Balanço II…

“Os amigos fazem-nos engordar? Dizem que sim. Um estudo nos Estados Unidos, um dos países onde se é mais gordo, conclui que a obesidade se dissemina como uma doença infecciosa, só que através dos laços sociais. Assim, quem tiver um amigo obeso correrá riscos de ficar como ele, ainda mais se ambos forem do mesmo sexo. Os irmãos e os casais também se influenciam na gordura, embora em menor grau do que os amigos.”

Foi no Público que encontrei esta referência: um estudo americano apresenta a obesidade como um fenómeno que se processa em rede. Presumo que o motivo de destaque da notícia esteja associado mais ao efeito recreativo da notícia (que levará muitos dos leitores a gracejar e a questionar a malignidade/benignidade do morfótipo do círculo de amigos) e menos ao quê de inovador da descoberta.
Há muito tempo que se sabe que a obesidade sofre a influência de factores indirectos – como o estatuto sócio económico e o envolvimento do contexto cultural. Há muito tempo que são conhecidas as influências comportamentais (dietas, actividade física, exercício físico e tabagismo) que, por sua vez, são condicionadas por uma série de factores biológicos, tais como a hereditariedade, idade, género e programação fetal.

Que este jornal dê um destaque ao problema da obesidade pela via mais populista até se percebe, o que não se percebe é o silêncio ensurdecedor (numa época em que os silêncios são cada vez mais coercivos e menos optativos) das autoridades responsáveis pelas questões da saúde pública e da educação.

Não é estranho que a escola se demita de afrontar o problema da obesidade infanto-juvenil, atacando os factores directos, designadamente, as dietas (que são oferecidas nas cantinas e nos bares da escola) e os programas de actividade física (nos tempos lectivos e não lectivos)?

Ou será que a escola, entretida com a formação de mão-de-obra para compor estatísticas internacionais, deixou de se preocupar com as necessidades básicas da pessoa que mora no aluno?

Balanço…

A Escola deixou de ser aceite como um referencial de verdade, viu destruída a sua autoridade moral e desgastado o prestígio da função docente. Confrontada com a indústria do audiovisual e com os meios de comunicação de massas, a Escola perdeu não só a exclusividade da transmissão da cultura em geral e da ciência em particular, como foi ultrapassada em termos de eficácia por esses meios. Sem autoridade e sem o exclusivo, ou sequer o melhor desempenho na transmissão do saber, parece pertinente perguntar, qual o papel que ainda poderá ainda caber hoje à Escola?

Será que perdeu? Será essa perda real ou apenas percepcionada? Com que critérios avaliamos a transmissão de saber através da generalidade dos Órgãos de Comunicação Social? Será *informação* o ponto de vista particular de uma cadeia de audiovisuais pertencentes ao mesmo grupo económico? Será *transmissão de conhecimento* a propaganda astrológica e outras efabulações new age que nos são transmitidas pela televisão? Constituirá *conhecimento* o manancial de dados e opiniões disponíveis na internet mas não submetidos a nenhum sistema de verificação de credibilidade? E seria desejável que tal sistema existisse? Extrapolando, seria ou não conveniente a existência de um mesmo sistema de verificação de qualidade para a Escola – por exemplo, para os manuais escolares? Transmitirá a Escola os devidos conhecimentos e, sobretudo, os devidos valores? Deverá a Escola educar para os valores? Em caso afirmativo, que valores serão esses? A escolha desses valores e desses conhecimentos devolverá à Escola a sua posição referencial na transmissão de cultura? Constituirá isso o âmago da profissão docente? SL

Apoio à APD

A Associação Portuguesa de Deficientes é uma organização de pessoas com deficiência, constituída e dirigida por pessoas com deficiência. Enquanto organização de direitos humanos, tem por objecto a promoção e defesa dos interesses gerais, individuais e colectivos das pessoas com deficiência em Portugal.

Baseada no princípio de que as pessoas com deficiência são os peritos em matéria de deficiência, que conhecem melhor que ninguém os problemas que enfrentam e as soluções para os ultrapassar, a APD não limita a sua acção à denúncia das situações de discriminação de que são objecto estes cidadãos. Analisa, dá pareceres, apresenta soluções, por forma a influenciar as medidas e políticas em matéria de deficiência.

Do blogue do Henrique à Associação Portuguesa de Deficientes foi um pequeno passo. Acedi ao seu convite para divulgar a APD e seleccionei este testemunho, escrito na 1ª pessoa, para robustecer a iniciativa blogoEsférica.

