Combater a abulia.

José Matias Alves, no blogueTerrear, evoca um texto de Miguel Santos Guerra que toca bem fundo numa questão me é cara: a questão da vontade, ou mais precisamente, a educação da vontade. Para o desenvolvimento das capacidades psicomotoras é impossível subtrair o treino das capacidades volitivas, o treino da vontade, da perseverança, da disciplina face à adversidade. Todas as ferramentas escolares, todas as disciplinas escolares, suscitam a educação da vontade. Mas a Educação Física, pelo lugar que ocupa na escola, pela tipologia dos seus conteúdos, faz parte do núcleo duro de disciplinas escolares que mais induz a educação da vontade.

E se pensarmos que cada vez mais aparecem propostas (no interior e exterior da escola e dos programas curriculares) para a construção corporal sem esforço, sem actividade física e sem sacrifícios, percebemos quão importante é a promoção dos valores fundamentais da sociedade pela via do desporto.

A quem serve o curriculum utilitarista?

Há muito tempo que não lia um post que evidencia de modo tão claro o principal (?) problema que enferma o nosso sistema educativo: um curriculum educacional baseado nas necessidades de sobrevivência, utilitarista e irrelevante face aos desafios do futuro.

Foi no blogue De Rerum Natura que Helena Damião escreveu o post sob um olhar desenvolvimentista. E a mensagem é claríssima: Nós somos tontos porque “ensinamos a apanhar peixes para apanhar peixes, [ao invés de] … desenvolver uma agilidade generalizada que nunca se poderia desenvolver através do simples treino de fazer redes.

Não mordam o isco!

A política da terra queimada chegou aos médicos? A “avaliatite” percorreu toda a pirâmide do funcionalismo público e acabou por se instalar na classe médica? O SIADAP puro e duro, sem qualquer efeito ardiloso (como se verificou com o modelo de avaliação de professores), vai ser aplicado aos senhores doutores de medicina! Acompanhei a notícia só pelas parangonas porque, confesso, não é assunto que me tire o sono. As contradições do famigerado modelo da dona Lurdes já me dão sarna para me coçar. Adiante… Não li, nem tenciono ler tão cedo, a portaria que regulamenta a avaliação do desempenho médico. Li este post do Paulo relativo à possibilidade de existir uma portaria a aplicar exclusivamente aos médicos não sindicalizados.

É evidente que a publicação de uma portaria tão fracturante, que requer uma discussão mais alargada e prolongada no tempo, não é inocente: o PS parece agoniar a um mês das eleições e há que gerar o caos! Se as oposições morderem o isco, até é bem possível que a discussão de casos sectoriais, como este, faça desviar os holofotes da comunicação social para os problemas risíveis face ao estado do Estado.

Não vou dar esmola para esse peditório mas não resisto a uma piquena provocação: Devo presumir que os defensores do princípio utilizador/pagador ficaram satisfeitos com a utilização deste princípio numa negociação laboral? O benefício/prejuízo dos acordos devem ser suportados apenas pelos seus signatários ou instituições signatárias (e por extensão aos sócios das instituições signatárias)? Não seria este princípio que estava a ser defendido pelos professores que reagiram desfavoravelmente ao acordo firmado entre as organizações sindicais de professores e o ME de Isabel Alçada relativamente ao ECD? Não seria esta a ideia que estava subjacente à contestação daqueles que viram apenas os efeitos negativos do acordo e que discordaram da estratégia sindical adoptada?

Os imprescindíveis…

O vídeo que se encontra mais em baixo suscita várias leituras. Mas há uma leitura que é, a meu ver, incontornável e que Brecht problematizou no poema "Os que lutam": "Há homens que lutam um dia, e são bons; há homens que lutam por um ano, e são melhores; há homens que lutam por vários anos, e são muito bons; há outros que lutam durante toda a vida, esses são imprescindíveis." 

O depoimento realista e contundente da professora Amanda Gurgel chegou à chamada grande imprensa. Na tarde desta quarta-feira, ganhou página do jornal O Globo online, com a exposição do seguinte vídeo:

Diga lá outra vez…

É preciso um grande descaramento para se considerar normal que os partidos políticos saqueiem o Estado.

