor da petição que divulguei mais em baixo poderá adiantar as razões pelas quais retirou a dita cuja. Terá informações privilegiadas que lhe permitem pensar que o ME vai recuar nas suas intenções? Não sei. O que eu sei é que só um finório seria capaz de fazer omeletas sem ovos.

O milagre da multiplicação de horas lectivas está para acontecer!

Adenda:

«O desporto escolar “vai ser integralmente mantido” e não haverá “absolutamente nenhuma redução de investimento”, assegurou Isabel Alçada, durante a cerimónia de encerramento das comemorações dos 125 anos da Escola Artística Soares dos Reis, no Porto

Contudo,

«A ministra explicou que “o horário do docente tem uma componente não lectiva” e que essa poderá ser “reajustada para que sejam optimizados os recursos” e para que “o trabalho dos professores seja mais rentabilizado”»

Se o reajustamento a que se refere a senhora ministra passa por metamorfosear as actividades de treino em actividades de acompanhamento e de supervisão, isso tem apenas uma leitura: que a escola passa a oferecer apenas actividades (internas) lúdicas e recreativas que não impliquem leccionação, isto é, o desporto escolar deixará de contemplar as actividades de treino de capacidades e de habilidades. E os professores com horário completo passarão a cumprir exactamente o que está determinado no ECD, no artigo 82º:

a) (A) colaboração em actividades de complemento curricular que visem promover o enriquecimento cultural e a inserção dos educandos na comunidade;

j) (O) acompanhamento e a supervisão das actividades de enriquecimento e complemento curricular;

 
Não existe uma alma próxima da senhora ministra que lhe explique que as actividades de treino, próprias da actividade externa do Desporto Escolar, são actividades com configuração análoga às actividades lectivas?

Ora, se não há qualquer diferença entre actividades lectivas e não-lectivas, não seria mais sensato promover uma alteração ao ECD?

Em defesa do Desporto Escolar.

Para memória futura…

[…] o Conselho das Escolas considera que se deve alterar o conteúdo do n.º 1 do art.º 2.º e o n.º 1 do art.º 16.º, de forma a que as obrigações educativas de cada escola, para cada aluno, se cinjam ao respectivo horário escolar.

Artigo 3.º, n.º 5

As horas de que a escola necessite para a dinamização de actividades com  grupo/equipa a nível do desporto escolar, dado tratar-se de uma actividade de enriquecimento e complemento curricular, sairão desta componente.

7. O Desporto Escolar tem sido uma mais-valia na educação e formação dos jovens, um antídoto para combater o abandono escolar e uma importante medida socioeducativa que tem permitido manter muitos jovens ligados à escola, afastados de ambientes prejudiciais ao desenvolvimento equilibrado do corpo e da mente e dos valores que devem guiar a vivência em sociedade.

8. As actividades dos grupos/equipas do desporto escolar sempre foram desenvolvidas em horário equivalente a lectivo e os respectivos professores tinham direito a uma redução específica da componente lectiva para o efeito.

9. O CE está firmemente convencido de que a alteração agora proposta (supressão da redução da componente lectiva) prejudicará irremediavelmente o Desporto Escolar, porque as escolas não terão crédito horário suficiente para atribuir aos responsáveis pelos grupos/equipas o número de horas que lhes permitam  desenvolver os projectos, com a dimensão e a extensão que existia até ao momento.

10. O CE não tem dúvidas de que a forte redução de crédito horário disponível para o desenvolvimento das actividades de Desporto Escolar, prevista no projecto de diploma, implicará uma redução inevitável do número de alunos envolvidos no Desporto Escolar.

Assim sendo, o CE  discorda do n.º 5 do art.º 3.º do projecto em análise e propõe a sua eliminação, com a consequente alteração do quadro referido no Anexo II.

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Ler o parecer aqui.

