O que resta do ano novo…

(Imagem retirada daqui)

O ano novo para os professores começa em Setembro. Embora parte dos efeitos do Ano Novo emirja verdadeiramente em Janeiro, os professores têm três meses para edificar a sua mensagem de optimismo ou de desencanto, no plano profissional. Projectando o futuro pelos três meses que já passaram, há a certeza de que o ano que aí vem será um mau ano. E não será pelo discurso empolado e oportunista de um responsável político após a divulgação de um relatório PISA que é possível adoptar uma mensagem de optimismo e de esperança. Bem pelo contrário. Pelos documentos oficiais e oficiosos que se vão conhecendo e que antecipam o novo Setembro, o próximo ano será mais difícil ainda.

Se no plano profissional não é possível sustentar uma mensagem optimista, há que procurar ambientes onde a realização pessoal se materialize.

E assim emerge o meu desejo para 2011 que é um desejo minimalista na forma mas maximalista no conteúdo:

Saúde e relações pessoais dignas e dignificantes!

Ora agora encavalitas tu…

A recente iniciativa do Paulo Guinote é meritória. Por sua conta, e por conta daqueles que consigo colaboram, tem procurado afrontar o ME, também no plano judicial, algumas deliberações pretensamente ilegais. Faz bem. Não sei se alguma vez o Paulo Guinote e os seus confrades contribuíram monetariamente para as iniciativas judiciais e serviços de apoio ao professor diligenciados pelos próprios sindicatos cujo usufruto foi directo ou indirecto. Como não sindicalizado que se diz ser, presumo que já o terá feito porque não gosta de se encavalitar. Ele e todos os outros colegas não sindicalizados que diligentemente esperam uma nova oportunidade para desancar nos sindicatos.

Espero que a FENPROF faça o caminho pelo seu próprio pé, como o tem feito até agora. E não o deve fazer para evitar remoques ressabiados porque nada do que fizer será imune às críticas. Deve caminhar pelo seu próprio pé porque todos os pareceres que se angariarem serão poucos para conter a avalanche de iniquidades deste governo.

7 anos… na blogosfera

Tempo

Tempo — definição da angústia.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
— O passado,
Amargura maior, fotografada.
Tempo…
E não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta duma vez!
Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecelão
É capaz de tecer na sua teia!

Miguel Torga, in ‘Cântico do Homem

Chegamos ao ponto de partida

A IGE publicou o relatório da Avaliação Externa das Escolas no qual foram avaliados 300 agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas.

Desde 2006, primeiro sob a responsabilidade de um Grupo de Trabalho para a Avaliação das Escolas, depois sob a orientação da IGE, que existe um programa de avaliação externa das escolas.

Face ao quadro de referência definido, a comparação da distribuição das classificações por domínio de 2006-2007 a 2009-2010 (gráfico anexo) permitem-nos perceber os ganhos obtidos ao longo do quadriénio.

Sem me deixar conduzir pelo sectarismo primário, não é possível afirmar que existem ganhos em qualquer dos domínios da avaliação.  Estamos exactamente no ponto de partida.

Um especialista em “economês” dirá que com menos dinheiro, o serviço oferecido pelas escolas não perdeu qualidade.

Um especialista em educação dirá que o barato sai caro. Porque se projectarmos  os danos nos ambientes escolares impulsionados pelo “novo” modelo de gestão escolar, se conjecturarmos os efeitos do ECD na capacidade de regeneração dos professores face à intensificação do seu trabalho, o que se vier a poupar no ME será gasto no Serviço Nacional de Saúde.

IGE

(clique para aumentar a imagem)

Um especialista despretensioso dirá que famigerado modelo de gestão autocrático imposto por MLRodrigues nada acrescentou à qualidade das lideranças, bem pelo contrário, e provocou uma diminuição da capacidade de auto-regulação e melhoria das escolas.

Um especialista em charadas dirá que a eficiência e o rigor era, obviamente, conversa para analistas incautos!

Prenda de Natal

Há sempre que garanta os serviços mínimos em dia de Natal. No melhor basquetebol do mundo, os “sacrificados”do espectáculo desportivo têm sido, invariavelmente, os jogadores dos Lakers. O critério da organização da prova é discutível e, polémica à parte, o jogo entre os campeões em título e os favoritos dos candidatos, digo eu, era garantia de qualidade do espectáculo. Promessa que, afinal, ficou adiada para outros encontros. Os Lakers defraudaram as expectativas enquanto que os Heat cumpriram os que deles se esperava.

