Arquivos mensais: Fevereiro 2007

Pezinhos de lã…

As agressões a professores sucedem-se com tal frequência que ninguém, e muito menos um ministro, poderá alegar desconhecimento do assunto.
Esperar-se-ia, se estivéssemos perante um membro do governo responsável, uma tomada de posição pública inequívoca, um anunciar de medidas urgentes para remediar os efeitos desta onda de brutalidade que se alastra pelas escolas. No mínimo, exigir-se-ia uma palavra de solidariedade.
Mas não. O silêncio desta ministra é exasperante e, paradoxalmente, ensurdecedor!

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O cerco

“A professora que ontem contou, na TSF, como lhe apontaram uma faca, em plena escola, diz-nos afinal, que a cidadania tem de ser defendida, sem pezinhos de lã, mesmo com rudeza. Antes que cada escola sem transforme em Escola do Cerco. Antes que a escola fique cercada e entregue ao medo, à negligência e às estatísticas.”

Fernando Alves

(ouvir aqui, na TSF – Procurar em Destaques – Sinais)

Penduras

O presidente da câmara de Santo Tirso, na sua breve aparição num canal televisivo após a assinatura do protocolo de colaboração com o governo a respeito do encerramento da urgência hospitalar, não perdeu a oportunidade para retirar dividendos políticos. Extasiado pelo facto de ser um dos raros eleitos do governo para se sentar à mesa das negociações, o autarca justificou o pretenso êxito com o facto de se ter mantido em silêncio, enquanto os outros autarcas protestavam; de preferir a negociação à manifestação. Como se uma e outra coisa fossem incompatíveis; como se a manifestação fosse um direito a abolir porque incomoda quem governa; como se o silêncio, apenas o silêncio dos inocentes, fosse ouvido no céu.

Duas ideias emergem desta intervenção:

  • A ideia subliminar contida neste tipo de discursos, que nos fazem lembrar o período do Estado Novo e a apologia da submissão e da subserviência, é um cancro para a democracia. Ninguém ousa negar o direito à indignação mas começa a ser demasiado evidente que os partidos políticos, sem excepção, lidam mal com a contestação. O que não deixa de ser paradoxal.
  • A ideia de que vale a pena adoptar um estilo “pendura” porque é menos arriscado politicamente [não existindo qualquer comprometimento com uma decisão favorável ou desfavorável não há perdas] e permite ir a reboque dos ganhos colectivos.

Deploravelmente, é este estilo pendura que tem feito escola na escola.
Vejo este estilo, nos docentes críticos da pretensa inacção sindical que se recusam [legitimamente] aderir ao movimento; vejo este estilo, nos docentes que insistem nos apelos à intervenção de forças exteriores à escola [procurando apoios nas elites…] demitindo-se da participação política no interior da escola; vejo este estilo, nos docentes que se lastimam pela inexistência de uma Ordem de professores aguardando que ela surja por geração espontânea, não dando um passo, sequer, para persuadir os colegas sobre as vantagens deste movimento.

Os fedorentos diriam que falam, falam, mas não os vemos a fazer nada…
Nem é preciso, digo eu, alguém abrirá o caminho por eles!

O que sobra em «diagnósticos» falha em «acções»…

O debate, que mobiliza os professores na blogosfera e nas escolas, não contribuiu para construir uma inteligência colectiva [creio que esta expressão é do professor António Nóvoa] que dê resposta ao imobilismo e à resignação da classe docente face aos ataques à escola pública, engendrados por este governo e seus acólitos na comunicação social. Sobejam teses acerca do destino da escola e da profissão docente, assinalam-se as incongruências nos discursos e nos argumentos usados para justificar o absurdo, fabricam-se textos cristalinos que identificam as peças do enigma que, qualquer leigo, incluindo aquele leitor cujo cérebro funciona apenas com um neurónio, pode perceber sem dificuldade e até opinar acerca do estado da educação. Não chega! É insuficiente!
A resposta ao imobilismo e à resignação tem de ser dada através da ACÇÃO. Construir uma inteligência colectiva passa pelo reforço da colegialidade e os professores não devem recear “fazer política”. A construção da inteligência colectiva tem de ser edificada em responsabilidades assumidas na escola situada.

Sugestão de leitura

Questões de Pedagogia, no Educare. As crónicas são assinadas pelo Professor Albano Estrela.

Imperdível!

Vampiros

No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vem em bandos
Com pés veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada
Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada

[…]

ZECA AFONSO

Motivação?… dão-se alvíssaras!

Enquanto lia a regulamentação do 1º concurso para professor titular, ocorreu-me o tema da motivação. À luz das mudanças introduzidas pelo novo ECD, que razões encontram os professores para promover o seu auto-aperfeiçoamento profissional? Será que os motivos que levam os professores a buscar a excelência profissional foram devidamente identificados pelos responsáveis da aberração legislativa?

Não me proponho avançar para um estudo exploratório para saber se os motivos que levam os sujeitos à prática docente aumentaram ou diminuíram nos últimos anos. Nem tão-pouco me interessa saber como se vai regenerando o mosaico motivacional ao longo da vida profissional de um docente.

Fico-me pelas questões mais simples. Fico-me pelo óbvio: Não adianta escamotear a influência dos factores motivacionais exógenos, nomeadamente, os incentivos monetários, as expectativas de progressão na carreira e o reconhecimento dos outros não pares.
O que vemos? Uma carreira mal paga, encurtada coercivamente e sem qualquer perspectiva de valorização social.
Qualquer político que não padeça de insanidade mental, que não se deixe alienar por resultados favoráveis de sondagens inócuas, que não olhe para a escola com a mesma lente que é utilizada para observar uma fábrica de chouriços, perceberá o óbvio: a escola será amanhã, mais do que ontem, uma escola do faz-de-conta.

O que me desagrada profundamente, mais do que o desgaste por persistir na defesa das minhas crenças, é que começam a rarear os argumentos para animar os que me estão próximos.