Separar a ADD da progressão na carreira

modelito

(Imagem do Antero)

A competição (evito usar uma terminologia bélica) geracional de professores, fomentada por Maria de Lurdes Rodrigues através da criação dessa figura sinistra a que designou de “titulares”, não faz qualquer sentido sob todos os pontos de vista onde subjaz o trabalho cooperativo. Só uma tecnocrata, ou uma mente iluminada por uma corrente taylorista, seria capaz de pensar que é possível elevar a qualidade do serviço educativo colocando os professores em competição. Desapareceram os titulares, surgiram os relatores, e agora é relançada a discussão com o fenómeno das isenções deste “modelito” (expressão muito feliz do Antero) proposto por Nuno Crato.

Como só nas situações de stress é que as pessoas se revelam, as duas primeiras fases anteriores da ADD mercantil evidenciaram o tipo de massa com que é feito o carácter dos professores. Uma visão demasiado optimista mas perversa da vida levar-me-ia a considerar que as relações pessoais e profissionais não ficaram melhores nem piores, ficaram apenas mais claras e menos cinzentas. Uma visão estritamente objectiva acerca das mudanças que os modelos anteriores e o “modelito” actual irão suscitar leva-me a afirmar que a ADD visa exclusivamente retardar a progressão na carreira. O problema não é a avaliação do desempenho, o problema é a progressão na carreira. Por isso está condenada ao fracasso qualquer proposta que pretenda separar uma da outra. Este “modelito” se tem algum mérito é o de dizer claramente que a avaliação é um problema despiciendo.

Custa-me muito ver colegas a fustigarem-se com questiúnculas sobre a ADD. Esta ADD agregada à progressão na carreira é uma farsa e não faz qualquer sentido se não for exclusivamente formativa, porque é a única que poderá suscitar alterações substantivas na qualidade das práticas. Os colegas que venham a beneficiar das isenções da ADD não podem ser responsabilizados, nem condenados, pela pretensa regalia de poderem progredir sem amarras. Até porque todos, os mais e os menos novos que se encontram em escalões inferiores, lá chegarão um dia…se viverem muito anos… talvez meio século de profissão, digo eu.

E porque me encontro num dia zen, apelo ao diálogo intergeracional. 😉

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14 thoughts on “Separar a ADD da progressão na carreira

  1. Miquelina 18/08/2011 às 19:10 Reply

    Eu gostaria de acreditar no diálogo intergeracional, Miguel, mas tal não é possível.

    Em primeiro lugar, porque nem “todos lá chegarão, um dia”. Houve uma geração, que está hoje entre os 55 e os 65 anos de idade, que comeu a carne toda e para os outros apenas deixou os ossos.
    Os mais velhos foram contratados durante cinco ou seis anos, mas os mais novos sabem que vinte anos a calcorrear o país é a realidade que os espera. A muitos, a única coisa que os espera são as filas no EIFP, já em Setembro.
    Os mais velhos não sabem o que é viver, nos tempos actuais com mil euros no bolso enquanto se pagam duas casas ou uma casa e um quarto no local de trabalho.
    Os mais velhos não fazem ideia do que seja, ano após ano, ficar com as sobras, com as turmas que ninguém (mais velho) quer.
    Os mais velhos já se esqueceram que ficam com os melhores horários, os melhores cargos, os melhores seviços, enquanto que a águna cai, em torrente, sobre o capote dos outros.

    Por fim, os mais velhos continuam a não ter respeito por si próprios, quando acumulam funções sucessivas em detrimento das suas obrigações enquanto docentes.

    Por isso, Miguel, não pode haver diálogo intergeracional enquanto essa cambada de parasitas não for expulsa a pontapé e à bofetada do sistema de ensino.

  2. Henrique Santos 18/08/2011 às 22:09 Reply

    Já agora Miquelina, e os sanguessugas dos professores reformados (ou de outras profissões): ganham como ninguém, não fazem nada e ainda por cima açambarcam serviços de saúde… Não se poderá também exterminá-los?
    Lá por haver exemplos maus na nossa profissão que fazem ser verdade parte do que fala, os seus argumentos são desprezíveis. Poderia fazer generalizações ao contrário das suas, tal como dizer que todos os jovens andam a comer e a viver à custa dos seus pais, os tais que comeram a carne… Poderia até apresentar-lhe alguns argumentos a sério, mas você com esse discurso cheio de rancor não merece. Posso compreender o seu estado de espírito, fruto da situação em que colocaram os jovens professores contratados sem direitos… Poder podia mas só o farei quando tiver o mínimo de decência no seu discurso, Miquelina.

  3. Fernanda 18/08/2011 às 22:59 Reply

    Depois de muita agitação, de muita palavra dita, de argumentos como os da Miquelina, parece que estamos a ganhar algum juízo. Este post do Miguel é um bom exemplo disso.