O Ministério da Cultura não é apartidário

Notícia no PÚBLICO

Segundo as palavras da própria ministra da cultura, «o Ministério da Cultura (…) não é apartidário nem independente na concepção ideológica da sua estratégica política.» É sempre bom saber que um organismo estatal é mais um braço de um partido, neste caso do Partido Socialista. Importa lá que a propaganda eleitoral seja paga com os nossos impostos? Ou que a cultura seja uma extensão das obras públicas?

É de recordar que na campanha das legislativas 2009, grande barulho fez o PS porque Manuela Ferreira Leite foi uns metros no carro do Governo Regional da Madeira. Em causa estava, precisamente como agora, o uso de meios públicos na campanha eleitoral. Fico agora à espera que as mesmas vozes de então sejam coerentes o suficiente para condenarem este caso com a mesma veemência.

Uma escola (de qualidade) para todos

Desporto Escolar: Especialistas alertam que programa pode enfraquecer, ministra garante que é para manter.

Lisboa, 21 mai (Lusa) – A reorganização do desporto escolar ameaça tirar na prática tempo de atividade desportiva aos alunos, afirmam especialistas ouvidos pela Lusa, mas a ministra demissionária assegura que nada está posto em causa.

O despacho publicado este mês estipula que o desporto escolar fica fora das horas que os professores têm no horário semanal para aulas. Antes, os projetos de desporto escolar podiam contar como horas de componente letiva, mas com o novo despacho já não, têm que ser desenvolvidos extra-aulas.

Para Jorge Mota, do Centro de Investigação em Atividade Física, Saúde e Lazer da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, a decisão de reduzir as horas de trabalho consignadas ao desporto escolar “não está baseada em nenhum pressuposto pedagógico” e quem sofre são as crianças.

Percebo o Professor Jorge Mota. É um investigador em Actividade Física associada à Saúde e não lhe faltam evidências empíricas para expressar a sua preocupação. As taxas elevadas de crianças e jovens pré-obesos são sensíveis a qualquer alteração, por mais pequena que seja, das condições de prática desportiva na escola.

O recente despacho assinado pelo Secretário de Estado Adjunto e da Educação, José Alexandre da Rocha Ventura Silva, que retira 1 hora semanal da componente lectiva ao já escasso tempo adstrito às actividades de treino (ao que se acresce o filtro para a criação e manutenção dos grupos/equipa), vem contribuir para o definhamento do Desporto Escolar.

Mas o maior problema é, a meu ver, a escassez de tempo destinado à Educação Física que obstrui, como devia, a elevação das capacidades físicas das crianças e jovens. O caso mais paradigmático que observo, e que os responsáveis políticos fingem desconhecer, está na situação imperdoável dos cursos profissionais, que oferecem um bloco semanal de 90 minutos. Ora, não serão necessários grandes conhecimentos científicos para se intuir que o desenvolvimento das capacidades físicas carece de um determinado tempo mínimo de exercitação, sem o qual não ocorrerão as alterações fisiológicas indispensáveis ao desenvolvimento das crianças e jovens.

Percebem agora que quem defende uma escola para todos não quer dizer necessariamente que defende uma escola de qualidade para todos?

Heresias

O transporte público passou a ser o meu transporte preferencial para o emprego. Por comodismo (muitas vezes) ou por má gestão do tempo (a maior parte das vezes), chegou o tempo de utilizar a opção mais racional de transporte, aquela que me proporciona melhor qualidade de vida. Inúmeros episódios do quotidiano podiam ser contados aqui. Podiam ser reveladas conversas cruzadas escutadas entre meia dúzia de estações ou apeadeiros. Não faltarão oportunidades!…

Nos últimos tempos tenho-me entretido num estranho jogo mental, solitário, procurando descortinar nos parceiros de viagem aqueles que seriam capazes de votar, hereticamente, no personagem que conduziu o país à pré-bancarrota. Podia perguntar? Podia! Mas não era a mesma coisa…

E não era a mesma coisa porque sinto náuseas só de pensar que poderia receber palavras vãs!

