Um pormenor não despiciendo.

“Lição magistral

O Ministério da Educação suspendeu o pagamento aos melhores alunos do Ensino Secundário dos prémios de mérito instituídos há 3 anos, no valor de 500 euros, e que deveriam ser hoje entregues.
Não conheço o Despacho justificativo do Ministro, mas notícias dizem que a distinção continua a fazer-se, sendo que os distinguidos deverão escolher uma instituição ou família carenciada a quem o dinheiro será entregue. Medida referida como sendo “para incentivar a solidariedade”.
Num Estado de direito, os fins não justificam os meios e a primeira obrigação do Estado é honrar os seus compromissos. E, se se tinha comprometido a dar um prémio pecuniário aos melhores alunos, deveria entregá-lo. Ponto final. Todavia, os alunos não recebem, o que já é mau. Mas, pior. O Ministério mantém a entrega, mas obriga os alunos a doá-lo para fins sociais.
Claro que os alunos deixarão de ter qualquer confiança no Estado, e também desconfiarão das solidariedades que se apregoam, mas feitas a expensas alheias e não à custa própria.
Nuno Crato, que admiro por aquilo que tem defendido para o ensino, cometeu um erro grave. Gravíssimo, mesmo. Mais uma vez, no melhor pano cai a nódoa. Bem suja.
A não ser que tivesse querido dar uma aula prática a todos os jovens de como o Estado não é confiável. Se assim foi, tratou-se de uma lição magistral. Os alunos com certeza que compreenderam tudo. Ou não se trate dos melhores alunos.”

Publicada por Pinho Cardão em http://quartarepublica.blogspot.com/2011/09/licao-magistral.html

Só não subscrevo integralmente est post porque Pinho Cardão falhou o alvo no último parágrafo.

Onde se lê Estado, devia ler-se PSD/CDS e PS.

De facto, Nuno Crato deu uma excelente aula prática a todos os jovens de como os partidos que nos têm (des) governado não são confiáveis. Este Estado tem um rosto e tem responsáveis políticos. Percebo o incómodo, mas não confundamos Estado com a governação do mesmo.

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6 thoughts on “Um pormenor não despiciendo.

  1. a. pinho cardão 01/10/2011 às 00:33 Reply

    Agradecido pela transcrição.

  2. de Barroso 02/10/2011 às 11:25 Reply

    Não concordo com retificação do último parágrafo. É de facto o Estado (e não os partidos que referes) que atua com os dirigentes que se elegem ou, não obstante a eleição, se cooptam. Ninguém elegeu o Nuno Crato, creio que ele se elegeu a si próprio e se impôs como inevitável no lugar que ocupa. A questão remete-nos para um problema mais vasto que se instalou nas sociedades e cuja resposta explicaria como é que se chegou a um estado de anomia, de flacidez reactiva, de precariedade intelectual que permite que os governos se constituam a partir das televisões…
    Começa, pois, a atribuir as culpas a ti próprio, a mim também, pela situação moral a que se chegou. As siglas, não passam disso, não te responderão nunca, não assumirão essa especificidade que é própria de cada um: a responsabilidade. Quando deixarmos de olhar para as siglas e para o carreirismo que elas alimentam e percebermos que em cada ato eleitoral estão em jogo os interesses de cada um e não o de todos, então, talvez, aí se inicie o percurso para a responsabilidade e a democracia ganhe o músculo cívico e intelectual que a sustente! “Coisas” há às quais não interessa dar atenção.
    O tema deste post é muito importante e, repara, ninguém aparece a comentar e, repara, quanto se comenta e o que se comenta na web!

    • Miguel Pinto 02/10/2011 às 20:13 Reply

      Há, de facto, uma (ir)responsabilidade individual, pela acção ou omissão, que deixa terreno fértil ao oportunismo dos carreiristas que emergem do interior dos partidos políticos, especialmente os do “arco do poder”, e delapidam o Estado. Mas não menosprezemos a responsabilidade social dos partidos políticos, como organizações estruturantes do nosso modelo democrático. Imputar a responsabilidade pelo estado do Estado ao próprio Estado é uma ideia falaciosa porque remete para o plano individual um problema que é, também, organizacional. E são as organizações partidárias, segundo o meu ponto de vista, aquelas a quem os eleitores devem pedir contas no acto eleitoral ou na rua…

      • de Barroso 02/10/2011 às 21:23 Reply

        Pois claro, mas a tónica está no ato de pedir ou não efetivamente contas e aqui, a responsabilidade é nossa, individual — no ato eleitoral ou na rua. Há dias (meses, sei lá) Pacheco Pereira falava de um défice de inteligência que era manifesto na vida pública. Qual a razão desse défice?, De repente nos tornamos todos “burros”? Penso que não, mas ajudamos quando damos cobertura e visibilidade ao que de insignificante tenta foros de relevância, quando nos embrenhamos em querelas e disputas estéreis e inconsequentes. A quem interessa a discussão sobre a avaliação em educação física, em apoucar e achincalhar os colegas que não tiveram colocação ou a retoma sistemática da questão do o “eduquês”? Desempregados do importante! Que ganhamos com isso que não seja a manutenção da atenção longe de tudo quanto realmente interessa? Se formos “egoístas” e olharmos para o lado e ver quem está connosco nas tarefas prementes que nos unem, a vida política tenderá a mudar. Pelo menos não piora. De outro modo, vendo a argumentação que por aí grassa…

        • Miguel Pinto 02/10/2011 às 22:59 Reply

          Ao remeter para o individual o ónus da culpa pelo estado do Estado, acabamos por desresponsabilizar aqueles que agem como representantes. Ao fazê-lo estamos a pactuar com os comportamentos disruptivos dos que usurpam o que é de todos. Se a tónica for colocada no individual, é pouco provável admitir uma cota parte da responsabilidade pela entropia social. Aí, a responsabilidade acaba por morrer solteira e tudo ficará como antes.

          Concordo que tem havido muito ruído em torno de questões acessórias porque há sempre quem beneficie, ou pense que vem a beneficiar, com a situação. Não quero alimentar teorias da conspiração mas é caso para desconfiar dos vencedores da situação…

          • de Barroso 03/10/2011 às 19:18 Reply

            Não advogo revoluções, mas o estado do Estado não resulta de uma senescência natural, mas de uma demissão colectiva. É preciso sabedoria para criar equilíbrios ou rupuras, ou para saber quando se impõe uma ou outra das partes.

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