Coragem ou esperteza saloia?

“6. A Área de Estudo Acompanhado deve ser assegurada pelo professor titular de turma, no caso do 1.º ciclo e, preferencialmente, pelos grupos de recrutamento de Língua Portuguesa e de Matemática, nos 2.º e 3.º ciclos.”

Quando se olha para este diploma pelo lado da prescrição, que é o lado da restrição da autonomia às escolas, é possível observar a falta de coragem do governo, e deste ME em particular, em assumir que as áreas acessórias do currículo (ACND) devem estar ao serviço de interesses políticos mais imediatistas, nomeadamente: a elevação instantânea dos resultados a duas das áreas disciplinares, que têm servido de barómetro à acção política na área da educação – o português e a matemática.

Sabendo que o governo usa e abusa da bandeira da determinação como sendo uma das suas imagens de marca, contra tudo e contra todos, a bem dos interesses da nação, por que razão não conduz até às últimas consequências o pseudo-arrojo e eleva a carga horária semanal destas disciplinas as vezes que forem necessárias para que o treino intensivo provoque os efeitos tão desejados?

Seria mais vantajoso para o sistema de ensino que o governo assumisse frontalmente esse seu desejo e actuasse em conformidade. Por um lado, discordando ou não da orientação superior, os professores e as escolas teriam de enfrentar um objectivo claro e não se dispersariam em actividades que, sendo importantes do ponto de vista pedagógico, buscam outras mudanças. Por outro lado, é necessário que a acção política seja consequente e verdadeira; concordando ou discordando, os professores e as escolas necessitam de recuperar a confiança nos processos que visam a mudança.

Como o horário semanal não é elástico, perguntar-me-ão, onde cortar?

Nas ACND, obviamente! E se se entender que é insuficiente, o horário dos alunos ainda tem margem para ser alargado. É evidente que o mercado das explicações iria reagir veementemente. E já estou já a visualizar o tom frenético do cardeal dos encarregados de educação a protestar contra mais um atentado à saúde mental dos educandos – o problema é que os alunos não podem chegar cansados à escola paralela. E não estou a pensar, ainda, na medida mais radical – a reorganização curricular.

E como atacar as temáticas: “b) Educação ambiental; c) Educação para o consumo; d) Educação para a sustentabilidade; e) Conhecimento do mundo do trabalho e das profissões e educação para o empreendedorismo; f) Educação para os direitos humanos; g) Educação para a igualdade de oportunidades; h) Educação para a solidariedade; i) Educação rodoviária; j) Educação para os media; k) Dimensão europeia da educação” (ponto 10)?

Esta conversa remeter-nos-ia para a escola cultural… e não temos tempo.

CEF´s = falência da "Escola Geral".

“Talvez fosse preferível criar para esses alunos programas de formação profissional com forte ligação às empresas e com o objectivo declarado de ensinar competências profissionais do tipo das que são necessárias para serem canalizadores, electricistas, pedreiros, armadores de ferro e carpinteiros.” (in: ProfAvaliação)

Discordo, caro Ramiro. Ainda bem que “A cultura escolar ainda se baseia na leitura e na escrita.” É difícil imaginar uma sociedade humana “Pós-Moderna”, globalizada, que dispense a escola do treino da leitura e da escrita. Não estou a imaginar uma escola paralela capacitada para resolver o problema da formação de competências básicas da leitura e da escrita. Terá de ser esta escola, apesar de se mostrar incapaz de promover o desenvolvimento de um conjunto de inteligências, mas bem “rotinada” para o treino da leitura e da escrita, a «linha de vida» para segurar as crianças e jovens à Cultura.
A escola deve cuidar em primeiro lugar da formação geral, que é teórica, e só depois, ou sendo acompanhada [se preferirmos ordenar as prioridades] por uma formação orientada para a prática.
Transformar uma “escola geral” numa “escola específica”, ou técnica, ou outra, é amputar à sociedade um dos seus membros estruturais.

Formação sem stresses?

Uma mistificação que urge combater é a dispensabilidade do esforço nos cursos profissionais e nos cursos de educação formação. Depressa conotados como cursos fáceis para sujeitos difíceis, os “profissionais” e os “CEF’s” estão envoltos por uma auréola hedonista que dificulta a criação de climas propícios à aprendizagem e à superação. Parafraseando Adalberto Dias de Carvalho: “Mesmo a prometida sociedade do lazer não dispensa o esforço. O próprio lazer acarreta-o na medida em que implica a perseverança para se alcançar a meta que se pretende atingir.” Não confundo, por isso, o lúdico com o trabalho. De facto, ambos podem coexistir, mas não são necessariamente coincidentes.

Agora que nos vamos reunir para discutir e apreciar as aprendizagens, em final de período, convém valorizar o esforço e com ele a responsabilização. Que esta formação profissional para o trabalho se faça pelo trabalho!

Adenda: Julgo saber quem foram os criadores da mistificação.
Quem concebeu o currículo dos CEF´s e dos profissionais [conceptualmente diferentes mas igualmente impregnados por uma pedagogia do lúdico] olha para o insucesso escolar através de uma lente determinista. Aligeirando os conteúdos programáticos e tornando-os cada vez mais “acessíveis”, desviando os alunos das matérias “teóricas”, olhando para o trabalho exclusivamente numa perspectiva de produtividade e de eficácia, os pragmáticos da tecnocracia sabem como garantir as condições para o sucesso escolar.

Recuperar a escola (cultural).