Petição O fim do Desporto Escolar nas escolas

 

Para:Assembleia da República, Ministra da Educação

 

O fim do Desporto Escolar nas escolas
Com o novo despacho sobre a organização do ano lectivo 2011/2012, uma das medidas mais penalizadoras, será o fim do Desporto Escolar nas escolas. As horas do DE, deixarão de fazer parte da componente lectiva e passarão para a componente não lectiva. Será o Director de cada Agrupamento a definir o número de horas a atribuir ao DE, que poderão ser 1, 2, 3 ou zero! Como as horas da componente não lectiva vão diminuir, as mesmas serão utilizadas preferencialmente, para o apoio aos alunos nas diversas disciplinas: Matemática, LP, Inglês… e as horas para o DE serão as sobras.Com estas medidas prevê-se que mais de 1000 horários de Educação Física irão desaparecer!
In Público: “Para António Palmeira, investigador da Universidade Lusófona, a supressão do Desporto Escolar teria consequências a longo prazo na saúde dos jovens. “Parece-me uma perspectiva muito economicista, de curto prazo. As pessoas que não fazem desporto nestas idades muito dificilmente o farão na idade adulta e 80 por cento dos que são obesos nesta altura serão obesos na idade adulta”, frisou.
Segundo as contas do especialista, duas sessões de Desporto Escolar por semana representam o consumo de mil calorias, o que corresponde a 30 mil calorias por ano. “Representam quatro quilos a mais no jovem se mantiver o mesmo regime alimentar num ano lectivo, só por não terem Desporto Escolar”, sintetiza António Palmeira. Sem o Desporto Escolar, diz, “será difícil os alunos terem acesso de forma organizada à prática desportiva”. “O Desporto Escolar é uma oportunidade de os nossos jovens praticarem desporto da sua preferência sem ser tão sério como um clube federativo e com encargos reduzidos para as famílias”, explica.”

Assinar a petição aqui

Público/privado

A portaria n.º 1324-A/2010 de 29 de Dezembro vem regulamentar o Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo quanto aos contratos de associação. A blogosfera e a comunicação social fizeram eco da discussão de dois temas fracturantes e profundamente ligados: liberdade de escolha das escolas e configuração do Estado Social.

Durante o meu passeio pela blogosfera encontrei um texto que reflecte o que eu penso sobre o assunto.

O que faz correr o ensino privado?

do O Cantinho da Educação de karadas

“A confusão instalou-se. Ou, pelo menos, fica essa a ideia. Fala-se em encerramento de escolas, ameaça de trabalhadores ficar sem o posto de trabalho. O pudico ensino privado ao rubro, na rua, a reivindicar que tudo permaneça como há 30 anos.
Que hecatombe desaba, afinal, sobre o ensino privado em Portugal? Dinheiro. É o vil dinheiro que está em causa. Este sector do ensino pretende viver e crescer, mas não abdica do subsídio do Estado. Pelo que se sabe, podem guardar as bandeiras e os protestos: o apoio ao privado e cooperativo não vai acabar. Por que o tempo é de vacas magras, o financiamento do Ministério da Educação aos privados seguirá os sinais do tempo. Ou seja, em vez dos 114 mil euros anuais por turma, passa a transferir 80 mil. Nem mais.
Dinheiro público continua , portanto, a alimentar a escola privada. Algumas de qualidade, outros nem por isso. Como nas escolas públicas. A questão que se levanta é outra: haverá ainda necessidade desta comparticipação? Como é sabido, foi a necessidade de oferecer ensino para todos que conduziu a isto. Nos locais onde o Estado não tinha capacidade para garantir o acesso ao ensino, os privados substituíram-no e, para isso, eram subsidiados. Ora o cenário actual é outro, sendo raro o concelho onde os jovens não tenham acesso à escola pública. Portugal, neste domínio, registou mudanças assinaláveis
Perante este quadro, será justo encaminhar verbas do Orçamento de Estado para subsidiar os colégios particulares? Não me parece. O argumento pode parecer básico e egoísta: mas ao financiar o privado, está a privar de recursos o público. Tão simples como isso.
Com eleições à porta, os agentes do ensino privado, em aliança com a Igreja Católica, conseguiram transpor o tema para a campanha. Cavaco Silva, candidato mas também presidente, juntou a sua voz aos protestos. Em Fátima, depois de ouvir pais de velas na mão, lamentou que os responsáveis políticos não vissem a luz. Não terá o Presidente visto a luz quando promulgou o diploma que estabelece as novas regras de apoio a este ensino? Parece que as trevas se apoderaram de chefe do Estado e o impediram de vetar o diploma – prerrogativa de que dispõe enquanto presidente, mas fica em Belém quando anda pelo País em campanha”.

Paula Ferreira

JN

Desporto escolar – O toque de finados II

A jornalista Bárbara Wong não compreende os cortes que o governo pretende fazer nesta área.