Indolência

O Tribunal Constitucional decidiu pronunciar-se no sentido da inconstitucionalidade das normas constantes dos artigos 1.º e 3.º do Decreto n.º 84/XI, da Assembleia da República, por violação do princípio da separação e interdependência dos órgãos de soberania.

Depois de ler o acórdão, fiquei convencido que os deputados que aprovaram a revogação do Decreto Regulamentar n.º 2/2010 não realizaram o trabalho de casa, o que me permite alimentar um conjunto de teorias conspirativas, que prefiro não desenvolver.

Atentem este excerto do Acórdão-do-Tribunal-Constitucional-n.º-214-2011:

[…] Com efeito, num dos projectos que estão na origem do Decreto n.º 84/XI, da Assembleia da República, o projecto de lei n.º 575/XI (PSD), previa -se não só a revogação dos artigos 40.º a 49.º do Estatuto na sua versão actual (artigo 1.º, n.º 1, desse projecto) como a repristinação, durante o período transitório que decorreria até à entrada do novo modelo de avaliação, dos artigos 39.º a 53.º do Estatuto, na versão anterior ao Decreto -Lei n.º 15/2007, de 19 de Janeiro (artigo 3.º). A revogação do Decreto Regulamentar n.º 2/2010 (artigo 1.º, n.º 2, do projecto) era, nesse projecto, corolário da supressão da norma habilitante e da alteração da lei regulamentada. No «texto de substituição» que veio a ser aprovado, a opção legislativa foi diversa, mantendo -se todo o teor da lei objecto de regulamentação (o Estatuto) e a norma habilitante, apenas se suprimindo o diploma regulamentar.

Acham isto normal?

Déjà vu

Os dois grupos de trabalho que o Paulo descortinou na luta interna do PSD, fazem-me lembrar uma contenda antiga e de má memória para o Sistema Educativo porque dela resultou um modelo de escola assente numa filosofia tecnocrática ao invés de se ter optado por uma filosofia humanista e personalizante. A contenda a que me refiro emerge dos grupos de trabalho constituídos no âmbito da Comissão de Reforma do Sistema Educativo (CRSE), criada pela Resolução do Conselho de Ministros nº 8/86, publicada em DR em 22/01/86. Os dois grupos de trabalho eram coordenados, respectivamente, por Fraústo da Silva (responsável pela proposta de reorganização dos planos curriculares, cuja figura central era a Área-Escola) e por Manuel Ferreira Patrício que apresentou a proposta da “Escola Cultural” (que relevava a pluridimensionalidade pedagógica da Escola).

Hoje, a escola continua agarrada a essa lógica burocrática de “Reforma” segundo a qual há um movimento transformador do topo para a base. MLRodrigues foi a ministra que melhor interpretou esta lógica pedagógica e hoje, no PSD, esta mudança de filosofia não se enxerga no seu programa eleitoral, a não ser que a promessa de PPCoelho se cumpra nesse sentido.

A escola deve estar no centro do sistema educativo, que deve estruturar-se e funcionar em obediência aos imperativos pedagógicos da escola, como defendia, e bem, Manuel Ferreira Patrício. Se é isto que defende Santana Castilho no seu livro (que ainda não tive oportunidade de ler), se é esta a sua luta, será também a minha luta!

A “avaliatite” é uma doença da plebe.

Salvaguardada a presunção da inocência, é evidente a propensão deste protagonista para este tipo de casos. E este caso é apenas mais um caso que deveria ocupar as agendas de todos os órgãos políticos, nacionais e internacionais, designadamente os cargos que determinam a qualidade da cidadania e as condições de bem-estar das populações e suscitar uma tomada de posição de grande alcance: Um sistema de avaliação e de auto-avaliação permanente nas e das instituições, sistema esse sensível aos padrões éticos.

Dir-me-ão que é um caso isolado e que não há filtro de idoneidade capaz de obstar a entrada de canalhas para altos cargos de governação e de responsabilidade política. Se não há, devia haver!

Num tempo marcado pela “avaliatite”, pela obstinação de avaliar tudo e todos, não deixa de ser paradoxal que os arautos deste modismo se escusem a passar pelo crivo que eles próprios criaram. É deplorável!

