Uma lição de vida.

A blogosfera docente está focada no conflito laboral entre professores e o ME. Mas seria um erro pensar que este aparente afunilamento da discussão pode ser explicado por razões narcísicas. Como se o que estivesse em jogo fosse apenas uma visão redutora de profissionalidade. Não ignoro a pluralidade de dimensões motivacionais que levam os professores a agir. Mas seria um erro tremendo não incluir nos motivos da acção o desejo profundo de ser protagonista da sua circunstância. Os professores recusam ser meros operários do ensino. Parecem determinados em rejeitar o papel de “agentes” do ensino em oposição ao papel de “autores” a que se referia Rui Canário neste excelente texto. Ao lutarem pela transformação de uma circunstância iníqua, os professores estão a assinalar um caminho para os seus alunos: Estão a assinalar a intolerância face às injustiças e a dar uma lição prática de política e de cidadania.

Tributo aos mestres

Se nós somos, também, o que aprendemos, devemos parte do que somos a quem foi capaz de nos impregnar de cultura. Devemos parte do que somos aos mestres que deixaram uma marca indelével no nosso desenvolvimento. Cada um, com as ferramentas de que dispunha, foi capaz de gerar a acendalha que alimenta a capacidade de nos espantarmos.

Devo, por isso, um tributo público aos mestres:
Jorge Bento, Nuno Grande, Manuel Ferreira Patrício e Stephen Stoer; José Luís Gonçalves, José Carneiro e Maria Conceição.
Obrigado!

Retiro

Fui convocado para uma acção de formação promovida pela DGIDC, em período pós-laboral, que se arrastará por dois fins-de-semana antes do Natal e que começa já… amanhã.
Para não escrever nada que me venha a arrepender, entro, a partir deste momento, em retiro sanitário.
É evidente que não me atreveria a sair de cena sem uma explicação para quem passa por aqui, propositadamente. Bom fim-de-semana!

Uma ficção que tarda em tornar-se realidade.

ssifoHoje sonhei que umas dezenas, talvez centenas, de Conselhos Executivos pediam a suspensão de funções alegando a ausência de condições de “governabilidade” nas escolas.

Nesse sonho, o Conselho de Escolas teria auscultado os seus representados e tomaria uma posição coerente e sensata: aconselharia a tutela a suspender o processo de avaliação de desempenho docente em curso não pactuando, pelo silêncio, com uma ADD virtual.

Destaque

«Professores que sofrem» é uma série de reportagens do PortugalDiário que vai preencher toda esta semana, antecedendo o Dia Mundial dos Professores, que se assinala, por consignação da UNESCO, no próximo domingo, dia 5 de Outubro

Escolas querem notas dos alunos fora da avaliação
Professores reclamam suspensão do parâmetro com base numa recomendação do CCAP.

“O Conselho considera que, a par das oportunidade que se abrem, como é próprio dos processos de mudança, se corre o risco de a avalição se constituir num acto irrelevante para o desenvolvimento profissional dos docentes, sem impacto na melhoria das aprendizagens dos alunos que conviria evitar desde o início”. (in: JN)

Clemência

como formular objectivos individuais par;
objectivos individuais do professor;
objectivos individuais; grelha de objectivos individuais do prof;
objectivos individuais+avaliaçao docent;
ojectivos individuais;
objectivos individuais para avaliação;
objectivos individuais professor;
como fazer os objectivos individuais do.

Caros colegas pesquisadores do google,
Lamento profundamente defraudar as vossas excelsas expectativas mas dificilmente encontrarão por aqui o que buscam na rede. Se procuram minutas de objectivos individuais, feitas ou por acabar, modelos, e exemplos, e grelhas, e exemplos, e grelhas, e modelos, e minutas, e grelhas, o melhor é clicar aqui ao lado na capela no centro de recursos do Ramiro.
Se o arrependimento queimasse estaria agora bem chamuscado por ter escrito a famigerada entrada com um título tão, tão… na moda.
Aceitem então as minhas sentidas desculpas.

Blogosfera solidária.

