Solidário…

Aproveito para manifestar aqui a minha solidariedade ao Paulo Guinote no processo que lhe foi movido pelo jornalista Paulo Chitas. Não o faço por algum sentido corporativo, embora não fosse completamente descabido face ao ostracismo a que fomos votados por uma certa comunicação social amiga dos governos de circunstância.

Faço-o porque a liberdade de expressão deve ser biunívoca e não é seguramente um feudo exclusivo de uma classe profissional.

As dissonâncias intermitentes com o Paulo são irrelevantes quando valores mais altos se levantam.

Trezennttooosss miiillll.

Situação foi detectada pelo anterior executivo

Elevado número de atestados médicos de professores são “fenómeno preocupante”, diz Nuno Crato

O ministro da Educação considerou um “fenómeno preocupante” os mais de 70 mil atestados médicos passados a professores, o equivalente a 514 mil dias de baixa, e anunciou que o Governo vai averiguar a existência de “possíveis casos de infracção”.

O ministro Nuno Crato comentava assim, em Constância, a notícia avançada nesta segunda-feira pelo Diário de Notícias (DN), segundo a qual 70031 atestados foram passados entre Outubro de 2010 e Janeiro deste ano num universo de cerca de 300 mil professores, sendo que 413 baixas foram passadas por uma médica que estava de licença prolongada. (…)

Valorizo muito este tipo de notícias. São credíveis porque são acompanhadas de muitos números. E são rigorosas… como as sondagens. Entendi quase tudo. Só não entendi a dimensão do universo: Afinal, somos 300000. Presumo que também contaram os óbitos e os pretendentes. Creio que alguns ainda não terão nascido….

Está bem abelha!

Jornalês

Sindicato quer ‘profs’ a fazer auto-avaliação

Mas que raio: a auto-avaliação dos professores só pode ser realizada pelos professores. Não estou a ver um ferroviário a fazer a auto-avaliação de um médico…

A auto-avaliação esteve sempre presente em todas as propostas de ADD e ninguém minimamente informado sobre esta matéria ousou questionar a necessidade da sua realização.

Não percebo a dificuldade de titular notícias de modo a sumular o assunto principal sem transportar juízos de valor do autor das mesmas. Não sei quem foi o “jornaleiro” que titulou esta peça mas é fácil de adivinhar a intenção. O tom desdenhativo acaba por revelar um preconceito bacoco sobre sindicatos e sobre os professores. Há outra explicação?…

Por falar em rigor…

Por razões óbvias estou cada vez mais susceptível a tudo o que sugere rigor. No trabalho e no lazer, na escola e em casa. Sou cada vez mais rigoroso comigo próprio e com os outros. De tão rigoroso que pretendo ser acabo por ficar mais inconveniente do que é normal. É bem provável que este post não existisse se não estivesse tão sensível ao rigor, como se verá de seguida.

Depois do jantar acompanhei o “Linha da Frente”, da RTP1. No respectivo site, o programa é apresentado como “Um espaço de compromisso com o inconformismo, com a reportagem, com a notícia, com a verdade” e que “vai decifrar a realidade, com o rigor e a seriedade que a RTP já habituou os seus telespectadores.”

Corroboro sem dificuldade que se trata de uma programa que vale a pena seguir com atenção. Hoje, o desafio passava por saber quais os riscos que os nossos (seus) filhos correm e como salvá-los da mais grave epidemia do século XXI. Era para mim inimaginável, num programa deste tipo, que uma das variáveis fundamentais da equação da obesidade desmerecesse a devida atenção da equipa de informação. Refiro-me à actividade física e, em particular, ao contributo da Educação Física e do Desporto Escolar no ataque ao flagelo. Zero! Nem uma palavra, nem uma só referência. Vi apenas a alusão ao mercado do exercício físico, aos ginásios e às academias. Num tempo em que se pedem contas por tudo e por nada, ninguém se preocupa em pedir contas ao Estado pela sua demissão nesta matéria a não ser pelo IVA que é cobrado nas “clínicas do exercício”.