Se houvesse um critério pedagógico a ordenar as opções da política educativa, é evidente que o governo ao invés de reduzir teria de aumentar o tempo do Desporto Escolar e da Educação Física curricular respeitando ao menos as orientações da comunidade europeia já que ignora a comunidade científica de Educação Física. A jornalista elencou alguns motivos que justificam a sua apreensão. Parecem óbvios. E não é necessário ser-se um especialista na área da motricidade para demonstrar que os tempos da hipocinésia estão aí com todas as suas maleitas, que erradamente se designam de maleitas civilizacionais. Como se o retrocesso civilizacional pudesse encerrar algum propósito de humanidade.

Este governo perdeu definitivamente o norte!

Desgraçados daqueles filhos que não têm pais atentos e com algum desafogo económico. Eu sei o que fazer com a minha filha e esforçar-me-ei para lhe garantir os meios que ela necessita para lutar contra a hipocinésia. Na minha actividade profissional sou pago para o fazer com todas as crianças e jovens que frequentam a minha escola. Malogradamente, este governo que representa mal o Estado parece estar mais interessado em vender gato por lebre do que servir os cidadãos. Tem os meios, está a melhorar as infra-estruturas escolares, mas surripia o bem mais precioso: o tempo.

Triste sina a nossa!

Jornalês

Sucesso dos alunos depende pouco de quem são os pais

Os filhos dos licenciados têm melhores resultados nos exames do secundário do que os descendentes de famílias só com o ensino básico? Os bons resultados dependem da idade dos estudantes? Sim, mas esses dois factores têm um peso de apenas 30 por cento. Os restantes 70 por cento dependem exclusivamente do trabalho feito pelas escolas.

Quem o diz é Cláudia Sarrico, uma das autoras do estudo Perspectivas Diferentes sobre o Desempenho das Escolas Secundárias Portuguesas, que será hoje apresentado no seminário Economia e Econometria da Educação, promovido pelo Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa (ISEG-UTL).

No corpo da notícia lê-se que “[…] As docentes debruçaram-se sobre os resultados dos exames nacionais do secundário de Português e de Matemática e a taxa de conclusão no 12.º ano dos cursos científico-humanísticos, no ano de 2009/2010.

Repito e sublinho: “[…] As docentes debruçaram-se sobre os resultados dos exames nacionais do secundário de Português e de Matemática”.

Como é possível extrapolar, face aos resultados dos exames nacionais do secundário de duas disciplinas, que o Sucesso dos alunos depende pouco de quem são os pais?

Quero acreditar que as autoras terão relativizado os resultados do estudo face aos constrangimentos metodológicos, digo eu que não li o estudo. O problema encontra-se na caixa de ressonância, nesta espécie de jornalês, que induz os leitores a interpretações falaciosas.

Desporto Escolar – O toque de finados

O projecto de despacho de organização do trabalho nos agrupamentos ou escolas não agrupadas dá um golpe fatal no Desporto Escolar: As horas de que a escola necessita para a dinamização de actividades com grupo/equipa a nível do desporto escolar, dado tratar-se de uma actividade de enriquecimento e complemento curricular, sairão da componente lectiva.

Simplificando para uma linguagem mais corrente, avanço já com o meu prognóstico: Morreu a actividade externa do Desporto Escolar.

Porquê? Por uma razão evidente: sem o “incentivo” da redução da componente lectiva que visa a preparação/realização da actividade externa (cuja configuração e o nível de exigência é similar à preparação/realização das actividades lectivas e que exigem uma enorme disponibilidade dos professores para as deslocações que se realizam normalmente aos fins-de-semana) o apelo ao espírito missionário mais profundo que mora em cada um dos resistentes estará condenado ao fracasso. Os missionários vão poder dedicar-se, em exclusividade, como todos os outros missionários de outros grupos disciplinares, às suas missões lectivas!

Considerando a vontade do ME em reduzir custos;  considerando que a actividade interna do desporto escolar é menos exigente para os professores e para os alunos; considerando que estas actividades não são práticas de treino orientado; são actividades desportivas, obviamente organizadas, mas com um pendor recreativo e menos intensivas sob o ponto de vista da prática:

Os docentes vão preferir as actividades internas.

Com a ligeireza costumeira do ME, que ignora as recomendações emanadas do Parlamento Europeu, esbanja uma valência importante do desporto escolar, que muito tem contribuído para a luta contra tendências negativas em matéria de saúde. E porque convém ter presente que os efeitos do exercício físico regular contribui consideravelmente para reduzir as despesas de saúde é caso para dizer:

O barato sairá muito caro!