O Henrique deixou-me um lembrete, de uma Campanha de Solidariedade com Cuba para responder às necessidades prementes de alguns bens essenciais decorrentes da devastação dos últimos furações que por lá passaram, que me apraz ajudar a divulgar:

“Amigos(as)
Aqui segue uma lista de instituições que se encontram a recolher os bens alimentares para ajuda ao povo cubano.
O primeiro avião com alimentos parte no dia 24 de Setembro, na próxima 4ª feira.
Ainda temos tempo para fazer chegar uma primeira ajuda a estes locais.
Depois deste outros se seguirão.
Toda a nossa disponibilidade solidária é importante!
Refiro os alimentos necessários:
– leite em pó
– massa
– arroz
– conservas
beijinhos a todos
Manuela Silva
locais de recolha de alimentos:
PORTOCOMCUBA
Rua Barão Forrester, 790
4050-272 Porto
Telefones: 962 539 884 / 966 316 201 / 938 460 221
Casa Sindical de Vila do Conde
Rua do Lidador, 46 – R/C – 4480-791 VILA DO CONDE – Telef. 252631478
Sindicato do Comércio, Escritórios – CESP (Delegação Porto)
Rua Fernandes Tomás, 626 – 4000-211 PORTO – Telef. 222073050
Delegação do CESP na Póvoa de Varzim
Rua da Junqueira, 2 – 4490-519 PÓVOA DE VARZIM – Telef. 252621687
CASA SINDICAL (TVC)
Av. da Boavista, 583 – 4100-127 PORTO – Telef. 226002377
Sindicato dos Professores do Norte
Rua D. Manuel II, 51-3.º – 4050-345 PORTO – Telef. 226070500
Sindicato da Construção e Madeiras
Rua de Santos Pousada, 611 – 4000-487 PORTO – Telef. 225390044
Casa Sindical de Santo Tirso
Rua Tomás Pelayo, – 4780-557 SANTO TIRSO – Telef. 252855470
União Local de Felgueiras
R. dos Bombeiros Voluntários, R/C – Esq.-T. – FELGUEIRAS – Telef. 252631478
Casa Sindical USP
Rua Padre António Vieira, 195 – 4300-031 PORTO – Telef. 225198600
Casa da Paz – (Secretariado permanente da Campanha)
Rua Rodrigo da Fonseca, 56 – 2º – Lisboa (perto do Marquês de Pombal)
Contactos
Telefones: 213 863 375 / 213 863 575
Fax: 213 863 221
Telemóveis: 962 022 207, 962 022 208, 966 342 254, 914 501 963

Campanha de ajuda humanitária ao povo de Cuba.
Porto mobiliza-se para a ajuda ao povo de Cuba.

A PORTOCOMCUBA, organização promotora da campanha de ajuda humanitária ao povo de Cuba lançada em Portugal na sequência da dramática devastação provocada pela passagem de dois furacões e uma tempestade tropical, apelou hoje em conferência de imprensa, à mobilização de todos os portugueses em torno do objectivo de, até dia 24 de Setembro, se reunir o maior número de embalagens de Leite em pó, massa, arroz e conservas para a ajuda imediata ao povo cubano.
A PORTOCOMCUBA reafirmou que sempre esteve e sempre estará solidária com o povo cubano nos momentos mais ou menos difíceis da sua história, e que assumirá a ajuda fraterna nesta circunstância de maior necessidade. Apelou ainda à compreensão geral da população em relação a estas necessidades imediatas do povo cubano.

______________________
A União de Sindicatos do Porto também se solidarizou com a campanha de recolha de alimentos para as vítimas dos furacões em Cuba, levada a cabo pela Comissão PortoComCuba.”

Marco

Este é um tempo que requer capacidade de adaptação à mudança. É nossa obrigação, pois, influenciarmos o sentido dessa mudança. Simbolicamente quero marcar este tempo com um novo espaço. Após uma breve passagem pelo Sapo (escrita extensa, rebuscada), cerca de 9 meses (o embrião ganhou vida), a blogosfera foi um espaço de questionamento introspectivo. Já no Blogspot, a discussão e a informação tomou conta do espaço. Foi um olhar para o olhar do outro que se materializou na criação de dois blogues comunitários – o Aragem e o Educação Física e Desporto – Diferentes Olhares? – e no acompanhamento de dezenas de blogues dedicados à coisa educativa.

Após 4 anos de escrita quase diária mudo de linha, sigo agora outro trilho. Não será o fim de linha, portanto, será apenas um ligeiro desvio de rota para o mesmo destino, porque há que manter no horizonte o mesmo destino: o auto-aperfeiçoamento.

Revelado o motivo profundo, urge aclarar o objecto de sempre: o contexto educativo, a escola situada, a política educativa, o sujeito que se vai revelando em cada (in)acção; e os instrumentos de sempre: a informação, a reflexão e a crítica. O estilo? Quiçá mais provocador e incisivo!?…

Alienação…

A TSF enfatizava, nas notícias desta manhã, um pseudo ranking de escolas. Ouvi uma repórter que entrevistava, com alguma solenidade, a directora da “melhor escola” eleita pela rádio. Não faltaram as receitas para o sucesso. Da “pior escola” não ouvi uma palavra dos seus responsáveis. Dizia a repórter que esta escola só apresentara um aluno a exame. Farto-me de rir com o anedotário educativo…

hummm… estou preocupado com a discriminação das escolas que investiram tudo nos CEF’s e Cursos Profissionais.

