G(Cr)ato escondido com rabo de fora

É cada vez mais difícil de encontrar a linha que separa um ministro da educação de um mero sectário de matéria académica.

A jornalista Bárbara Wong chegou tarde, mas ainda bem que chegou lá…

Porque é que este ano o ministro não foi inaugurar/abrir um ano escolar?

Com medo que atirem um ovo?
Com medo que algum professor desempregado se atire para cima do carro?
Com medo dos protestos agendados pela Fenprof?
Não. O ministro não foi a qualquer escola, nem mesmo àquela onde já estava marcada a abertura do ano lectivo, na Benedita, onde estaria com o senhor primeiro-ministro, numa escola com contrato de associação, porque está ocupado. Está em Lisboa, no seu palácio das Laranjeiras (muito mais digno do que a 5 de Outubro) a receber os brilhantes alunos portugueses que participaram nas Olimpíadas internacionais da Matemática. Podia fazer o mesmo enquanto presidente da Sociedade Portuguesa da Matemática.
BW

Mau! Se não acerta com a Matemática…

São decisões atrás de decisões sem qualquer sustentação científica ou pedagógica. Em nome de um racionalidade económica que o tempo se encarregará de fazer desacreditar, Nuno Crato tomou uma série de decisões cretinas, porque empobrecerão o serviço público de educação. Dou dois exemplos: a reorganização curricular conceptualmente errada, porque menospreza o desenvolvimento multilateral dos alunos;  e a gestão irracional de recursos, porque coloca em trânsito professores que são necessários às escolas e intensifica o trabalho daqueles que têm horas para completar horário.

Hoje, no blogue do Arlindo, encontrei dois pareceres de duas associações de matemática. Dão que pensar. Quem olha para as Metas de Aprendizagem como um instrumento de controlo e domesticação do trabalho dos professores, vê nestes dois pareceres um documento herético. Eu vejo uma evidência de como o cratês é uma falácia; é uma ideologia populista que assenta num falso critério de autoridade.

Pela análise apresentada, a SPIEM reitera a necessidade de o MEC retirar a proposta de metas curriculares em discussão. Note-se ainda que estão em fase de experimentação outras metas de aprendizagem sobre as quais não existe qualquer avaliação, pese embora a sua sintonia com o Programa de Matemática em vigor no ensino básico. Assim, a SPIEM recomenda que o Ministério da Educação e da Ciência, em vez de propor “novas” metas curriculares, canalize os seus esforços e investimentos para uma ação cientificamente sustentada e que permita que os alunos portugueses continuem a melhorar as suas aprendizagens matemáticas.

Sociedade Portuguesa de Investigação em Educação Matemática

 

O Conselho Nacional da Associação de Professores de Matemática (APM) considera assim que, não tendo ainda terminado a generalização do atual programa de Matemática, introduzir um documento que lhe é antagónico vai ter consequências negativas para o normal funcionamento nas escolas, perturbando o trabalho que os professores vêm realizando e, naturalmente também as aprendizagens dos alunos e a sua relação com a Matemática.

Lisboa, 23 de julho de 2012

Conselho Nacional da APM

O que são disciplinas estruturantes?

(…) 4 — A componente letiva de cada docente dos quadros tem de estar totalmente completa, não podendo, em caso algum, conter qualquer tempo de insuficiência.
5 — Para os efeitos previstos no número anterior, utilizam-se atividades letivas existentes na escola ou agrupamento, designadamente substituições temporárias, lecionação de grupos de alunos de homogeneidade relativa em disciplinas estruturantes, reforço da carga curricular de quaisquer disciplinas, atividades de Apoio ao Estudo ou outro tipo de apoio ou coadjuvação. (Despacho normativo nº 13-A/2012)

Se o MEC não tiver a ousadia de definir com clareza o que entende por disciplinas estruturantes, os diretores devem utilizar (se o projeto de escola o justificar) e distribuir os 100 minutos pelos grupos de recrutamento que o requererem.