Uma pedrada no charco…

Contra o medo, liberdade*

“[…] O que não merece palmas é um certo estilo parecido com o que o PS criticou noutras maiorias. Nem a capacidade de decisão erigida num fim em si mesma, quase como uma ideologia. A tradição governamentalista continua a imperar em Portugal. Quando um partido vai para o Governo, este passa a mandar no partido, que, pouco a pouco, deixa de ter e manifestar opiniões próprias. A crítica é olhada com suspeita, o seguidismo transformado em virtude.

[…] Não tenho qualquer questão pessoal com José Sócrates, de quem muitas vezes discordo mas em quem aprecio o gosto pela intervenção política. O que ponho em causa é a redução da política à sua pessoa. Responsabilidade dele? A verdade é que não se perfilam, por enquanto, nenhumas alternativas à sua liderança. Nem dentro do PS nem, muito menos, no PSD. Ora isto não é bom para o próprio Sócrates, para o PS e para a democracia. Porque é em situações destas que aparecem os que tendem a ser mais papistas que o Papa. E sobretudo os que se calam, os que de repente desatam a espiar-se uns aos outros e os que por temor, veneração e respeitinho fomentam o seguidismo e o medo.”

*Manuel Alegre

Professor – De transmissor a mediador da informação…

Anunciado o programa Plano Tecnológico para a Educação apareceram as críticas que antecipam um conjunto de problemas, que podem ser agrupados em quatro áreas:

1. Segurança dos equipamentos e das redes de informação;
2. Manutenção dos equipamentos;
3. Financiamento dos consumíveis e renovação/actualização do equipamento;
4. Reconfiguração do papel do professor com reforço da função de mediador no acesso à informação.

Os problemas das primeiras três áreas são de fácil resolução.
Os problemas com a segurança e manutenção dos equipamentos podem ser resolvidos: por um lado, através da criação da carreira profissional de auxiliar técnico informático (é uma das saídas para os alunos do curso profissional de informática); e por outro, acabando com o espartilho normativo da gestão do crédito horário dos docentes.
O problemas relacionados com o financiamento serão suportados inicialmente com os dinheiros de Bruxelas e quando a fonte de Bruxelas secar será necessário aproveitar a “boa-vontade” empresarial (a TMN já deu o primeiro passo sendo o parceiro privilegiado no programa novas oportunidades) e reforçar os orçamentos das escolas.

Os problemas de maior complexidade e de difícil resolução têm que ver com a reconfiguração do papel do professor por via da alteração dos modos como se produz o conhecimento. De dono e detentor da informação, o clássico transmissor (professor) passará a ser, dentro da sala de aula, um mediador no acesso à informação. É natural que esta mudança estrutural seja geradora de conflitos e de resistências. Estamos numa zona de incerteza onde o professor, a partir da sua percepção da situação, quer controlar. Não quer perder protagonismo, não quer perder o poder, teme que o já depauperado estatuto profissional se degrade ainda mais.
Não quero enveredar por uma visão fatalista mas o ofício de professor, tal e qual o reconhecemos hoje, poderá estar em risco de extinção.

Olhar despido…

Ontem enviei um vídeo com imagens que eu rotulei de fantásticas a um conjunto de amigos e colegas. Lancei sobre elas, tanto quanto me foi possível, um olhar inocente, axiologicamente neutro.
Hoje, recebi o seguinte comentário:

Receio que as imagens que enviaste se reportem mais à Coreia do Norte do que propriamente à China. O retrato que aparece é do pai do actual líder da Coreia um tal Kim no sei quê. A questão não é despicienda. A China não é muito melhor do que a Coreia no que respeita aos direitos humanos mas a China tem feito um esforço de realçar e na verdade os jogos olímpicos poderiam justificar tanto aparato. Mas deixa-me dizer-te que nunca fui um apreciador destes eventos colectivos, massificados e que ao bom estilo dos …ismos se propagandeavam as ditaduras de Hitler a Estaline e de Fidel a Salazar no caso português no estádio nacional através da mocidade. De qualquer forma reconheço um trabalho aturado e pormenorizado que não me custa a admitir de grande esforço.

Questiono-me se será possível apreciar uma obra de arte ou uma expressão artística depreciando o contexto em que ela foi produzida? Será possível lançar um olhar de espanto para a muralha da China ou para a Torre do Dubai sem deixar que o nosso pensamento indague a natureza dos seus alicerces?

Regime jurídico para a docência

Fui convocado pela Isabel a ler o novo regime jurídico para a formação de professores (DL 43/2007) e acabei a escrever quatro breves notas. Antes de as enunciar, aproveito para deixar duas sugestões de leitura de textos mais informados: o texto do Carlos Ceia e o comentário do “opinador” (;o)) PGuinote.

