O mundial deste país foi ao poste.

de João Paulo Videira

Quem me conhece sabe que eu, à semelhança de mais uns quantos portugueses, gosto muito de futebol. Quem não me conhece ficou agora a saber. Quem me conhece sabe também que gosto de pensar e escrever o que por si só não atesta a qualidade do pensamento e muito menos da escrita. Joga a meu favor a prática. E, por fim, quem me conhece sabe que eu gosto de ver a nossa selecção jogar bem e ganhar. Como é sabido de todos e já não só dos que me conhecem, hoje não vi uma coisa nem outra. E, garanto-vos, uma delas me bastaria, independentemente de qual fosse.

Escrevo estas linhas porque estou convicto de que aquela bola que o Cristiano Ronaldo atirou ao poste mudou o presente e o futuro próximo do nosso país. Se tivesse entrado, estavamos bem mais tramados do que estaremos. A nossa selecção está velha, usada, sem ritmo, cansada, sem ideias e, sejamos francos, é muito fraquinha, joga muito pouquinho. está muito longe do que fez em 2004 e em 2006 e, sejamos de novo freancos, pensar que passará a fase de grupos só para quem foi a Fátima no passado dia 13 de Maio e crê em milagres. Felizmente não passará!

Porquê felizmente? Ora não é óbvio!? Vejamos. Se a selecção nacional de futebol passasse a fase de grupos ou mesmo ganhasse um jogo, os prezuízos para a nação contribuinte e trabalhadora seriam incalculáveis. Se ganhasse o que quer que seja, o povão gastaria ainda mais acima do que pode e gastaria dinheiro emprestado pelos mesmos tipos a quem anda a pagar com acréscimo de impostos a má gestão política, financeira e estratégica da nação. Se ganhasse, muitas mais festanças haveria com excessos gastronómicos, já para não falar nas bebidas alcoólicas, com respectivas consequências na saúde de cada um e o enterrar definitivo da saúde pública em termos financeiros. Poderia mesmo haver mortes agora que o INEM já tem menos ambulâncias e helicópetros. De resto, para que é que a gente quer esses recursos se a malta ainda tem força para bufar na vuvuzela. E por falar em vuvuzela e saúde pública, se ganhasse, também na área otorrino haveria um inusitado acréscimo da despesa. Sempre com os mesmos inconscientes gastadores a pagar: a malta que paga religiosamente os impostos. Mas isto não é o mais grave. O mais grave é que, se a selecção ganhasse algum jogo ou passasse desta fase, a distracção que a euforia da vitória causava nas nossas pacatas gentes permitiria ao engenheiro Sócrates, devidamente coadjuvado por Teixeira dos Santos, espetar-nos com um PEC3 em cima e, pior do que isso, colocaria nas letras pequeninas do texto, as coisas que quer fazer mas ainda não foi capaz. Ora, enquanto a malta se distraía e depois voltava à vidinha, nos diversos sectores, far-se-iam pequenas e imperceptíveis mas danosas alterações legislativas. Coisas ao género do ME que, em período de férias, publicava documentos importantes. O outro ME. Este ainda não teve o ensejo. E a nossa sorte foi a bola ter ido ao poste. Desta maneira, voltaremos ao rame-rame quotidiano da labuta, concentrar-nos-emos rapidamente nos assuntos sérios e evitaremos que quaisquer avanços de subversiva intenção nos apanhem desprevenidos.

O nosso país é demasiado pequeno, não só geograficamente, para participar numa coisa que no nome tem a palavra mundial. Nós somos assim de amplitude mais distrital ou mesmo concelhia do mundo. E depois, como se vê pelo distinto seleccionador, somos uma raça esquisita. Ele é a relva que não presta, o vento que é forte, a chuva que é molhada, e até o diacho do adversário que quer a bola só para ele. Ora, se não temos estrutura para uma coisa mundial, o melhor é não nos distrairmos com ela. Quando o Cristiano chutou, se a bola tem entrado, a euforia tinha-se espalhado qual praga e o PM estava já esfregando as mãos de contente. A nossa sorte foram duas: uma, o capricho dos deuses e dos ventos e do destino e essas coisas todas que fez com que a esférica borracha fosse ao poste e voltasse para trás. Outra, o facto de o Mário Nogueira ter imediatamente consultado o Secretariado Nacional da FENPROF sobre a matéria tendo sido aconselhado a que se fizessem todos os esforços para que a gracinha se não repetisse não fosse a bola entrar. Fez-se uma extensa reunião com representantes da FPF, uns quantos telefonemas para a África do Sul e, como puderam presenciar, não houve mais bolas ao poste, nem tão pouco o risco do remate. Acredito que fizemos (SN) um favor ao país. Claro que vai já haver quem diga que queria que a selecção ganhasse e, como tal, muito haverá quem dirá mal da FENPROF. Mas desses há sempre quer a selecção ganhe ou perca, faça sol ou chuva, haja PEC ou não. Haverá mesmo um conjunto de cépticos que negarão que os sindicalistas tenham feito alguma vez tal esforço de salvação dos pátrios destinos. Mas, para esses, teremos sempre as actas negociais a comprovar a veracidade das nossas boas acções!

