Arquivos mensais: Novembro 2007

O tempo de si (II)…

A escola é ou não um espaço de liberdade?
Numa escola, o obrigatório será inconciliável com o facultativo? As actividades obrigatórias e as actividades facultativas terão o mesmo alcance pedagógico?

Greve… obviamente!

Nó cego

Há muito tempo que não via o Jorge Coelho enclausurado na sua argumentação: por um lado defende que o governo não deve atender às reivindicações sindicais por muito legítimas que sejam; por outro lado defende que os sindicatos devem reivindicar porque algumas conquistas sindicais foram obtidas porque os governos acabaram por ouvir os sindicatos.

Foi a quadratura do círculo.

O tempo de si…

Remexi o baú para destacar o óbvio.

[…] Os tipos de agora não têm tempo. Em lugar de irem estudar para o café, para a biblioteca, para casa, na cama, na mesa, ou no sofá – ao seu ritmo, a melhor triagem é esta, a do ritmo, sabiam? – , ficam na escola a ter “estudo acompanhado” e “actividades”.
Nunca estão sós.
Nunca podem escolher estarem sós, sem terem falta. Não conseguem, assim, conhecer o seu ritmo, o seu pulsar, o seu sentir. Estão sempre em manada. Cheios de vontade de sairem dali, mas cada vez mais presos a programas de sucesso que lhes fizeram, pelas costas, para depois lhos espetarem, como facas, no peito ainda virgem.

Eu não gosto disso. Falta-lhes tempo para amadurecerem sozinhos – no tempo escasso que também lhes falta – o que vem nos livros e escutam nas aulas. Que, depois de lerem – ouvirem -, deviam pensar sós; ou com quem escolhessem.

E, bem vistas as coisas, falta-lhes tempo para quase tudo: arranjaram agora uma espécie de gestores do tempo, que não são bem relógios de pulso, um por cada pessoa, mas que são ainda piores. Orientam tudo (e sempre mal), porque complicam: não passam de ponteiros luminosos em relógios atrasados, de feira franca, mas cuidam ser de marca.

besugo

Caro besugo

Percebo pouco de quase nada. Desse mísero conhecimento, uma parte dele chega-me por via de gente que, tal como eu, evita as mezinhas. Das poucas coisas que julgo perceber, a educação é aquela que me ocupa mais tempo, profissional e não só. Sou daqueles que direccionam o tempo livre para ler e estudar coisas que se supõem necessárias para o trabalho. Enfim, um exemplo que não se aconselha a ninguém. Isto só para dizer que hoje encontrei no seu blogue algo que só pode ser escrito por gente despegada de qualquer sobranceria. Por isso, suspeito que não podia vir de um ministro e respectivos acólitos, de encarregados de educação acéfalos ou de professores obstinados [como eu, acrescento agora]. O que encontrei foi uma prescrição simples e que decorre do bom-senso: o sistema educativo estupidificou-se ao coarctar o tempo livre dos sujeitos que o frequentam.
O óbvio parece escapar aos olhares dos pseudo entendidos. Parabéns.

Comentários:

Não só o ritmo de estudo, não só a descoberta individual, não só o amadurecerem sozinhos, como diz o besugo. Tudo isso é extremamente importante, no entanto há um factor que se sobrepõe a todos estes: a gestão do tempo e a escolha do seu preenchimento. Se não o aprenderem a gerir agora, se não aprenderem a encontrar as suas actividades próprias nunca o farão mais tarde. Se se mantiverem até à saída do secundário metidos numa grelha de tempo e actividades imposta, nunca irão criar o seu próprio background cultural e recreativo, nunca irão criar o seu tempo e a sua actividade própria de entretenimento, nunca irão ser capazes de se encontrar num espaço/tempo não organizado. Quando saírem para o Ensino Superior ou para a vida profissional, onde não haverá a grelha, não irão ser capazes de se enquadrar fora das horas marcadas nos seus horários quer para as aulas, quer para a actividade profissional. Não o irão fazer nem para as horas de estudo e pesquisa de que necessitam, nem para as horas de entretenimento, nem para a escolha das actividades. Iremos ter uma geração de gente sem norte fora das horas que outros marquem no seu horário … até porque a experiência que têm/tiveram será a de um tédio enorme por tudo o que lhes foi imposto como “extra trabalho”.
f…

Que mais dizer a este propósito?
Penso que não é difícil perceber que não somos todos iguais. Que na sociedade “todo o trabalho é útil e digno desde que executado com carinho, talento e consciência”. Atributos que são inerentes à própria condição humana. Que têm que ser aperfeiçoados, moldados na medida em que forem moldáveis, mas que se manifestam por vontade própria. Que devem ser disciplinados até onde for possível sem que os que têm essa incumbência sejam transformados em ditadores brutos e insensíveis.
E se, conscientemente, não me apetecer seguir uma determinada orientação no rumo a dar à minha vida?
A Escola não pode ser encarada como uma prisão da qual apetece fugir. Esta é que é a questão fulcral.
Para quê massacrar os alunos com horas suplementares supervisionadas pelos professores, quando o que se tem que fazer é persuadi-los que cada um de nós tem de lutar pelos seus próprios anseios de vida. Arranje-se tempo é para dialogar, falando, escrevendo, incutido que seja no aluno, o desejo de saber dizer e fazer bem as coisas da vida.
António