  • Uma curiosidade só para abrir: Enquanto na minha área disciplinar [Educação Física e Desporto] se discute a especialização do professor de educação física em determinadas matérias de ensino visando aprofundar saberes, eis que surge a aprovação do regime jurídico da habilitação profissional para a docência no pré-escolar, básico e secundário, que promove uma formação científica dos docentes dispersa por diferentes áreas disciplinares. Isto de andar em contra-ciclo tem que se lhe diga…
  • Encontrei duas razões que justificam a criação da figura do professor generalista, embora só a primeira expresse inequivocamente o que está verdadeiramente em jogo: a flexibilização da gestão de recursos humanos afectos ao sistema educativo – há que reduzir o número de professores no sistema; a mobilidade permite o acompanhamento dos alunos pelos mesmos professores por um período de tempo mais alargado.
  • o novo sistema de atribuição de habilitação para a docência valoriza, de modo especial, a dimensão do conhecimento disciplinar, da fundamentação da prática de ensino na investigação e da iniciação à prática profissional. Exige ainda o domínio, oral e escrito, da língua portuguesa, como dimensão comum da qualificação de todos os educadores e professores.

O novo sistema de atribuição de habilitação materializa o mito de que para ser professor basta dominar uma área de conhecimento, o que não deixará de ser uma tarefa difícil de concretizar se se atender à “compactação bolonhesa” da licenciatura. Registe-se a omissão da importância do saber pedagógico, como se o ensino das atitudes e valores não tivesse lugar na escola. Prevejo que esta omissão provoque uma espécie de orgasmo aos “anti-eduqueses” que vêem agora o resultado das suas críticas que assinalavam um pretenso pendor pedagogista das políticas deste ME. oopsss… esta nota saiu ao lado

  • dá-se especial ênfase [no novo sistema de atribuição de habilitação para a docência] à área das metodologias de investigação educacional, tendo em conta a necessidade que o desempenho dos educadores e professores seja cada vez menos o de um mero funcionário ou técnico e cada vez mais o de um profissional capaz de se adaptar às características e desafios das situações singulares em função das especificidades dos alunos e dos contextos escolares e sociais”.

Considero este discurso, no mínimo, hilariante. Ao mesmo tempo que a tutela impõe um ECD que apela ao professor acrítico e servil, propagandeia um discurso politicamente correcto de que um professor não deve ser um operário da educação.
E esta?

Trabalhadores não praticantes*

As práticas selectivas do professorado impostas pelo ME, dividindo a carreira em duas categorias inócuas e impondo um sistema concursal iníquo para uma delas, surgiu aos olhos da opinião pública com o rótulo de qualidade garantida. Isto é, o ME quis passar a ideia de que a mudança na carreira docente iria beneficiar o sistema de ensino porque permitiria regenerar a classe profissional separando o trigo do joio.

Se a mudança surge em nome da qualidade, seria espectável que o ME burilasse um sistema de selecção de candidatos de qualidade que detectasse, no mínimo, os trabalhadores praticantes e os trabalhadores não praticantes.

Quem vive no terreno da educação sabe que nada do que aí vem resolverá o problema dos trabalhadores não praticantes. Bem pelo contrário: o professor titular trabalhador não praticante será um arquétipo que garantirá que tudo fique como dantes, só com uma diferença, será bem pior porque o estilo de trabalhador não praticante acaba de ficar legitimado pelo sistema [rigoroso e eficiente] de avaliação criado pela tutela.

Vejamos que tipos são estes através do olhar de Miguel Angel Santos Guerra.

“A expressão “não praticante” costuma aplicar-se aos crentes. Quando alguém diz (ou se diz de alguém) que é um “crente não praticante”, quer dizer que, teoricamente, acredita, mas não cumpre com os preceitos e obrigações que decorrem dessa crença.

Também existem trabalhadores não praticantes. São pessoas que ocupam um posto de trabalho, recebem um vencimento, fazem parte do organigrama, se apresentam no local de trabalho e estão sujeitas a um horário…, mas não chegam a tomar-lhe o gosto, ou só o fazem muito ao de leve. Quer dizer, pessoas que, em teoria, têm um emprego mas que, de facto, não se esforçam por cumprir com as obrigações que ele implica. Fazem que fazem. São pessoas que falam frequentemente ao trabalho sob qualquer pretexto, que estão permanentemente em greve de zelo, que descarregam nos outros parte das suas responsabilidades, que interrompem com sucessivas folgas o seu já de si leve horário de trabalho… Podem estar de baixa e manter-se activas em actividades que lhes agradem ou em esquemas diversos. Ficam às portas da morte por terem de percorrer o caminho que as separa do trabalho, mas estão prontas a fazer um percurso muito maior (várias vezes) para montar esquemas. Não se, sentem com forças para falar aos seus clientes, mas ficam penduradas no telefone quando se trata de tratar mal o próximo.