“[…] A forma mais feliz de prosseguir a carreira parece decorrer, como noutras profissões (Riverin-Simard, 1984, pp. 99-107), de: estar atento e aceitar a aventura, os riscos, os desafios; considerar e prosseguir grandes metas finais, distinguindo-as dos objectivos realizáveis a curto prazo; manter um certo grau de liberdade; analisar a experiência própria e reconhecer o valor dos erros e dos acertos; escutar e reconhecer a razão dos outros; repensar a sua vida e reviver cada dia. […]” (1)(p.190)

(1)
Cavaco, M. (1995). Ofício do professor: O tempo e as mudanças. In: Nóvoa, A. (Org.). Profissão Professor. Porto Editora, Porto.

“[…] A estrutura da carreira profissional, como em outras profissões, não considera as necessidades intrínsecas de desenvolvimento pessoal — diferenciado mas potencialmente equivalente em todas as idades — e por isso dificilmente se ajusta à evolução da estrutura de vida. No entanto, desde o início da carreira é possível distinguir duas linhas orientadoras do sentido dado à profissão que parecem aprofundar-se e distanciar-se significativamente, por volta da crise da meia idade:
• uma que se caracteriza pela valorização dos aspectos burocráticos, pelo sentido de continuidade e de aceitação resignada das disposições hierárquicas; manifesta-se pelo isolamento na acção pedagógica, conduz ao fechamento em relação às mudanças, a um certo cepticismo e ressentimento em relação aos outros, à amargura em relação à profissão, à crença em determinismos cegos no desenvolver das situações;
• outra, que encontra sentido na inovação, no acolher da diversidade, e se alicerça na partilha nas experiências e no trabalho, no questionamento das situações; caracteriza -se pela capacidade de contextualizar os acontecimentos e os factos, de perceber os olhares dos outros, pela vontade de intervir nos processos, pela persistência na apropriação de conhecimentos favoráveis ao desenvolvimento profissional.[…]” (1)(p.189)

(1)
Cavaco, M. (1995). Ofício do professor: O tempo e as mudanças. In: Nóvoa, A. (Org.). Profissão Professor. Porto Editora, Porto.

Um outro olhar sobre o ECD

A revisão do estatuto da carreira docente não obteve qualquer acordo dos sindicatos representativos da classe docente. Ao contrário do que sucedera no passado, o governo rompeu unilateralmente um acordo que os governos antecessores se comprometeram a cumprir e a respeitar. Como “pessoa de bem”, o Estado deve respeitar os contratos com os cidadãos do mesmo modo que deve exigir aos cidadãos o cumprimento das suas obrigações contratuais com o Estado, podendo inclusivamente exigir esse cumprimento de forma coerciva. Não quero com isto dizer que os contratos não possam ser renegociados por iniciativa de ambas ou apenas de uma das partes. É esta a lógica que subjaz às negociações colectivas nos estados democráticos.

Quando assinei o meu primeiro contrato de trabalho, tomei conhecimento das regras do jogo e aceitei-as de livre vontade. O Estado optou por pagar os meus serviços, num contrato que o mesmo Estado considerou definitivo [que só poderia ser rompido por incumprimento dos meus deveres profissionais], em 10 patamares de vencimento [corrijo para 7 patamares porque entrei, se a memória não me atraiçoa, no 3º escalão]. As vantagens para a entidade empregadora eram óbvias porque pagaria menos ao trabalhador no início da carreira mas que configurava uma exploração tacanha da mão-de-obra.

Mas, existia outra alternativa, o contrato poderia ter sido negociado de outro modo: poder-se-ia ter encontrado um valor fixo de vencimento calculado sobre um valor médio do tempo máximo de serviço [de 27 a 33 anos]. Este valor remuneratório seria sujeito a ajustamentos que teriam em conta o valor da inflação ou poderia, eventualmente, ser renegociado por ambas as partes. Este modelo não vingou como se sabe.

O que se sabe é que o Estado agiu nesta matéria com má fé negocial. Rompeu unilateralmente um contrato usando o anátema da avaliação do desempenho para desviar as atenções. O que sempre esteve em causa não era a avaliação do que quer que seja, o que esteve em causa era, única e exclusivamente, a degradação salarial dos professores.

