Arquivos mensais: Setembro 2008

Sentimento de insegurança e o silêncio conivente.

É consensual a ideia da existência de um ambiente geral nas escolas que se caracteriza por uma receptividade difícil ao novo Modelo de Avaliação de Professores. Aliás, este sentimento é perceptível através de testemunhos de colegas oriundos de todos os pontos do país recolhidos em vários fóruns de discussão, nomeadamente, na blogosfera docente. É o sentimento de descrédito na Avaliação de Professores e no seu contributo para o Desenvolvimento Profissional, o que revela a existência de uma visão pessimista de que é impossível “fazer bem” aquilo que a lei manda fazer. Este clima é agravado pelo ambiente de conflitualidade mais ou menos latente entre intervenientes, que poderá ser justificado pela falta de confiança mútua entre professores face aos colegas titulares. Por outro lado, existem problemas que resultam da desinformação suscitada por diferentes interpretações da lei, da entropia nas escolas gerada pela incontinência legislativa deste governo e pelas limitações objectivas do sistema de avaliação imposto.

A meu ver, o sentimento de desconfiança surge agregado a um sentimento de insegurança, que pode ser traduzido pela seguinte questão:
Será que a nossa formação inicial, gerada pela instituição do ensino superior que nos acolheu e cuja marca de profissionalidade é indelével, evoca aquele professor de formato único que surge plasmado nas grelhas do ME?

E se não me encaixo nesse perfil funcional, o que têm a dizer as escolas de formação de professores? Será que o aperto financeiro em que vivem pode justificar o silêncio conivente com as políticas deste governo?

Preso por ter cão, preso por não ter…

Correndo o risco de encontrar conflitos estéreis e inoportunos, se entendermos que o momento deve ser de união, as afirmações que a blogosfera docente vai produzindo sobre a estratégia sindical não me deixam indiferente. Não estou particularmente inclinado a fazer de advogado de defesa de qualquer estrutura sindical, porque não tenho essa pretensão e muito menos a legitimidade para o fazer.

O que importa é buscar o contraditório e perceber o sentido da crítica.

Moriae escreve no blogue a sinistra ministra que “Não se entende o que pretendem os sindicatos … Na realidade, sempre foram um bocado nódoa no que diz respeito à Educação Especial … (OK, não todos porque não conheço mas … os exemplos a que me refiro comprovam lindamente o que penso …)”. Este pequeno reparo destaca a opinião do Ramiro que considera que “Há algo de misterioso na posição dos sindicatos” porque terão mostrado indiferença à concentração realizada por algumas centenas de colegas, em frente do ME, na 5 de Outubro.

Se os sindicatos decidem apoiar as iniciativas que lhes são alheias (relembro as teses que defendiam o efeito pendura dos sindicatos na concentração do 100 mil), são oportunistas e manipuladores.
Se os sindicatos não decidem apoiar iniciativas que lhes são alheias, “há algo de misterioso e com esta atitude dão força aos que apelam à desfiliação sindical.”

Por favor, decidam-se!

E para que não se pense que esta crítica é unilateral, importa saber se, por mais legítimas que sejam as reivindicações (e será o caso desta), devem os sindicatos abandonar ou não as suas próprias agendas e correr atrás das iniciativas dos promotores ad hoc? Esta questão remete-me para uma outra, a de saber quem deve definir a agenda sindical?

Destaque

«Professores que sofrem» é uma série de reportagens do PortugalDiário que vai preencher toda esta semana, antecedendo o Dia Mundial dos Professores, que se assinala, por consignação da UNESCO, no próximo domingo, dia 5 de Outubro

Escolas querem notas dos alunos fora da avaliação
Professores reclamam suspensão do parâmetro com base numa recomendação do CCAP.

“O Conselho considera que, a par das oportunidade que se abrem, como é próprio dos processos de mudança, se corre o risco de a avalição se constituir num acto irrelevante para o desenvolvimento profissional dos docentes, sem impacto na melhoria das aprendizagens dos alunos que conviria evitar desde o início”. (in: JN)

Sucesso escolar plástico ou de plástico?

A notícia refere que a ministra da educação estabelece como objectivo de governação, para os próximos anos, 100% de aprovações até ao 9º ano.

Fjsantos pergunta “em que medida pode a ministra garantir tal previsão e se o seu desejo tem ou não sustentação legal”? Ao agregar a avaliação dos professores aos resultados escolares dos alunos a armadilha legal ficará montada para cumprir o objectivo organizacional. Como é que isso pode acontecer? O Francisco deixa no seu texto algumas pistas para se perceber a “inginharia” sugerindo, como forma de combater o eleitoralismo e a desonestidade demagógica deste modelo de avaliação de professores, a renúncia a simplificações mistificadoras, exigindo seriedade e rigor nos processos e obrigando os órgãos de gestão das escolas e os respectivos avaliadores a cumprirem tudo o prescrito na legislação em vigor.