Há muitos tipos de trabalhadores não praticantes. Há, por um lado, o grupo dos que se mostram extenuados, embora apenas tenham feito um esforço mínimo ou cumprido, atabalhoadamente, com a sua obrigação. Queixam-se, constantemente, do fardo que têm de suportar, mas, bem vistas as coisas, nada fizeram de extraordinário. Vangloriam-se do que outros fazem com simplicidade, sem alardes nem queixumes.

Outros fazem-se de espertinhos, de vivaços, de hábeis escamoteadores do esforço e da responsabilidade. Costumam gabar-se da habilidade que têm para iludir a suas obrigações. “Como sou esperto, não fiz absolutamente nada”. O seu lema é ganhar o máximo, fazendo o mínimo.

O terceiro tipo é o dos que vão a pouco e pouco reduzindo o seu esforço à expressão mínima. Chegam tarde, saem antes da hora, suprimem encargos, reduzem tarefas.

Constituem outro grupo de trabalhadores não praticantes os que, sabiamente, delegam nos outros parte das suas responsabilidades (isto porque não as podem delegar na totalidade). Têm quem os substitua, encarregam outros de fazerem as suas obrigações, solicitam favores que eles mesmos jamais concederiam.

Há um quinto grupo formado por aqueles a quem José Antonio Marina chama, num recente artigo, procastinadores, ou seja, aquelas pessoas que deixam para amanhã o que deve ser feito com carácter de urgência, que adiam sempre as suas obrigações, que pensam que haverá sempre melhor ocasião de realizar aquilo que é uma obrigação peremptória.

O trabalhador não praticante vive a pensar nas férias, nas pontes, nas festas, nos feriados, no fim do dia de trabalho. O trabalho não passa, de facto, dum período de interrupção do tempo de descanso. O seu pensamento está, não no que deve fazer, mas na forma de o deixar de fazer.

Repare-se que a palavra trabalhador pode ser utilizada como substantivo ou como adjectivo. Falamos dum médico, dum pedreiro, dum funcionário muito trabalhador, mas não dum trabalhador muito trabalhador. É curioso o facto de se associar ao substantivo trabalhador o adjectivo, quase consubstancial, de desempregado. Dizia o actor Spike Milligan: “Não podemos estar aqui sem fazer nada…, as pessoas hão-de pensar que somos trabalhadores”.

É tão clássica como infeliz a fama de que gozam os funcionários públicos de serem pessoas que não se esforçam, que não fazem nada. Recorde-se a célebre anedota da pessoa que vai a um ministério resolver um assunto e, ao ver todas as janelas fechadas, pergunta ao porteiro se os funcionários não trabalham de tarde. Este responde com toda a calma:

– Não trabalham é de manhã, de tarde não vêm.

A democracia não se constrói com pessoas que sacodem as responsabilidades, que o que querem é fazer o menos possível e de qualquer maneira. A imprensa acaba de publicar o caso dos trabalhadores que utilizavam as horas de trabalho para navegarem nas páginas pornográficas da Internet. Horas pelas quais cobravam dinheiro, uma actividade pela qual eram remunerados. Quando estes comportamentos são custeados com fundos públicos, parece que se desculpam. Na realidade, esta circunstância constitui uma agravante que nos enche de vergonha e de indignação.

Sei que a dependência do trabalho constitui uma doença que tudo destrói. Sei que há correntes que fazem a apologia da preguiça. La Rochefoucauld dizia que a preguiça é um vício, como tantos outros, por ser impossível, não por ser desejável. Penso que esta atitude pouco solidária e indolente acaba por ser a ruína das instituições e do país. Dizia Benjamim Franklin: “A preguiça caminha tão devagar que muito depressa é apanhada pela pobreza”.

*Guerra, M. (2003). No coração da Escola, ASA Editores, Porto.

O sol do Allgarve pode estar a fazer mal a muitas cabecinhas pensadoras…

“Confederações querem possibilidade de despedimento por razões ideológicas.

As confederações patronais pretendem que venha a ser possível o despedimento por motivos políticos ou ideológicos, defendendo por isso o fim do artigo da Constituição que impede esta possibilidade. Em comunicado, estas confederações defendem ainda a limitação da greve aos interesses colectivos profissionais.”

