Uma reforma cobarde ou uma reforma de cobardes?

«Actualmente, em Portugal, o discurso da “dramatização da crise” é dominante, principalmente nas intervenções oriundas de sectores exteriores ao sistema educativo (empresários, jornalistas e economistas) que se reclamam como intérpretes privilegiados das exigências e dos desafios que resultam da “globalização” e da “competição nos mercados internacionais”, e que, em geral, encontram eco nos partidos situados à direita do espectro político. Os principais alvos desse discurso são: o Estado (e o controlo que exerce sobre o funcionamento do sistema educativo); as Ciências da Educação (e as responsabilidades que teriam tido na situação a que se chegou com as sucessivas “experiências pedagógicas” e “reformas educativas” ensaiadas, em particular, durantes os governos do Partido Socialista); os professores e os seus sindicatos (considerados como principais beneficiários e defensores de um sistema dominado por interesses corporativos). As receitas propostas para “sair da crise” são, em geral, as mesmas: redução (e progressiva extinção) do papel do Estado na educação, com a consequente privatização da escola pública; prioridade às reformas de gestão (inspiradas na gestão empresarial) e subordinação das preocupações pedagógicas aos critérios de eficiência e qualidade, definidos segundo uma lógica do mercado; redução dos poderes dos professores e dos seus sindicatos com a “abertura à sociedade civil” corporizada no aumento da influência dos pais e das empresas na configuração da oferta educativa e sua gestão.

(…) Importa lembrar, contudo, que as perspectivas e soluções propostas por estes críticos não passam de réplicas descontextualizadas de posições e iniciativas adoptadas, desde há algum tempo, em outros países e sobre as quais existe hoje uma discussão fundada em investigação consistente e empiricamente sustentada, embora insuficiente.»

João Barroso (2003). A Escola Pública – Regulação, Desregulação e Privatização. Porto. Edições ASA.

Sem surpresa, os Ramiros da blogosfera e a imprensa de direita repetem velhos chavões e ressuscitam decrépitos fantasmas. O discurso sobre a crise da educação emerge do discurso sobre a crise das finanças públicas e serve de pretexto para mudanças anacrónicas na educação utilizando-se as mesmas receitas, como lembra João Barroso.

Contudo, e ao contrário do que sucedeu no passado, a discussão não se desenvolve num plano ideológico. As receitas do costume são apresentadas como inevitáveis face às contingências de uma Troika que serve de guarita a todo o tipo de cobardes.

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2 thoughts on “Uma reforma cobarde ou uma reforma de cobardes?

  1. IC 11/10/2011 às 00:44 Reply

    “As receitas do costume são apresentadas como inevitáveis ”
    Esta é a tremenda falácia: o que é, é o que tem que ser, O que me assusta mais é que as pessoas em geral, as pessoas comuns, tendem a concluir a pouco e pouco que “o que é” é “o que deve ser” (assim o mostram há bastante tempo investigações no campo do raciocínio moral)

  2. Henrique Santos 11/10/2011 às 20:26 Reply

    Miguel, o TINA (there is no alternative) foi inventado há cerca de 3 décadas pela neoliberal Margaret Thatcher. Daí em diante tem vindo a ser repetido à exaustão e tem sido mesmo aplicado. No entanto, vergonhosamente, a receita mesmo quando se verifica falhada é repetida.
    E está a sê-lo mais uma vez a pretexto de mais uma crise cuja culpa reside nas próprias receitas neoliberais. Há maior desfaçatez? Não. Estes tipos têm uma lata maior do que o mundo.
    Neste post estás a pôr o dedo na ferida certa.

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