Só para tipos com boa inteligência existencial

“o mérito ou o demérito das áreas não curriculares não estava nelas mesmas, mas sim no que os professores faziam ou não faziam com elas. Infelizmente, em muito grande número de casos, não estavam a servir para nada, mas não se deve ignorar as “coisas” excelentes que alguns professores (muitos, ainda que não a maioria) faziam com elas, proporcionando aos seus alunos experiências muito marcantes na sua formação.” (IC, comentou aqui)

Percebo a afirmação da IC, concordo que o professor é um elemento chave de qualquer mudança substantiva no sistema educativo, mas discordo da tese relativa à benignidade das áreas não curriculares.

Há, de facto, um conjunto de professores que desenvolvem experiências significativas para os alunos. Há professores extraordinários, invulgares. Há o professor que não se limita ao curricular (heresia, senhor ministro da educação), que é muito mais do que um técnico, um professor transmissor do saber e do saber-fazer constituídos. Manuel Ferreira Patrício designaria este professor de “professor cultural”, o professor que convém à “escola cultural”.

Há professores de carne e osso que se aproximam deste padrão. Não direi que estão imunes a qualquer hecatombe pedagógica e profissional, mas lá vão resistindo e encontrando o alento nos seus processos de ensino e aprendizagem, dentro ou fora do bunker (sala de aula).

Um professor cultural pode muito mas não pode tudo. Não pode, por exemplo, transformar uma escola unidimensional numa escola pluridimensional. Não pode transformar uma escola reduzida à sua dimensão curricular numa escola integral, curricular, extracurricular e interativa.

Para não reescrever uma parte da história deste blogue, escrevo aqui e aqui o que penso sobre o assunto. E para que não se pense que o tema morreu, encontra aqui uma síntese escrita por Manuel Ferreira Patrício em Julho de 2011. O lugar do clube escolar é insubstituível no paradigma cultural de escola.

“Deve ser evidenciado o clube escolar. O clube escolar é o motor transformador da Escola unidimensional – a Escola das disciplinas e formações afins – em Escola pluridimensional. É o elemento estruturante principal da Escola de novo paradigma.
É o clube que verdadeiramente introduz na Escola a liberdade de escolha das aprendizagens e actividades formativas, abrindo espaço à dinâmica vocacional. É o clube que torna possível  a interacção. É o clube que pressiona a dimensão pedagógica lectiva, no sentido da adopção e prática de uma didáctica mais viva e activa, aberta ao gosto pelas matérias do currículo. De igual modo, é o clube que pressiona a dimensão extra- lectiva, pois o mais corrente é a iniciativa dos projectos nascer de um clube escolar. É o clube que propicia a organização dos grupos de aprendizagem e formação na base de afinidades electivas, pois um clube escolar é constituído com base na existência de gostos comuns. É o clube a mola que impulsiona dialecticamente a Escola para que nela emerja a dimensão holística/ecológica, facto que a experiência do Projecto Escola Cultural pôs inequivocamente à vista.
É o clube escolar que reconcilia as crianças e os jovens com a Escola.” (Manuel Ferreira Patrício)

As áreas não curriculares são metamorfoses da área escola e a área escola veio preencher o espaço do clube escolar.

Percebem agora a razão que me levou a enaltecer uma parte da proposta de alteração curricular do governo?

________

Errata: Onde se lê “áreas não curriculares” deve ler-se “áreas curriculares não disciplinares”

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3 thoughts on “Só para tipos com boa inteligência existencial

  1. IC 13/01/2012 às 01:47 Reply

    Bem, Miguel… não sei se tenho boa inteligência existencial 🙂 Mas temos que ser realistas e pragmáticos face a situações que sabemos que não mudam em determinado momento, a curto prazo, se queremos contestar para evitar o que, no momento, é possível evitar (claro que não me refiro às nossas vozes aqui, que não são ouvidas, mas a muitas vozes juntas, como resultaram no caso da 1ª ideia de NC de eliminar as TIC). Ora, tanto quanto me parece à distância, as escolas não vão no imediato e a curto prazo ter condições de verbas e tempos concedidos aos professores para clubes, e quanto a questão de verbas, NC e o governo são inamovíveis. Mas NC não funciona só em termos economicistas, funciona segundo uma ideologia para a Educação que, em parte, é muito dele próprio. A visão do ensino centrada nos conteúdos é da sua cabeça e não tem, em boa parte, a ver com verbas. Assim, o que a meu ver seria de suscitar movimentação é a retirada do currículo escolar de toda a perspetiva mais ampla da componente formativa. Não teria que ser a defesa das áreas curriculares não disciplinares que existiam (excepto, acho, a Formação Cívica), mas também não vale a pena, neste momento, evocar a importância dos clubes pela razão que disse acima.
    Já agora (se não estou em erro, as alterações curriculares estiveram a debate público), os Conselhos Pedagógicos terão enviado pareceres?

  2. Miguel Pinto 13/01/2012 às 16:27 Reply

    “Já agora (se não estou em erro, as alterações curriculares estiveram a debate público), os Conselhos Pedagógicos terão enviado pareceres?”

    Não tenho uma visão global sobre o modo como os CPedagógicos receberam a proposta do MEC. Mas convém recordar que os representantes no CPedagógico foram nomeados pelo diretor. Pode parecer um dado de somenos importância mas quem conhece as lógicas de funcionamento das escolas sabe quão decisiva é a voz do diretor no CPedagógico. Talvez por pensar que as coisas funcionam deste modo, Nuno Crato começou por dizer que iria ouvir os diretores… creio que há consultas agendadas cá em cima…

    As coisas não deviam funcionar deste modo mas é o que temos. Por cansaço, por medo, por um certo determinismo na ação, por isto ou por aquilo, a verdade é que a vontade para discutir estes assuntos na escola situada é nula. O professor “operário” faz escola na escola, IC. Quanto aos restantes… creio que a prioridade, para já, é manter a sanidade mental 🙂

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