Arquivos mensais: Março 2006

Sentimento de injustiça e educação para a paz.

O director de turma interrompeu a aula e solicitou alguns minutos para falar com a turma.
Os alunos estavam agitados, excessivamente inquietos:

– A professora não deu os objectivos!… O teste é na 6ª feira e, ao contrário do que tem sido hábito, ainda não conhecemos os objectivos do teste. Exclamava a C. ao mesmo tempo que deixava escapar o rubor da face.
– Estás certa de que houve uma promessa de facultar os objectivos do teste? Retorquiu o director de turma num tom de voz calmo e apaziguador.

O burburinho ia crescendo à medida que entrava em cena uma nova versão dos factos. O esforço do director de turma em aclarar posições parecia condenado ao insucesso. A conversa prolongou-se para além dos cinco minutos requeridos pelo director de turma sem se vislumbrar saída para a contenda. Os alunos sentiam-se injustiçados e prejudicados [para utilizar uma expressão proferida obstinadamente pela C.] pela pretensa medida infundada tomada pela professora.

Ficarei por aqui. Aproveito a complexidade desta cena real para destacar uma ideia de fundo: Os conflitos são oportunidades para os actores educativos se confrontarem com a Educação para a paz. E não será necessário conhecer o desenvolvimento do episódio para se extraírem algumas ilações:

  1. A educação para a paz é uma filosofia de vida. O objectivo é desenvolver uma cultura de nãoviolência que ajude as pessoas a olhar criticamente a realidade, a situar-se nela, a resolver os conflitos de forma não violenta, e que favoreça o desenvolvimento pessoal numa direcção positiva.
  2. Educar para a paz implica não suprimir a agressividade, que em princípio é positiva, porque facilita o controlo das tensões e evita que os conflitos se resolvam de maneira violenta;
  3. Educar para a tolerância e para a diversidade releva as diferenças entre as pessoas, ajudam-nos a crescer, a conhecer novas perspectivas e pontos de vista e permitem estabelecer pontos de encontro.
  4. Educar exige um compromisso com a justiça para que, quando apareçam situações contrárias a ela e não desejáveis, se manifeste a desobediência.
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A nova sinalética do ME…

Não foi avisado?…

Ministério da Educação, Ciência e Tecnologia

Há alunos do 11.º que sempre vão ter de fazer exame nacional de Filosofia.

Regras relativas ao secundário mudaram mas as provas pedidas pelas instituições de ensino superior mantiveram-se(Público – reservado assinantes)

Esta notícia não revela apenas um problema de comunicação entre dois ministérios. Revela, a meu ver, um problema estrutural de concepção dos próprios ministérios. Se o paradigma Bolonha vier a prevalecer, não encontro razões substantivas para manter separados dois ministérios que têm uma finalidade comum e que me atrevo a sintetizar: cuidar da formação pessoal e profissional dos sujeitos, incutindo-lhes hábitos de autoformação. A ciência e a tecnologia e as questões relacionadas com o plano tecnológico [a que se dedicam as instituições do ensino superior] serão meramente instrumentais se observarmos o papel das instituições de ensino sob o olhar da construção do projecto humano. O argumento antropológico não determina opções políticas. A eventual junção do MCTES e o ME será sempre uma questão política cujo quadro de referência assentará em lógicas de poder inter e intra partidárias mais conjunturais e menos estruturais.

Será o novo paradigma de aprendizagem [que reclama uma nova atitude dos sujeitos aprendentes e novas metodologias de ensino dos professores], que se espera vir a ser hegemónico com a aplicação do Tratado de Bolonha, o motor que desencadeará a fusão entre o MCTES (Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior) e o ME (Ministério da Educação)?

Como é que será aproveitada a oportunidade para envolver e implicar os principais actores na mudança de atitude?

Irá, uma vez mais, prevalecer a cultura das oportunidades perdidas?

