Arquivos mensais: Outubro 2004

Falta de lucidez?

Diz a notícia que “a ministra da Educação pretende reforçar o ensino do português e da matemática no 1º ciclo do ensino básico através de um número mínimo de horas lectivas. O objectivo da tutela é prevenir o insucesso e abandono escolar.”



Há qualquer coisa de obscuro nesta notícia. A forma aligeirada como surgiu indicia um resultado inconsequente. É que esta gente parece não aprender. Crêem que a mudança no sistema se resolve com um clique, com o anúncio de uma medida e com uma resma de decretos.

Na verdade, já estávamos avisados. O PNAPAE indicava a criação de um Plano de Português Língua Não Materna, de um Plano de Promoção da Leitura e da Escrita e de um Plano específico para o Apoio ao Ensino e Aprendizagem da Matemática. Será que os tais Planos se restringem ao aumento da carga horária nas duas disciplinas (mais 45 minutos para cada uma) em detrimento de algumas disciplinas não curriculares, como é o caso da área de projecto ou do estudo acompanhado? Aguardarei pelo desenvolvimento da iniciativa. Mas, se observarmos o enunciado da notícia fica a ideia de que a medida é avulsa e emerge de um equívoco conceptual na medida em que circunscreve o insucesso escolar a duas áreas disciplinares, de forma unilateral e redutora. Por outro lado, o conceito de insucesso escolar é multifacetado e demasiado abrangente para ser suprimido, exclusivamente, pela instituição escolar. O que não deixa de ser irónico é que, enviesadamente, a famigerada área de projecto (uma metamorfose da área escola) corre o risco de ser decapitada.

Que bom seria se os clubes escolares renascessem das cinzas para ocupar o seu lugar no sistema educativo, digo eu.

PS: Descobri no Profidências o Síndrome do Contraditório II. É mais do mesmo.

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Ainda sou capaz de me espantar!

Educar a saúde.

Abro daqui a porta para uma discussão no Educar para a Saúde. Esta entrada “da Aptidão Física associada à Saúde” e esta “da educação física…um desafio” motivaram este comentário:

Aproveito esta nova entrada do meu amigo Miguel para dirigir a minha lente na seguinte direcção:

O corpo e o estilo de vida são fundamentais no cultivo da saúde, como tem sido amplamente demonstrado neste espaço. Por essa razão a saúde deixou de ser um assunto restrito da medicina e passou a ser também um assunto da educação. À Escola incumbe a tarefa de colaborar na formação de uma consciência moral e social no que se refere à construção de projectos de vida que incorporem esta noção. Confrontada com inúmeros paradoxos e debilidades, inclusive as questões associadas à educação da saúde, a Escola procura(?) o seu lugar e o seu papel no mosaico social do qual emerge. É a partir deste enquadramento que relanço a eterna questão de saber se a Escola se deve submeter às necessidades singulares do aluno e organizar-se tomando como quadro de referência a sua pessoa ou persistir na sua inglória tarefa de considerar o aluno massa como organizador do quadro de acção de todo o sistema educativo. Nesta matéria, como em muitas outras, encontrámo-nos na mesma carruagem.

Embora entenda o alcance das questões relativas à direcção da “nossa” área disciplinar e as implicações que daí advêm no que concerne à influência exercida no estilo de vida nos alunos, seria aceitável que a problemática dos valores, da co-educação, do ambiente, etc. surgissem a reivindicar a centralidade na abordagem disciplinar. Obviamente que esta reorientação será ainda mais aceitável quando se parte do pressuposto que todas estas questões poderão ser compatibilizadas.

Mas, não posso finalizar o comentário sem deixar de reconhecer as minhas incertezas no que diz respeito ao grau de influência da escola e, particularmente, da Educação Física sobre o estilo de vida dos alunos
.


Acrescentarei uma breve nota ao comentário. Há que estimular a investigação científica agora que sobram as questões dignas de interesse para as Ciências da Educação e, em particular, para as Ciências do Desporto. O Educar para a Saúde tem sido um excelente campo de treinos. Aguardarei pelo novo estádio.

A falência dos documentos orientadores?

As minhas correrias no dia-a-dia escolar percorrem várias frentes. Recentemente deixei-me envolver num grupo de trabalho que discutiu um projecto curricular. As razões que me levam a participar nestas equipas são conhecidas.

Há, no entanto, uma questão que não me larga o pensamento:

Se os documentos orientadores oficiais não induzem alterações substanciais nas práticas docentes, porque é que insistimos na manutenção das “velhas” rotinas que conduzem a resultados iníquos?

Mudança do (no) interior…

A mudança não é, em si, boa ou má. Serão os sentidos e os fins que lhe determinam a essência. Estou convicto que mudar a Escola será um propósito iníquo se cada um descurar o seu posicionamento dentro da instituição. Apelar à mudança do contexto sem ousar a mudança de si próprio é, no mínimo, incoerente. O sentido da mudança terá de ser, a meu ver, de dentro para fora. É assim que eu me procuro posicionar na vida. É assim que eu me situo na profissão que escolhi.

Isto a propósito das duas últimas entradas relativas à sala de professores. Dirigi o meu olhar para a metamorfose da escola situada. Considero que uma educação personalista e uma escola cultural exigem do professor uma grande disponibilidade. Não será este o momento para discorrer acerca do perfil do professor cultural. É o tempo de procurar soluções, de agir. Não é o tempo de carpir as mágoas pelo rumo da educação. É nesta medida que irei, sem qualquer propósito moralista e hipócrita, enunciar um conjunto de medidas básicas que nortearão a minha conduta. Para alguns serão inócuas, para mim serão um ponto de partida:

  1. Estar disponível para trabalhar com todos, alunos, colegas e órgão de gestão;
  2. Dar o primeiro passo, de forma inequívoca, em direcção ao diálogo;
  3. Relegar para segundo, terceiro ou quarto plano as quezílias pessoais;
  4. Estar de vigília à exequibilidade das ideias, planos e iniciativas que se orientem para a uma concepção de escola cultural.

As salas de professores não podem continuar como dantes!

Sala de convívio versus sala de trabalho.

A insuficiência, e em muitas escolas a ausência, de espaços e meios adequados ao trabalho em equipa ou ao trabalho individual gera nos professores um sentimento de impotência, de inoperância e de frustração. A sala de professores e a biblioteca transformam-se em portos de abrigo para os professores que procuram rentabilizar os seus tempos de preparação. Na linha do que refere o Gustavo, será que não existem alternativas menos convencionais, com outra configuração espacial, com arranjos menos “convivenciais”? Sabendo como os contextos determinam as relações interpessoais, será que a adopção de uma lógica de funcionamento da organização escolar subordinada à expressão da dimensão técnica do profissionalismo docente não alteraria o cenário do palco onde se joga o poder? Claro que sim. Contudo, como refere e bem o Manuel, “acabar com um qualquer espaço de visibilização deste mapeamento político e social implica que ele apenas se deslocalize”. Estas duas perspectivas de olhar a organização escolar não se excluem. Enfatizam um ou outro aspecto caracterizador da cultura escolar. A metamorfose de uma escola situada será, a meu ver, “a grande questão”.

Gente nova na sala de professores.

Saúdo dois novos colegas nesta sua aparição pela blogosfera. O Carlos com a Didáctica da invenção e o Jorge com o Profidências.

Outros olhares…