Se gosta de basquetebol e quer acompanhar em directo o melhor basquetebol do mundo, não se importa de perder algumas horas de sono e paga a factura da SPORTTV, pouco depois da meia-noite há sempre um jogo para acompanhar.

Quem defende a CONFAP?

O Conselho Executivo da CONFAP divulgou em 22 de Dezembro do corrente ano, na sua página oficial e em vários órgãos de comunicação social, uma posição sobre a avaliação dos alunos do ensino secundário. Propõe o Conselho Executivo da CONFAP: “ que as classificações obtidas em  E.F., ou não contem para a media final, ou que se estabeleçam mecanismos claros e transparentes,  que permitam o nivelamento da média de E.F. relativamente às médias das demais disciplinas; Ponderar o peso dos parâmetros de avaliação prática e teórica para não empurrar bons alunos para cursos superiores que nada lhes dizem, por terem insuficiência de média, em consequência dos resultados alcançados numa só disciplina.”

Atendendo a que a CONFAP não questiona a presença da Educação Física no roteiro das disciplinas escolares, porque considera que “a Educação física é benéfica para os jovens nesta faixa etária”, passarei ao lado dos principais argumentos que legitimam a existência da disciplina no contexto escolar, não obstante ser necessário explicitar a sua incumbência educativa para se perceber que o “problema das classificações em Educação Física” é um mero artefacto que esconde uma ideia utilitarista de Escola e de Ensino. Uma ideia que, levada às últimas consequências, é nefasta ao pleno desenvolvimento das crianças e jovens porque “descorporiza” a educação.

Os objectivos da Educação dependem dos contextos sociopolíticos e os processos de transformação social determinam o sentido dos objectivos educativos. Vivemos numa fase marcada por uma enorme convulsão social e os discursos que emanam da crise não são claros. Direi que há uma pluralidade de discursos da crise, que enfatizam, a meu ver, algumas das suas manifestações: Existe a crise dos mercados, a crise das instituições, a crise dos modelos societários, etc. Ora, neste quadro de grande volubilidade axiológica, somos obrigados a renovar argumentos a favor da educação como projecto antropológico. Urge empurrar a educação para fora das bandas do utilitário e do acessório.

A proposta da CONFAP revela exactamente uma visão de escola unilateral, uma escola que se (pre)ocupa das aprendizagens, dos saberes e das competências que tornam patente o carácter instrumental do ensino. É uma escola que se (pre) ocupa com a formação profissional, com os saberes, disciplinas e aprendizagens que “servem” à profissão que há-de vir apesar de ninguém saber o que aí vem, porque os tempos são de grande incerteza. A ideia de que é necessário dotar as crianças e jovens com ferramentas cognitivas, psicomotoras e afectivas que as ajude a vencer a imprevisibilidade, é afrontada com uma retórica paradoxal de que o que importa são os saberes hegemónicos de duas áreas disciplinares, matemática e língua materna, pouco ou nada importando que se ampute, em última instância, o currículo escolar.

Atente-se ao argumento que é usado para reclamar um tratamento desigual na disciplina de Educação Física. A CONFAP acha que “muitos dos alunos do Ensino Secundário não têm grande destreza física. Há bons alunos, de excelência, até, os quais,  apesar do seu empenho, não conseguem obter boas classificações a Educação Física, acabando tal facto por lhes descer a media geral de acesso ao Ensino Superior.

Ainda perceberia a proposta da CONFAP se visasse a redução do leque das disciplinas para a contabilização da média de acesso ao ensino superior. Se os alunos pudessem escolher o elenco das disciplinas para aferir a média de acesso consoante as diferentes vocações e capacidades (escolhendo as melhores 2, 3 ou 4 disciplinas, ou rejeitando 1, 2, ou 3). Aí seriam respeitadas as diferenças apesar de continuar a beliscar o conceito de excelência que remete para o sujeito integral e multilateral.

A CONFAP defende a adulteração das regras de acesso ao Ensino Superior. Mas não se incomoda em fragilizar aqueles alunos que no seu trajecto escolar não descuraram a corporalidade. O conceito de excelência da CONFAP é um conceito de conveniência. É um conceito desprovido de equidade. Assim, não!

Dúvida metódica

O ME, numa manobra de pura propaganda, impôs a Educação Sexual às escolas. Começando a casa pelo telhado não garantiu a formação adequada aos professores envolvidos nos projectos, como se comprometera, e exige que as escolas façam qualquer coisinha. São doze horas por ano lectivo a fazer-de-conta que se tratam com a seriedade devida as matérias respeitantes à educação para a saúde e educação sexual.