TERÇA-FEIRA, 13 DE ABRIL DE 2004

Os ventos de mudança chegaram ao campo educativo e o papel da educação é exactamente o de situar o homem no seu tempo, nos seus problemas e necessidades. Por essa razão, a Escola não deve estar de costas voltadas para a sociedade. É neste quadro, que se verifica um consenso generalizado entre os actores endógenos da escola de que os meios que ela dispõe são insuficientes, sendo insatisfatória a adequação da sua resposta às necessidades sociais e pessoais dos alunos. O estado actual da escola não é animador, talvez porque a Escola tem procurado cumprir com uma estrutura unidimensional uma tarefa que é pluridimensional.
O actual Governo, alarmado com os dados relativos ao abandono escolar precoce, propõe-se, até ao final da legislatura, apoiar e financiar a realização de actividades extra-escolares. Isto é, fora do período das aulas e em áreas tão diversas como o apoio ao estudo, participação cívica ou lazer. Na verdade, este executivo tem sido fértil em propostas para alterar o estado da coisa educativa e a produção legislativa tem funcionado como as trancas que se colocam nas portas das casas, depois de arrombadas. Se este governo tivesse estudado convenientemente o curso da história teríamos ganho tempo na luta contra o abandono escolar precoce.
É neste contexto que urge retomar, no meu entender, uma discussão que foi interrompida há quinze anos e criar as condições para recuperar a Escola Cultural.

  1. A Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei nº. 46/86 de 14 de Outubro) ainda em vigor aponta para um modelo pedagógico que adopta, e muito bem, o paradigma da Escola Pluridimensional. É uma Escola que entende o aluno como pessoa, numa busca de equilíbrio entre autonomia e responsabilidade social. Isto é, toma como quadro de referência o aluno, na busca incessante do seu aperfeiçoamento integral e recorre a uma estrutura pluridimensional cujas dimensões específicas potenciam nos educandos capacidades particulares. A Escola, mais do que um mero local de transmissão de saberes, tem de se assumir como um factor de integração da sociedade. Os clubes escolares satisfazem os propósitos dos princípios da autodeterminação concretizados na liberdade individual, diferenciação e heterogeneidade das actividades extralectivas. Paradoxalmente, enquanto que a importância dos clubes escolares numa Escola Pluridimensional é inquestionável, a Escola situada insiste na sua tradição unidimensional.
    Que factores inibem a operacionalidade dos clubes escolares? O que fazer para reanimar e impulsionar os clubes escolares que foram decapitados?
    Ninguém ficará isento de responsabilidades nesta matéria, mas esta ânsia desvairada do emagrecimento da administração pública e a consequente redução do número de professores esvaziou as escolas, tornando-as exclusivamente curriculares.
  2. Hoje, existe a crença generalizada de que os constrangimentos legais nos afastam, progressivamente, deste modelo pedagógico de escola. Os desígnios da ideologia neoliberal e neoconservadora (cf. Cortesão, 2000; Pacheco, 2000) “oficial” já apontaram as suas baterias para as escolas e para o trabalho dos docentes, cada vez mais intenso, tendo obtido excelentes resultados na propagação desta crença. Embora este assunto, pela sua relevância actual, mereça um outro desenvolvimento, centremo-nos apenas nas questões que nos ajudam a abrir caminho à mobilização dos recursos educativos para a Escola Cultural.
    Não bastará definirmos um modelo pedagógico e um quadro de actividades educativas a desenvolver na escola para dizermos que estamos perante uma Escola Cultural. O professor Manuel Ferreira Patrício (o mentor da Escola Cultural) vai mesmo mais longe ao afirmar que a civilização contemporânea é caracterizada pelo culto da quantidade. A escola não deve ser um templo desse culto”(…) e o professor cultural nada tem que ver com a propaganda mais ou menos beata ou mercenária da cultura, desde logo falsa cultura. Por outro lado, a cultura é, por definição, a exigência da qualidade. A Escola Cultural deve ser inflexível no culto da qualidade”(Patrício, 1996: 186). A Escola Cultural deve ser basicamente uma boa escola curricular, mas não deve cometer-se o erro de supor que os equipamentos educativos e os espaços devam ser definidos, apenas, em função das necessidades e exigências da escola curricular. Devem ser definidos em função da escola cultural como um todo.
    Seria uma injustiça tremenda não reconhecer que a nossa escola com um funcionamento de regime duplo ou triplo terá grandes dificuldades em servir os fins da escola cultural. Mas, estaremos deveras interessados em gerir criativamente os espaços e os tempos? Um esforço desta natureza transporta custos, riscos e resistências.

Recuperar a Escola Cultural é uma prova de audácia para todos os actores educativos. Estaremos preparados para este desafio?

Uma ideia de escola.

“Que escola pública queremos?
[…] considero que para lá das exigências de curto prazo, que têm a ver com a avaliação de desempenho e com o modelo de gestão, há que projectar a Escola Pública a longo prazo e apresentar propostas alternativas, modelos de escola, que permitam à sociedade constatar que os professores não estão apenas contra as propostas do Ministério, mas que temos as nossas próprias propostas, que potenciam um determinado de sociedade. Poderão não ser propostas elaboradas por teóricos e especialistas, mas sim pelos professores que sentem o dia a dia na escola. Sei que pode ser uma proposta ambiciosa, mas se não formos por aí, corremos o risco de apenas o Ministério da Educação ter uma determinada ideia (e que ideia…) de escola.” (Didáctica da Invenção)

Não perderia mais tempo à procura de uma alternativa de escola, caro António. A Escola Cultural é uma resposta a ter em conta.