Arquivos mensais: Janeiro 2007

Da titularidade ou da suplência?

No portão da entrada, uma pequena multidão rodeava a ambulância do INEM. Custou a acreditar mas foi verdade: Uma cena de divórcio litigioso; uma troca de palavras que acabou num ajustar de contas; uma agressão gratuita e cobarde; uma mãe atacada pelo pai, presenciada pela filha e por alguns colegas que regressavam do almoço…
A aluna vagueou alguns minutos perdida e apavorada à procura de um buraco para se esconder…
Que quadro macabro!
Amanhã, a escola procurará reparar o irremediável… obviamente!

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De bicada em bicada…

“[…] ela… ideias tem muitas! Ela, de facto, vive em experimentalismo constante. Eu nunca sei qual é a ideia seguinte. E esse é o problema desta ministra. Que diabo, ela não pode um dia parar e fazer assim uma espécie de arrumação das ideias, porque lança a ideia do Inglês e depois da Matemática, e afinal é um professor até ao 6º ano e depois amanhã vai lançar outra… O mal do nosso sistema de ensino é o experimentalismo excessivo e ela está nesse experimentalismo casuístico excessivo. Devia parar, para dizer como é que isto se faz e agora quais são as próximas ideias para os próximos anos.

[…] Havendo várias decisões, umas decisões de recuo da ministra, positivas, outras de avanço esta semana, o que se espera dela é um plano global para os próximos tempos. Não tem de ser tudo, mas as escolas precisam de alguma segurança…”

[In: RTP1, Marcelo de Rebelo de Sousa, 28 Janeiro 2007]

Concursos avulsos…

A palavra competição não me causa qualquer prurido. Vivo o desporto e a competição desportiva desde muito novo e, como professor de Educação Física, olho para a competição como um instrumento importante para atingir objectivos formativos. A competição fornece referenciais úteis para superarmos a mediania. A competição reclama a transcendência. Sendo verdade que a competição encerra um enorme potencial educativo, não é menos verdade que nem todas as práticas competitivas são benévolas.
Isto a propósito dos recentes concursos promovidos pelo ME e dos concursos que aí vêm pela mão do ECD. É fundamental olhar mais para as práticas competitivas e menos para a competição como valor absoluto.
O meu desejo é que a clareza retórica usada pelo ME a respeito da competição não cegue os professores!

Adenda: O blogue foi literalmente empurrado para a versão futurista do blogger. Do template anterior resta este esboço… nem título, nem imagem, nem ligações,… beeemmm, mãos à obra!!!

Adenda II: Não é novidade para ninguém [estou a pensar nos visitantes mais assíduos]: sou um apreciador de metáforas. Ora, é de uma metáfora que se trata. E por mais voltas que dê à figura deste template, não consigo deixar de pensar no “pobre” docente: vejo um caminhante que manifesta vontade em fazer a sua caminhada, de forma digna, até à idade da reforma. Essa velha figura arrisca perder a verticalidade que modela a sua profissionalidade.

Regresso à figura do template: Fico espantado com o pescoço deste animal…

Onde começa a ficção?…

Lamentavelmente, não faltam exemplos que denotam a inaptidão de alguns autarcas em matéria de política educativa. Não me refiro apenas à incúria na criação de condições de habitabilidade das escolas do 1º ciclo do EB. Estou também a pensar em processos e critérios iníquos de selecção de professores para as actividades de complemento lectivo, que pouco ou nada dignificam a função docente. Exemplos deste tipo levam-me a conter os apelos à descentralização de competências do poder central para o poder local. É impossível ficar indiferente a atentados deste tipo. Como há limites para tudo, inclusive e sobretudo, para a estupidez, não posso ficar indiferente às histórias que me contam e que eu não quero acreditar.
Por falta de mão-de-obra [barata] ou por razões que nem ao diabo lembra, colocar crianças de quinze anos a leccionar – ou instruir – [música, como podia ser outra disciplina qualquer] a alunos mais novos, mesmo que a coisa se faça ao abrigo de uma qualquer artimanha [protocolar] legal [por tutoria, treino de pares, etc., etc.,], beemm…
Isto está a ficar engraçado!…

… em cadeia…

A LN quer ser o que trilha para ser… feliz. De facto, o que nos diferencia uns dos outros não é tanto o QUE mas o COMO agido para ser feliz.
Encontro na memória projectos abandonados, outros inacabados, de felicidade. No fundo, recuperar esses projectos é, também, perceber a ontogénese. É perceber a imersão cultural em que vivi e procurar razões, subjectivas, que possam legitimar este meu modo de ver o mundo. Enquanto escrevo estas linhas aproveito para remexer nesse baú…

Agora que o fechei, já posso fixar-me em projectos mundanos: ora, o que quero ser quando fôr grande? Quis ser jogador de futebol… e fui. Quis amar… e amo. Quis ser professor… e sou. Quis saber quem sou e o que faço aqui…

Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei…

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós

Quis recordar esta letra de José Niza e evocar os significados que ela encerra!