Como tem sido habitual, o ME é apressado a ordenar e preguiçoso a cumprir com as suas obrigações.

Mas não é sobre esta óbvia demissão do ME que emerge a minha dúvida, o meu questionamento, a minha inquietude relativamente à aplicação da norma aos cursos profissionais:

Atendendo à lógica de funcionamento dos cursos profissionais, lógica essa que está subjacente aos contratos de formação, como enquadrar a abordagem das temáticas da Educação Sexual nas várias disciplinas cujos conteúdos programáticos são estanques?

Terão os professores destes cursos de repor as aulas que ficam por leccionar para acolher as temáticas da Educação Sexual?

Um caso de justiça II

(Carta publicada no jornal Público na secção das cartas à Directora)

O Supremo Tribunal de Justiça errou

Sou Professor há 36 anos. Sou Professor daquela coisa que alguns consideram mesquinha, vil, pecaminosa, secundária, subalterna, que se denomina CORPO. Seja pela via do Desporto de baixa, média e alta competição seja por via da Educação Física escolar, tenho dedicado a minha vida a ajudar as crianças e os jovens do meu país a crescerem, a tornarem-se homens e mulheres plenamente desenvolvidos, com carácter, com força (física e mental), com coragem, com valores que os ajudem a enfrentar as vicissitudes da vida de cabeça levantada e olhos límpidos.

Viver é um risco e as aulas de Educação Física e Desportiva são meios fundamentais para desenvolver nos jovens o gosto do risco, o prazer da aventura, a adesão a novos desafios. Não está aqui em causa somente a realização do corpo na sua dimensão física mas também, com carácter indissociável, a realização do corpo como entidade ética, estética e axiológica. Por isso, não aceito que os juízes do Supremo Tribunal de Justiça tenham condenado um colega a pagar mais de 75.000 euros de indemnização a uma aluna que se magoou no decurso de uma aula de Educação Física.Com esta atitude, os juízes deram uma machadada fortíssima no prestígio, eficiência e valorização social do Desporto e Educação Física (DEF) como fautores de Educação.

Com todos os cuidados necessários que é necessário ter, a aula de Desporto e Educação Física comporta um risco, risco esse que é a natural consequência de procurar "rendimento" formativo, educativo, pela via do corpo em movimento para lá dos limites do habitual. Numa época marcada pela hipocinésia como maleita civilizacional, a deliberação dos juízes do Supremo Tribunal de Justiça não condenou um acto falhado de um professor (todos os tivemos, temos e teremos), mas sim constituiu-se como um libelo contra os professores de Educação Física e Desportiva que, com o humano receio de falhar, vão reduzir a dimensão formativa plural e assim contribuir para a expansão da hipocinésia, da morbilidade e da redução da qualidade de vida de todos. Só espero que todos os meus colegas assumam, com coragem, que o risco fez e continuará a fazer parte da nossa maravilhosa profissão.

José Augusto Rodrigues dos Santos

Professor associado com agregação

Faculdade de Desporto

Universidade do Porto

Dor-de-cotovelo

Foi requerido ao Tribunal Constitucional (TC) a apreciação preventiva do diploma que compensa os funcionários públicos regionais pelos cortes salariais da função pública. (Fonte)

Independentemente do que vier a ser declarado pelo TC, Carlos César esteve bem ao demarcar-se de José Sócrates. É acusado de falta de solidariedade pelos seus colegas partidários e de uma boa parte da oposição, no continente. Percebo a reacção dos socialistas continentais pela aleivosia de Carlos César. Não percebo que os contestatários à solução encontrada por José Sócrates se deixem dominar pela inveja.

Um caso de justiça.

