Revisão curricular – Grupos/Turmas de nível

A recente alteração curricular abre caminho, pelo menos na discussão blogoEsférica, à criação de turmas de nível.

O tema não é novo e a prática também não. A criação das turmas CEF’s não é mais nem menos do que uma forma de agrupar alunos com percursos escolares errantes. Constituídas por alunos com reconhecidas dificuldades de aprendizagem, as turmas CEF’s são turmas de nível. No ensino secundário, os cursos profissionais servem os mesmos propósitos: albergar os alunos que não encontram qualquer sentido nos cursos orientados para o prosseguimento de estudos. Claro que muitos destes alunos também não encontram qualquer sentido nos cursos profissionais, mas isso conduzir-nos-ia a outra conversa…

A criação de turmas não é um processo neutro sob o ponto de vista da classificação das aprendizagens. O modelo de escola pública instituído normalizou a diferenciação dos alunos agrupando-os vertical (anos de escolaridade) e horizontalmente (turmas). Se o modo vertical de agrupar alunos parece não suscitar grande controvérsia (a exceção é a criação de turmas de repetentes), o mesmo não se poderá dizer quando há diferenciação horizontal (no mesmo ano de escolaridade).

Admitamos que é possível seriar e agrupar alunos no mesmo ano de escolaridade em função das suas capacidades (cognitivas, psicomotoras, sociais,…). Omitamos as incongruências que advêm do facto de se pretender homogeneizar singularidades:

Como resolver o problema das diferenças de aptidão? Um aluno integrado numa turma «+» a Inglês pode integrar uma turma «–» a Matemática ou Educação Física?

Nesta matéria concordo com o Paulo Guinote: Há muito tempo que os grupos de nível estão oficializados. Até dentro da mesma turma! Sim, há muito tempo que os professores de Educação Física (agora vou afunilar só para não meter a foice em seara alheia) constituem grupos de nível. Há alunos que se encontram em determinada matéria num nível introdutório e noutras matérias do mesmo programa esses alunos encontram-se no nível avançado. Não existe qualquer obstáculo conceptual à criação de grupos de nível. O problema existe no domínio operacional.

Aplaudo sem reservas a criação de turmas de nível desde que sejam sustentadas por critérios de equidade e sem estigmatizar capacidades e inteligências humanas.

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13 thoughts on “Revisão curricular – Grupos/Turmas de nível

  1. […] com esta posição do Miguel a favor das turmas de nível. Não me parece que venham a existir oficialmente (de facto, existem, mas essa é toda outra […]

  2. Rui Ferreira 28/03/2012 às 22:38 Reply

    Muito bem o Miguel na análise.
    Há que deixar de lado os paradigmas que hoje ferem a escola. Um deles é este. O mesmo indivíduo que responde negativamente à criação de grupos de nível é o mesmo que apoia o ensino individualizado na dita pedagogia romântica.

  3. joao 29/03/2012 às 03:41 Reply

    Rui F,

    Parece-me que confunde ensino individualizado com pedagogia diferenciada.

  4. joao 29/03/2012 às 03:53 Reply

    Miguel,

    Turmas de nível têm, quanto a mim, um problema operacional.

    Mas há qualquer coisa conceptual que não me agrada. E não tem a ver com preconceitos ou com a eduquesomania.

    Tem mais a ver com o facto de poderem ser pensadas como uma solução – A Solução para os problemas que ainda existem.

    E esses problemas são o fundamental – cargas horárias, curriculo, duração de aulas, programas disciplinares, formação contínua e inicial de professores e mais apoios a nível de técnicos especializados.

    Percebo que é mais fácil avançar com turmas de nível e com exames.

    O problema é que não compro esta ideia.

  5. Rui Ferreira 29/03/2012 às 13:00 Reply

    Caro João,

    É bem verdade aquilo que disse, confundo tudo. Tenho essa noção e agradeço as palavras, principalmente por iniciar o comentário com a expressão “parece-me”.
    Talvez por ler demais, verificar na prática de mais e ouvir comentadores como o caro João demais que a mim também me parece.
    Obrigado.