  4. Miquelina 18/08/2011 às 23:46 Reply

    Olá, Henrique. Prezo em ver que o tratamento psiquiátrico que fez deu efeito.

    Não explica por que razão os meus argumentos são desprezíveis. Parece apenas que não está interessado em discutir, que o assunto lhe faz espécie, que prefere afirmar simplesmente “não discuto isso com gente da sua laia”. Mas faz mal, porque só demonstra que não tem argumentos para esgrimir – provavelmente, também não tem ideias para lá das do costume.

  5. Miquelina 18/08/2011 às 23:48 Reply

    Explique, por favor, e se for capaz, o que há de indecente no meu discurso. Incomoda-o o facto de eu me referir ao estrume das escolas como “parasitas”?

    Olhe, enquanto uns enchem a barriga outros andam a pão e água. A si incomoda-o os nomes feios que dou a gente dessa laia, a mim incomoda-me querer dar pão para comer aos meus filhos e ter todos os anos o espectro do desemprego.

  6. Miquelina 18/08/2011 às 23:52 Reply

    Desafio qualquer um dos leitores a provar que alguma destas afirmações seja falsa:

    1. Em primeiro lugar, porque nem “todos lá chegarão, um dia”. Houve uma geração, que está hoje entre os 55 e os 65 anos de idade, que comeu a carne toda e para os outros apenas deixou os ossos.
    2. Os mais velhos foram contratados durante cinco ou seis anos, mas os mais novos sabem que vinte anos a calcorrear o país é a realidade que os espera. A muitos, a única coisa que os espera são as filas no IEFP, já em Setembro.
    3. Os mais velhos não sabem o que é viver, nos tempos actuais com mil euros no bolso enquanto se pagam duas casas ou uma casa e um quarto no local de trabalho.
    4. Os mais velhos não fazem ideia do que seja, ano após ano, ficar com as sobras, com as turmas que ninguém (mais velho) quer.
    5. Os mais velhos já se esqueceram que ficam com os melhores horários, os melhores cargos, os melhores seviços, enquanto que a água cai, em torrente, sobre o capote dos outros.
    6. Por fim, os mais velhos continuam a não ter respeito por si próprios, quando acumulam funções sucessivas em detrimento das suas obrigações enquanto docentes.

    • Cláudia 22/08/2011 às 09:01 Reply

      1. Até tem alguma razão. Porém, ao invés de se preocupar com os mais velhos que comeram toda a carne, preocupe-se com o desmantelamento do Estado social a que temos assistido, no mundo ocidental, nos últimos 20-30 anos. Não, os mais velhos não comeram a carne toda (deixando-nos os ossos) , a carne é que tem vido a ser desviada para “outros portos”. Um bom livro para ler (se me permite): “Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos” de Tony Judt.
      2. e 3. Lembro-me de dormir num quarto alugado com a minha mãe (professora já reformada), de “saltar” de terra em terra e do pouco dinheiro que havia já que era necessário pagar, para além do quarto, a renda da casa. Também recordo que a minha mãe só ficou colocada na escola que pretendia ao fim de 7 anos. Agora é pior? É claro que sim. Na época em que eu era criança, havia falta de professores nos tempos que correm, há excesso. De quem é a culpa? Daqueles que nasceram há mais tempo? Tenha dó!
      4. e 5. Não sei por que escolas tem passado mas, pelos vistos, tem tido muito azar. Na escola onde lecciono nada do que afirma acontece. Exemplo: as turmas de currículos são sempre atribuídas a professores do quadro. Confesso que não entendi essa dos “melhores cargos” … A Miquelina pretendia que os cargos de, por exemplo, coordenador de departamento ou de relator fossem atribuídos a professores contratados? São esses os “melhores cargos”? Uma vez mais, tenha dó!
      Quanto ao ponto 6, definitivamente não sei do que fala. Com certeza está-se a referir a alguma situação em particular que desconheço.
      Quem nos desgoverna agradece que muitos pensem como a Miquelina. Colocar os “novos” (sem direitos) contra os “velhos” (com alguns direitos) vai distraindo o “pessoal” que, ao invés de lutar por direitos iguais, ataca os direitos dos outros. Atitude “inteligente”, não há duvida!

  7. Rui Ferreira 18/08/2011 às 23:59 Reply

    Olá Miguel,

    Em meu entender a análise é perfeita.

    Sobre a ADD e a progressão na carreira:
    “É esta dupla racionalidade – por um lado, o desenvolvimento profissional e a melhoria da qualidade das aprendizagens e, por outro, a gestão do pessoa docente e da sua carreira, seguindo uma orientação por resultados e exigindo a prestação de contas, com consequências na progressão profissional – que torna, do mesmo passo, delicada e difícil a apreensão do modelo e a compatibilização mútua dos objectivos preconizados. E, para além disso, pode explicar, simultaneamente, a razão pela qual a avaliação formativa não assume a relevância que as duas finalidades centrais da avaliação exigiriam, na medida em que a regulamentação do modelo e o modo como se tem vindo a concretizar se orientam numa lógica que parece valorizar insuficientemente o carácter formativo da avaliação” (Profª Drª Maria Conceição Castro Ramos, Presidente do CCAP, Recomendações 2/2008).