Já que entrámos na fase de propostas iníquas, há que alargar o despedimento às razões clubistas! Já estou a imaginar uma fábrica têxtil da claque dos dragões castanhos, uma fábrica de calçado da claque dos diabos cinzentos, uma empresa de enchimento de chouriços da claque da juventude felídea, etc., etc.
Esta gente não se enxerga mesmo!

Não tenhamos qualquer ilusão: estas propostas ridículas pretendem apenas legitimar outras formas porventura mais subtis de precariedade.

O meu umbigo…

Durante 2 anos (entre 2000 e 2002) exerci funções de professor Coordenador do Desporto Escolar. Lastimavelmente, o exercício de tais funções não foi considerado no Anexo II do Dec.-Lei nº 200/2007 pelo que o mesmo não confere qualquer pontuação no âmbito do método de selecção análise curricular. É, a meu ver, evidente que tal omissão é injustificada e revela a inconstitucionalidade do diploma.
Bastava ao legislador ter lido o artigo 11º do Dec.-Lei nº 95/91, de 26/02, para saber que ao professor coordenador do desporto escolar está vedada a acumulação com qualquer outro cargo na escola. Estive impedido de exercer qualquer outro cargo na escola, não por minha vontade, mas por imposição da lei.

Por que razão a administração vem agora penalizar-me por situações e factos que ela própria provocou?

Ao não pontuar o meu desempenho de funções como professor coordenador do desporto escolar, a administração violou o princípio constitucional de boa-fé, o que revela desde logo a inconstitucionalidade do Dec.Lei 200/2007 que regulamenta o concurso.

Depois do provedor da justiça, seguir-se-ão novos capítulos…

Vitórias morais ou uma estratégia diferente?

O Henrique Jorge diz, e bem, que “os pareceres do Provedor não são vinculativos”, e pergunta, “O que é que adianta inundar o Provedor com processos?

A questão colocada nestes termos parece valorizar apenas aquilo que pretensamente produza resultados imediatos e tangíveis. Só que, paradoxalmente, uma das críticas mais certeiras ao movimento sindical é a teimosa unidireccionalidade da luta (manifestações, greves e o recurso, raro, aos tribunais). Quando se diversifica, como parece ser este o caso, e se dá visibilidade à contestação, recorrendo a outras figuras do estado, incorre-se no erro de se estar a lutar apenas por vitórias morais. Preso por ter cão e preso por não ter. Só que a luta sindical e política não se decide apenas no imediato e no domínio do confronto directo.

A meu ver, se esta acção de luta é estratégica não posso estar mais de acordo com ela, sendo necessário alargar ainda mais a frente de combate político. Como a imprensa parece ter percebido, tardiamente é certo, as incongruências e os atropelos à legalidade orquestrados por esta equipa ministerial, há que procurar navegar na onda mediática. E ao mesmo tempo que emergem as ilegalidades na tentativa de reforma do sistema de ensino faz todo o sentido prosseguir a luta nos tribunais, como tem sido sugerido, e bem, pelos sindicatos da FENPROF.

Executivos de rédea curta…

O Despacho n.º 13599/2006 (2.ª série), de 28 de Junho estabelece regras e princípios orientadores a observar, em cada ano lectivo, na elaboração do horário semanal de trabalho do pessoal docente, bem como na distribuição do serviço docente correspondente.

As alterações introduzidas ao ECD obrigaram a um reajustamento no diploma (Organização do ano lectivo 2007/2008), mantendo-se no essencial as orientações anteriores. O documento continua a revelar a faceta hiper-reguladora do ME e, indirectamente, acaba por definir um perfil para o futuro gestor escolar: fiscal da acção governativa que age sob rédea curta.
Mais do que um enunciar de princípios orientadores, este documento é, essencialmente, uma cartilha reguladora que atrofia a autonomia dos conselhos executivos. Como não há conhecimento de que este colete de forças que os executivos são obrigados a vestir os aflija sobremaneira, não serei eu a berrar pelo aperto…

hummm…. não sei por que carga de água é que me fui lembrar da estória do gestor profissional… mas já que toquei no assunto: que tipo de gestor profissional estaria na disposição de aceitar esta humilhação?

Não faltarão motivos…

… para apresentar uma queixa ao Provedor de Justiça.

Adenda:
O 1º concurso de acesso a professor titular gerou uma enorme contestação na escola situada. Será preciso recuar bastante tempo para encontrar um clima de contestação tão ostensivo e generalizado intra-muros como aquele que se verificou durante e após a discussão e imposição da proposta do ME.
Creio que é preciso passar das palavras aos actos! É preciso usar os mecanismos legais que ainda vamos tendo ao nosso dispor para manifestar discordâncias e a indisfarçável indignação.