Convoco uma Aragem para levar esta cadeia e uma cabeça lhe dar algum discernimento.

Escola: Instrução versus educação

A IC deixou-me o desafio e fui (re)ler este texto de Olga Pombo.
Percorri num único fôlego as 31 páginas do documento e percebi, ainda com mais clareza, a fixação [será fetiche?] dos adeptos do “anti-eduquês”[não é nada de pessoal, caro anti-eduquês ;)]… e do “cratês” pelas ideias de Rousseau. Olga Pombo, inspirada no texto de Hannah ArendtA crise da educação”, aponta três razões que podem explicar a crise da educação nos EUA, e que podem ser generalizáveis a outros pontos do mundo:

1ª razão – a ideia de que “existe um mundo das crianças e uma sociedade formada pelas crianças, que estas são seres autónomos e que, na medida do possível, se devem deixar governar por si próprias”;
2ª razão – a ideia de que há uma “pedagogia ou ciência do ensino em geral”, com a independência suficiente para que a actividade de ensino se possa “desligar completamente da matéria a ensinar”;
3ª razão – a ideia, de inspiração pragmatista, segundo a qual “se não pode saber e compreender senão aquilo que se faz por si próprio
“.

Olga Pombo considera que na articulação e nos efeitos conjugados, essas três razões [alerta que foram formuladas nos anos 50] podem “ajudar-nos a desvelar alguns dos equívocos que organizam a nossa actual compreensão da escola, daquilo que pensamos que ela pode fazer e daquilo que pensamos que se lhe pode exigir.”

E o que fazer se verificarmos falta de consistência no postulado? E se notarmos que as razões invocadas pela autora não encontram eco nos diversos sistemas educativos? Então, podemos sempre ler e fazer o que Olga Pombo sugeriu no texto dedicado a Rousseau: dispersar a semente do prazer intelectual e estético que se retira da leitura dos seus textos.

Regresso às razões. A meu ver, a unidimensionalidade da escola atesta a heteronomia. E como diz, e bem, António Sérgio «a heteronomia pode ser um processo de domesticação de bichos; mas só na autonomia – e pela autonomia – se realiza uma verdadeira educação. Porque os sistemas educativos [e não me refiro apenas ao português] não reconhecem a autonomia das crianças, não vejo como esta razão possa explicar a crise da educação.

Em segundo lugar, a ideia de que a matéria de ensino se pode desligar da actividade de ensinar já foi aqui tratada aquando da referência ao artigo do colega Desidério Murcho. No ensino, descurar a formação científica é tão grave como desprezar a formação pedagógica. E pensar que a primeira dispensa a segunda é aceitar a “prescindibilidade” do professor, num tempo em que o ensino à distância é já uma realidade.

Em terceiro lugar, é no mínimo curiosa a asserção segunda a qual alguém pode compreender algo sem agir sobre a matéria a aprender. E é curiosa porque este “fazer” deve ter como quadro de referência o perfil das aprendizagens. “Fazer” acções psicomotoras ou “fazer” acções cognitivas “puras” implica, obviamente, o sujeito que as faz, e as capacidades que sustentam essa actividade, sejam elas, físicas, cognitivas, volitivas ou afectivas. Ninguém aprende sem um fazer algo, sem um agir sobre, sem fazer uma acção mental.

Apesar de encontrar fragilidades nestas proposições que procuram explicar a crise da educação, há, contudo, aspectos em que estou de acordo com a autora, nomeadamente, partilho a mesma estupefacção pelo silêncio oficial sobre o papel dos outros agentes educativos nas crianças e jovens. Distancio-me claramente da autora quando reclama para a escola a exclusividade do papel instrutivo; Quando afasta da escola a função educativa. Ora, a meu ver, a escola não é um espaço apassivante de mera transmissão cultural, mas tem de ser um processo activante de assimilação, crescimento e desenvolvimento pessoal. Como diria Patrício, assimilação de quê? De si e da realidade envolvente. E o papel da educação é exactamente o de situar o homem no seu tempo, nos seus problemas e necessidades. A instrução é, neste processo, um mero instrumento.

Olhar Rousseau…

Olga Pombo, investigadora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, convida-nos à leitura de Rousseau.
É uma bela síntese do pensamento do autor e que desperta o leitor para uma busca mais profunda, bastando seguir os links até às obras mais emblemáticas do pensador. Olga Pombo enfatiza a actualidade do pensamento de um homem que viveu à frente do seu tempo, conseguindo ver nele os sinais de um futuro que antecipadamente pensou. “As suas obras, de inesgotável riqueza, estão cheias de pressentimentos, alusões e pensamentos de notável actualidade.”
Evocar Rousseau é promover sentimentos contraditórios, não tanto pelos traços da obra mas, quiçá, pelas querelas ideológicas que buscam guarita nas ideias do autor. Mas não é isto que pretende Olga Pombo: “O (seu) objectivo é dar a ler Rousseau, dispersar a semente do prazer intelectual e estético que se retira da leitura dos seus textos. Mais especificamente, referir a multiplicidade de aspectos sob os quais Rousseau reflectiu e que entre nós continuam problematicamente activos, escutar o eco que ainda hoje a sua obra pode encontrar em quem a frequente com algum cuidado e percorra subjectivamente alguns dos múltiplos caminhos que ela deixa em aberto.” Da sua obra realça: “a contemporaneidade reflexiva e a multiplicidade temática e como essa multiplicidade não é senão aparente, como há uma intuição fundadora que lhe dá sentido e unidade.”

