A culpa é da escola…

Sempre que renegoceio o pacote de TV por cabo, procuro enjeitar um conjunto alargado de canais dispensáveis face às preferências da famelga. É raro sair do meu naipe de escolhas e sempre que me sento para ver um programa televisivo a selecção foi pré definida. Faço zapping muito ocasionalmente e são raras as vezes em que fico pregado depois de tomar de assalto o comando. Hoje, ao passar pelo canal Q, canal 15 da Meo, deparo-me com o Otelo Saraiva de Carvalho, convidado de um programa de entrevistas biográficas conduzidas por Aurélio Gomes. Otelo é uma das personagens mais controversas do pós-25 de Abril. Creio que ninguém fica indiferente depois de o ouvir mesmo discordando das ideias mais “progressistas” ou mais “reaccionárias”. Perdoem-me a frase feita, que lhe assenta que nem uma luva: o homem tem uma história de vida carregada de história. Ao ouvir Otelo, a interrogação é incontornável: por que escasseiam personalidades políticas com substância?

A conclusão é óbvia: Creio que é culpa da escola! Não da escola básica e secundária porque essa apenas está interessada na instrução direccionada para a profissão. A culpa é da escola artística: A escola de formação dos “jotinhas”, que tem uma especialização em marionetas!

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6 thoughts on “A culpa é da escola…

  1. Miquelina 26/08/2011 às 16:13 Reply

    Esse indivíduo continua à solta? O lugar dos terroristas é na prisão.

  2. IC 26/08/2011 às 17:08 Reply

    Miguel, perguntas: “por que escasseiam personalidades políticas com substância?”. Eu perguntaria de outra forma: Por que escasseiam heróis, por que escasseiam homens que lutam toda a vida por ideais, por que escasseiam homens que não abdicam jamais da coerência da sua consciência? E não estou a pensar particularmente em Otelo, que foi, após o 25 de Abril, uma personalidade controversa, como dizes – embora o que o fará ficar na História seja o que lhe devemos pelo Abril de 1974 (mais movido, é verdade, contra a guerra colonial, o que já não foi pouco, mas dizendo “se eu não voltar, serei preso, vou para o Tarrafal e morrerei lá” – que pessoa digna se atreve a insultar estas memórias?) Por que escasseiam homens como Salgueiro Maia, como Zeca Afonso e tantos outros, esses incontroversos a não ser para os fascistas? Por que escasseiam homens como Álvaro Cunhal, este controverso, sim, mas por todos respeitado e admirado – mais uma vez, excepto pelos fascistas – ? Etc., etc.
    Afinal, em suma, a pergunta até deve ser esta: Por que escasseiam Valores? Por que se tornaram ídolos o dinheiro e os mercados?
    E, quanto a escola, pois, “escolas” não faltam, mas compete aos professores ‘competirem’ com essas “escolas”, educarem para os Valores e sua recuperação. (Não compete aos professores fazerem a cabeça dos jovens, mas compete-lhes dar aos jovens as oportunidades para construirem Valores). É a missão de verdadeiro Educador para a Autonomia que está também a escassear, e urge recuperar essa missão. Ao lado dessa grande missão, coisas como ADDs seriam ninharias para os que fossem capazes de ter um grão de herói – custa, mas nada do que não custou dará sentido à vida de cada pessoa quando chegar perto do seu fim – disso todos podem ter a certeza, digo eu.

    • Miguel Pinto 26/08/2011 às 21:13 Reply

      Compreenderás a provocação, IC, será que compete aos professores realizarem esse empreendimento? Com menos tempo para a educação dos filhos, a Escola da Vida colmatará essa ausência…

      • IC 27/08/2011 às 03:47 Reply

        Miguel, não estava a defender que os professores se dediquem aos alunos mais tempo do que o seu horário de trabalho, incluída a componente em casa. O grãozinho de herói é descentrarem-se das condições materiais da carreira, neste tempo em que a “crise” recai em todos os trabalhadores (mas lutarem quando há lutas) e dedicarem-se de “espírito” inteiro às aulas, à sua preparação adequada e inovadora e às iniciativas que podem promover com e para os seus alunos. Tens um bom exemplo disso na blogosfera – não tem filhos próprios, é verdade, mas eu acho que vai tendo dezenas de filhotes. E, se a causa primeira do ambiente difícil nas escolas é originado pelaTutela, esse ambiente não existiria se os professores não o criassem entre si. E a verdade é que, se é injusto limitar-se a progressão na carreira, já não estarão no activo as gerações de professores que lutaram pela revalorização material dessa carreira sem deixarem de ter a profissão como paixão. As histórias das vidas não são só as histórias do umbigo de cada um, e talvez as novas gerações de professores devessem procurar a História e conhecê-la – a dos pais que foram professores. Eu reformei-me uma ano depois de ter direito a isso, mas reformei-me, embora zangada com MLR porque me ofendeu, reformei-me porque já só me sentia bem na sala de aula e não suportava mais aquelas reuniões que, na realidade, dependiam do que os professores fizessem delas. Mas, quando da passagem ao então 8º escalão, até tive prazer em fazer o trabalho de investigação-acção e não andei desaustinada por ser submetida a um exame oral perante um juri universitário, como não andaram desaustinados os colegas que apanharam isso (não estou a falar daqueles que encomendaram os trabalhos – aliás foi esse o argumento mais forte para se lutar para acabar com essa “prova de candidatura ao 8º escalão”)
        Aiiiii… quem te manda provocar-me? 😉

        • Miguel Pinto 27/08/2011 às 11:50 Reply

          Esqueci-me de juntar ao comentário anterior a contextualização que decorre de uma afirmação tua: ” E, quanto a escola, pois, “escolas” não faltam, mas compete aos professores ‘competirem’ com essas “escolas”, educarem para os Valores e sua recuperação.” 🙂
          Nota que me afastei da eterna discussão sobre a ADD para me centrar na função escolar que é cada vez mais descurada: o estímulo ao desenvolvimento da personalidade do sujeito e, mais concretamente, a questão dos Valores. Incluo nesta minha preocupação a solidificação da democracia: como se organiza o tempo e o espaço escolar para se desenvolveram actividades de maneira democrática? Como se firmam as atitudes de respeito e de tolerância?… Enfim, isto daria pano para mangas 😉

  3. angela 31/08/2011 às 09:26 Reply

    Como não sou professor vou direccionar o meu comentário para o último parágrafo do texto “A culpa é da escola artística: A escola de formação dos “jotinhas”, que tem uma especialização em marionetas!”. A esta escola dos jotinhas eu costume chamar-lhe “Escola de vícios” e, neste momento, temos um belo espécime a comandar este país: um aluno que, pelos vistos, deve ter tirado nota máxima em todas as disciplinas. Parabéns aos seus professores!

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