Se pretender aceder a um formulário electrónico ligado à provedoria da justiça, pode apresentar a sua queixa de modo SIMPLEX (ver no cimo da entrada a ligação). Há também a possibilidade de interpor recurso hierárquico após a publicação das listas definitivas, embora (atenção que amanhã termina uma das fases para reclamação) seja conveniente esgotar o recurso hierárquico para corrigir eventuais danos… Há ainda a via judicial que pode ser usada solitariamente ou na companhia de uma organização sindical…

De uma coisa estou certo: não faltam motivos para agirmos!

Adenda II:
Coloquei na barra lateral 3 ligações para as tardias propostas de regulamentação do novo ECD…

Política em saldo…

“Oficialmente a época dos saldos só começa hoje e deve prolongar-se por um período máximo de dois meses. No entanto, as promoções já estão anunciadas em quase todas as lojas desde o início do mês chegando mesmo a atingir os 70% e em muitas outras já começa substituir-se o espaço de saldos pelas novas colecções”.

Confesso que, num relance, ao ler esta notícia fiquei confuso. Ainda pensei que se tratava de uma laracha acerca das recentes eleições para a Câmara de Lisboa… A notícia podia significar que os lisboetas davam um sinal inequívoco de que: há políticos que se escondem por detrás da marca partidária que não disfarça a pobreza do produto, e que nem com as campanhas de marketing conseguem esconder o produto contrafeito; há políticos de marca partidária que “nem de borla” vendem o produto ao eleitorado… Mas não, não foi laracha mas poderia ter sido. É que não me saem da cabeça os números da abstenção. Não sei se concordam mas só faço uma leitura, que não comporta evasivas: o povo lisboeta fez um manguito à classe política!… A não ser que os partidos políticos persistam em exercícios demagógicos, há outra ilação a tirar do massivo abandono eleitoral?!

Adenda: Vital Moreira espera explicações para tanta desmobilização cívica. Será que anda distraído, sem reparar nos desempenhos circenses dos principais actores políticos?…

Pimenta no ** dos outros é refresco!

“Os activos e os recursos humanos têm de ser muito mais abertos. Temos de ter muito mais mobilidade, as pessoas não podem estar no mesmo emprego toda a vida.”
António Carrapatoso – presidente da Vodafone, porta-voz do movimento Compromisso Portugal (Visão, 28/06/07)

Ao insistir na repetição de um disparate, eleva-se o risco de ele vir a ser incorporado no discurso do senso comum. Não é de admirar que os arautos neoliberais veiculem a ideia de que as pessoas não podem estar no mesmo emprego até ao final da vida e que essa ideia seja incorporada nos discursos dos próprios (des)empregados deste país de faz-de-conta.

Quem educa, por obrigação ou opção, procura apetrechar os sujeitos com as ferramentas mais adequadas para enfrentar a mudança (de profissão, situação, vocação, etc.).

Reconhecer a obrigação e a necessidade de preparar os sujeitos para uma mudança nefasta, não significa que se é indiferente aos ventos da mudança. É que não está em jogo a aceitação tácita de uma mudança danosa. Bem pelo contrário: há que lutar contra os vendavais pós-modernistas que arrasam os direitos sociais que reforçam o valor da dignidade humana. A estabilidade no emprego é um desses valores. O emprego para toda a vida é um direito e uma ambição legítima para qualquer cidadão.

Titulares – parte II

Duas breves, sumaríssimas, notas acerca do 2º concurso para professor titular:

  • Não deixa de ser paradoxal o facto de os candidatos virem a ser seleccionados por um tipo de prova que diz que avalia o que os candidatos dizem fazer e não o que efectivamente fizeram. Este tipo de prova (trabalho com um mínimo de 45 páginas e um máximo de 150 páginas) aproxima-se de um modelo de prestação de provas académicas, de um mestrado ou doutoramento, claramente desajustado ao objecto de avaliação. Não deixa de ser curioso que, neste concurso, seja relevada toda a experiência profissional do candidato ressuscitando a que fora aniquilada pelas regras do 1º concurso (como bem se lembram, só considerou os últimos 7 anos).
  • Pensava eu, afinal erradamente, que o número de vagas a preencher teria em conta apenas o números de lugares, nos grupos de recrutamento, até se atingir uma cota de 1/3. Surge, não sei porquê (mas desconfio), uma alínea b) que faz depender o número de lugares a prover à ponderação dos resultados da avaliação externa da escola e às perspectivas de desenvolvimento da carreira dos docentes.

hummm…. o que significa “perspectivas de desenvolvimento da carreira dos docentes”?

Sucesso escolar eminente!