    Sobre Cooperação e Competição:
    “Cooperação: Cada um só pode alcançar os seus objectivos se, e só se, os demais conseguirem alcançar os seus. Competição: Cada um só pode alcançar os seus objectivos se, e só se, todos os demais não conseguirem alcançar os seus” (Kurt Lewis). No seguimento da análise, “quanto mais cooperativo for o contexto, maiores e melhores serão os efeitos produzidos” (Formosinho, 2009).

    Abraço.

  8. Miguel Pinto 19/08/2011 às 00:14 Reply

    Foi um bom contributo relembrar, ou aclarar, as noções de competição e de cooperação, Rui. Abraço.

  9. IC 19/08/2011 às 05:29 Reply

    Parabéns por este post, Miguel!
    E gostei muito que o Rui Ferreira tenha recordado a definição de cooperação, que tanto me guiou. No passado, pois estou aposentada. E, já agora, acrescento que quando fui dos mais velhos (das mais velhas) não tive isso dos melhores cargos ou serviços (recusei o cargo que exerci por eleições durante anos e anos e jamais renunciei a, sobretudo, ter aulas). E, como nunca fui ofendida como profissional excepto por Maria de Lurdes Rodrigues quando iniciou o seu mandato ofendendo todos os professores no mesmo saco, pelo que escrevi publicamente, no meu blogue, que gostaria de lhe poder dar um bofetão, também digo o mesmo agora a quem, cego de raiva, me ofende e a todos os professores que sempre amaram e dignificaram a sua profissão desde novos até ‘mais velhos’. Ah! E fiz todas as greves que já não tinham a ver comigo, mas sim com os ‘novos’ – até parece humor negro. É escusada resposta, pois não darei qualquer troco, nem sei por que escrevi isto perante palavras e palavras indignas que, afinal, só mostram quem não tem, de facto, respeito por si próprio.

  10. Nando 19/08/2011 às 20:54 Reply

    “O problema não é a avaliação do desempenho, o problema é a progressão na carreira. Por isso está condenada ao fracasso qualquer proposta que pretenda separar uma da outra.” É de facto uma questão central a que coloca. Contudo, aquilo que mais acima podemos ler mostra bem como a ADD tem de ser superada como quadro mental de referência instalado nas escolas. Talvez o mais importante, na negociação entre Sindicatos e ME, seja por fim a esse quadro mental que tudo corrói e justifica dentro das escolas.

    A colega Miquelina podia, e pode, revoltar-se contra o sálário que recebe, contra o serviço que lhe é didtribuído, contra … , o que quisesse , mas não, vai buscar os “velhos” e considera-os os culpados da sua “miséria”. A noção de compadrio instalou-se fortemente com a ADD e parece evoluir agora para o “compadrio” para tramar o contratado. O desemprego que o ME prepara para o próximo ano lectivo torna-se agora culpa dos que ficam e não das políticas do Ministério!

  11. Miguel Pinto 20/08/2011 às 00:51 Reply

    A Miquelina não é colega, Nando. É um@ enviad@ especial ao serviço do partido que está no governo. É uma espécie de spam cuja missão principal é acender fogos nos blogues que podem causar mossa ao poder instalado… Já foi Miguel, agora é Miquelina e um destes dias será outra tralha qualquer… 😉

  12. ricardo 20/08/2011 às 23:38 Reply

    Perder mais tempo com discussões a propósito desse disparates designado ADD é suicídio. Teremos de aceitar o modelo agora proposto em troca do que nos é favorável. Para quem leu hoje o expresso perceberá que termos esgotado a capacidade reivindicativa na ADD foi um tremendo disparate. As Forças Armadas, com o País em Paz, até promoções tiveram. promoções e aposentações intocáveis. Ou é o Santos Silva que é um super-homem, ou a Milú/Alçada umas sub-mulheres. Então e nós? Perdemos tudo (vencimento, subsídios, aposentação) e ganhámos uma discussão sobre ADD (que acabou por ficar pior). Tenham juízo!

  13. Fernanda 21/08/2011 às 16:36 Reply

    Estou espantada com o “debate” sobre esta proposta de ADD.

    Desculpem, mas isto já não é mais uma classe profissional “à rasca”. É mais uma classe profissional rasca, como se pode constatar por uma leitura pelas caixas de comentários de muitos blogues de professores e/ou sobre educação. Sei que são comentários que representam uma minoria. Mas são muito mauzinhos, logo aproveitados e reaproveitados por tudo o que é comunicação social.

    A última maravilha lida é que estaremos perante uma “luta de classes” entre professores.

    Ai!

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