Emagrecem os resultados assim como emagrece o investimento…

Os últimos meses foram particularmente difíceis e, sem me dar conta, acabei o ano mais irritado, mais intolerante, mais suscetível, do que é costume. Pudera. As políticas de agressão aos funcionários públicos intensificaram-se e, na escola situada, as políticas de agregação de escolas puseram a nu o impensável.

Havia que sair de cena e, na blogosfera, recorri aos serviços mínimos. As leituras são intermitentes e só escrevo por necessidade, como é o caso, porque os tempos de regeneração devem ser respeitados.

Impõe-se, então, um breve comentário à “nossa” participação olímpica.

Um país que negligencia a cultura desportiva, que desinveste na educação desportiva, que tem uma política avulsa de desenvolvimento desportivo, só por mero acaso alcança resultados desportivos de alto nível. Gostei de ler este texto no arrastão. Acrescentar-lhe-ia talvez um ou outro excerto do texto que li no Público (6/8/12), numa carta à diretora, do leitor Joaquim Moura (versão papel). Destaco, por exemplo, o que diz sobre a “arrogância, vaidade, exigência sem nexo demagogia e pouca noção das possibilidades reais de alcançar as metas sonhadas, a vitória final, por parte dos acompanhantes, imprensa exagerada, e poder político, oportunistas…” Ou quando sugere “uma entidade qualificada, exterior, competente, que faça o estudo, o levantamento sobre o que fazem, em que é que são úteis, de facto, os excessivos membros da embaixada numerosa que acompanha os atletas nobres, e se tamanha comitiva olímpica se justifica tão alargada, tal como a despesa que acarreta e de retorno mais do que duvidoso.”

E por aqui me fico…

Participação portuguesa nos Jogos Olímpicos – Mais do mesmo

Os Jogos ainda agora começaram, há atletas que ainda não participaram nas suas competições, e os resultados alcançados e a alcançar irão suscitar discussões acerca do programa de desenvolvimento desportivo do país.

Face ao desinvestimento do governo no desporto escolar e na educação física (embora os burocratas insistam que se mantêm a regulamentação do deporto escolar e os créditos horários adstritos aos professores com grupos/equipas, convém esclarecer que essa mesma regulamentação impede a criação de novos grupos/equipas não satisfazendo as necessidades de prática para os alunos que mudam de escola ou de ciclo se na “nova” escola não existir oferta.), aumentaram as dificuldades de complementaridade entre os subsistemas escolar e federado. Dito de modo mais simplista, a escola e o clube desportivo (onde se promove o desporto da elite) não só estão de costas voltadas como se afastaram ainda mais.

Ainda é cedo para balanços, mas seria desejável que a discussão (que não deve ser lamechas pelos previsíveis maus resultados) sobre o desporto português considerasse os três objetivos para os programas de desporto juvenil: o objetivo educativo, o objetivo da saúde pública e o objetivo do desenvolvimento da elite. Há um quarto objetivo que, sendo menos aparente, não é menos importante: preservar, proteger, e realçar práticas do desporto.

Veremos como os comentadores televisivos multifacetados e os especialistas do regime abordam o problema e, mais importante, que soluções preconizam.

Espero, sentado, para ver…

Com dedicatória especial para Vicente Moura

Estão lembrados deste episódio? Marco Fortes, depois de uma manhã aziaga, foi expulso da Aldeia Olímpica.

Reagi aqui, neste espaço, condenando aquilo que considero ser uma atitude persecutória de dirigentes desportivos que, para se defenderem de pressões a que estão sujeitos, parecem ignorar regras elementares de convivência.

Uma vez mais, Marco Fortes escolheu o círculo de lançamentos para responder àquele que o julgou na praça pública.

Parabéns, Marco!

Marco Fortes sexto na final do lançamento de peso

Grande Marco Fortes

Sublimar Atletismo: Marco Fortes troca Sporting por Benfica
“É sempre importante ter atrás de nós um clube com um projecto, que tenha ambições. Nesta altura precisava de mais estabilidade e penso que a encontrei no Benfica”, afirmou Marco Fortes.

Marco Fortes foi genuíno e nada justificaria o enxovalho. Nesse dia Marcos Fortes conquistou o meu apreço. Hoje, Marco Fortes fez uma excelente opção. Escolheu um grande clube para dar continuidade à sua carreira.

É que há coisas bem mais interessantes do que esmiuçar eleições autárquicas onde nada, ou quase nada, acontece.

