Ver para lá da árvore da ADD

O colega António Mouzinho escreveu um texto muito interessante no blogue de rerum natura que nos incita a ver a floresta que se encontra atrás da árvore da ADD.

Há inúmeras pontas no seu texto que suscitariam interessantes reflexões. Detenho-me, para já, neste excerto:

À escola pública compete, sobretudo, a instrução: a transmissão de conteúdos, por pessoal treinado e competente. Cabe à escola ministrar factos de civilização e cultura com os comentários respectivos na História, ou ferramentas de pensamento em Filosofia ou em Geometria. Cabe aos encarregados de educação o enquadramento dos meninos na vida. E ao próprio aluno o trabalho, a meditação a síntese. E a boa prestação de provas.
A educação não é da exclusiva responsabilidade dos professores, nem deve ser a primeira das suas aptidões: não foram treinados para tal. Vem por acréscimo, mas não deixa de ser uma parte integrante daquilo que, sobretudo, compete aos encarregados de educação.

É verdade que a educação não é da exclusiva responsabilidade dos professores, nem a escola se pode substituir à família. É verdade que a escola não pode tudo. É verdade que a escola não pode continuar a ser um poço de promessas por cumprir. Importa não esperar da escola aquilo que só as políticas e os políticos podem facultar: a educação e a escolarização não garantem a ascensão social.

Entendo a necessidade de reafirmar uma função que, não sendo exclusiva da escola, faz parte do leque das funções nucleares que lhe estão reservadas. Mas há um risco: Quando se recupera a lógica da demarcação das responsabilidades entre os vários actores do processo educativo, emergindo uma espécie de revivalismo onde se recuperam algumas imagens que preenchem o imaginário dos colégios ingleses do século XX e onde subjaz uma concepção de educação austera e inflexível face ao incumprimento das regras instituídas, vislumbro uma bomba relógio social no momento em que a escola perder algumas das suas valências funcionais, designadamente: a função de custódia e de cuidado, a função de desenvolvimento da personalidade do sujeito e a função da fundamentação e difusão da democracia. Remeter a escola apenas à função, obviamente nobre, do desenvolvimento e difusão da cultura, afastaria da escola uma franja da população com menores recursos. Seria o regresso ao passado. E a coesão social estaria irremediavelmente ameaçada!

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3 thoughts on “Ver para lá da árvore da ADD

  1. Pedrito 12/09/2011 às 16:59 Reply

    Certeiro texto. Há por aí muito boa gente que quer acabar de vez com a lei de Bases do Sistema Educativo.

  2. IC 12/09/2011 às 17:03 Reply

    Sim, Miguel, concordo que seria um regresso ao passado. Só receio que se deva escrever “será” em vez de “seria” 😦
    O texto que citas pode ter pontas interessantes, mas eu achei que tem frases perigosas, além de uma argumentação muito pouco sólida quando pretende mostrar que o professor não tem autonomia pedagógica. (Se não tem, ou é problema pessoal, ou é por pressões externas que o autor não refere).
    De elitismo e de cratismo (ou cratês), cada um toma o que quer. O pior é que elitismo e cratismo são passados subreticiamente através dos destaques na comunicação social e em blogues ditos “de referência” 😦

  3. Graca Sampaio 12/09/2011 às 19:32 Reply

    Mas não é isso que o ministro Cratino pretende?

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