O mundial deste país foi ao poste? Não faz mal, conquanto vamos marcando pontos cá dentro!

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5 thoughts on “O mundial deste país foi ao poste.

  1. […] O mundial deste país foi ao poste. Publicado em Divulgação por Miguel Pinto, em 16/06/2010 […]

  2. João Paulo Videira 16/06/2010 às 10:29 Reply

    Olá Miguel,
    ao contrário do que normalmente faço, este texto foi escrito directamente no Blogger e não teve revisão. Hoje de manhã quando fiz a sua revisão reparei em inúmeras gralhas que, entretanto, limpei. Peço desculpa aos teus leitores e se quiserem ler uma versão “limpa” de imprecisões podem sempre consultar http://mailsparaaminhairma.blogspot.com/2010/06/o-mundial-deste-pais-foi-ao-poste.html

    Um abraço,
    João Paulo Videira

  3. Paulo G. Trilho Prudêncio 16/06/2010 às 21:50 Reply

    Viva Miguel (meti um comentário igual no blogue do Francisco).

    Neste momento deste longo processo só me resta a seguinte conclusão: a má burocracia e a disputa de minutas invadiu de vez a mesa de negociação.

    Não se entende? Basta ler, por exemplo, com atenção este pressuposto: “Regime de gestão das escolas que sobreleva lógicas administrativas a interesses pedagógicos e restringe ou impede a participação democrática dos agentes educativos;”

    Duvido mesmo que saibam do que falam. Desculpa a falta de humildade.

    A luta é longa e difícil, já sabíamos. Se dependêssemos apenas da mesa de negociação, estávamos como em Maio de 2008 e depois em Março de 2010: num registo pardacento.

    Não querer sequer equacionar isto é para mim o maior dos enigmas; ou talvez não.

    Abraço.

    • Miguel Pinto 16/06/2010 às 23:41 Reply

      Viva, Paulo.

      Vou tentar aclarar: os sindicatos são os nossos representantes legítimos nas negociações com o ME, com ou sem mesa. Há sindicatos para quase todos os gostos e haverá quem pense, embora ainda não assumisse publicamente essa pretensão, que existe espaço para mais um, ou dois sindicatos, depende não sei bem de quê, porque os sindicatos que temos não representam todos os professores. Não sei se há outro mosaico representativo, com outras lógicas de representação mais simpáticas, que sirva melhor os professores. Força aí com as alternativas… e discutamos.

      Se os nossos representantes negociais fizeram mal o seu trabalho, critiquemos e fundamentemos as críticas. Com críticas ou sem críticas, todos precisamos de todos: Os representantes, os representados, com mesas, com a Web 2.0, activistas e bloggers.
      Nunca ninguém me ouviu dizer que os sindicatos são organizações cristalinas. E não poderia dizê-lo porque quem faz os sindicatos são professores, com virtudes e defeitos. Os sindicatos precisam de se reformar sistematicamente, claro. E que é mais fácil reformar por dentro, como diz o fjsantos.

      Agora perdi o fio à meada… 8)

  4. Paulo G. Trilho Prudêncio 17/06/2010 às 00:14 Reply

    Viva Miguel.

    perdeste o fio à meada 🙂 🙂 ?

    Deixa lá. Desculpa a redundância, mas se deus morreu, marx também e nós já vamos assim, resta-te a opção dos amarelinhos: para já vamos a sete, o joelho do Bynum passou, salvo seja (o rapaz está a ser enorme) para o PerKins e quem sabe o caneco fica no mesmo sítio.

    Aquele abraço.

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