Marco Fortes

Estão lembrados das declarações polémicas de Marco Fortes depois de ser eliminado no concurso do lançamento do peso nos jogos olímpicos de Pequim?
Muitas vozes se ergueram a condenar o atleta pelo modo como reagiu à eliminação, tendo sido “convidado” a regressar a Portugal pelo chefe da comitiva.


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Marco Fortes bateu hoje, uma vez mais, o recorde nacional do lançamento do peso.  A vida e o desporto em particular têm destas coisas. De besta a bestial vai um passo.
Parabéns, Marco!

Mais ou menos Estado na prática do desporto

Desloquemos por breves instantes o nosso olhar do desporto “espectáculo” lançando-o no desporto “prática”. Passamos, então, do papel de observador – passivo, para o papel de actor principal – activo. Independente da sua condição – adulto mais ou menos jovem, com ou sem limitações físicas ou intelectuais, rico ou pobre,… – o que pode a prática desportiva fazer por si? O que pode fazer o desporto àqueles que estão sob a sua guarda? Presumo que estará a pensar em benefícios higienicistas, estará a pensar no seu potencial socializador, estará a pensar na sublimação da vida, na formação do carácter…

Pense agora no que você poderá fazer pela prática desportiva, sua ou a dos seus concidadãos. Observe as condições de prática que tem ao seu dispor, se existe oferta variada, pense nas oportunidades (ou falta delas), enfim, pense nos meios que são colocados ao seu dispor pela comunidade onde está inserido para satisfazer uma putativa vontade de praticar desporto.

Este simples exercício pode ser o mote para se recentrar a discussão sobre o tema desporto a partir de uma importante dimensão – a prática desportiva. Apesar de vivermos num tempo em que o desporto espectáculo parece relegar para um plano secundário as restantes dimensões que o conceito encerra, há que procurar perceber como o Estado assume ou não a responsabilidade de promover a prática desportiva. E como já estamos num plano ideológico, há que procurar saber se o Estado deve ou não assumir essa responsabilidade ou se deve ser o mercado a determinar quem pode ou não fazer desporto.

Aguardo para ver como este tema será tratado no debate nacional sobre o estado da nação desportiva suscitado pelo presidente do Comité Olímpico de Portugal.

Cumpridores de promessas alheias

O filme desta olimpíada ainda não terminou. Não só porque ainda há atletas em competição, como será necessário um período de nojo em que se faz o balanço e se relança a próxima olimpíada.

Precipitadamente, o presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), Vicente Moura, que anunciou o seu afastamento precoce da presidência do comité olímpico, ainda não deu sinais de ter percebido que cometeu um erro crasso “protocolarizando” resultados que não dependem directamente de si e para os quais ele não pode concorrer fora da arena de jogo. Por muita confiança que deposite nas capacidades dos atletas de elite, mesmo que justificada por resultados anteriores, ele nada poderá fazer para obstaculizar os resultados da concorrência directa e agir sobre os factores de rendimento de cada atleta em competição.

Ora, “protocolizar” medalhas a troco do incremento dos subsídios do governo, só para ganhar uns trocos, para o apoio aos atletas em cada ciclo olímpico é um erro de palmatória que apenas serve os interesses do próprio governo: por um lado, se correr bem, pode exibir os resultados e retirar daí os dividendos políticos; por outro lado, se correr mal, remete a culpa para a programação do COP. Aliás, nos dois intervalos deste filme olímpico (quando correu mal – eliminação do três atletas “medalhavéis”; quando correu melhor – medalhas da Vanessa e do Nélson) observámos os dois registos nas declarações prestadas à comunicação social  pelo Secretário de Estado da Juventude e do Desporto.

Não deixa de ser curioso o paralelismo entre este episódio burlesco e os termos em que foi imposto aos professores um determinado modelo de avaliação do desempenho. Os professores, tal como os atletas, viram-se obrigados a resultados, embora desejáveis, insusceptíveis de garantir. O ME, neste caso, fez o papel do COP.

Triste sina a nossa!…

Tribunal popular

Assisti, esta madrugada, à prova olímpica dos 20 Km marcha. Ana Cabecinha conseguiu o oitavo lugar e bateu por nove segundos o “velho” recorde nacional de Susana Feitor. Foi uma prova extraordinária, pelas condições de realização, pelo equilíbrio entre as atletas, pela contingência dos resultados individuais.
Aguardo que a atleta preste declarações à comunicação social, mas apenas na presença do seu advogado.

