Revisão curricular – Grupos/Turmas de nível – Remate

É evidente que o MEC não deseja a criação de turmas de nível. Ficaria muito caro e comprometeria a retórica oficial do cratês useira da falácia “fazer mais com menos”. Como diria a vendedora no mercado do Bolhão: “bom e barato? No olhinho do **, minha senhora”.

Creio que não existe um consenso alargado sobre o significado e alcance do conceito turmas de nível. Há quem as veja como uma forma de legitimar a segregação classista que é realizada, de modo camuflado obviamente, em algumas escolas públicas (turmas de uma pseudo elite paroquial). Há quem as veja, como é o meu caso, como uma aplicação natural da pedagogia diferenciada, aquela pedagogia que olha para o aluno como sujeito único, idiossincrático.

É evidente que o MEC não está interessado em reforçar o crédito global de horas das escolas – Um dos pré-requisitos para a oferta multilateral de atividades letivas…

É evidente que a discussão em torno da criação de turmas de nível emerge de uma medida inscrita no comunicado do MEC, relativo à revisão curricular:

implementar medidas que incrementem a igualdade de oportunidades, de homogeneidade relativa em disciplinas estruturantes, ao longo de todo o Ensino Básico, atendendo aos recursos da escola e à pertinência das situações

Acham mesmo que o MEC deseja algo de substantivo com esta medida?

A ideia velada que subjaz à criação de grupos/turmas de nível (o linguajar oficial fala em incrementar a igualdade de oportunidades e a homogeneidade relativa em disciplinas estruturantes) é unicamente a intensificação do treino nas disciplinas de Matemática e Português. Desde que não se estiquem nos recursos da escola…

A  vendedora do Bolhão é que está certa!

Revisão curricular – Grupos/Turmas de nível

A recente alteração curricular abre caminho, pelo menos na discussão blogoEsférica, à criação de turmas de nível.

O tema não é novo e a prática também não. A criação das turmas CEF’s não é mais nem menos do que uma forma de agrupar alunos com percursos escolares errantes. Constituídas por alunos com reconhecidas dificuldades de aprendizagem, as turmas CEF’s são turmas de nível. No ensino secundário, os cursos profissionais servem os mesmos propósitos: albergar os alunos que não encontram qualquer sentido nos cursos orientados para o prosseguimento de estudos. Claro que muitos destes alunos também não encontram qualquer sentido nos cursos profissionais, mas isso conduzir-nos-ia a outra conversa…

A criação de turmas não é um processo neutro sob o ponto de vista da classificação das aprendizagens. O modelo de escola pública instituído normalizou a diferenciação dos alunos agrupando-os vertical (anos de escolaridade) e horizontalmente (turmas). Se o modo vertical de agrupar alunos parece não suscitar grande controvérsia (a exceção é a criação de turmas de repetentes), o mesmo não se poderá dizer quando há diferenciação horizontal (no mesmo ano de escolaridade).

Admitamos que é possível seriar e agrupar alunos no mesmo ano de escolaridade em função das suas capacidades (cognitivas, psicomotoras, sociais,…). Omitamos as incongruências que advêm do facto de se pretender homogeneizar singularidades:

Como resolver o problema das diferenças de aptidão? Um aluno integrado numa turma «+» a Inglês pode integrar uma turma «–» a Matemática ou Educação Física?

Nesta matéria concordo com o Paulo Guinote: Há muito tempo que os grupos de nível estão oficializados. Até dentro da mesma turma! Sim, há muito tempo que os professores de Educação Física (agora vou afunilar só para não meter a foice em seara alheia) constituem grupos de nível. Há alunos que se encontram em determinada matéria num nível introdutório e noutras matérias do mesmo programa esses alunos encontram-se no nível avançado. Não existe qualquer obstáculo conceptual à criação de grupos de nível. O problema existe no domínio operacional.

Aplaudo sem reservas a criação de turmas de nível desde que sejam sustentadas por critérios de equidade e sem estigmatizar capacidades e inteligências humanas.