Arquivos mensais: Agosto 2005

Pensar a educação (III)

[Invertendo a tendência para as entradas longas]

A LBSE demarca os limites da intervenção do Estado nas questões educativas.
Se os princípios gerais que enformam as mudanças na educação enfatizam o primado pedagógico sobre o administrativo, o “político” está na decisão dos educadores e dos professores.

O que é que se deve esperar de um Estado centralizador?

Adenda – Breves questões retóricas:
Quem são os principais destinatários dos discursos do primado do pedagógico sobre o administrativo?
Por que razão a administração decide impor o pedagógico ao administrativo? Isto é, se o pedagógico é prioritário por que motivo decide anular essa prioridade?

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Pensar a educação (II)

A propósito da entrada anterior, a Isabel deixou, no seu primeiro comentário, uma ligação ao jornal A PÁGINA. O jornal recolheu quase três dezenas de depoimentos junto de um painel que incluiu colaboradores do jornal, professores, estudantes, sindicalistas e sociedade civil sobre as prioridades e as medidas que cada um destes grupos julgava ser importante implementar no sector educativo português. Descortinei de relance os seguintes aspectos críticos do sistema:
Erradicar o analfabetismo; Dar prioridade à escolaridade obrigatória; Afastar os incompetentes; Apostar na formação de técnicos qualificados; Modernizar o ensino básico; Organização e vontade política; Investir nas novas tecnologias; Revalorizar a profissão docente; Computadores, ciência e tecnologia; O regresso de Roberto Carneiro [presumo que este depoimento procurava enfatizar a reforma que ele dirigiu]; Educação para a Cidadania; Debater ideias; Apostar no Ensino Técnico e Profissional; Educação de qualidade para a primeira infância; Escola de hoje ensina pouco; Rigor e qualidade; Acabar com o analfabetismo; Reforçar a segurança; Educação para a cidadania; Qualidade no ensino; Reforçar o ensino técnico e profissional; Investir seriamente na educação; Mais tecnologias da informação; Melhores condições de trabalho nas escolas; Arrumar a casa [desorganização interna]; Ensino superior e investigação [maior investimento]; Estabilidade do corpo docente é fundamental; Contrariar o abandono escolar.

Apesar de se verificar algum acordo quanto à identificação dos aspectos mais críticos do funcionamento do sistema educativo, o seu diagnóstico e, em particular, a escolha das soluções e a avaliação dos resultados por elas alcançados, revelam uma forte clivagem política em função de diferentes posicionamentos ideológicos quanto às finalidades da educação, papel do Estado, intervenção comunitária, organização da administração pública, etc. Justifica-se por isso um debate sobre a “repolitização” da educação e da escola (1).

Voltarei ao assunto.

(1) BARROSO, J. (2003). A Escola Pública – Regulação, Desregulação, Privatização. Porto. Edições ASA.

Adenda:
Fumo branco para as listas de colocação de professores.

Adenda II:
“Miguel, fiquei confusa com “Justifica-se por isso um debate sobre a “repolitização” da educação e da escola”, talvez pq não conheço o contexto de “repolitização” em J. Barroso. Claro que tudo é político, o susto é que isso signifique: tudo é partidarização, contra o disposto no artº 2º da Lei de Bases que abaixo citaste. Mas aguardo o teu “voltarei ao assunto”.”

Calma Isabel, “ainda” não temos motivos para alarme. Não te vou fazer esperar pelo esclarecimento.
Deixa-me lá contextualizar as ideias de João Barroso e tentar justificar a referência que fiz ao respeitável autor.
A partir dos finais da década de 80 a discussão sobre os temas e intervenientes do sistema educativo foi tomada de assalto pelos analistas, editorialistas e comentaristas da imprensa, especialistas em tudo e em coisa nenhuma. Artigos de opinião assinados por figuras públicas [e outras menos públicas (professores, empresários, encarregados de educação, etc.)] e outras intervenções oscilam entre dois registos discursivos radicais: a dramatização da crise e a diabolização da mudança. No primeiro caso, é um discurso que se baseia no empolamento dos problemas existentes para depois sugerir mudanças radicais inspiradas ou no regresso “às boas receitas do passado”, ou nas politicas neoliberais já ensaiadas nos finais das décadas de 80 pelos governos conservadores dos Estados Unidos e no Reino Unido e depois generalizados a outros países. No segundo caso, verifica-se um estado de suspeição sobre tudo o que pretende alterar o status quo. “Quaisquer tentativas de introduzir uma mudança na regulação e organização da escola, ou de alterar as relações de poder existentes no seio da administração e das escolas são vistas como comandadas por forças ocultas que visariam destruir a lógica do serviço público […] e os pressupostos que presidiram à sua expansão”. (p.11)
Como refere ainda João Barroso, “Num e noutro caso reina uma visão maniqueísta em que de um lado estão os «bons» e «espertos» […] e do outro lado estão os «maus» e «estúpidos» que não aprenderam nada com as lições do passado” (ibidem)
Em Portugal, o discurso da dramatização da crise é hegemónico. Os alvos do discurso são: o Estado, as Ciências da Educação, os professores e os seus sindicatos. As receitas para sair da crise são em geral, as mesmas: redução do papel do Estado na educação [privatização da escola pública], gestão empresarial, subordinação das questões pedagógicas aos critérios da eficiência e qualidade, definidos segundo uma lógica de mercado; redução dos poderes dos professores e dos seus sindicatos corporizada com o aumento da influência dos pais e das empresas na configuração da oferta educativa e sua gestão. Este discurso passou muito bem para a opinião pública [Apple considera que este discurso já foi absorvido pelo senso comum] e segundo Barroso, “as perspectivas e soluções destes críticos não passam de réplicas descontextualizadas de posições e iniciativas adoptadas, desde há algum tempo, em outros países e sobre os quais existe hoje uma discussão fundada em investigação consistente e empiricamente sustentada, embora insuficiente.
Os debates e as investigações produzidas nos mais diversos países têm sido eclipsados pelo discurso tecnocrático e gerencialista dos que encaravam o mercado como uma fatalidade e a “gestão empresarial “ como único modelo de sucesso. Daí que se justifique a “repolitização” do debate sobre educação e a escola na medida em que a identificação dos aspectos mais críticos de funcionamento do sistema educativo, o seu diagnóstico, e a escolha das soluções e a avaliação dos resultados por ela alcançados, revelam um forte clivagem política, quer em termos convencionais de «esquerda» «direita», quer em função de diferentes posicionamentos ideológicos quanto às finalidades da educação, papel do Estado, etc.

