Na ressaca da greve geral…

Na ressaca da greve geral dou comigo a pensar na distância inexorável que separa o ator político profissional, que julga ser capaz de modificar a realidade por controlo remoto e pela ação legislativa, do simples operário (ou do simples professor cada vez mais proletário)*, que se limita a cumprir prescrições.

Não irei recuperar os motivos pelos quais fez todo o sentido uma adesão alargada dos professores à greve geral, que não veio a acontecer. A ideia que quero desenvolver remete-nos para a questão da regulação das práticas, da pilotagem das práticas, e para a ineficácia das políticas autoritárias que se propõem alterar essas práticas pedagógicas. Independentemente da dimensão da adesão dos professores à greve geral há imensos sinais na escola situada, sinais que se vão intensificando, de uma confrontação sem paralelo na nossa história democrática entre a administração escolar e os professores. Esse conflito decorre da degradação do estatuto sócio profissional, do empobrecimento das condições laborais, e do definhamento das representações de sucesso profissional dos professores. O défice das contas públicas não explica tudo, nem pode legitimar opções de políticas que remetem a profissão docente para um ofício de simples assalariados desqualificados.

Não se conhece uma medida que toque na acendalha da motivação dos professores, bem pelo contrário. Apenas se conhecem ameaças de piores dias. O político profissional deixa-se alienar pela sensação de controlo que o poder legislativo lhe oferece e, como é evidente, não se augura qualquer mudança significativa nas práticas pedagógicas.

Na ressaca da greve geral dou comigo a pensar na distância inexorável que separa o ator político profissional do simples professor proletário…

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*A função docente é cada vez menos autónoma e cada vez mais prescritiva, por vontade do administrador escolar que não confia no profissionalismo dos professores e, reconheçamos, por vontade de muitos professores que preferem menos responsabilidade, porque as prescrições são sempre insuficientes para regular o trabalho abrangente do professor.

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