Arquivos mensais: Novembro 2010

Há lutas em dois quintais

O Estudo Acompanhado era a unidade de cuidados intensivos do Português e da Matemática", defende ao DN Arsélio Martins, da APM, para quem esta solução era ainda assim "um paliativo" que só disfarçava as carências.

Ainda pensei que a área não disciplinar de Estudo Acompanhado tinha como objectivo ensinar as crianças e jovens a estudar. Claro que só um lírico como eu, que nada percebe de metodologia de estudo, é que poderia pensar que a criação desta área não disciplinar visava uma coisa muito simples: ajudar as crianças a encontrar um método singular para um estudo autónomo.

Depressa as áreas não disciplinares (Área de Projecto e de Estudo Acompanhado) foram subjugadas pela Matemática e pelo Português e transformadas em centros de treino intensivo, ou cuidados intensivos, como os designa o colega Arsélio Martins, da APM.

Nada de surpreendente se considerarmos que há muito tempo prevalecem as lógicas mercantis no sistema de ensino. Daí a febre dos resultados atestados nos famigerados rankings. Daí o papão dos exames nacionais. O que me leva a pensar que as ideias, os projectos, as inovações, tudo o que é criado com o intuito de transformar a escola acaba metamorfoseado em produto negociável. Com a conivência dos órgãos de gestão e com o silêncio cúmplice dos conselhos pedagógicos, as áreas não disciplinares (insisto no negrito), designadamente, o Estudo Acompanhado e a Área de Projecto, acabaram na alçada das disciplinas do regime (Matemática e Português) e a Educação Cívica acabou por ser uma propriedade do Director de Turma para o trabalho directo com os alunos porque há sempre que resolver problemas do quotidiano escolar (o que até nem me parece mal face ao objecto da disciplina).

O governo decidiu, e bem, acabar com a farsa. Eu sei que não o fez pelos melhores motivos: Não vai acabar com as áreas não disciplinares por ter verificado que o sistema foi pervertido. Mas se há males que vêm por bem, este é um deles, por muito que custe aos excelsos líderes das associações de professores de Português (APM) e Matemática (APM).

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(Hard)CORE

Em 3 de Agosto o Governo constituiu a CORE – Comissão para a Optimização dos Recursos Educativos.

No despacho, publicado em Diário da República e assinado pela ministra da Educação, pode ler-se que esta é uma comissão, presidida por Carlos Alberto Pinto Ferreira, de "carácter eminentemente técnico", que deverá concluir o seu trabalho dentro de três anos, ou seja, no final desta legislatura. O objectivo é, além de acompanhar a evolução do sistema educativo, propor medidas de política educativa e elaborar estudos técnicos para melhorar a qualidade do ensino, sempre com as palavras "optimização" e "eficácia" no horizonte.

A comissão durou apenas 3 meses. Estou convencido que foi o tempo necessário para que a comissão, criada com o intuito de optimizar o sistema, verificasse a sua inocuidade. Daí ter proposto, digo eu, a sua própria extinção.  O que não deixa de ser paradoxal, irónico e até hardCORE .

É ou não uma boa notícia…

… quando alguém revela que deixou de ser relator no seguimento de um pedido de escusa?

Não é que a farsa em que se transformou a ADD dependa dos protagonistas, alguns dos quais quiçá bem preparados para implementar um modelo de avaliação que é iníquo, obtuso e indecifrável.

Olhando para o quadro em que se vai desenvolvendo este processo, fica claro como são inócuas as críticas ao modelo realizadas em conversas catárticas nos recantos das salas de professores.  Em nome da coerência, o “inconformismo” devia ser traduzido em acções concretas. É que uma coisa é ser “obrigado” a desempenhar uma função; Outra bem diferente, é aceitar tacita e passivamente uma designação.

Mega agrupamentos? Não!

Atente aos argumentos elencados na revista do SPN – Informação.

megaA

Há que continuar a desviar o olhar e fazer de conta que está tudo bem.

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Estas recomendações da OMS cairão em saco roto, obviamente. Porquê? Porque uma maior oferta de  actividade física para os alunos reclama mais professores de Educação Física e sugere alterações na cadeia de produção de saberes escolares.

Quem é que se importa com uma factura a pagar no futuro?

Seminários – SPN

Podia ser mais participado, mas não dei o meu tempo como perdido.

Autonomia das escolas e a febre dos resultados

O Ramiro defende uma proposta de financiamento onde “Cada agrupamento de escolas faria um contrato com o ME por quatro anos, sendo-lhe permitido gerir as escolas em completa autonomia curricular e pedagógica e sendo obrigado a apresentar resultados no final dos quatro anos.

Se os resultados dos alunos conhecerem progressão, o contrato será renovado. Se houver regressão, o contrato será denunciado, o director demitido e a gestão do agrupamento entregue, por contrato, a uma entidade com provas dadas na gestão de instituições educativas.”

Os resultados dos alunos progridem quando:

Sobem as classificações dos alunos nas disciplinas sujeitas a exame nacional;

Sobem as taxas de aprovação;

Diminuem as taxas de abandono escolar.

Para cumprir este desiderato, os directores promoveriam centros de treino de alto rendimento em disciplinas sujeitas a exame nacional (nada de novo e que já não aconteça em muitas escolas privadas) (E se forem generalizados os exames nacionais a todas as disciplinas, seria muito interessante perceber a agenda dos centros de treino); Aumentariam a pressão sobre os professores no sentido da aprovação dos alunos e intensificar-se-iam os sistemas de controlo e vigilância dos professores; Desenvolveriam estratégias perversas de selecção de alunos com maior potencial de aprendizagem e menor predisposição para o abandono.

Em nome de uma pretensa eficiência na utilização de recursos, será que vale a pena incrementar a avaliatite? Espero que esta tese não venha a corroborar a seguinte hipérbole: na sua azáfama de pesar a galinha, o dono acabou por se esquecer de a alimentar.