Idiossincrasias

A aluna levantava materiais escolares no balcão da papelaria. Enquanto ziguezagueava com o olhar o conteúdo das prateleiras, sofregamente debitava à funcionária a ordem de aquisição. Os materiais amontoavam-se em cima da sua mochila e repetiam-se os pedidos porque a diversidade da oferta era pequena. Percebi que se tratava de uma aluna subsidiada. Não era obrigada a levantar o material de uma só vez mas preferiu fazê-lo. Ainda perguntei o porquê da azáfama, quando podia levantar o material mais tarde, quando fosse requerido pelas necessidades escolares. Não queria perder tempo(?)… Percebi que gozava o momento da abundância como se fosse o último. Porque tinha direito, respondeu-me.

As esferográficas eram mais de uma dezena, borrachas, várias caixas de lápis de cor (no ensino secundário, para quê?), capas, capinhas, cadernos e caderninhos,… e material cuja utilidade desconheço.

Só porque tinha direito…

O apoio social escolar é imprescindível porque há cada vez mais crianças e jovens em ambientes familiares carenciados, abaixo do limiar da dignidade humana. A escola é o seu porto de abrigo.

Mas fico chocado com o desperdício, com o desbaratar de dinheiro público. Creio que é possível e desejável uma fórmula diferente para este tipo de apoio social escolar. É necessário ajudar quem precisa, mas há que responsabilizar que beneficia da ajuda comunitária. O direito que assistiu a aluna não a dispensou do dever de usar com parcimónia o que é de todos.

É necessário repensar a fórmula…

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3 thoughts on “Idiossincrasias

  1. Miquelina 27/09/2011 às 23:21 Reply

    São os tais “direitos, liberdades e garantias” pelas quais tanta gente pugna…

  2. Henrique Santos 29/09/2011 às 13:23 Reply

    Miguel, embora esteja de acordo com o que dizes não deixo de fazer o seguinte comentário: muitos são os reparos sobre os subsídios aos “pobres”, dos quais o Rendimento minimo, agora baptizado de RSI, é o mais criticado. De facto existem algumas situações de abuso. Só que, enquanto estes abusos são muito visíveis e por muita gente, outros “abusos” muito maiores em montantes passam despercebidos ao “povo” pois passam-se em esferas bem mais resguardadas dos olhares do “povo”. Se comparassemos o valor do que é gasto, por pessoa, com o RSI e aquele que é metido ao bolso por meia dúzia de possidentes, de forma “legal” e ilegal, veríamos melhor a realidade. Não quero contudo dizer que não se deva controlar o RSI ou outro género de subsídios por variadas e válidas razões.

  3. tsiwari 04/10/2011 às 15:34 Reply

    Não acho disparate só porque me enternece a capacidade de alguém se emocionar com material escolar… sejam lápis de cor ou dezenas de esferográficas no Ensino Secundário.

    😉

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