Arquivos mensais: Junho 2010

Mundial de futebol – Um outro olhar.

É do senso comum olhar para um jogo de futebol e apreciar apenas a fase ofensiva. Mas quem aprecia o jogo de futebol pela sua lógica interna, pela alternância das fases de jogo, pela expressão das possibilidades dos jogadores nesse mosaico fluído de movimentos debilmente articulados, em que o TODO é sempre maior do que a soma das partes, não pode deixar de louvar o trabalho que foi realizado pela equipa técnica da selecção. Quem acompanhou esta equipa desde o início, desde o começo, onde a equipa era uma manta de retalhos sem uma ideia de jogo, sem um modelo de jogo, metamorfoseou-se num conjunto homogéneo que é, hoje, valorizado e respeitado por todos os intervenientes directos no próprio jogo, pelos jogadores e treinadores adversários.

Hoje observámos dois modelos de jogo antagónicos. Venceu o espanhol, é verdade. Mas não encontro motivos para menorizar o nosso modelo de jogo. Quem assistiu, recentemente, ao jogo defensivo da equipa de José Mourinho em Barcelona, exaltou a excelência do trabalho defensivo. Mais até do que a organização ofensiva da equipa, no jogo da 1º volta, que lhe permitiu entrar na 2ª volta da eliminatória com vantagem. Teria saído enaltecida a audácia do treinador se o resultado final fosse negativo?

É evidente que a selecção portuguesa tem margem de progressão. Ao contrário da selecção espanhola em que dá a ideia que a equipa começou a ser construída da frente para trás, face à qualidade dos médios e atacantes, a nossa selecção foi construída, e bem, de trás para a frente face às características dos “nossos” jogadores. Esta competição foi apenas o começo e, face aos resultados alcançados, começámos bem.

Para memória futura, não posso deixar de enaltecer o trabalho da equipa técnica e dos jogadores porque acrescentaram valor ao JOGO.

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À política o que é da política.

Educação: PSD quer saber em que estudos se baseou o Governo para encerrar escolas.

Por que carga de água um governo necessita de um estudo para legitimar uma decisão política? Desde quando uma decisão política é alicerçada na investigação?
O PSD não esteve bem, neste caso, ao solicitar um estudo ao governo porque num ápice aparecerá um estudo valteriano a fundamentar tudo, e até o seu contrário, se houvesse necessidade.
O PSD devia escrutinar as implicações políticas de tal medida, designadamente, no reordenamento do território, na coesão social e na equidade. Esse é o debate político que o PSD deveria promover se o seu interesse em resolver as assimetrias fosse genuíno.

Uma aliança contra-hegemónica.

A Fenprof e a Confap fizeram uma declaração conjunta que denota o consenso a propósito do reordenamento da rede escolar.

Lendo atentamente os pontos de convergências entre estas duas organizações, é difícil não concordar com o enunciado: são dez pontos onde se reivindica o bom senso dos responsáveis políticos. Cortar na despesa sim, claro, mas sem mandar às malvas a coerência das políticas educativas, fazendo tábua rasa de algo que ao longo de muitos anos foi usado para legitimar a transferências de responsabilidade política para as autarquias e para as escolas: é assumir, definitivamente, o óbito de projectos educativos, Conselhos Municipais da Educação e Cartas Educativas Municipais. Finaram 3 dos instrumentos alegóricos de uma política educativa centralista.

Sob o ponto de vista da substância do que foi acordado entre a Fenprof e a Confap não há, digo eu, grandes objecções. Já o mesmo não se poderá dizer da interpretação política da aliança táctica entre duas organizações políticas que andaram de candeias às avessas na última legislatura.

Face ao posicionamento da Confap na última legislatura, só se aceitará este aliança se se pensar hereticamente. Só é possível aceitar esta aliança porque, isto é inequívoco, contém benefícios comuns e porque esta aliança não põe em risco a essência dos valores e crenças conciliáveis com a defesa da escola pública.

Erro Crasso

É fácil ser dirigente político enquanto prevalecer a ideia (e a prática) da desresponsabilização dos actores políticos pelas suas (más) decisões. José Matias Alves evoca um conjunto de razões que permitem afirmar que a criação de mega-agrupamentos é um Erro Crasso.

Mega-agrupamentos: sistematizando a crítica

do terrear de JMA

Já por diversas vezes aqui sustentei que a criação intempestiva e forçada dos mega-agrupamentos estão a ser (vão ser) um Erro Crasso e parecem colher a simpatia de um número indeterminado de municípios que vêem nesse processo uma forma de acederem ao controlo das escolas secundárias.