Está mais claro? 😉

Vamos pensar a educação?

Fui desafiado no crackdow para conduzir um debate sobre o que poderiam ser bons exemplos de uma visão estratégica dos responsáveis pelas políticas educativas. Este desafio decorre de um comentário que deixei anexo a uma excelente entrada do crack cuja referência pode ser encontrada mais em baixo.

Quem me conhece sabe do meu apreço pelos desafios [atitude que terá sido inscrita na minha personalidade pela prática desportiva sistemática]. Saber provocar e deixar-se provocar é um factor essencial para o desenvolvimento pessoal. Saber avaliar as capacidades pessoais é a chave para o salto qualitativo instigado pelo desafio. Isto serve para o desporto e servirá também para a vida na sua integridade.

Antes de ser criticado por um eventual arrojo desmedido quero deixar claro que o alcance das minhas ideias não fará mossa aos fazedores de opinião consagrados e aos verdadeiros especialistas em ciências da educação. Como um simples professor [de ginástica, utilizando uma expressão tão do agrado do meu amigo e colega Miguel Sousa] não pretendo mais do que pensar em voz alta e poder contar com a vossa ajuda preciosa para ultrapassar as minhas limitações intelectuais e profissionais.

Deixando para trás as questões pessoais, olho para o desafio e vejo nele uma tamanha envergadura que terei de definir as condições de realização e as expectativas de sucesso.
Como poderei eu garantir um debate se desconheço o entusiasmo dos meus leitores sobre esta matéria? Numa primeira fase, posso fazer o que já fiz por aqui: lançar os foguetes e apanhar as canas. Isto é, posso contar com os meus heterónimos [não é para levar a sério]; Posso ficcionar; Posso, simplesmente, colocar um conjunto de questões para, em amena cavaqueira enquanto se saboreia um petisco, apontar um caminho para a coisa educativa.

Se quiséssemos uma coisa séria, um estudo científico por exemplo, que legitimaria políticas interesseiras, formávamos uma comissão de estudo com especialistas isentos. Como não queremos legitimar coisa nenhuma deixamos correr as ideias e a escrita. Pode ser? Ah… e o sucesso? O sucesso é aquele que o homem quiser. E pronto, creio que estão garantidas as condições para avançarmos.

E como o melhor é começar pelos princípios, há um princípio da lei de bases do sistema educativo (LBSE) que me faz alguma confusão.
Diz o artigo 2º o seguinte:

a) O Estado não pode atribuir-se o direito de programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas;

Afinal, de que é que estamos a falar? De uma educação neutra? Alguém me pode ajudar a interpretar este articulado?

Como li algures, (…) to be continued.

Descobertas

Através do blogue Diários da reflexão entre professores entrei no Projetos Colaborativos. Diz a Adriane que “A autora conseguiu colocar uma opção para ouvir os posts. É meio difícil de entender o q a voz fala, mas já é um grande passo para a leitura de blogs por deficientes visuais.” Interessante, sem dúvida.

E se tiver tempo, não deixe de percorrer as ligações de cada um dos blogues. Pode ser que ainda se surpreenda com o que se faz por aí.

Apropriação

Fui encontrar no blogue crackdown algumas considerações que justificam as minhas entradas [mais lá para baixo] sobre a auto-avaliação.
Não deixe de ler esta entrada.

Retorno ao serviço

Iniciei o lançamento do ano lectivo. O meu trabalho de preparação não dispensa a leitura e a revisão de um conjunto de materiais que, invariavelmente, ordeno, analiso e anoto.

