Arquivo da Categoria: Exaltação

Poesia aplicada…

perrenoudPerrenoud será sempre uma referência incontornável da nossa vida escolar, ou não fosse o autor um guru do nosso referencial externo no processo de autoavaliação. Percorrer os textos de Perrenoud e imaginar a escola situada é um exercício poético imperdível, digo eu que não tenho qualquer sensibilidade poética.

Um dos livrinhos do autor que é de leitura obrigatória para quem ousa promover a mudança, a reforma, ou, não sendo o caso de mudar porque se quer crer que está tudo bem, manter as práticas pedagógicas diferenciadas e ativas, data de 2002 na sua versão portuguesa. A capa desse “guia de boas práticas” (para quem o quiser adquirir encontra-o num canto esquecido de uma livraria com saída) ilustra este pequeno apontamento.

Diz o autor que “O sistema educativo é ingovernável sem a adesão de, pelo menos, uma parte dos professores e dos utentes, pais e alunos”; que “Nas sociedades desenvolvidas, os poderes organizadores e o establishment político começam a compreender que não vale a pena tentar “domar” os professores”; que “a ausência de negociação não bloqueia, portanto, constantemente, as decisões, mas acaba sempre por as esvaziar do seu sentido…”. Perrenoud quer enfatizar a necessidade de uma pilotagem negociada da mudança. E uma verdadeira instância de pilotagem de uma mudança na escola situada consiste em ultrapassar as clivagens e os regateios habituais, para adotar uma visão coletiva.

Percebem agora porque considero que imaginar as ideias de Perrenoud aplicadas à escola situada pode constituir um exercício poético imperdível e… hilariante?

Já agora: ampliem a imagem e leiam tudo, porque vale a pena!

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Intermitência

Incapaz de me libertar desta deliciosa rotina, depois de lançar um breve olhar para os blogues dos confrades, sem deixar rasto, pé ante pé… ou melhor, clique ante clique, deixo apenas que um neurónio se dedique às coisas da educação durante uma visita supersónica aos blogues do Ramiro e do Paulo, sem nada escrever, sem nada acrescentar.
Será que busco os cheiros do antigamente como o fez Rubem Alves?
Ou será que busco, somente, os cheiros da minha circunstância?

Até breve!

Pausa mais que merecida ;o)

Fica marcado o reencontro para a 3ª semana de Agosto. :o))

Porta entreaberta…

Estou oficialmente de férias apesar de ter meia dúzia de assuntos pendentes, de somenos importância, que podem ser resolvidos por telefone.
Como sempre, acabo com um turbilhão de ideias e de projectos para implementar no próximo ano, na próxima década. A escola será demasiado pequena para tamanha ambição…

Recobro

Para que o texto anterior faça algum sentido, direi que o conteúdo funcional do professor tem alguns apêndices embrutecedores. Depois de convocados para desempenhar essas malfadadas funções, aos professores impõe-se um período de recobro. No meu caso pessoal, um ou dois dias é período de tempo necessário para lavar a alma. Como? Regando-a com um maduro do Alentejo (ou Douro) [beemm… não é totalmente verdade], com os pés debaixo de uma mesa [esta é parcialmente verdade ;)], obrigatoriamente bem acompanhado [é verdade]. É evidente que a estupidificação vai deixando as suas marcas. Mas aprendi um pequeno truque na blogosfera para disfarçar a minha fúria primária: nunca escrever nos picos da insensatez. Reconheço que nem sempre é possível. Nem sempre tenho o discernimento de o evitar. Não se trata de evidenciar algum tipo de auréola até porque não sou aspirante a político de carreira. Trata-se apenas de uma gestão assertiva do fel.

Estupidificação…

… do trabalho docente.

Por pudor e atendendo ao facto de o título sugerir um sentimento de autocomiseração, ficarei por aqui…

O Oportunismo

“O oportunismo é, porventura, a mais poderosa de todas as tentações; quem reflectiu sobre um problema e lhe encontrou solução é levado a querer realizá-la, mesmo que para isso se tenha de afastar um pouco de mais rígidas regras de moral; e a gravidade do perigo é tanto maior quanto é certo que se não é movido por um lado inferior do espírito, mas quase sempre pelo amor das grandes ideias, pela generosidade, pelo desejo de um grupo humano mais culto e mais feliz. Por outra parte, é muito difícil lutar contra uma tendência que anda inerente ao homem, à sua pequenez, à sua fragilidade ante o universo e que rompe através dos raciocínios mais fortes e das almas mais bem apetrechadas: não damos ao futuro toda a extensão que ele realmente comporta, supomos que o progresso se detém amanhã e que é neste mesmo momento, embora transigindo, embora feridos de incoerência, que temos de lançar o grão à terra e de puxar o caule verde para que a planta se erga mais depressa.

Seria bom, no entanto, que pensássemos no reduzido valor que têm leis e reformas quando não respondem a uma necessidade íntima, quando não exprimem o que já andava, embora sob a forma de vago desejo, no espírito do povo; a criação do estado de alma aparece-nos assim como bem mais importante do que o articular dos decretos; e essa disposição não a consegue o oportunismo por mais elevadas e limpas que sejam as suas intenções: vincam-na e profundam-na os exemplos de resistência moral, a perfeita recusa de se render ao momento. Depois, tempo virá na Humanidade – para isso trabalham os melhores – em que só hão-de brilhar os puros valores morais, em que todos se voltarão para os que não quiseram vencer, para os que sempre estacaram ante o meio que lhes pareceu menos lícito; eis a hora dos grandes; para ela desejaríamos que se guardassem, isentos de qualquer mancha de tempo, os que mais admiramos pela sua inteligência, pela sua compreensão do que é ser homem, os que mais destinados estavam a não se apresentarem diminuídos aos olhos do futuro.
Agostinho da Silva, in ‘Textos e Ensaios Filosóficos’