Cansada, correndo (a Teresa bem sabe) cheguei aqui e comovi-me. Bolas! Já nem tempo tenho tido para isso. Deixei sair… Foi uma nostalgia, uma espécie de visão triste súbita do erro colossal… à mistura com a música da Dulce e do Morricone, o Amor a Portugal logo seguida do Cavaleiro Andante de Rui Veloso… Demais neste final de ano.
Precisávamos de deitar tudo ao chão… começar de novo. De novo.
Teresa

Sábias palavras… Sempre me espantou como uma coisa tão evidente escapa aos “especialistas” do Ministério. 100% de acordo Miguel (e besugo)
Joana Félix

Pois eu fico sem palavras para comentar, depois de ler o que tão bem escrito foi. Isto de ser sexta-feira deixa-me assim: um pouco estúpida, mais um pouco “lerda” das ideias e sem qualquer noção de tempo.
Posso garantir-vos, porém, que deixei de usar relógio há bastante tempo e que nem dele preciso para as minhas aulas. Descobri que tenho o tempo em mim! E é tão bom!…
Teresa Lopes

Desafio II

Em resposta ao desafio do Zé Manel do Blog Ruptura de Vizela (a LN acabou por me deixar uma ponta no conversamos?!), aqui vai:

5ª linha, página 161 do Livro ” A escola pública” de João Barroso.

“…e assim proceder a uma melhor distribuição…”

É uma ironia escrever esta linha no momento em que ouço uma intervenção do Carvalho da Silva no programa do Prós e Prós em que se discute o Trabalho.

Aproveito este trama na blogosfera para lançar uma pont(e)a a um conjunto de colegas que muito estimo e que me têm fustigado pelo simples facto de se manterem em retiro blogoEsférico… 🙂

Isabel
Miguel
Henrique Jorge
Henrique Santos
Manel
Maria Lisboa

Adenda: Regulamento
1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica aleatoriedade, não tente escolher o livro;
2. Abra o livro na página 161;
3. Na referida página procurar a 5.ª frase completa;
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada;
5. Aumentar, de forma exponencial, a improdutividade, fazendo passar o desafio a mais 5 bloggers à escolha.

Desafio

“[…] Burocratas, professores, gestores ou políticos?

A história da administração escolar em Portugal permite identificar quatro concepções dominantes na evolução dos perfis funcionais dos responsáveis pela direcção das escolas:
uma concepção burocrática, estatal e administrativa, em que o director é visto, fundamentalmente, como um representante do Estado na escola, executante e vigilante do cumprimento das normas emanadas do centro e um elo de ligação/controlo entre o Ministério e sua administração central ou regional e o conjunto de professores e alunos que frequentam a escola.
uma concepção corporativa, profissional e pedagógica, em que o director é visto como um primus inter pares, intermediário entre a escola (principalmente os professores) e os serviços centrais ou regionais do Ministério, garante da defesa dos interesses pedagógicos e profissionais docentes, perante os constrangimentos burocráticos e financeiros impostos pela administração.
uma concepção gerencialista, em que o director é visto como se fosse o gestor de uma empresa, preocupado essencialmente com a administração dos recursos, com formação e competências técnicas específicas, com o grande objectivo de garantir a eficiência e a eficácia dos resultados alcançados.
uma concepção político-social, em que o director é visto como um negociador, mediador entre lógicas e interesses diferentes (pais, professores, alunos, grupos sociais, interesses económicos, etc.), tendo em vista a obtenção de um acordo ou compromisso quanto à natureza e organização do “bem comum” educativo que a escola deve garantir aos seus alunos.
Estas concepções informaram de modo diferente os vários quadros legislativos que se foram sucedendo desde os finais do século XIX até à actualidade, embora, na prática, elas se sobrepusessem num sistema de estratificação sucessiva, fazendo com que estas dimensões coexistam (com maior ou menor expressão) na diversidade de modos de exercício dos cargos de gestão que encontramos nas escolas. […]”

Descubra o gestor que tem perto de si.

Empresário egoísta…

“Enzo Rossi é um empresário italiano que, durante um mês, tentou viver com os mil euros que pagava aos operários da sua fábrica de pastas alimentares. Ele a sua mulher, que também trabalha na empresa, tentaram gerir a sua vida com dois mil euros. Como o dinheiro, mesmo poupadinho, só chegou até ao dia 20, Rossi resolveu aumentar os vinte empregados em 200 euros por mês. O episódio tornou-se um caso em Itália, e já correu mundo. Quando lhe começaram a chamar “empresário comunista”, respondeu que não. Que é egoísta. Quer empregados motivados e despreocupados com a ginástica mental para pagar as contas, disse. Uma evidência.

A forma como o episódio tem sido contado pela imprensa faz lembrar uma frase de Freitas do Amaral durante a contestação à invasão do Iraque. Quando questionado porque razão se foi alinhando com posições políticas mais comuns à esquerda, Freitas respondeu que nunca mudou. O panorama politico é que se desviou para a direita. De facto, vivemos tempos extraordinários. Os trabalhadores desapareceram e deram lugar aos colaboradores, as bolsas ressuscitam a cada notícia de despedimento e o que devia ser a norma, aumentar empregados que recebem bastante abaixo do salário médio, tornou-se a excepção. Dá direito a excursão de ministros, a seminários em faculdades de gestão e a dezenas de entrevistas. É uma espécie de intervalo na programação do noticiário para apresentar um “comunista” no seu habitat natural. Um freak show. Com tanto elogio, parece que ninguém perdeu tempo para fazer as contas e reparar que o generoso aumento só vai durar até ao dia 24 de cada mês.”

de Pedro Sales (0 de conduta)