Oráculo da escola pública

Não revelarei nada de surpreendente, pelo menos a quem se movimenta na blogosfera docente, se disser que a narrativa do Ramiro Marques mudou com a passagem de testemunho dos partidos do bloco central: o professorado, aquele aliado de conveniência que iria precipitar a queda do famigerado governo de JSócrates, metamorfoseou-se em adipócito que importa delapidar de um Estado perpetuamente obeso, na perspetiva da direita, claro. Por isso aceita, não direi acriticamente mas direi que aceita compreensivelmente, a redução da despesa pública pela via da degradação da qualidade da escola pública.

Esta cambalhota do Ramiro reflete o empenhamento ideológico dos defensores da privatização do ensino. Quanto pior a qualidade da escola pública melhor, quanto menos fundos forem alocados para a escola pública, mais propensão (que é legítima) terão os pais a escolher a escola privada.

Este seu excerto bem que podia ser o oráculo da escola pública, sob o ponto de vista quem deseja acabar com ela:

O futuro profissional dos licenciados e mestres em ensino não  está no sistema público. Está no sistema cooperativo e particular. Logo que a economia comece a crescer e o desemprego a diminuir, voltaremos a assistir a um aumento da procura de escolas privadas. Essa procura será tanto maior quanto mais confusão e indisciplina existirem nas escolas públicas. E mais confusão e indisciplina é algo que não vai falta no sistema.

(O negrito é meu!)

Percebem agora a quem interessa mais confusão e indisciplina nas escolas públicas?!

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2 thoughts on “Oráculo da escola pública

  1. Henrique Santos 28/05/2012 às 23:39 Reply

    Bem apanhado, Miguel.

  2. ana 29/05/2012 às 14:37 Reply

    Só não tenho a habilidade de escrever como fez, mas traduziu o meu raciocínio imediato, ao ler o post a que faz referência, raciocínio óbvio para qualquer um, diga-se de passagem!
    Não sugeria uma estratégia idêntica para o Ensino Superior público, pois os resultados seriam demolidores, a menos que esse nível de ensino fosse a escolaridade obrigatória exigida no país. (Há sempre os pobres a estorvar o ideário destes defensores da privatização do ensino, quando se fala de escolaridade obrigatória para todos).
    Porém, quando leio os rasgos desses ramiros, não consigo deixar de pensar no que seria se o MEC prescrevesse a receita que recomendam, desta vez para o Ensino Superior público. Quantos Institutos Politécnicos/ Escolas Superiores de Educação fechariam? É que… «Hoje em dia, não é suficiente ter um certificado ou diploma. É preciso ser bom. No mínimo, acima da média.»

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