Arquivos mensais: Janeiro 2010

Informação é poder.

PE A Parque Escolar, a empresa pública responsável pelo Programa de Modernização do Parque Escolar, reservou às direcções executivas a discussão e eventual participação apenas para os planos de pormenor.

É inegável a urgência de uma intervenção nas escolas face à degradação do parque escolar. Não coloco em causa, obviamente, a pertinência da decisão do governo mas sinto que esta intervenção de fundo nas escolas secundárias poderá ser uma oportunidade perdida na transformação de um modelo de escola baseado num sistema de repetição para um modelo de escola fundado num sistema de produção de saberes. Distingue-se o primeiro sistema do segundo pela introdução de um elemento qualitativamente diferente: o centro de recursos passaria a representar a inversão da lógica do espaço escolar. Isto para dizer que é evidente que as infra-estruturas condicionam a dinâmica de trabalho e a tipologia dos modos de trabalho pedagógico. E o tipo de intervenção que está a ser realizada nas escolas necessitava de uma outra intervenção que não se limitasse apenas a recuperar os espaços degradados. Não deveria ser uma intervenção neutra na medida em que é cada vez mais urgente uma alteração das lógicas de aceder e construir o saber, pelos alunos e professores.

Acompanho o programa de recuperação das escolas pela imprensa e procuro obter informações sobre o assunto junto da direcção executiva da minha escola, que será uma das escolas candidatas à requalificação. Considero que este assunto é demasiado importante para estar reservado às mentes iluminadas da empresa Parque Escolar e às direcções executivas, longe, portanto, das agendas e dos olhares dos professores. Com a proximidade que me é permitida pelas entidades responsáveis, é por demais evidente o secretismo em torno destes projectos. O que vem confirmar o pensamento de Crozier: nas organizações sociais “a informação é poder, e por vezes […] o instrumento essencial do poder”. Não partilhar a decisão e, ainda mais grave, não partilhar a informação, são dois indícios que denotam um modo obtuso de olhar para a escola pública, cada vez menos democrática.

Bitaites sobre a educação

ResPública: Sindicalização dos professores tem efeitos perversos

Braga da Cruz, reitor da Universidade Católica Portuguesa, afirma que a perda de autoridade dos professores é um dos efeitos perversos da sua sindicalização.

“A confiança na escola pública tem vindo a diminuir e para isso o comportamento dos sindicatos tem contribuído largamente.” (RR) vídeo aqui.

Não ouvi na íntegra o programa da RR e só tive acesso aos 2 minutos e 26 segundos que estão online. Do que ouvi, discordo da opinião de Braga da Cruz (BC), embora não possa dizer que discordo dos seus argumentos porque a peça jornalística não os apresentou.

A afirmação de BC parece enfatizar um certo modo de agir de uma organização de classe, não questionando, nessas breves palavras, a indispensabilidade do sindicalismo docente. Poderia fazê-lo, desde que concebesse a docência como uma não profissão. Mas não o fez. O que BC fez foi uma afirmação simplista, demagógica e imprecisa, porque não caracterizou o mau comportamento dos sindicatos. Mesmo que fosse possível definir o nexo causal entre o comportamento de uma organização plural (os sindicatos serão todos mal comportados?), BC teria de considerar, para ser intelectualmente honesto, a mesma relação com todas as restantes organizações e actores intervenientes na construção da escola pública. E se o fizesse, BC que é o reitor de uma instituição de ensino superior que também forma professores para a escola pública, teria de fazer mea culpa e assumir as responsabilidades que lhe cabem neste processo.

Um governo de doidos

Ana Jorge negoceia em segredo devolução das vacinas da gripe A.

A Ministra da Saúde, Ana Jorge, manifestou esta semana à empresa farmacêutica GlaxoSmithline a intenção do Governo português de reduzir a encomenda das vacinas contra a gripe A, avança a edição desta sexta-feira do SOL (Sol)

Pode estar descansada, senhora ministra. Por mim ninguém saberá que meteu o pé na poça.

Inacreditável

Matou os pais por não querer arrumar o quarto

Não sei o que mais me impressiona nesta notícia: se é a face macabra da mesma ou a leviandade na atribuição da causalidade do crime.

Excelente notícia para Alegre

O secretário de Estado do Emprego, Valter Lemos, não apoia a candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República e garante que será «objector de consciência» se o PS o apoiar. (Sol)

Atente-se no brilhante argumento:

Valter Lemos disse à Lusa que «Manuel Alegre nunca foi primeiro-ministro, nem sequer ministro ou presidente de câmara, ao contrário de todos os outros presidentes da República que tivemos». (Sol)

Eu acrescento, sr. Lemos: Que grande atrevimento candidatar-se sabendo que nunca foi presidente da junta de freguesia, ou presidente dos alcoólicos anónimos, ou presidente do FCPorto, ou secretário de estado do emprego. Vejam só o descaramento de Alegre…

Valter Lemos está muito enganado. Nós, eleitores, é que deveríamos invocar a objecção de consciência enquanto houvesse um Lemos a gravitar na política.

Uma questão de fé.

PSD indisponível para eliminar quotas dos professores.

É evidente que o PSD estaria disponível para eliminar as quotas se não houvesse acordo.

Em busca de um templo perdido

O Conselho das Escolas reúne esta segunda-feira, na Maia, cerca de 700 pessoas, entre especialistas em políticas educativas e directores escolares, para debater a autonomia das escolas e as lideranças necessárias a uma escola melhor na próxima década.

[…] Autonomia e liderança são os dois temas centrais do debate e segundo Álvaro Almeida dos Santos, há estudos que apontam a liderança como o segundo factor mais importante na escola, a seguir ao clima na sala de aula. (Diário Digital)

Sem discordar, devo acrescentar às declarações de Álvaro Almeida: mudar a prática é, antes de mais, um problema de aprendizagem, e não um problema de organização.

O foco aglutinador da mudança, dentro das relações colegiais na escola, deve ser a prática docente do dia-a-dia (Antonio Bolívar). Reúna-se o conselho de escolas. Reúnam-se os directores escolares para buscar o templo perdido…