NÃO HÁ EDUCAÇÃO SEM EDUCAÇÃO FÍSICA

Leonardo Rocha

Coordenador do grupo de especialistas que elaborou as Metas de Aprendizagem da Área curricular de Educação Física

O conhecimento das medidas anunciadas no documento “Matrizes curriculares dos Ensinos básico e secundário” causou-me estranheza, preocupação e indignação, quer pela forma, quer pelas consequências, nas resoluções que apresenta para uma problemática tão sensível e emergente da sociedade portuguesa.

Pela forma, porque se trata de uma medida encapotada na pretensa delegação de autonomia às escolas. Delegar competências implica assegurar a todos os decisores a melhores condições estruturais e organizativas para que as suas decisões possam ser assumidas em plenitude de direitos e obrigações. Os constrangimentos atuais e herdados com que as escolas se debatem, a falta de uma cultura que dê visibilidade à necessidade e utilidade da Educação Física escolar, o descompromisso formativo de quem nos governa, conduzirão, naturalmente, alguns decisores locais a procurar soluções administrativas que, reduzam custos, facilitem a organização dos horários e desmobilizem o envolvimento crítico e democrático dos diferentes agentes educativos. Poderão as escolas decidir que não querem mais horas de matemática?

Ainda pela forma, porque ignora os consensos científicos e pedagógicos conseguidos pela prática e reflexão de centenas de docentes de vários níveis de ensino e áreas de formação, para quem os curriculum devem ser uma unidade estruturante fundamental de organização e gestão da vida das escolas. Como exemplo refira-se a suspensão, sem que se conheçam os motivos, das “Metas de Aprendizagem”. O que temos hoje? Umas servem, outras não! Algumas estão publicadas, outras… ainda não! Quando o mais importante foi o processo de esclarecimento e aproximação entre especialistas de todas as áreas curriculares dos Ensinos básico e secundário, informa-se (decide-se) que a “decisão” de distribuir a carga horária cabe a um órgão de escola cada vez mais burocrático e administrativo.

Pelas consequências, porque ao ignorar pareceres e recomendações de vários organismos internacionais e nacionais conceituados (Comissão Europeia, Parlamento Europeu, Parlamento Português, Organização Mundial de Saúde, entre outros), diminui a participação da área curricular “Educação Física” na identificação e resolução de problemas emergentes da sociedade portuguesa – sedentarismo e obesidade. Quando a generalidade dos estudos realizados em todo o mundo sugerem que se deve aumentar o tempo de prática de atividade física na escola entre as crianças e os jovens, o diploma “Matrizes curriculares para os Ensinos básico e secundário” reduz a possibilidade dos alunos terem acesso a um recurso essencial para o seu desenvolvimento – a prática orientada de atividade física. Retirar aos alunos tempo de prática curricular impede-os de consolidarem competências fundamentais á procura e habituação a um estilo de vida ativo no futuro! Remete-os para zonas nebulosas onde usufruir de uma atividade física regular depende de “gostar” ou “ter jeito”, como se o sedentarismo, considerado já em alguns países como doença, fosse um comportamento aceitável.

Ainda pelas consequências, porque explicitamente transmite, de novo, a ideia que a área curricular da Educação Física não é importante, depende de boas vontades, poderá mesmo ser facultativa. Quando, de novo, se engloba a Educação Física numa denominada área de Expressões, oculta-se o seu principal campo de intervenção, escamoteia-se a importância dos conteúdos que ensina, desprezam- se os argumentos da comunidade científica da área. De novo a imagem de Educação Física que trespassa a professores, alunos e pais é desvalorizada nos seus objectivos e desvirtuada dos seus propósitos.

Tudo isto é exatamente o contrário do que precisávamos.

Promover a atividade física na escola e fora dela é um imperativo nacional que não pode estar dependente de governações a prazo.

Não há Educação sem Educação Física.

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