Pensemos no objectivo enunciado pela ministra: aprovar todos os alunos no até ao 9º ano. “Se outros países da Europa com os quais nos comparamos o fazem, Portugal também o pode fazer“, disse a ministra aos jornalistas.
O Francisco cuidou de desmontar a armadilha legal que sustentará a retórica oficial de que não foi necessário o ME utilizar o caminho mais “simples”: a aprovação administrativa de todos os alunos. Bastava tornar ilegal a retenção/não aprovação e acabariam as mistificações e as “inginharias” em torno desta questão, assim como minorávamos o desgaste que estas coisas suscitam nos actores situados.
O governo escolheu o caminho mais sinuoso e que lhe permite retirar mais dividendos políticos. Contudo, seria mais transparente e coerente se optasse pelo caminho da alteração de paradigma (como lhe chamaria o pai da nação 😉 ).

Se olharmos para o problema da certificação “à la carte” implementada por este governo, depressa percebemos que existe um padrão de aprendizagem variável: a um aluno certificado com o 9º ano de currículo normal são-lhe exigidas competências terminais (permitam-me o linguajar) diferentes daquelas exigidas a um aluno certificado com um CEF do 9º ano.

Ora, se podem existir diversos padrões de aprendizagem mínima no mesmo ano de escolaridade, se a certificação para o mesmo ano de escolaridade não gera o mesmo significado, para quê manter a lógica de organização escolar dos alunos vertical (anos de escolaridade) e horizontalmente (turmas)? Não será um mero artifício administrativo homogeneizar as singularidades? Como se resolve o problema da escola unidimensional que trata todos os alunos como se fossem um só?

Por não acreditar neste sistema de certificação de competências que não valida a diferença, é que penso que o sucesso escolar deve ser plástico, o que não pode ser confundido com sucesso de plástico.

Confuso? 😉

__________________
Adenda: Bem a propósito descobri no Terrear este texto que evoca o problema da relação entre escolarização e desenvolvimento cognitivo.
Ainda que haja controvérsias com a definição e a medida da inteligência (número e estrutura da organização), as investigações apontam que o desenvolvimento cognitivo está associado com a idade e a escolaridade, embora não se saiba exatamente qual a influência única de cada uma dessas variáveis. […]

Ora, como os sistemas educativos têm introduzido mecanismos que diminuem de forma muito substancial as retenções escolares, os investigadores acreditam que com o decorrer dos anos a escolarização deixará de reflectir o grau de aprendizagem e de educação formal.

Esta tendência evolutiva nos sistemas educativos que evidencia uma desagregação da escolaridade e o desenvolvimento cognitivo [e por arrastamento, o desenvolvimento sócio-afectivo e psicomotor] requer um novo olhar sobre o significado de escolaridade estratificada.

Sublimar :-)

Produzir a ambiguidade – uma solução para o problema da sobrevivência profissional.

Simplificar para combater a burocracia, definir objectivos minimalistas que correspondam a práticas correntes, reduzir as grelhas ao mínimo absoluto. Estas são algumas sugestões do JMA que visam garantir a sobrevivência profissional face ao processo de avaliação do desempenho docente.

As sugestões são benignas mas não suficientemente claras para ultrapassar a ambiguidade conceptual que o próprio modelo de avaliação encerra.

Esta limitação acaba por fazer emergir a pergunta:
Será que este repto à simplificação, cada vez mais propagado na escola, ao invés de revitalizar a confiança dos actores situados não estará a gerar ainda mais entropia no sistema por não existir uma ideia suficientemente consensual sobre o significado de simplificar?

Não ouço nenhum professor defender a complexificação do processo de avaliação, apesar dos resultados expressos nas grelhas de avaliação, algumas vezes, sugerirem o contrário. As pessoas querem simplificar mas não sabem como se simplifica. Por falta de respostas, por inconsistências várias, por receio de entrar em conflito com a norma externa, o problema acaba por gerar instantaneamente a sua própria resposta: a produção da ambiguidade faz com que as normas pareçam mais consistentes.

Eis a solução: produzir documentos ambíguos!

Houvesse confiança nas pessoas e nos processos situados e nenhuma escola teria problemas com a avaliação do desempenho.

O silêncio é de ouro.

Pergunta este colega pelos sindicatos. “Onde estão?

Esperávamos uma palavrinha sobre este assunto: a Avaliação dos Professores! Já não digo uma tomada de posição firme, mas algo… uma palavrinha nas televisões. Aliás, sem as Associações criadas ad hoc não tínhamos conseguido juntar nem metade dos 100 mil professores, que desceram a Avenida da Liberdade.

É FRUSTRANTE ter depositado tanta confiança nos Sindicatos, naquela Mega-Manifestação. E agora? NADA!

Neste início de ano lectivo nem uma palavra, uma iniciativa, que mostrasse o descontentamento, a desmotivação dos Professores.

Não deixa de ser curioso que esta questão seja colocada pelo editor de um blogue de uma associação auto-intitulada ad hoc de professores. Não é que esteja particularmente interessado em alimentar qualquer tipo de querela entre colegas, mas não me parece genuína esta preocupação porque é contraditória face ao discurso da falência da acção sindical. Numa latitude diferente, alguém me confidenciava, longe de ser considerado “activista”, que sentia estranheza pelo pretenso apagão sindical.

Confesso que fico muito mais optimista quando constato que professores, mais ou menos distantes do movimento sindical, potestam pela pretensa acção inócua dos sindicatos nesta abertura do ano lectivo. Começar por sentir a falta dos sindicatos é um bom ponto de partida.  É que todos precisamos de todos para lutar contra quem promove a desqualificação da função docente…

Um novo 8 de Março deve ser cada vez menos uma miragem!