Correndo o risco de optar por caminhos metafísicos, ao bom estilo vidente, não resisto a um vaticínio que o tempo [e a engenharia educacional ;)] se encarregará de validar.

O novíssimo diploma regulamentar da avaliação do desempenho docente terá uma consequência incontornável: suscitará uma revolução no modo como se alcança o sucesso escolar.

Se têm dúvidas, o que pensar do facto de se pretender associar a avaliação dos professores aos resultados escolares dos alunos os quais são objecto de cotas?

do 80 ao 8…

Dois breves comentários ao projecto de portaria que regulamenta a formação contínua dos docentes [acesso através do serviço público do PG]:

  • A formação contínua de alguns professores em áreas de formação mais ou menos esotéricas acabou por abrir caminho a uma desconfiança generalizada na capacidade do professorado em gerir percursos formativos.

Depreendo essa desconfiança da leitura dos artigos 3º e 5º que diferenciam as dispensas para formação consoante a proveniência da iniciativa: se é a tutela a propor, o docente pode realizar a formação, excepcionalmente, na componente lectiva; se a formação é da iniciativa do docente, a dispensa é autorizada, apenas, na componente não lectiva do docente.

  • Emerge deste documento uma concepção taylorista de formação, mais centrada nas necessidades do serviço do que nas necessidades de auto formação.

O preâmbulo da portaria sobrevaloriza de tal modo as actividades registadas no horário lectivo do aluno que nada mais parece fazer sentido na escola. A formação contínua do docente acaba por resultar numa espécie de benesse que a tutela concede aos docentes, como se tratasse de uma moeda de troca para a progressão na carreira.

Primeiro apareceram textos obtusos, alguns dos quais dolorosamente rebuscados;
Depois foi a vez do olhar, tangível…
Agora busco ideias que me comprometam com um pensamento rigoroso, minimamente articulado.

Chegou o tempo de parar este tempo…

Políticos de algibeira e reformas inacabadas…

Há já algum tempo que acompanho, com algum distanciamento mas com muito interesse, o fórum de discussão promovido pelo Grupo de Avaliação e Acompanhamento da Implementação da Reforma do Ensino Secundário (GAAIRES). Creio que a minha fugaz participação deixou rasto no fórum e, por esse motivo, recebo na caixa de correio os registos diários de alunos, pais e professores.
Hoje encontrei um testemunho que, por ser tão óbvio e acertado, merece o meu destaque:

Carlos Cunha – segunda-feira, 9 Julho 2007, 22:29

Tenho acompanhado atentamente os desabafos de Colegas / Pais, sobre os exames nacionais, sobre os novos programas, sobre as alterações em geral. É um assunto complexo que merece distanciamento e bom senso (que não sei se tenho). Portugal tem acumulado sucessivos atrasos e reveses na sua prestação em testes internacionais de aferição (veja-se os PISA). Era urgente, era inquestionável a necessidade de mudança.
O problema é que neste País, os políticos são de algibeira, tão preocupados com o seu partido, que esquecem o País que servem, normalmente com assessores nomeados por proximidade política e não por distinção científica. Isto tem tido consequências terríveis a todos os níveis, mas na Educação é “mortal”. Teria sido necessário um acordo supra-político para a Educação (Holanda, Bélgica, Irlanda), que não faz depender os seus paradigmas do vento partidário, mas dos objectivos definidos para o País. Em vez disso, o PS estrutura uma reforma, o PSD altera-a na sua génese e o PS está a aplicá-la a contra-gosto, alterando o que pode e como pode. Resultado: uma manta de retalhos que tem uma origem interessante mas a aplicação que se vê: programas que entram antes dos currículos, alunos “entalados” que não são 286 nem 74, jovens desmotivados, professores confusos, pais desiludidos, uma geração com muitas dúvidas sobre o seu futuro. O próprio Ministério da Educação parece um corpo de bombeiros: ainda não apagou um fogo completamente, e já outro começou numa outra frente.
Penso que seria altura de fazer um verdadeiro balanço sobre os estado da Educação, sem pensamentos rosa, laranja, vermelho ou outros. O atraso em relação à Irlanda devia deixar-nos a todos vermelhos… de vergonha.
Só depois, estes desabafos poderão ter o verdadeiro efeito, e a reforma terá verdadeiros resultados no futuro da Educação deste País. Só então os professores poderão ser verdadeiramente motivados a aplicar as metodologias que estes novos programas exigem, largando os “exercícios”, e desenvolvendo nos alunos verdadeira capacidade de raciocínio, permitindo-lhe resolver os problemas que lhe são apresentados. Só então os Exames Nacionais avaliarão aquilo que os programas pretendem desenvolver, e não questões de memorização mesquinha, sem nexo e sem objectivo. Só então o ensino experimental fará sentido. Só assim se conseguirá o apoio dos pais e dos alunos que passarão a ver o objectivo do seu esforço.
Consultem-se alguns exemplos:
http://www.gcse-science.com/teachers_subpage.php?cat_id=183
http://www.iop.org/activity/education/Teacher_Support/Teachers_Network/page_2574.html
por exemplo.
Perdoem-me o desabafo e o “ácido” destilado no mesmo.”