A Educação em campanha eleitoral – CDS

O CDS apresentou o seu programa eleitoral. O documento contempla um conjunto de medidas de política educativa que os seus autores dizem ser promotoras dos gastos e inócuos chavões: exigência, rigor e mérito.

A concorrência entre a escola pública e privada é, para este partido político, a chave da qualidade. Qualidade que é conseguida à custa da concorrência das escolas entre si, através do reforço da autonomia (celebração de contratos de autonomia) e da descentralização de competências escolares para as autarquias.

É reafirmada a importância da educação como “principal mecanismo do elevador social” embora a realidade demostre que a filosofia da CUNHA e dos COMPRADIOS, e as práticas CACIQUES, são os principais motores do tal elevador social.

É um programa que é demasiado ambíguo no modo como pretende ver reforçada a autoridade dos professores e responsabilizadas as famílias pela educação das crianças e jovens.

Ficou por aclarar também o modelo de avaliação de desempenho docente. Não basta dizer que o modelo de ADD não será burocrático, que a avaliação é hierárquica – direcção pedagógica – o que evita que avaliador e avaliado concorram entre si, que é inspirado no modelo de avaliação que está em vigor no ensino particular e cooperativo.

Convém relembrar ao CDS que a direcção pedagógica e a direcção executiva não são a mesma coisa. Que a existir hierarquia pedagógica, haveria que recuperar a carreira dos titulares (ou outra iniquidade do género) da ministra de má memória, MLRodrigues. Será mesmo isto que o CDS pretende?

A questão dos exames nacionais nos finais de ciclos de escolaridade regressa à retórica deste partido (para ser correcto, essa retórica nunca foi abandonada) para mistificar a questão da qualidade, exigência e rigor, numa tentativa de estabelecer um nexo causal entre a quantidade de exames e a qualidade das aprendizagens.

Reforça-se a ideia do ensino instrumental, ao serviço do mercado de trabalho. O CDS propõe uma “revisão curricular, não essencialmente por razões financeiras (note-se bem, digo eu), mas por redefinição de uma estratégia de conteúdos que prepare realmente os alunos para a inserção do mercado de trabalho. Tal deve incluir a estrutura curricular nos 2º e 3º ciclos de escolaridade, concentrando as aprendizagens dos alunos em torno de um núcleo de disciplinas estruturantes; o reforço da carga horário das disciplinas de português e matemática no ensino básico; em contrapartida, a eliminação da área de projecto e de estudo acompanhado; e a introdução de cursos profissionais mais cedo, no 3º ciclo de escolaridade.”

Depois segue-se o palavreado habitual da liberdade de ensino…

Houve um tempo, nas escolas, em que o primado era o Pedagógico.

Infelizmente, terei de regressar ao assunto. Mas neste momento só me ocorre apelar: Tenham o mínimo de decência! Rasguem a Lei de Bases do Sistema Educativo, por favor!

Directores das escolas preparam-se para novos modelos de gestão

Começa amanhã um programa promovido pela Microsoft Portugal em parceria com o Ministério da Educação com vista a preparar os directores das escolas do ensino básico e secundário para os novos modelos de gestão das escolas.

[…] O programa desenvolve-se em três etapas. A primeira fase, com início amanhã, na Universidade Lusófona, será constituída por workshops. A segunda etapa está orientada para a realização de um plano de melhoria e desenvolvimento para a escola e a terceira passa pela avaliação da implementação dos planos de melhoria.

[…] A coordenação científica está a cargo de José Canavarro (professor da Universidade de Coimbra e ex-secretário de Estado) e entre os especialistas convidados estão confirmados os nomes do ex-ministro da Educação Roberto Carneiro e dos professores universitários Jorge Adelino Costa (Universidade de Aveiro), Manuel José Damásio (Lusófona) e Natércio Afonso, que coordenou o estudo do Ministério da Educação sobre "Aprendizagem na Educação".

Presença assegurada serão também os responsáveis de empresas (que acompanharão a criação e implementação dos Planos de Melhoria nas Escolas) como a NDrive, Sumol/Compal, Merck, Parpública, BESI, CIP, BluePharma ou de instituições bancárias como o BES ou Montepio.