    • joao 29/03/2012 às 13:37 Reply

      Rui F,

      Retiro o “parece-me” que, concordo, é muito pouco assertivo.

      Começo então a fase por: “Confunde ensino individualizado com pedagogia diferenciada”.

      • Rui Ferreira 29/03/2012 às 15:24 Reply

        Caro João,
        Assim já gosto mais, obrigado.
        A capacidade do João é mesmo invulgar. Sem me conhecer de lado algum bastaram apenas algumas palavras minhas para ser logo conotado de “muito pouco assertivo”.
        Boa Páscoa.

        • joao 29/03/2012 às 17:15 Reply

          Rui F,

          Ainda bem que gosta mais assim.
          Boa Páscoa.

  6. Prof 29/03/2012 às 13:23 Reply

    Isto para funcionar teria de ser como ocorre na Inglaterra, não há turmas propriamente ditas. O aluno X pode estar num grupo de nível 5 da matemática e dp na aula seguinte de ed física pertencer ao grupo de nível 3, isto variando disciplina a disciplina. A nível logístico e organizativo implica muitas mudanças, mas poderá ser benéfico em muitas situações.

  7. Miguel Pinto 29/03/2012 às 14:04 Reply

    A ideia é mesmo essa, Prof. A turma funcionaria como uma espécie de mosaico fluído. Como é evidente, os recursos a afetar seriam menos… previsíveis. Mais professores envolvidos, mais organização escolar, menos regulação do MEC, mais autonomia, mais responsabilidade, mais despesa, mais liberdade…
    Não é este governo o arauto da liberdade? Pois…

  8. de Barroso 30/03/2012 às 17:23 Reply

    Não creio que seja exactamente assim, ver as turmas como um mosaico fluído. Melhor fora que quem pretendeu dizer uma coisa não tivesse usado os conceitos adequados. No quadro de uma escola organizada em turmas falar de turmas ou grupos de nível só pode gerar equívocos e preocupação.
    Assumir que nas turmas há sempre alunos em estádios diferentes de aprendizagem é uma trivialidade; reconhecer que há que fazer algo diferente por esses alunos é, a meu ver, um passo no caminho certo; garantir que no final todos obtenham bons resultados nas aprendizagens é algo que não se promete! Temo que o reconhecimento dentro da mesma turma de níveis diferentes de desenvolvimento acabe por estigmatizar aqueles que manifestam menor “rendimento” e com o estigma dos baixos níveis se estigmatizem as escolas…
    O que é diferente em países que aplicam esta filosofia está no próprio modelo de organização do ensino que é feito em moldes diferentes do de “turmas”. Para uma determinada idade ou nível a escola compromete recursos para que todos os alunos atinjam os objectivo. Não se vê a escola contábil portuguesa a fazer essa afectação de recursos humanos nem se vislumbra a breve prazo a transformação da organização escolar para permitir em flexibilidade e autonomia real para implementar de modo justo medidas deste tipo.

    • luis 30/03/2012 às 21:57 Reply

      Concordo com o que escreveu.

      • Miguel Pinto 30/03/2012 às 22:20 Reply

        A questão da organização pedagógica é uma questão central para a mudança que urge fazer nas escolas para proporcionar a cada aluno o que ele necessita para o seu desenvolvimento. A turma média foi criada para o aluno médio que não existe, como se sabe. A metáfora do mosaico fluído serve, a meu ver, para enfatizar a ideia da inconstância dos seus elementos constitutivos. A turma seria o tal mosaico e seria fluído porque os seus elementos (alunos) constitutivos estariam em permanente mudança, em função da expressão das suas capacidades.
        Mas concordo, de barroso:
        Não se vê a escola contábil portuguesa a fazer essa afectação de recursos humanos nem se vislumbra a breve prazo a transformação da organização escolar para permitir em flexibilidade e autonomia real para implementar de modo justo medidas deste tipo.

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