Uma das reivindicações que os sindicatos devem incluir na sua agenda é a exigência da recuperação das perdas salariais para todos os docentes cuja progressão na carreira foi barrada pelo sistema de cotas!
Se a ideia desta alteração do ECD era introduzir alterações no sistema de avaliação dos professores, premiando os professores pelo seu desempenho ou penalizando os professores que não cumpram com as suas obrigações profissionais, não encontro motivos para quebrar o anterior contrato remuneratório e, mais grave ainda, não se percebe a introdução de uma fractura subversiva na carreira.

Falácia…

“[…] Este concurso (1º concurso) permitirá dotar as escolas, a partir do início do próximo ano lectivo, de um corpo de docentes com mais experiência, mais formação e mais autoridade que assegurarão em permanência as funções de enquadramento, coordenação e supervisão. […]”

Esta nota emitida no site do ME não encontra eco na realidade e poderá até confundir os incautos. É que este concurso não garante mais experiência e mais formação. Se assim fosse, a experiência profissional seria cabalmente contabilizada. E não foi!… Foram apenas considerados os últimos sete anos lectivos. Se assim fosse, a formação académica seria prioritária. E não foi!… Há inúmeros mestres e doutores preteridos neste concurso. Se há mais autoridade? Talvez… mas o que valerá essa autoridade se não for reconhecida pelos seus pares?…

Alguns colegas têm um entendimento estranho do cuidado com o outro
Ajudar um aluno não significa “andar com ele ao colo”, derrubar todos os obstáculos para ele não tropeçar,… Bem pelo contrário!

Alguém é capaz de me explicar como é que se pode treinar o equilíbrio sem usar situações instáveis e precárias?

Colaboração artificial…

A cooperação e a competição não são conceitos opostos. E se pretendermos um exemplo concreto do modo como eles se expressam podemos sempre recorrer ao universo desportivo.

Mas façamos um paralelo para o trabalho escolar: agora que os professores vão ter opositores dentro do seu próprio departamento, faz algum sentido existir um coordenador? Será que é para tentar impor o trabalho colaborativo?

Adenda: Há momentos em que as ideias correm mais depressa do que o discernimento e a clareza. É que acabei de notar a omissão de um dado importante nesta entrada. Para os menos familiarizados com as regras deste 1º concurso de titulares convém dizer o seguinte: atendendo ao número de vagas abertas no 1º concurso, iremos ter um número elevado de grupos disciplinares sem coordenador. Isso está previsto no ECD e a solução passará por cooptar professores não titulares para desempenharem as funções dos titulares, nomeadamente, a avaliação dos seus pares. Ora, é aqui que eu encontro a perversão do sistema!

A pensar no professorado…

Coitado! que em um tempo choro e rio

Coitado! que em um tempo choro e rio;
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
Du~a cousa confio e desconfio.

Voo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço.
Calo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.

Queria, se ser pudesse, o impossível;
Queria poder mudar-me e estar quedo;
Usar de liberdade e estar cativo;

Queria que visto fosse e invisível;
Queira desenredar-me e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!

Camões

No fio da navalha…

“Uma faca pode ser usada para fins bons ou para cometer um assassínio.” (Santos Guerra)

A chave para o problema da diminuição da despesa pública na área da educação tem sido, para os reformadores imbuídos pelo paradigma da racionalidade técnica, a avaliação dos professores e a avaliação das escolas.
A reciclagem do ECD permitiu abrir caminho à redução dos gastos com o pessoal docente, só faltando, para compor o ramalhete, burilar o “novo” modelo de gestão escolar [que potenciará o sucesso escolar para fins estatísticos]. A avaliação aparece como a panaceia para os males educativos e é necessário questionar o que esta avaliação pretende, quem dela beneficia e quem a controla. Como diz e bem Santos Guerra (1993), “a avaliação pode ter finalidades positivas ou ser utilizada para graves e numerosos abusos”. Senão vejamos uma parte do que mudará: o anterior produto de avaliação, o relatório de reflexão, dará lugar a uma avaliação presencial realizada por um par (titular) que fiscalizará o cumprimento de alguns formalismos e assistirá a 3 aulas ao longo do ano lectivo. A mudança de orientação é clara: a exigência de um prático reflexivo (que Perrenoud definia “como alguém que transgride ou contesta os interditos […] [que] não reflecte por prazer; visa antes, a eficácia, a equidade, a qualidade, a consistência educativa e a coerência“) dará lugar a um prático basista que se deve limitar a satisfazer as expectativas do titular que o classifica.

Insisto: caríssimos, há que procurar aclarar o que esta avaliação pretende, quem dela beneficia e quem a controla!