Quem vê TV sofre mais que no WC

O refrão da música do saudoso grupo Rock Português, dos anos 80, “Táxi”,  continua actual. Até às eleições, o jogo das projecções, como mais à frente se clarifica, vai fazendo as delícias dos jornalistas que assim podem brincar às análises, ao sobe e desce, alimentando o negócio dos comentários e da “opiniatite”, confundindo os incautos consumidores de TV.

A Projecção Intercampus dá 36,8% a Sócrates e 33,9% a Passos Coelho. Mesmo assim, os dois partidos continuam em empate técnico. CDS regista forte subida.

“O erro de amostragem, para um intervalo de confiança de 95%, é de mais ou menos 3,05%. A taxa de resposta foi de 47,9%. Nesta sondagem 21,2% dos entrevistados não revelaram a sua opção e 22,4% não indicou um partido ou indicou que não votaria. Que quando aplicável, é feita uma distribuição proporcional de registo de não respondentes, sem opinião e abstenção, passando a usar-se a expressão «Projecção».”

E como tudo o que é coisa que promete
A gente vê como uma chiclete
Que se prova, mastiga e deita fora, sem demora
Como esta música é produto acabado
Da sociedade de consumo imediato
Como tudo o que se promete nesta vida, chiclete (Táxi, chiclete)

Repito: Nesta sondagem 21,2% dos entrevistados não revelaram a sua opção e 22,4% não indicou um partido ou indicou que não votaria. Certo?

21% de votos é uma margem suficientemente segura para se brincar às projecções,.. como se fora uma chiclete!

A Educação em campanha eleitoral– PCP

No seu programa eleitoral, o PCP advoga uma nova lei de gestão democrática que respeite os princípios, objectivos e valores consagrados na Constituição e na Lei de bases do Sistema Educativo. Não se adianta muito mais mas quero acreditar que se trata do retorno da colegialidade à direcção das escolas.

Como quase todos os partidos políticos, o PCP recupera o tema do reforço da autonomia das escolas públicas que passa pela garantia de um regime de Financiamento da Educação Pré-Escolar e dos Ensinos Básico e Secundário, que clarifique responsáveis e responsabilidades e garanta o normal funcionamento das escolas públicas financiadas, essencialmente por verbas consagradas no OE;  Demarca-se da direita ao sugerir a revogação do decreto que estabelece o processo de municipalização do ensino básico, com o objectivo de impedir a perda de autonomia administrativa e pedagógica das escolas ou a sua privatização.

O PCP defende a revogação do Estatuto da Carreira Docente, tendo como prioridades: a revisão da estrutura da carreira docente eliminando a sua divisão em categorias e revendo as regras de progressão; defende a eliminação da prova de acesso à profissão e a substituição do actual modelo de avaliação de desempenho cujo modelo deve ser baseado numa concepção formativa da avaliação que tenha como objectivo a melhoria do desempenho dos docentes e não a sua penalização em termos de progressão da carreira ou em qualquer outra dimensão da sua condição laboral.

Curto mas conciso nas questões fracturantes!

Não confundamos estrada da Beira com beira da estrada.

O Ramiro parece incomodado com a falta de adesão da blogosfera docente às propostas eleitorais do PSD. Já rotulou os professores de socialistas, de esquerda, e agora considera que só têm comportamentos esquizofrénicos porque, heresia, dizem mal dos dois únicos partidos capazes de nos livrarem do partido e do primeiro-ministro que lhes fizeram a vida negra nos últimos seis anos.

Em primeiro lugar, os partidos políticos que nos conduziram à bancarrota estão bem identificados e basta percorrer o histórico da governação do país para concluir que o seu PSD (com o apêndice CDS) não está isento de culpas. A lógica do voto útil, a polarização do eleitorado nos dois partidos do centrão, conduziu-nos à pré-bancarrota. Esperar resultados diferentes apostando nos mesmos protagonistas é um equívoco que importa desmistificar.

Em segundo lugar, não sei qual o estudo de opinião que sustentará o quadro identitário dos professores portugueses. É um erro crasso considerar que as opiniões soterradas nas caixas de comentários dos blogues mais frequentados dos professores constituem uma amostra significativa do pensar dos professores das escolas situadas. É uma generalização abusiva e o Ramiro não precisa de evocar a sua condição de investigador para o reconhecer. Nem os blogues podem constituir uma corrente de opinião dentro da classe, nem o juízo que vamos formulando nestes fóruns de opinião podem ser extrapolados para um sentir de classe. Mas avancemos no intróito para chegarmos ao que importa.