Embuste…

Não resisti…
Fui obrigado a interromper a abstinência blogosférica quando me deparei com este título:

Secundárias sem informação sobre alterações no superior

Nem o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior nem o da Educação lançou qualquer informação sobre o que vai mudar no ensino superior com a entrada em vigor do processo de Bolonha, que prevê a harmonização do ensino superior europeu.” (Público – reservado a assinantes)

O muro que separa o superior dos níveis precedentes é intransponível. E o problema é que os actores destes níveis de ensino continuam despreocupados e atentos ao seu belo umbigo.
Se é difícil entender a mesquinhez da balcanização que subjuga o professorado, o que dizer da (in)acção dos responsáveis pelos dois ministérios?
Para quem apregoa os chavões do rigor e da competência exige-se, no mínimo, coerência!

Bom fim-de-semana!

Submerso por uma avalanche de trabalho, só na 2ª feira me libertarei dos compromissos que assumi.
O encontro na blogosfera está adiado…
Até já!

O que nos vale é a estatística…

“O caso da professora de Informática da secundária Herculano de Carvalho, em Lisboa, que esta semana foi agredida não é uma história isolada. Por todo o país, dizem os sindicatos de professores, há queixas de docentes que foram agredidos ou ameaçados por alunos ou pais. E são cada vez mais. No caso da Herculano de Carvalho o agressor era exterior à escola, mas foi dentro do recinto escolar que esbofeteou a docente.

[…] O Ministério da Educação não tem ainda dados do número de agressões físicas a professores registadas no primeiro período deste ano lectivo, mas a “avaliação qualitativa que o gabinete de segurança faz é que o número de incidentes diminuiu”, refere Ramos André, adjunto do gabinete da ministra da educação .” [Público, necessária assinatura]

Hummm… O ME não tem dados mas “a avaliação qualitativa” sugere que o número de incidentes diminuiu… Estou a ver. É tudo uma questão de palpite.
E vamos lá a acreditar, de uma vez por todas, na palavra dos assessores, dos secretários e da ministra. É que já chega de mau feitio.
Esta notícia é relevante porque prova que a estatística tem sido muito útil às vítimas. Se eu a fosse uma das vítimas, e há uma grande probabilidade de isso vir a acontecer, ficaria muito mais tranquilo por saber que há menos cabeças rachadas e escoriações de professores enxovalhados. Deixaria de me sentir inseguro e humilhado. Até porque a solidariedade pública do ME e da ministra ajuda muito.
Bom fim-de-semana.

Adenda: “Braga: Pais obrigam a reforço de segurança em EB 1 – Professora sovada.” [Obrigado pela achega, f.]

Estes jornalistas não se enxergam? Será que não percebem que desfiguram o ramalhete, que é composto por um pretenso pacto de não agressão entre o ME e a CONFAP, e mancham o cenário estrambólico delineado para o sistema educativo?
… Eu disse CONFAP? Está tão calada?…

Desintoxicação…

Tenho uma grande dificuldade em resistir a um bom desafio. Creio que esta mania [eu prometi que pouco a pouco revelaria alguns caprichos] deriva de uma relação umbilical que me liga ao desporto. Um desafio pode ser, deve ser, uma oportunidade de comprovação e superação. Um desafio pode serolhado, também, por uma perspectiva hedónica.

A Isabel, uma vez mais a Isabel, lançou o repto e eu aceitei de bom grado: “andam mesmo a desgastar-nos, a stressar-nos (…). Por isso, temos que brincar mais aqui pela blogosfera, quase que propunha um tempo sem temas sérios, só humor, mas… não tenho jeito para isso, faço a proposta …“. Aceitei com uma condição [É óbvio que esta estória da condição foi uma forma coloquial para personalizar o desafio colocando-o à minha medida]:
Ó Isabel, deixar os temas sérios de fora… é perder uma boa oportunidade de os “desconstruir” [digerir?]… não achas? hummmm… é uma sugestão interessante… só espero é que este desafio não me obrigue a confrontar com uma perda: a perda do meu sentido de humor…

Já passaram algumas horas depois deste achaque. E agora que releio o que escrevi posso garantir-vos que considero a clausula única que permitiu a aceitação do desafio um autêntico disparate. Temas sérios? Ferirei susceptibilidades se publicar cartoons sobre a educação? Não?! Então esta série [única] é dedicada ao estimado colega do superior Nuno Crato e aos seus comparsas “Eduqueses”.

(Figuras: Carlinda Leite, 2003)

[PS: Como não foi acordado um tempo para a desintoxicação nunca serei incriminado pela recaída prematura. É que já estou de ressaca…:)]