Brincar aos ciclos olímpicos

O presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), Vicente Moura, que ontem anunciou que pretende abandonar o cargo, defendeu esta quarta-feira que para Portugal ganhar as medalhas desejadas nos Jogos Olímpicos é necessário rever todo o sistema desportivo do País, na medida em que a acção única do COP é manifestamente insuficiente.
“Se é preciso vir aqui ganhar algumas medalhas é o sistema desportivo português que tem de responder. O COP, naturalmente, com certeza o Governo também, as escolas, o desporto escolar, autárquico e universitário. É todo o sistema integrado de desenvolvimento desportivo. Tem de ser tudo avaliado”, defendeu. (In: Correio da Manhã)

Invariavelmente, no final de cada ciclo olímpico, face à eterna insatisfação pelos resultados alcançados, depois de vermos rolar meia dúzia de cabeças, ecoa a trombeta de alarme: há que parar o país para um debate nacional sobre o estado da nação desportiva.
A moderadora que o país consagrou, depois de regressar dos banhos, agendará dois ou três Prós e Contras com os snipers convidados de sempre. Depois dos desabafos mais ou menos comprometidos dos sujeitos directamente envolvidos, das escapadelas por intervalos da chuva dos políticos e de dirigentes federativos, depois de serem crucificados meia dúzias de atletas desbocados, o país sossegará até final do próximo ciclo olímpico.

O circo do faz-de-conta é nauseabundo!

Urge rever todo o sistema desportivo do País não só pela legítima ambição de fabricarmos campeões, senhor presidente do Comité Olímpico de Portugal, mas, fundamentalmente, porque há que combater o analfabetismo motor das nossas crianças e jovens. E não me refiro à falácia da oferta de actividade física avulsa, como se infere da LBAFD (lei de bases da actividade física e do desporto). Estou a pensar no conceito amputado de desporto que os nossos representantes políticos nos querem impor.

Perdoa-me

Francis Obikwelu anunciou hoje [como o Obikwelu na sua prova, cheguei à notícia com algum atraso] o fim imediato da carreira no atletismo e pediu desculpa aos portugueses por não ir à final dos 100 metros, com o argumento de que era pago por eles para estar nos Jogos Olímpicos.

As declarações do Obikwelu tiveram um efeito imediato: serviram de padrão de uma atitude de autoflagelação pública para aqueles atletas que não obtiveram os resultados expectáveis. Um atleta cuja prestação olímpica fique aquém do que seria desejável deve ser crucificado em praça pública, a não ser que seja redimido através de um acto de contrição e peça desculpa aos portugueses, de preferência em directo televisivo. É a única forma de minorar a dor da plebe. Este veredicto popular  é subscrito pelos penduras olímpicos – responsáveis federativos e ilustres representantes do povo –, que numa atitude sobranceira, despudorada e de populismo barato, aparecem invariavelmente a sacudir a água do seu capote.

Não entendo a necessidade de um atleta ter de pedir desculpas, em público ou em privado, depois de uma pretensa má classificação. Como expliquei (?) na entrada anterior, o que se espera de um atleta é que ele se comprometa com a sua transcendência. Se o fez responsavelmente nada mais há a exigir. É este o sentido da competição desportiva.

Entendo ainda menos a necessidade da utilização de um estranho linguajar economês para explicar insucessos desportivos. Mais do que pedidos de desculpas nós queremos perceber onde falhámos e por que não somos capazes de obter resultados desportivos consistentes.

Se o Obikwelu queria prestar um serviço público fora das pistas talvez devesse ter denunciado o fosso que separa a programação olímpica espanhola da portuguesa [realidade que ele bem conhece]. Como não é possível mexer no passado, pelo menos preparávamos melhor o futuro.

Ignorância olímpica

A excelsa capacidade de superação é um atributo de um desportista de elite. Que bom seria se todos nós fossemos capazes de captar e descodificar os sinais reveladores dessa capacidade. O fenómeno desportivo não teria, apenas, um quadro de referência: a contabilidade do merceeiro.
Pelo teor de alguns comentários depreciativos proferidos por dirigentes desportivos e profissionais da informação após putativos insucessos desportivos fico preocupado. Não deveriam eles olhar para o desporto olímpico e revelar a multiplicidade dos seus aspectos, exaltando a sua valia axiológica e antropológica, aceitando os limites e as limitações de todos?
No ideal olímpico perpassa a ideia de que todos podem vencer. Todos. Porque TODOS se transcendem face às suas circunstâncias. Eu sei, tal como qualquer atleta sabe mesmo que induza o espectador a pensar que não sabe, o significado da exaltação desportiva.

Como eu te percebo Marco Fortes!…