O Ramiro parece apreciar as lideranças unipessoais. Por isso diz, demagogicamente, que os professores “opõem-se a qualquer medida que dê verdadeira autonomia às escolas que passe pelo reforço das competências do diretor.” Descentralizar competências para a escola não significa centralizar as competências no director. Não encontro qualquer incongruência entre o desejo do reforço da autonomia das escolas com o desejo de ver essa autonomia ser conduzida por um órgão colegial.

Diz também que “os professores não querem uma avaliação de desempenho burocrática, consumidora de tempo, subjetiva e faz-de-conta mas opõe-se a uma avaliação a sério e com componente externa.” Ora, será por rotularmos a avaliação de séria que ela vai ser capaz de avaliar o que se propõe avaliar: o desempenho docente!? Não é na sala de aula que esse desempenho se materializa? Não devia ser esse o quadro de referência para o desempenho docente? É o avaliador externo que credibiliza a avaliação? Será um exame de conhecimentos, ou a assistência a uma, duas, três aulas por ano, por um avaliador externo, por mais consagrado que ele seja, que dá credibilidade à avaliação? Se isso é uma avaliação séria, então eu defendo uma avaliação a brincar, e até lhe podem chamar de avaliação formativa, se isso servir para purgar consciências!

Quanto à questão da avaliação dos alunos, o Ramiro considera que “os professores queixam-se de que há alunos a passarem de ano sem saber nada e que a escola pública está ameaçada pelo facilitismo mas reagem negativamente à proposta de criação de exames nacionais à saída de todos os ciclos de ensino.” Precisamos de exames nacionais para impedir que alunos passem de ano sem saber nada? Por que não se afastam os empecilhos normativos que permitem que alunos passem de ano sem saber nada? Por que não se afasta “a burocracia imposta por um modelo de prestação de contas que não confia nos professores e que lhes nega liberdade e autonomia na concepção e utilização dos meios, métodos e procedimentos”?

O Ramiro é um blogger sério. Espero que a sua militância partidária não lhe obscureça a habitual lucidez.

A Educação em campanha eleitoral–PSD III

DRE´s – Jobs for the boys

O papel das estruturas regionais do ME, as DRE’s, é um papel decorativo e tem servido de albergue para os boys dos partidos do governo. A extinção destas estruturas, num tempo em que se exige a maior contenção da despesa pública, seria um acto de racionalidade económica e um bom exemplo de rigor na gestão da coisa pública.

Ora, a ingenuidade levou-me a pensar que o PSD, um partido cuja militância interesseira em nada difere da militância do PS, iria cortar nas benesses dos seus apaniguados acabando ou cortando com os serviços inócuos das DRE´s.

Fica então claro que as “estruturas centrais e regionais do Ministério de Educação devem focalizar a sua acção na criação de valor e na correcção de assimetrias do sistema educativo, pelo que haverá que apostar na gestão do talento e das carreiras dos seus quadros, com o objectivo de constituição de uma nova geração de elevada competência, assente no mérito e com uma cultura de gestão por objectivos e resultados.” (*)

Isto é, as estruturas regionais do ME vão continuar a fazer-de-conta que corrigem o que quer que seja das assimetrias do sistema educativo, como sempre o fizeram, logo que os seus quadros adquiram competência…

Fantástico!

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(*) in: programa eleitoral do PSD

A Educação em campanha eleitoral–PSD II (Notas soltas)

Gestão das escolas e envolvimento dos pais e da comunidade

Em termos gerais, o PSD entende que se deve exigir um significativo reforço da descentralização de funções para o nível de responsabilidade das escolas, do Director, dos pais e da comunidade local.

Parece-me bem! Resta saber quais as funções que se descentralizam e que meios são agregados.