E é um erro Crasso pelas seguintes razões:

a) as lideranças instrucionais e transformacionais (que a literatura reconhece como forças poderosas de mudança educacional) perdem as condições de exercício e tendem a transformar-se em mera gestão burocrática de estruturas;

b) a comunicação intra-agrupamentos era um ponto crítico reconhecido na generalidade das situações o que limitava fortememente a coerência e a coesão na acção; com esta medida a comunicação tende a ser um simulacro; e as articulações verticais e horizontais – outro ponto crítico do sistema – serão definitivamente enterradas;

c) a necessidade de uma missão e de uma visão comuns construída pelo maior número possível de actores, já de si tendencialmente inexistente, mas que toda a investigação reconhece como central na promoção da eficácia orfanizacional, vai ser completamente erradicada. Muitos anos de vão passar até ser possível restaurar o que agora se perde;

d) os climas de escola – reconhecidamente uma variável central na promoção das aprendizagens dos alunos – são seriamente danificados com este processo caótico e irracional;

e) a monitorização e auto-avaliação dos processos e resultados – um dos maiores pontos críticos identificados pela avaliação externa realizada pela IGE – vão ser ainda mais fragilizadas, perdendo, por muito tempo, a esperança de colocar a auto-avaliação ao serviço da melhoria das organizações educativas;

f) o trabalho colaborativo, designadamente em sede de departamentos, tão necessário para enfrentar os complexos desafios educativos, tende a ser impossível com as mega-estruturas entretanto decretadas;

g) a confiança numa ordem legal estável e confiável é definitivamente enterrada; conselhos gerais eleitos há pouco mais de um ano são desfeitos; directores seleccionados e eleitos no mesmo prazo temporal são agora chamados e despedidos uns e promovidos outros a directores fictícios de conglomerados organizacionais;

h) as relações entre os membros da organização – factor chave de sucesso – são seriamente afectadas criando-se um ethos destrutivo e nefasto;

i) a concentração e a hierarquização do poder – ao invés do pretendido – são factores de perda, de ameaça ao necessário empowerment , de reforço das tendências centrífugas e anárquicas, sendo expectável o cenário daingovernabilidade destas mega-organizações;

j) as ligações escola-família – outro factor crítico – nada ganham com esta solução, podendo, pelo contrário, afectar a comunicação com o dirigente máximo;

l) a co-existência de culturas profissionais em conflito de visões e percepções pode transformar a escola numaarena política ainda mais destrutiva.

É certo que esta "solução" pode poupar alguns milhões de euros (em qualquer caso, está longe de estar demonstrado o ganho significativo). Mas os prejuízos educativos e pedagógicos são incalculáveis. Custa-me viver num país que tão levianamente afecta e prejudica centenas de milhares de portugueses.

Português técnico…

rir "Eu não venho aqui fazer anúncios. Eu venho aqui anunciar medidas."

José Sócrates na Assembleia da República

As partes mandam o todo às ortigas *.

Estou como o Ricardo: Também não gosto de guerra dentro das trincheiras. Não gosto, provavelmente, pela razão oposta. O Ricardo sente-se revoltado com os colegas que decidiram apontar o dedo àqueles que entregaram os OI’s candidatando-se às menções de “topo” e beneficiando agora da promoção para efeitos de concurso.

O argumento que o Ricardo utiliza é o argumento de direito e que pode ser reduzido à seguinte enunciação: “A lei consentiu? Então só não a aproveitou quem não quis!”

É evidente que nenhuma luta colectiva resistirá a este tipo de argumento porque, como é fácil de compreender, nenhum professor se atreverá a beliscar os seus interesses pessoais imediatos por algo maior, quiçá intangível, de médio e de longo prazo, sem um movimento colectivo de oposição.

Mas quem abdica da luta colectiva, se pretender ser congruente, não lhe interessará questionar a estratégia, nem a táctica sindical, porque não reconhece o sentido dessa luta. Isto é, deve mandar às ortigas quem negoceia em seu nome e exigir uma negociação individual do contrato de trabalho.

Face ao sentido das políticas deste governo, e até do próximo que está a governar na sua sombra, estes colegas, que decidiram tratar da sua vidinha num momento em se exigia uma grande unidade na acção reivindicativa, têm motivos de sobra para estar satisfeitos e esperançosos.

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Adenda: * para não ferir susceptibilidades, este vocábulo foi escrito no "pós-acordo" ortográfico… hummm… e susceptibilidades também… ó diabo  😉

Faixa negra

professores-em-luta (1) Já estou a preparar a faixa negra que usei numa das manifestações.

As sapatilhas estão prontas para regressar à rua!