Encontrei no site do ME uma selecção de textos de apoio ao currículo e avaliação elaborados por uma equipa de trabalho coordenada pelo professor Domingos Fernandes.
Acredite que os textos merecem um olhar mais demorado. Se pretender aceder aos textos [formato PDF], eles estão aqui:

1. O modelo curricular do ensino secundário
Educação para a Cidadania
Aula de Ciências do Futuro
Modelos de Desenho Curricular
Aprendizagem Baseada em Projectos I
Aprendizagem Baseada em Projectos II
Aprendizagem Baseada na Resolução de Problemas I
Aprendizagem Baseada na Resolução de Problemas II
Aprendizagem Baseada na Resolução de Problemas III
Educação para a Cidadania Democrática
Promoção e Educação para a Saúde
Educação Ambiental
Educação Rodoviária

2. A avaliação no contexto da revisão curricular
Avaliação e Desempenho
Avaliação Criterial / Avaliação Normativa
Explicitação de Critérios – exigência fundamental de uma avaliação ao serviço da aprendizagem;
Avaliação Formativa: algumas notas
Instrumentos de avaliação: diversificar é preciso
Observe! Vai ver que encontra.
Que instrumentos utilizar na observação?
Se quer saber, porque não pergunta?
Questionário na sala de aula
Testes: sim ou não?
Testes: objectivos ou não objectivos, eis a questão!
Portfolios: para uma avaliação mais autêntica, mais participada e mais reflexiva
Auto-avaliação
Que instrumentos utilizar na observação?
Perguntar para compreender melhor: a entrevista
Experimentar pode ser “Voar para outro espaço”
Avaliação sumativa: algumas notas
Registos de avaliação: burocracia ou pedagogia?
Avaliar para diferenciar. Diferenciar para aprender
Diferenciação do ensino na sala de aula
Diferenciar as pedagogias para promover a igualdade. Porquê?
Pedagogias diferenciadas para a educação multicultural. Como? (I)
Pedagogias diferenciadas para a educação multicultural. Como? (II)

Bom proveito!

Persistir no analfabetismo motor

A discussão que se seguiu ao alargamento do horário escolar no 1º ciclo do ensino básico incidiu nas vicissitudes da oferta do Inglês. As restantes actividades de complemento curricular [os clubes escolares e o desporto escolar por exemplo] nunca mereceram o destaque que lhes é devido porque vivemos num tempo em que só existe o que é mediático. Malogradamente, os problemas da educação motora das crianças e jovens portugueses só entram nos cardápios das preocupações dos (ir)responsáveis políticos quando associados às notícias da epidemia da obesidade infanto-juvenil: casa arrombada trancas na porta. Presumo que o tempo para uma discussão séria sobre esta matéria não tardará. [O RSS do Público alerta-me, neste momento, para a existência de um debate público sobre obesidade infantil na Polónia: “Coca-Cola vai retirar refrigerantes das escolas básicas”. Sugiro uma visita ao blogue Educar para a Saúde.]

Durante o curto período em que se esgrimiram argumentos sobre as consequências do analfabetismo linguístico e da emergência do domínio da língua de sua majestade, desejei que a discussão sobre o Inglês rebocasse o problema do analfabetismo motor que afecta, gravemente, a população infanto-juvenil. Esperei que emergisse, por via da discussão sobre as actividades de complemento curricular, o problema das actividades curriculares. Aguardei que o Ministério da Educação, embalado por um acesso repentino de seriedade na discussão dos problemas educativos, fizesse cumprir o “obrigatório”, o curricular, e deixasse para outras núpcias o que é facultativo, o que complementa o currículo obrigatório.
Creio que as minhas expectativas saíram goradas. Presumo que nunca poderia sair satisfeito porque fui castigado por um problema de entendimento [benigno], uma desarrumação qualquer que não me permite compreender o que é o curricular, o complemento curricular, o extracurricular, o lectivo e o extralectivo. Será, porventura, um problema meu. Adiante.

Deixando para trás os equívocos conceptuais, olho para o quadro em que se desenvolvem as actividades físicas no 1º ciclo. Mais importante do que saber se é obrigatório ou facultativo é saber de que modo o Estado garante o desenvolvimento integral dos nossos alunos. É apenas disso que se trata. E uma Escola que não ultrapassar os obstáculos que se colocam ao desenvolvimento das actividades físicas desportivas não pode ambicionar a oferta de actividades do desporto escolar. E que obstáculos são estes? Refiro-me aos eternos problemas que tardam em ser debelados:

  • A tipologia da grande maioria dos edifícios das escolas do primeiro ciclo não proporciona as condições mínimas para um trabalho sério na área das expressões psicomotoras;
  • Nem todas as autarquias perseguem o critério de qualidade na contratação dos recursos humanos porque seleccionam professores coadjuvantes de Educação Física pouco qualificados [a baixo custo];
  • A formação de banda larga dos professores do 1º ciclo, numa escola excessivamente intelectualizada, acaba por relegar para segundo plano as áreas das expressões.

A atalho de foice é possível relançar a reflexão sobre o papel da escola no desenvolvimento do desporto português porque já se percebeu que o Associativismo Desportivo não é capaz de responder às necessidades manifestas do país desportivo real [cf. Jorge Araújo in: Horizonte, nº 119, p. 34].