Arquivos mensais: Junho 2005

Um filme revisto…

Raramente me atrevo a pronunciar sobre assuntos que julgo desconhecer. Hoje decidi contrariar-me. Neste papel confortável de simples treinador de bancada posso afrontar os especialistas em economia [claro que nenhum economista se interessará pela minha opinião, da mesma forma que eu acabo por relativizar as opiniões deles quando se pronunciam acerca dos problemas educativos].

O empolamento [dizem os economistas que é esta A VERDADE] em torno do problema da despesa pública em relação ao PIB acaba por depreciar o problema da criação de receita e do fracasso dos agentes produtores de receita [está bem, eu também produzo receita, afinal o fracasso deles é também o meu]. Esses [os produtores claro, nós somos apenas os gastadores], não podem ser desmoralizados. Têm de ser estimulados, subsidiados, enfim, apaparicados.
Já viram este filme?

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Igualar a diferença

As medidas anunciadas pelo governo, tendo em vista a redução do défice, foram recebidas em êxtase pela generalidade da comunicação social e por um conjunto de mensageiros da desgraça obcecados pela dieta do estado. A tentativa de igualar o inigualável reduziu a análise dos problemas do alargamento da reforma no sector público a meras operações contabilísticas. Utilizado e gasto até à exaustão o argumento da equidade, a questão do alargamento da idade de reforma foi lançada para a opinião pública num único pacote. A ideia que passou é que a função púbica é singular. Ora, como seria de esperar, as excepções confirmam uma função pública verdadeiramente plural. Como recordava o Gonçalo recorrendo a uma notícia do Expresso, a lista das reformas de excepção é enorme.
E ao contrário do que possa parecer, não me deixo surpreender com a dimensão da lista das excepções. O que me surpreende verdadeiramente é a rejeição da diferença das funções [públicas] e a tentativa frustrada de querer homogeneizar a diferença!

Serviço [de vigilância] público

Duas horas forçadas de reflexão e um turbilhão de pensamentos cortados pela solicitação de uma nova folha de prova. Se prescindirmos dos motivos que se prendem com a possibilidade de um retiro espiritual compulsivo não encontro razões substantivas que justifiquem a atribuição do serviço de vigilância aos exames nacionais a um professor. A meu ver, esta função enquadra-se nas funções do auxiliar da acção educativa ou, em última instância, pode ser remetida para uma empresa de segurança privada. É verdade. Foi a ambiguidade do articulado no estatuto da carreira docente que deixou terreno livre à administração para continuar o grande empreendimento que visa transformar o professor num operário acrítico.

Foi assim durante a prova: Enquanto procurava razões substantivas para justificar esta perda de tempo no trabalho do professor, ocorreu-me um pensamento divergente. Afinal, esta nobre função de vigilância pode ser considerada uma actividade educativa se acreditarmos que a simples presença do professor na sala de exame se transforma num factor gerador de segurança e de confiança para o aluno.
Pois…

Ainda não passou um mês da noite fatídica que te empurrou para um quarto impessoal e sinistro. Estou bastante preocupado com o teu estado embora me esforçasse para não o deixar transparecer. O quão insignificante será esta sensação de perda diante do sofrimento que te tolhe o pensamento e a acção.
Atreve-te a esmorecer Zé Manel!

Entre o deve e o haver…

… o Manuel anda desaparecido, o Gustavo e o Carlos recomeçaram, o adkalendas e o Gil decidiram retirar-se, o João mal chegou a entrar, o Jorge encerrou para balanço mas já retomou e o Paulo saiu de mansinho.

É que as contas não se fazem só no fim!

A encruzilhada.

A educação foi ao parlamento por vontade do primeiro-ministro. Já me habituei a conter as expectativas sobre as incursões esporádicas dos nossos representantes políticos pelo empreendimento educativo. Tem sido, como se sabe, muita parra e pouca uva. Devido à complexidade do sistema educativo qualquer primeiro-ministro pode vaguear pela temática anunciando alterações avulsas mais ou menos elaboradas, normalmente inconsequentes, incapazes de promover alterações nas práticas educativas. Mais estudo acompanhado, alunos mais tempo na escola e mais disciplinas, mais inspecção para verificar se mais do mesmo tem como resultado mais do mesmo. O quadro tem sido este e ninguém se atreve a inovar. E porquê? Talvez porque a inovação e a reforma andam de braço dado e a ideia de reforma adoptou uma conotação negativa. Hoje, é politicamente incorrecto utilizar a expressão REFORMA e a comunicação social não perdoa os incautos que se atrevem a reclamá-la. Se a expressão foi abolida do discurso político [por influência de alguns comentadores mediáticos que satirizaram a expressão] surge, em algumas tertúlias, uma nova expressão: a RECONFIGURAÇÃO do sistema educativo. Reclama-se um sistema educativo radicalmente diferente que abandone a actual matriz organizacional e que edifique uma nova ordem educativa. Seria um sistema cuja plasticidade admitisse e conciliasse uma pluralidade de paradigmas educacionais. Seria um sistema mais adequado às exigências da sociedade de conhecimento em que vivemos e que suscitasse um novo quadro de relações entre a sociedade e as organizações produtoras e regeneradoras do conhecimento. Seria um sistema plural.

É esta a encruzilhada em que nos encontramos: Ou arriscamos a inovação instável ou persistimos na estabilidade dos erros.

Adenda:
Depois de ouvir (parte) do debate de ontem na RTP1 sobre o problema orçamental não me contenho perante a necessidade da reconfiguração do sistema educativo. É que começa, também, a fazer sentido apelar à reconfiguração do sistema político. E nesta matéria concordo com o Nuno, Os Ayatollahs da economia fazem parte do problema.

Greve [termo]

E como é fácil confundir as necessidades dos alunos com as necessidades do sistema educativo.
Paradoxalmente, os defensores da tese de que o sistema educativo está centrado em si próprio [alguns vão mais longe afirmando que o sistema educativo está centrado nos interesses corporativos dos professores] não percebem que os exames são, essencialmente, instrumentos de controle do próprio sistema. E nesta medida, os alunos são cobaias do sistema. Não será assim?