 O primeiro sinal e passo a dar neste sentido é o do estabelecimento de uma nova carreira profissionalizada de Director Escolar que confira um quadro adequado para atrair, seleccionar, desenvolver e manter os perfis de talento e de competências adequados às novas necessidades de liderança e de gestão dos agrupamentos de escolas;

Parece-me mal! Sou um adepto de uma direcção colegial da escola porque a colegialidade envolve com mais profundidade os intérpretes do acto educativo.

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A Educação em campanha eleitoral–PSD

O Ramiro já divulgou algumas das medidas para a Educação aprovadas esta manhã pela Comissão Política do PSD.

Estou genericamente de acordo com as medidas anunciadas (embora não prescinda de as analisar no detalhe) excepto na que diz respeito à introdução de exames nacionais no 6º e alargamento o número de disciplinas do 9º ano sujeitas a exame. É, a meu ver, a medida mais demagógica que se encontra no lote das propostas, porque cria a ilusão de rigor, e é a mais iníqua porque distorcerá o sentido da acção educativa por afunilar o treino dos saberes aos saberes hegemónicos criados pelos PseudoExperts do ME.

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Adenda: Consultar o programa do PSD

O burro sou eu?

clip_image002As sondagens de opinião sobre as eleições não penalizam o partido do governo que nos conduziu à pré-bancarrota. António Barreto, no jornal I, diz mesmo que “Sócrates precisa de ser severamente castigado”. Ainda não li a entrevista do sociólogo, mas não será difícil de adivinhar as razões pelas quais o conhecido cientista social sentencia o desempenho do líder do governo. As incongruências e os desacertos de Sócrates são de tal ordem que deve haver mais do que um quadro de referência para decidir estas coisas da governação. E há, efectivamente!

Não há escolha que obedeça apenas a critérios de racionalidade. Damásio explicou muito bem o processamento da decisão quando ligou os sentimentos à razão. Por isso estranho que os partidos da oposição ainda não tenham percebido que não basta ter razão para captar e fidelizar eleitores, é preciso agir sobre as emoções e os sentimentos dos eleitores. Sócrates e a sua máquina de imagem há muito que o perceberam e não perderão uma eleição enquanto os partidos políticos da oposição se comportarem como aprendizes de feiticeiro. Quando digo que o cancro da democracia está na partidarite, uma mutação da clubite dos futebóis, quero dizer que a fidelização partidária é irracional e cega porque a única heresia que é permitida aos partidários é a abstenção. A excepção a esta regra é a transferência de partido (que a ocorrer desemboca num processo análogo de submissão).

Sendo natural que todos os partidos políticos procurem aumentar a sua legião de fiéis numa lógica de conservação do poder ou de aquisição do poder, é paradoxal porque se todos os eleitores fossem partidários não existiria alternância de poder e questionar-se-ia o valor da democracia.

Este é o primeiro equívoco que importa frisar. O segundo equívoco está relacionado com a ideia de que o Povo são os outros e que o Povo é estúpido. Os analistas e os opinadores nunca, ou raramente, se classificam como Povo. O observador faz, nestas circunstâncias, uma espécie de meta análise sobre a sua condição, como se observasse num ponto exterior de si próprio para evitar a autoflagelação. Quando diz, não importa se o faz explicitamente, que o povo merece ser castigado, veste a pele do burguês. O povo é uma cambada de iletrados ou instruídos pelas Novas Oportunidades; o Povo é feito de uma massa diferente da sua, de uma massa pobre obviamente, que dispensa os ingredientes da racionalidade; porque ele não se considera, também, Povo.

Abro e fecho aqui um parêntesis para dar dois exemplos factuais que negam esta tese.

Há alguns anos atrás fazia parte de um grupo de “ilustres letrados” de uma pequena comunidade que às 5ªfeiras se juntava para um jogo de futebol cujo prolongamento, num restaurante da cidade, permitia tertúlias animadas. Para quem anda distraído devo lembrar que só as situações de stress elevado, como aquelas que o JOGO DESPORTIVO promove, dissecam a personalidade do sujeito. A falência do carácter ou a sua nobreza eram ali reveladas, semana a semana, jogo após jogo.

Diria ao jeito de provocação que estamos precisados de jogar todos os dias, estamos necessitados de oportunidades para separar o trigo do joio, porque há caras que não dizem com as caretas, como ontem relembrou Jerónimo de Sousa a Paulo Portas no primeiro debate eleitoral.