Quem é este personagem multifacetado?

Há, em primeiro lugar, o Rousseau político, acusador da sociedade do seu tempo, pensador da sociedade civil, da democracia e da liberdade. […] Du Contract Social ou Principes du Droit Politi é uma obra capital que não aponta para uma qualquer alternativa política mas constitui uma profunda reflexão sobre as condições de legitimidade possível de qualquer regime político. Não um texto pragmático mas fundamentalmente um texto filosófico, que interroga o problema crucial das relações entre sujeito e estado, liberdade individual e interesse social, dever e direito. […] No entanto, a obra foi lida de formas muito divergentes. Rousseau aparece como inspirador de Robespierre mas também de Napoleão, como o pai da democracia mas também do anarquismo. Uns vêem nele um liberal, outros um crítico do Estado; um revolucionário, um subversivo ou um conservador, um defensor da ordem estabelecida; um totalitarista que prevê a alienação da liberdade individual à vontade geral, a entrega total de cada homem ao Estado ou um igualitarista mais ou menos libertário que propõe a dissolução do Estado face a inalienável autonomia da vontade e liberdade dos indivíduos.

Em estreita conexão como o Rousseau político, há o Rousseau antropólogo, profeta e fundador reconhecido da moderna antropologia.

Há depois o grande Rousseau pedagogo. […] Rousseau é o primeiro, ou pelo menos o mais veemente, defensor da diferença infantil. […] Mas Rousseau vai mais longe. Não só adopta uma perspectiva compreensiva relativamente aos valores da criança cuja diferença reclamadamente afirma, como a liberta da culpa de um pecado que sobre ela pesava desde a origem dos tempos. Se há algum aspecto em que a nossa gratidão para com Rousseau mais seja de realçar é, segundo creio, nessa sua violenta e apaixonada recusa de aceitar o postulado do pecado original.
[…]
Há também o Rousseau músico, professor de música.
[…]
Há mesmo o Rousseau botânico, o apaixonado pelas plantas que cobrem a superfície da Terra. […] Paixão pela botânica que implica a condenação de todas as formas de exploração industrial ou industriosa dos seus segredos. O que permite falar de um Rousseau ecologista.
[…]
É que há também o Rousseau marginal, expulso e perseguido, sempre fugitivo, incansavelmente percorrendo a pele da Terra, nascido em Genebra, morto em Paris, vivendo aqui e ali.
[…]
Depois, há o grande Rousseau “écrivan”, escritor e poeta, autor de algumas das mais belas páginas da literatura francesa do século XVIII. […] Porém, falar do Rousseau
“écrivain”, não pode consistir apenas na referência aos seus mais belos textos
literários. É necessário reconhecer o apuramento formal de todos os seus escritos, a harmonia da letra, o ritmo das frases, a inquietante beleza com que comunica, tanto as impressões mais ocasionais, como os mais profundos pensamentos e sublimes intuições. Beleza imensa e pesada que dá ao seu texto um enigmático estatuto, difícil de classificar, impossível de encenar num dos comportamentos culturais. Texto literário sem dúvida! Texto mesmo que ajuda a literatura a tomar consciência de si própria. […] Digamos que Rousseau é demasiado bom escritor para ser apenas filósofo e é demasiado bom filósofo para ser apenas escritor. A beleza fascinante dos seus escritos perturba o acesso à claridade ideal dos seus conceitos mas, por outro lado, a profundidade dos seus pensamentos e o rigor dos seu sistema, inviabilizam uma leitura meramente literária da sua obra.
[…]
É afinal no filósofo Rousseau que Rousseau nunca quis ser que se encontra a trama sistemática de um pensamento que, de tão criador fica aquém daquilo que pensa, de tão original, se desdobra, dispersa e derrama em polissémicas direcções, como que
procurando esgotar-se e incansavelmente pensar-se até ao fim.
[…]
Filósofo “malgré tout”, há ainda um outro Rousseau de que gostaria de vos falar: um Rousseau feminino! Não se trata de proclamar que Rousseau não era afinal um homem mas uma mulher escondida sob um vestuário e pseudónimo masculinos, de anunciar a descoberta sensacional de uma personagem hermafrodita ou de revelar uma nova Georg Sand. Trata-se de interpretar diversos sinais que pontuam a obra e a vida de Rousseau, de julgar perceber a razão que os funde e a raiz que os alimenta.

A hipótese de leitura da obra de Rousseau que é proposta por Olga Pombo conflui num conceito de alteridade que, a meu ver, vale a pena descobrir, a não ser que o preconceito nos faça desviar o olhar.