O Supremo Tribunal de Justiça confirmou a condenação de um professor de educação física de um colégio da Lousada ao pagamento de uma indemnização de 75.624 euros a uma aluna que sofreu lesões graves ao executar um salto mortal. (fonte: Público )

Este episódio aziago não deve, nem pode, passar despercebido no seio das organizações de professores de educação física. Sem ainda ter lido o acórdão e os fundamentos da decisão e reportando-me apenas ao que é noticiado, a decisão do Supremo Tribunal de Justiça fundou-se num conjunto de conhecimentos técnicos, eminentemente didácticos, e que têm que ver com a organização e realização do processo educativo, nomeadamente no que concerne à intervenção do professor. Mas não foram apenas os conhecimentos didácticos que fundamentaram a decisão. Há ali um “saber-como” (se ensina um mortal à frente) próprio das sequências, progressões e algoritmos do ensino das técnicas, isto é, há um conhecimento “metodológico” que subjaz ao juízo de culpa. Estou curioso para ler o acórdão porque não conheço muitos casos onde se fez prova de negligência profissional. Provavelmente este caso será um deles. E como não defendo a inimputabilidade quero perceber e aclarar os espaços de intervenção e de responsabilidade do professor. Quero que seja bem determinada a fronteira que separa a negligência da contingência. Quero saber onde começa e acaba a responsabilidade do Estado, do ME, da Escola e até das companhias de seguros escolares.

Será que o governo também arroga o mérito das suas políticas ao aumento da obesidade infanto-juvenil?

Portugal é o terceiro país da União Europeia com mais crianças gordas, só ultrapassado por Malta e Grécia. São quase 19 por cento dos miúdos entre os 11 e os 15 anos a apresentar excesso de peso ou mesmo já obesos. E se, em relação aos adultos, o panorama não é tão mau – o país está perto da média europeia no que toca a obesos – no espaço de uma geração, a situação tende a agravar-se. (Fonte: Público)

Obesidade? Falta de exercício? Isso existe? Nãaa…

O que separa a contingência da negligência?

O Supremo Tribunal de Justiça confirmou a condenação de um professor de educação física de um colégio da Lousada ao pagamento de uma indemnização de 75.624 euros a uma aluna que sofreu lesões graves ao executar um salto mortal. (Fonte: Público)

Como ainda não li o acórdão e os fundamentos da decisão, reservo para outro momento uma opinião mais fundamentada.

Reportando-me apenas ao que é noticiado aqui, para o Supremo Tribunal de Justiça, “executar um salto mortal é um exercício físico de risco para a saúde, seja ele feito por uma adolescente numa escola, ou por um praticante medalhado em alta competição”.

Urge responder, de forma inequívoca, às seguintes questões:

1. Quais os exercícios físicos realizados nas aulas de Educação Física que não encerram riscos para a saúde dos alunos?

2. Qual a fronteira que separa a negligência da contingência?

3. Onde começa e acaba a responsabilidade do Estado, do ME, da Escola e das companhias de seguros escolares?

Testes PISA – vitória do “eduquês”

Nuno Crato é um fervoroso defensor dos testes PISA. Como destaquei aqui, Nuno Crato considera que só através das comparações internacionais, TIMSS e PISA, é possível saber onde fica o norte do eduquês.

Haverá maior ironia que esta? Ver um Matemático enredado nos números à procura de um norte para as suas crenças?

Desengane-se quem pensa que regozijo com as contradições dos especialistas do rigor e do mérito. Nem os testes PISA  permitem estabelecer um nexo causal entre as políticas educativas e os resultados dos alunos, como o fez demagogicamente José Sócrates,  (porque os efeitos das políticas, em educação, devem ser aferidos a médio e a longo prazo); nem os estudos promovidos pela OCDE são neutros.

A escola, esta escola não é a alternativa.

Passei agora mesmo pela rtp2. O Instituto de Emprego e formação Profissional fazia a promoção do EuroSkills/ Lisboa 2010 – Feira Internacional de Profissões. Gostei de ver os testemunhos dos jovens seleccionados, com idades compreendidas entre os 18 e 24 anos. Eram jovens ambiciosos, focados na profissão, confiantes e entusiasmados. Pensei nos meus alunos dos cursos profissionais e não achei nenhum com estes atributo. Talvez não sejam alunos de elite. Infiro que tenho apenas alunos normais se se considerar a excelência como uma anormalidade. Tenho alunos, alguns, que ambicionam concluir o ensino secundário e “agarrar” a área de formação; outros, não querem nada, não querem nada da/na escola; alguns pretendem concluir o ensino secundário; uma minoria quer prosseguir os estudos, ligados ou não à área profissional.

Não sei se os cursos profissionais foram pensados para esta elite de jovens. O ensino superior não pode ser a única via profissional; urge desenvolver a formação profissional de nível médio para satisfazer as necessidades de formação dos jovens e dos mercados laborais. Mas ainda não há alternativa para os outros: Para aqueles jovens cujo trabalho, na escola e fora dela, não diz nada.

Se esta escola não é uma alternativa, onde está a alternativa?