Carlos, por mim, estás perdoado! 🙂

Decisões erráticas…

Não conheço a Natalina mas quero acreditar que o seu caso é um verdadeiro caso de sucesso. E digo isto porque, do pouco que li, foi possível encontrar algumas variáveis, com base empírica razoável, que desempenham um papel relevante na actividade escolar: o envolvimento familiar (“Nestas viagens, feitas durante cinco anos, a estudante foi diariamente acompanhada pela mãe, Florinda Rodrigues, que diz que sempre fez questão de seguir a filha e o seu percurso escolar.”); altas expectativas (a aluna sonha com o curso de medicina); orientação para o sucesso (“Quanto aos estudos, estes intensificavam-se apenas com o aproximar dos testes, altura em que diz que estudava cerca de duas horas por dia, o bastante para lhe garantir uma média de 19 em todas as cinco disciplinas do 12º ano”). Se juntarmos ainda outras variáveis de sucesso, nomeadamente, a competência dos professores (que sugere um ensino estruturado) e a presença de condições físicas e materiais, fica evidente que a aluna teve oportunidade de aprender.

O caso de sucesso acaba por não surpreender. A notícia refere ainda outros casos e destaca a existência de um bom clima de escola.
Até aqui tudo bem não fosse a ironia do destino que, uma vez mais, presenteia uma escola de sucesso com a extinção.

O boneco do contra informação diria: que rrande nóia

Um bom exemplo!

“Entre as tarefas na escola e os trabalhos agrícolas, Natalina Rodrigues, aluna da Escola Secundária do Rodo, na Régua, conseguiu tirar um 20 no exame nacional de matemática.
A estudante frequenta há cinco anos a Escola Secundária do Rodo que fecha as suas portas a 31 de Agosto por decisão do Ministério da Educação.
Aos 17 anos, Natalina sonha em ser médica e, por isso, foi com muito “esforço” e “empenho” que conseguiu tirar um 20 na nota de final de ano de matemática, um resultado que se repetiu nos exames nacionais desta disciplina, notas que espera que lhe permitam entrar para a faculdade de Medicina.
Natalina vive em Vila Seca, concelho de Armamar, tendo de percorrer todos os dias 80 quilómetros, em viagens de ida e volta, para a escola do Rodo.” [continuar a ler aqui]

Doping disciplinar…

No enorme laboratório educativo que é o sistema de ensino, a busca das explicações para os resultados dos exames nacionais recai, inevitavelmente, em variáveis científicas, algumas das quais confirmadas pela investigação empírica.
Duas dessas variáveis obtiveram confirmação múltipla pela investigação: o ensino estruturado e o tempo de aprendizagem. A primeira variável – ensino estruturado – remete para a qualidade do trabalho docente. A segunda variável – tempo dedicado à aprendizagem – remete para o tempo efectivamente dedicado às tarefas docentes na escola e para o tempo dedicado às tarefas escolares em casa.
Não é, portanto, surpreendente que a tutela privilegie o reforço do tempo de aprendizagem no âmbito dos planos de recuperação dos resultados nos exames às disciplinas consideradas mais problemáticas (o acréscimo do tempo semanal de aula e o incremento das actividades de apoio relevam, de facto, o factor tempo de aprendizagem); assim como não é despiciente o reforço do controlo do trabalho dos professores nas disciplinas mais atreitas ao escrutínio tutelar (Matemática, Física e Química e Português, no caso nacional).

O problema que convém ter sempre presente é que o tempo escolar é finito. E o alargamento do tempo de aprendizagem numa disciplina escolar implica a redução ou mesmo a extinção do tempo de aprendizagem de outras disciplinas. Como é insustentável o afunilamento dos planos de estudo a três ou quatro disciplinas escolares, na medida em que isso atrofiaria o desenvolvimento cultural dos alunos, estes planos de acção, vitaminados, têm um tempo de actuação limitado servindo, apenas, objectivos políticos de curto prazo (não é por acaso que a melhoria circunstancial de resultados de exames sejam usados oportunisticamente pela propaganda partidária).

Impõe-se, por isso, a seguinte questão: o que fica para lá dos planos de acção de Matemática e de Física?