Em defesa de uma ADD exclusivamente formativa

A mistificação da ADD foi, como se sabe, promovida pelo governo de Sócrates para cortar nos salários dos professores. Primeiro foi “preciso” criar o anátema sobre a ADD. Os arautos socráticos, na imprensa e nos blogues, exploraram até à exaustão a ideia de que os professores não queriam ser avaliados. A primeira reacção dos professores e dos seus representantes foi desmistificar esta ideia. A blogosfera deu um excelente contributo para demonstrar que as várias propostas apresentadas eram inadequadas. Hoje, há um consenso tácito sobre a pobreza das várias versões do modelito da ADD, de especialistas, fazedores de opinião e de professores, porque não foi apresentado nenhum modelo capaz de avaliar aquilo que era suposto avaliar – o professor em acção educativa.

Apesar da existência do consenso sobre a fragilidade do(s) modelo(s) de ADD apresentados pela tutela, poucos se atreveram a defender (creio que Santana Castilho fê-lo recentemente num artigo de opinião no jornal Público) que seria melhor abandonar a ADD do que manter a farsa que é inócua quanto aos efeitos no desenvolvimento profissional dos professores.

Por falta de coragem política ou por outra razão mais ou menos existencial dos representantes dos professores, a verdade é que os professores na escola situada sabem que irão continuar a participar num logro colectivo e que ninguém será rigorosamente avaliado, como anunciava o ministro da educação em período de campanha eleitoral.

Os arautos do regime insistem, falaciosamente que: a opinião pública não compreenderia uma avaliação exclusivamente formativa; numa lógica de prestação de contas, ninguém deve ficar de fora; o país não pode pagar progressões na carreira a todos os professores.

Em primeiro lugar, a profissão docente é das profissões mais valorizadas pelos portugueses, como têm demonstrado vários estudos de opinião, apesar de várias tentativas frustradas levadas a cabo pelo anterior governo para inverter a corrente de opinião. Se a preocupação é a opinião do público (Qual dos públicos? Com ou sem cartão partidário?), a alteração de posição indefensável do PSD em relação à ADD parece não causar qualquer espécie de prurido.

Em segundo lugar, não se percebe como é que se presta contas de algo que o modelo não avalia – o desempenho docente em acção. E se dúvidas houvesse quanto a eficácia do “modelito”, por que razões se isentam os professores mais velhos da prestação de contas?

Finalmente, o argumento de que é necessário refrear as progressões na carreira pela via da ADD é eticamente condenável. Se o governo quer rever a carreira porque não tem dinheiro para pagar aos professores, deve fazê-lo sem truques e com verdade. Pela parte que me toca, não terei qualquer problema em aceitar uma revisão, desde que seja ressarcido pelo que deixei de auferir nos primeiros vinte anos de carreira.

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2 thoughts on “Em defesa de uma ADD exclusivamente formativa

  1. Rui Ferreira 23/08/2011 às 22:57 Reply

    Excelente análise.
    Em todo simples, em todo verdadeiro.

    A estratégia montada para desviar a atenção passa pela discussão acerca do acessório.

    Mas, goste-se, ou não, o essencial é simples: o modelo de ADD proposto não consegue diferenciar prestações. Mas elas vão ter de ser diferenciadas. Como? Através dos seus protagonistas. Nepotismo à vista.

  2. IC 24/08/2011 às 02:39 Reply

    Parece-me evidente que qualquer português interessado na qualidade do ensino na Escola Pública gostaria que a ADD tivesse como objectivo ser um instrumento formativo. Que interessa aos pais que os professores progridam ou não na carreira, se os seus filhos serão ensinados também pelos que não progridam? Mas será que ainda vale a pena tanta centração dos professores e da blogosfera docente na ADD quando todos sabem que o que interessa ao governo é poupar dinheiro? Eu até acredito que Nuno Crato quisesse formação e melhoria da qualidade do ensino (do que discordo totalmente é do que ele considera ensino de qualidade e exigência), mas, ao aceitar ir para este governo, não sabia já que aquilo a que seria obrigado só tem um nome: poupança?
    Elegeram este governo que, independentemente de estar obrigado ao acordo com a troika, é ideologicamente de um extremo neoliberalismo, etc., etc. Que o povo menos esclarecido tenha nele votado, compreende-se; o que não deveria ser compreensível é que os professores tenham contribuído decerto bastante para essa eleição, e, ainda por cima, tenham posto NC por uns dias em estado de graça. Tiveram muito tempo para perceber criticamente a incompetência de NC relativamente à Educação. Bolas! Quem sabia bem quem era PC e NC não precisou de ler muito! Que me desculpem os colegas professores que não sabiam, mas um professor não devia fazer a sua cabeça pelos jornais e tvs. Custa-me toda a política a que estamos a assistir, quer a educativa quer a geral, e custa-me sobretudo que as classes mais desfavorecidas (cada vez mais alargadas) sejam as vítimas. Mas acaba por ser difícil não dizer que não se queixem agora aqueles que tinham obrigação de ter ficado logo muito preocupados com a escolha de NC para ministro da educação e, no entanto, nos primeiros dias ficaram com as grandes expectativas que observámos.
    Desculpa, Miguel, este “desabafo” aqui no teu espaço. E tens toda a razão: que revejam o estatuto da carreira docente às claras e se deixem de subterfúgios.
    Um abraço.

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