Percebem agora porque considero inócua a bazófia do rigor quando não existe uma prática congruente?

Quem vê TV sofre mais que no WC

O refrão da música do saudoso grupo Rock Português, dos anos 80, “Táxi”,  continua actual. Até às eleições, o jogo das projecções, como mais à frente se clarifica, vai fazendo as delícias dos jornalistas que assim podem brincar às análises, ao sobe e desce, alimentando o negócio dos comentários e da “opiniatite”, confundindo os incautos consumidores de TV.

A Projecção Intercampus dá 36,8% a Sócrates e 33,9% a Passos Coelho. Mesmo assim, os dois partidos continuam em empate técnico. CDS regista forte subida.

“O erro de amostragem, para um intervalo de confiança de 95%, é de mais ou menos 3,05%. A taxa de resposta foi de 47,9%. Nesta sondagem 21,2% dos entrevistados não revelaram a sua opção e 22,4% não indicou um partido ou indicou que não votaria. Que quando aplicável, é feita uma distribuição proporcional de registo de não respondentes, sem opinião e abstenção, passando a usar-se a expressão «Projecção».”

E como tudo o que é coisa que promete
A gente vê como uma chiclete
Que se prova, mastiga e deita fora, sem demora
Como esta música é produto acabado
Da sociedade de consumo imediato
Como tudo o que se promete nesta vida, chiclete (Táxi, chiclete)

Repito: Nesta sondagem 21,2% dos entrevistados não revelaram a sua opção e 22,4% não indicou um partido ou indicou que não votaria. Certo?

21% de votos é uma margem suficientemente segura para se brincar às projecções,.. como se fora uma chiclete!

Uma carreira atractiva

Professora com 90 anos ainda dá aulas

… e pediu aulas observadas porque ambiciona acelerar a progressão na carreira.

Agora mais sério: quem chega aos 90 anos pode dar o que lhe convier que nada lhe será exigido em troca.

Este título é terrível porque induz a leitura de que há por aí muitos “zecos”, essa malandragem, que se lamuriam só porque têm de trabalhar até aos 65 anos.

 

Adenda:

Escrever na blogosfera tem este encanto: Permite retomar um pensamento solto ou uma ideia desconexa, tolera uma escrita mais  visceral e menos reflectida. Isto para dizer que o advérbio de tempo que é utilizado no título da notícia, lido num contexto em que as lógicas de prestação de contas tiranizam o tempo do professor, facilitam as teorias da conspiração.

Afinal, não será uma boa definição de utopia dizer que um professor que vive até aos 90 anos “ainda” tem entusiasmo e resiliência para a sua profissão?

Jornalês

Sucesso dos alunos depende pouco de quem são os pais

Os filhos dos licenciados têm melhores resultados nos exames do secundário do que os descendentes de famílias só com o ensino básico? Os bons resultados dependem da idade dos estudantes? Sim, mas esses dois factores têm um peso de apenas 30 por cento. Os restantes 70 por cento dependem exclusivamente do trabalho feito pelas escolas.

Quem o diz é Cláudia Sarrico, uma das autoras do estudo Perspectivas Diferentes sobre o Desempenho das Escolas Secundárias Portuguesas, que será hoje apresentado no seminário Economia e Econometria da Educação, promovido pelo Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa (ISEG-UTL).

No corpo da notícia lê-se que “[…] As docentes debruçaram-se sobre os resultados dos exames nacionais do secundário de Português e de Matemática e a taxa de conclusão no 12.º ano dos cursos científico-humanísticos, no ano de 2009/2010.

Repito e sublinho: “[…] As docentes debruçaram-se sobre os resultados dos exames nacionais do secundário de Português e de Matemática”.

Como é possível extrapolar, face aos resultados dos exames nacionais do secundário de duas disciplinas, que o Sucesso dos alunos depende pouco de quem são os pais?

Quero acreditar que as autoras terão relativizado os resultados do estudo face aos constrangimentos metodológicos, digo eu que não li o estudo. O problema encontra-se na caixa de ressonância, nesta espécie de jornalês, que induz os leitores a interpretações falaciosas.