Recupero, dispensando-me dos desenvolvimentos porque são bem conhecidos, o episódio dos “Objectivos Individuais” que muitos professores se comprometeram a não entregar, para refutar a ideia de que o povo é estúpido e de que os estúpidos são os ignorantes e iletrados.

A “troika” e a escola mercantil

As escolas públicas deverão receber financiamento com base na evolução de desempenho e na prestação de contas, segundo o memorando de entendimento entre o Governo e a ‘troika’.

(…)

A modalidade de financiamento por objectivos, com base em contratos programa, à semelhança do que já acontece com universidades e hospitais, fora recentemente defendida numa recomendação do Conselho Nacional de Educação.

Estas medidas servem, de um modo mais amplo, o objectivo de continuar a combater a baixa escolaridade e o abandono escolar precoce e a lutar pela melhoria da qualidade do ensino secundário, do ensino profissional e da formação.

Sob o pretexto da crise, o bloco central legitimará a escola mercantil. A “troika” imporá um desafio enorme: garantir a exigência e qualidade das aprendizagens fidelizando os clientes alunos e renunciando à tentação de usar processos perversos de elevação dos resultados escolares.

Há insuspeitas formas deste PS copular os portugueses

Tenho evitado pronunciar-me sobre o conteúdo do programa eleitoral do PS porque, como nos ensina a prática dos anteriores governos PS, são uma falácia. Vai um mundo de distância a separar as intenções das práticas governativas.

Mas não deixo de sorrir quando noto que ainda há quem lhe dê o benefício da dúvida. No blogue AD DUO li uma referência aos objectivos de campanha eleitoral do PS, designadamente três:

“o programa eleitoral do PS prevê a promoção da actividade física, o desporto e a qualidade de vida.”

Ora, havia muito para dizer sobre cada um deles mas não temos tempo. Tenho algum tempo para questionar este fantasmagórico objectivo de promover a actividade física. É que ou se esqueceram de acrescentar que ela, actividade física, deve ser orientada ou então devem estar a pensar em algo mais refinado.

É que isto não vai lá com objectivos genéricos a enfeitar um programa eleitoral. Vai lá com políticas consequentes. Promover a actividade física? Estão a falar de quê? De que actividade física? Trabalhar a terra é uma actividade física! Correr para o autocarro é uma actividade física! Copular é uma actividade física!

É disto que estamos a falar? De nos copularem pelas vias mais insuspeitas?

Justiça manca.

Funcionário que desviou dinheiro de autarquia condenado a prisão efectiva

Claro que a prisão deve ser o local de repouso para quem mete a mão no bolso alheio. Não pretendo branquear o gamanço, mas há coisas que me custam a entender. Por que será que a elite do gamanço fica em prisão domiciliária? Ou com pena suspensa? Quantos casos de usurpação do erário público ficam na impunidade?

Estamos na bancarrota e só a arraia-miúda é que vai dentro?

Balha-me Deus!…

Não metam a foice em seara alheia!

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Só faltava serem os Médicos a prescrever exercício físico!
Confesso que fiquei chocado com o artigo no Jornal Expresso do Professor e colega de profissão Luís Sardinha, de 9 de Abril de 2011, com o título “Mexa-se mais: foi o médico que receitou”.
Numa altura em que o País está a importar Médicos para fazer face às exigências do Sistema Nacional de Saúde, e temos um excesso, tremendo, de profissionais de Desporto, só um “político deste imagegabarito” se poderia lembrar de implementar uma estratégia que vai dar mais trabalho e/ou responsabilidade aos Médicos, que já não têm tempo para exercer a medicina convencional, e tirar, o pouco que existe, aos seus colegas de profissão. Porventura o colega já nem se lembra que se licenciou em Educação Física!
Quando li o título do artigo pensei que os políticos tiveram o bom senso de, mais uma vez, entenderem que o “Exercício é saúde” e iam voltar a baixar o IVA. Achei, no entanto, estranha a fotografia do Colega Luis Sardinha, de fato e gravata em cima de um tapete rolante.

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